De sangue, de amor e morte falou Lorca

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 196/08/26. Aguardando revisão.

Federico García Lorca encarna o ressurgimento explosivo da vitalidade criadora espanhola. Profundamente fiel à psique nacional e seu mais puro intérprete, ele uniria à tradição culta, aristocrática, e o denso, variado sentimento popular, sensualidade e intelecto, como um Goya que se exprimisse por meio de versos. Mas para empobrecimento da humanidade, Federico García Lorca assume também, com sua morte prematura, o papel sacrificial do poeta moderno, imolado pelas forças políticas do Estado moderno, no macabro embate entre liberdade e totalitarismo, democracia e ditadura. Ele é assim um fantasmagórico predecessor da geração de poetas expressionistas fuzilados pelos nazistas e pelos escritores russos que se esfacelaram nos campos de concentração de Stalin. Sua vida cessa aos 38 anos de idade, quando o poeta atingia, seguro, a maturidade do seu canto. Versátil e pioneiro como Baudelaire, ele porém nada tinha do seu isolamento, da sua patética incapacidade de fazer-se amar e compreender pelos contemporâneos. Ao contrário: Lorca buscou sempre integrar-se, irmanar-se com poetas como Jorge Guillén e Rafael Alberti e humildes limpiabotas, toreros, gitanos, bailadores y cantadores de flamenco. À sua passagem fulminante, meteórica, significa sobretudo um traço de união, nunca um isolamento voluntário e altivo. Identificando-se com todas as regiões da Península Ibérica, elabora poemas em todos os seus dialetos, inclusive em galaico-português; espraindo-se mais ainda sua cálida ânsia de ternura, abrange na sua pessoal geografia sentimental e artística os países latino-americanos, seus povos, suas paisagens e seus poetas, que celebra com alvoraçado entusiasmo e fina compreensão. Não lhe basta a síntese das várias artes que cultiva ativamente – a música folclórica das regiões espanholas que recolhe em viagens pela Andalusia, por Astúrias e León, o teatro com seu grupo famoso de La Barraca, o desenho e o ensaio poético. Com a ambivalência do artista moderno – Henry James, Baudelaire, Proust – é também um altíssimo crítico literário. Restabelece o culto de Gôngora e sua poesia hermética, intelectualizada e que traçaria todo o roteiro da lírica do nosso século. A sua simpatia humana, exuberante, espanhola, contagiava “todo o seu séquito”, como assinala Guillén: “Ele era para todos simplesmente Federico. E nós todos o seguíamos, porque ele era a festa, a alegria que surgia ali de repente diante de nós e não tínhamos outro remédio senão segui-lo”.

En abril de mi infancia yo cantaba” – desde seu livro de estréia, Libro de Poemas, ressoam as notas fundamentais de sua inspiração: a infância, o “verde paraíso” evocado por Baudelaire, permanecerá como o reino da pureza e do deslumbramento sempre vivo no coração do poeta que se abre diante da vida como o Miguilim de Guimarães Rosa: arrebatado pelo violento milagre da mera existência. É o canto, essa fonte de toda poesia, as baladas singelas e profundas que ouvia das amas que o ninavam, naquela tradição de poesia oral dos povos mediterrâneos mantida intacta desde as epopéias de Homero.

Fruto complexo da sua inteligência arguta e do seu calor humano, a sua poesia conseguirá conciliar o grande público e os requintados, satisfazendo ao mesmo tempo e em diapasões diferentes a sensibilidade popular e a dos iniciados. Virtuoso conhecedor das possibilidades verbais do seu esplêndido idioma, ele estiliza a inspiração popular do seu Romancero Gitano, constatando como Poe que a poesia não pode contentar-se com o fácil e com o imediato da inspiração puramente emotiva. Reconhece, ao contário, que a grande poesia é também elaboração calculada, é rigor na seleção das metáforas, cinzelamento paciente da forma na busca de um estilo que é ao mesmo tempo a busca de um mistério. Sob uma aparência enganadora de simplicidade, seus versos ocultam uma extraordinária destreza no manejo da linguagem, uma singular dosagem de suas nuances expressivas: “pués la verdadera poesia es amor, esfuerzo y renuncia”. A poesia não modelada pelo poeta é como o mármore ainda não transformado em estátua, a matéria poética deve ser trabalhada com precisão matemática: “Eu me admiro quando penso que a emoção dos músicos – Bach – se apóia e está envolta numa perfeita matemática. Da mesma forma penso eu com relação à poesia”.

