Da Ficção

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Cadernos de Literatura Brasileira: Hilda Hilst (Editora: Instituto Moreira Salles), 1999-10. Aguardando revisão.

Hilda Hilst, contemporaneamente, me parece ser a mais profunda estilista da literatura brasileira ou talvez mesmo da língua portuguesa. Dramaturga, suas peças de teatro não aderem a artifícios de cenários e abordam temas semelhantes aos da sua deslumbrante prosa: Deus, a solidariedade entre os seres humanos, o nojo, a humildade, a volúpia, a não diríamos religiosidade, porque se trata mais de um difuso misticismo panteísta, a miséria dos marginalizados por uma sociedade cruel, materialista e vulgar, martírio, o mistério, o terror. Desde meu primeiro contato com ela, através de seus versos há 40 anos, e mais tarde, ao conhecer as suas Ficções, senti em seus textos uma vivacidade passional, radical, um desmesurado êxtase pela possibilidade do amor, uma tristeza que não faz alarde de si mas que, sem o saber, ecoa os poemas idealistas e belíssimos de Antero de Quental.

No entanto, sem que se possa – nem longinquamente – falar de influência, há uma afinidade espiritual enraizada com textos flamejantes de Samuel Beckett. Como ele, Hilda Hilst põe em dúvida a existência de Deus e oscila entre a suprema esperança de haver um significado maior e recôndito para a vida humana e um niilismo que de tudo descrê – e, por força disso, ergue blasfêmias contra Deus e injuria o que seriam impiedades divinas - para o caso de Deus existir -, no tocante às orações e súplicas dos seres humanos. Ambos os autores compartilham também de uma aliança corajosa entre as palavras chulas e termos de elevada beleza e de profunda meditação filosófica. Tudo sem arrogância – mas corajosamente. Se surgem em Beckett os abjetos rebotalhos que se transformam em personagens na velhice, na escritora brasileira a celebração do amor é a perda de quem recorda apenas de ter amado algum dia. Os dois jamais pertencem a “claques” e “panelinhas” que se dizem literárias e por fim coincidem em que a literatura raramente leva ao enriquecimento financeiro, como se comprazia em dizer o autor de Esperando Godot: “Escrevo a fim de cada dia me tornar mais pobre”. Em Hilda Hilst, por sua vez, há o reconhecimento aterrador de que – como lhe ensinara a leitura do filósofo da Roma Antiga Lucrécio – o Homem é um elemento negligível, sem o menor peso para a Natureza, que ignora a espécie humana e faz-se curvar a suas leis invioláveis a soberba vã humana. Em Beckett existe a trágica e farsesca busca de Deus, a confirmação do sofrimento que nos é imposto, inexoravelmente, pela própria condição humana; em Hilda Hilst, uma busca sincera, desesperada, do Deus esquivo e inalcançável, incognoscível.

Talvez o escaso número de leitores que a autora paulista encontrou em seu País e em sua própria língua se deva à mediocridade da maioria acachapante da humanidade, que opta sempre pelo fácil, senão pelo kitsch, em vez do que lhe pareça críptico e enfadonho, porque de difícil decodificação. Ela não transformou seus livros em panfletos ideológicos: sem ser uma “alienada”, ao contrário, muito consciente, dolorosamente, da marginalização de grande parte dos brasileiros que sobrevivem, se for este o termo, vivendo ou morrendo em meio a lixões urbanos, Hilda Hilst tem fome de uma substância que, apaziguado o lado material, rememora nas trevas sua inanição de Deus. O teatro do absurdo de Eugène Ionesco, o teatro da crueldade de Beckett – como os críticos franceses os rotulam – espelham nos escritos de Hilda Hilst a mesma comoção humana, a mesma percepção de que os limites do homem se esboroam diante da velhice, do esquecimento, da solidão, da pobreza, como cacos de um sonho, resultado de uma força incompreensível e indiferente à condição humana: o Tempo. Ela se refere várias vezes à terminologia de religiões da Índia para recordar-nos de que estamos num círculo infinito, sem começo nem fim, sem possibilidade de “avanço” ilusório – a samsara. No entanto, percebe-se o quanto e o quão honestamente a escritora, nossa contemporânea, se condói do sofrimento humano e que amor e admiração ilimitados ela dedica a uma Simone Weil, a um Maxmilian Kolbe, que se opôs à morte, no campo de concentração nazista, entregando-se à morte lenta, a fim de salvar outro prisinoneiro, previamente escolhido pela Gestapo para morrer executado. O sacrifício de si mesmo, como o exemplo destemido de Simone Weil, que compartilha a pobreza injusta que os operários franceses recebem como paga por seu trabalho estafante, o sacrifício de si mesmo, dizíamos, parece ser a forma mais nobre que os supremos seres humanos – São Francisco de Assis cuidando dos leprosos, Gandhi abolindo as desumanas castas do hinduísmo, Jesus pregando o amor ao próximo, Buda, a compaixão – encarnam. Hilda Hilst deseja um entrelaçamento de sabedoria mensurável – a ciência – com uma justiça transcendente, atemporal, quase que uma forma de salvação espiritual, se for permitida tal reflexão com relação a seus belíssimos e comoventes textos em prosa, em verso ou escritos para o palco, seguindo as teorias de Ernest Becker. Seria ouado também afirmar que há uma centelha de esperança em meio à podridão da carne, o esfarelamento da memória, a crueldade, a indiferença? Só a leitura árdua – mas de uma beleza e uma profundidade filosófica raras em nossa língua – permite tatearmos em busca de uma resposta. Isto lembra aqueles confusos camponeses de Beckett, que se perdem nas extensões vazias, sentindo a falta kafkiana de uma fazenda que não se vê, de uma aldeia que não se vê. “Não há mais tempo suficiente e no entanto Deus sabe se há”, escreveu o irlandês em Mercier et Camier.

As personagens de nomes propositalmente exóticos da prosa de Hilda Hilst iluminam o leitor como um clarão súbito em meio à noite escura Abstraindo-nos de ridículas comparações ou medições que não cabem na literatura, desde o aparecimento de Guimarães Rosa no Brasil e Fernando Pessoa em Portugal, esse nosso idioma, que tem um registro de tons semelhante ao de um órgão barroco de coloridas vozes, essa língua inculta e abandonada à ignorância de seus tesouros, brilha com um esplendor singular quando se torna o instrumento sensível e matizado da nossa maior Literatura, brandido por Hilda Hilst.


É fundamental delinear duas áreas coflitantes da Literatura. Existem os grandes escritores e poetas – Shakespeare, Goethe, Dante, Cervantes, Tolstói, Dostoiévski, por exemplo. E há a literatura de entretenimento, que pode abranger desde excelentes peças de teatro, novelas polciais, livros de viagens e biografias, até se degradar quando tem um propósito meramente comercial – são os best-sellers sem estilo, de confecção primitiva e biodegradáveis.

Há exagero, porém, em afirmar-se que Hilda Hilst e Guimarães Rosa entre outros extraordiários autores de obras-primas formais e ficcionais, são os únicos ignorados pelo leitor brasileiro. Seria interessante saber: quantas pessoas no Brasil, realmente leram Euclides da Cunha? E como e por que um autor como Paulo Coelho faz parte da lista de autores mais vendidos… na França e na Alemanha? Desfaz-se assim um preconceito, ao se verificar que, de acordo com um estudo da Unesco, o francês médio lê, por ano, não mais do que dois livros. São vários os fatores que dificultam a leitura de obras profundas, permanentes: o analfabetismo, a insuficiência de uma boa remuneração econômica; o fato de, por exemplo, em vários países islâmicos a mulher não ter acesso à educação. Mas há um outro fator sócio-cultural que desempenha um papel-chave também: o brasileiro é um povo gregário, sociável, adora fazer parte de grupos. É fácil identificar esse horror que o brasileiro tem à solidão. Basta responder à pergunta básica: onde o mesmo brasileiro médio se encontra mais à vontade, nos estádios de futebol, numa churrascaria com amigos ou isolado em um refúgio de silêncio e imerso numa leitura solitária?

Por último não se pode esquecer que a leitura, a exemplo da peça radiofônica, exige uma participação do leitor, que constrói, individualmente, os acontecimentos que lhe são dados como tijolos, pelo autor ou autora do livro que ele se propôs a ler. Claro que estou falando de livros de ficção (o que inclui até uma biografia) e não a obras que não sejam criação, ou recriação individual de um espaço, de personagens, de um enredo ou da ausência dele.