Se García Lorca reconhecia no canto, principalmente nos cantos populares e no chamado cante jondo dos ciganos da Andaluzia, a raíz original da poesia, a sua autenticidade de poeta o levaria a rechaçar veementemente qualquer perversão dessa origem genuina. Denuncia com indignação as revistas musicais denominadas zarzuelas semelhantes às que hoje invadem os palcos do Brasil e do mundo com sua mediocridade dispendiosa importada da Broadway. É do marechal dos cantares do povo no som angustiado truncadas pelo lamento dos cantadores de Granada e de Sevilha que ele procura o ponto de partida do seu canto poético.

O grande compositor espanhol Manuel de Falla já documentara a proveniência oriental daqueles lamentos ciganos, alternados de desespero e de selvagem alegria, apoiados na coluna rítmica obsessiva das guitarras. Lorca identifica-se com as suas duas tônicas fundamentais: o amor e a morte, o lirismo sensual e a dor, o breve êxtase dos sentidos desembocando abruptamente no pranto saudoso e sem esperança. Como para o cantor, que celebra, através do canto, um rito mágico, religioso, que o libera da sua angústia, expressando-a, Lorca faria do poema, em parte, uma evocação da sua tragédia amorosa e do seu espanholíssimo sentimiento trágico de la vida. Recusando a serena beleza olímpica de Apolo, ele saudaria o arrebato, a paixão, a cor, o ritmo, a angústia e o êxtase dessas melodias trazidas das planícies quentes da Ásia, do coração da Índia. A parte mais pessoal do seu colorido Romancero é como uma ave presa entre o lírico e o erótico, o feitiço da carne e a morte. Há um certo paralelo entre o candomblé brasileiro e o cante jondo cigano quando se diz, na Bahia, que uma bailarina de Exu ou de Xangô “recebeu o santo” e quando os ciganos reconhecem em um dançarino ou cantor “que”tiene duende”. Ter duende é estar possuído pelos espíritos, pelo arrebato, e merece aplausos e gritos de “Olé!”, corruptela de Allah. O deus do entusiasmo e da bravura que se apodera do artista é o mesmo que se encarna no toureiro destemido ovacionado pelas multidões delirantes.

O mesmo poder de duende García Lorca atribui à poesia, como forma de comunicação do homem com o seu semelhante e, transcendendo-o, com o cosmos, com o infinito. A poesia que para Baudelaire significaria uma forma de magia verbal encantatória, capaz de transcender à realidade, revelando as suas relações com o fantástico, para Lorca a poesia e a música serão manifestações dos elementos sobrenaturais que subjugam a vontade do homem, tornando-o um instrumento da sua fúria criadora. É quando o ser humano se entrega aos poderes irracionais, transcendendo a si mesmo no encontro do erótico, no perigo fatal de defrontar-se com a morte. Toda a poesia lorqueana, exatamente com a sua matriz, o cante jondo, está impregnada pelo sentimento da morte, do pressentimento constante da morte violenta dos ciganos à mercê da brutal guardia civil; o crime passional de ciúme ou de vingança; a morte triunfal do toureiro nimbado de luz em meio à praça inundada de sol e de espanto. A Espanha, como ele frisa, é a terra na qual a morte mais convive com os homens, meros contempladores de la muerte: “España es un país donde lo más importante de todo tiene un ultimo valor metálico de muerte”. Espelham-se com frequência nas suas imagens as suas evocações sinistras e fascinantes: as procissões da Sexta-Feira-Santa em Sevilha, com suas figuras encapuçadas, a morte ricamente paramentada das tardes de tourada de uma sinistra e solene elegância. No entanto, o feitiço contido no duende e no ignoto final da morte violenta não desperta medo, mas sim a consciência trágica da vida e da arte. Um povo único e inconfundível evade-se da realidade estreita, estéril por meio de rituais propiciatórios da morte festiva e luxuosa:

España es el unico país donde la muerte es el espetáculo nacional, donde la muerte tocas largos clarines a la llegada de las primaveras, y su arte está siempre regido por un duende agudo que la há dado su diferencia y su calidad de invención

E breve, antes de completar 40 anos, Federico García Lorca, poeta, encarnaria o seu mito, confundindo-se com o soçobrar sangrento da Espanha. Foi sem dúvida por ele que dobraram naquela fria madrugada todos os sinos de Córdoba, Sevilha e Granada:

Tardará mucho tiempo em nacer, si es que nace,

un andaluz tan claro, tan rico de aventura”.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “De sangue, de amor e morte falou Lorca .” In Testemunhos Literários do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 3:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.