Consequentemente, a Grande Literatura, - Proust, Eça de Queiroz, Beckett, Galdós entre outros - estabelece uma hierarquia e só é acessível a uma “casta”, que se mostra disposta a decifrar a linguagem mais complexa de um autor que focaliza temas abissais, o que demanda a cooperação do intelecto, da fantasia, da curiosidade, numa verdadeira obra aberta. Ora, se atualmente, substituindo a cultura francesa, que até o início da Segunda Guerra Mundial constituía influência ímpar para a nossa elite cultural, a hegemonia norte-americana atual em todos os campos (da informática à televisão, da língua ao cinema) confirma, se examinarmos a vida cultural norte-americana, essa teoria um tanto aristocrática do conhecimento da Grande Literatura. Pois mesmo no âmbito dos superiores romancistas norte-americanos é diminuto, nos Estados Unidos, o número de leitores de gênios complexos como os clássicos William Faulkner e Henry James, para citar apenas dois nomes. A massa lê o que as editoras carimbam como pulp fiction, material escrito de ínfima qualidade, boa para se fazer pasta de papel, na falta de valor intrínseco literário: Kurt Vonnegut, Sidney Sheldon, Stephen King e quejandos enchem as estantes das casas e das livrarias dos EUA. A Rússia é tida, justamente, como um país onde as pessoas leem no metrô, nas filas, nos estádios de futebol, em que os poetas leem suas criações. A ponto de Boris Pasternak, ao interromper a leitura de seus poemas, diante de milhares de pessoas num estádio de futebol, abaixar-se para pegar uma folha de papel que o vento derrubara acidentalmente e ouvir o público reunido… continuar o poema do ponto em que fora interrompido. Na Rússia, Alexander Soljinitsin é hoje desprezado por um número majoritário de leitores, sob o pretexto de que “não queremos mais saber de Gulag, campos de concentração, nem nada que se refira ao terror da ex-União Soviética, o que passou, passou, hoje é história, a URSS acabou e nos preocupa hoje a Mãe Rússia”.

Por último, não se pode deixar de detectar a metamorfose do panem et circenses – que os antigos romanos distribuíam ao populacho no Coliseu – em sex, entertainment and sports da mídia norte-americana, o que ajuda as massas a não pensarem por si próprias. É um saldo acabrunhante: quer dizer que a leitura foi vencida pela mediocridade, pela indolência? Há o que Roland Barthes chama de casta de connaisseurs, uma elite cultural, que não se restringe apenas às universidades: quantos leitores anônimos preferem não sacrificar o livro (mesmo comprado em sebos) na sua lista de cortes em seu oraçamento doméstico?

Hilda Hilst, como grande escritora, só poderá ser compreendida por meio da interlocução com seu leitor, com aquele diálogo que se estabelece entre quem escreve e quem lê. Acresce dizer que ela escreve baseada em premissas filosóficas, religiosas, de alta erudição. Mas seus livros não transmitem mensagem alguma de otimismo, ao contrário duvidam se há limites para a ferocidade do homem para com seu semelhante. Ninguém extrai auto-ajuda edificante de seus livros.

Barthes apropriadamente lembrou existir “le plaisir de lire” (o prazer de ler). Sem esquecer, reiteradamente, que a leitura é um código, é uma linguagem. Sem a consciência dessa característica, inseparável da leitura de grandes textos de literatura, eles nos parecerão tão indecifráveis quanto hieróglifos ou o alfabeto cirílico.


Este longo intróito não justifica, mas tenta explicar as múltiplas razões pelas quais Hilda Hilst é, relativamente, pouco lida entre nós. Mas, por acaso, são mais lidos os barrocos Padre Vieira e Gregório de Matos Guerra? Com exceção da peça teatral Esperando Godot, Beckett continua praticamente desconhecido. Uma obra dificílima como More Pricks than Kicks, com suas tortuosas e obscenas alusões a Shakespeare, seu estilo inimitável, a tragicidade do destino humano, segue conhecida apenas por escassíssimos leitores – e isto, não só nos países de língua inglesa. O mesmo se pode dizer da série bilíngue, em inglês e francês, que se compõe dos romances Molly, Malone Morre e O Inominável. Eles continuam tão obscuros quanto o Finnegan’s Wake, último romance de James Joyce, para o qual há até cursos de um ou dois semestres nas universidades dos EUA e de outros países. Não por acaso, Beckett foi secretário de Joyce.

Todos estes livros e autores são “náufragos eruditos” e Hilda Hilst dificilmente terá sucesso de vendas ou um grande número de leitores – a não ser quando escreve ingênua pornografia; suas obras nesta linha tiveram êxito e encontraram acolhida até na editora francesa Gallimard.

Na verdade, o leitor médio estaca ao entrar em um texto que exige conhecimentos filosóficos tão extensos e deparar, de chofre, com uma citação de Plotino (205-270 d.C.), um dos máximos expoentes do neoplatonismo do pensamento pagão grego. Além da riqueza de referências a autores tão pouco conhecidos como Ernest Becker, há a dificuldade de estilo, há os neologismos de Hilda Hilst – “sconbusolar”, do italiano sconbussolare – além da mescla proposital de formas orais, dialetais, do linguajar caipira do interior de São Paulo com o português culto, muitas vezes derivado de termos clássicos da língua, de séculos anteriores.

Em Hilda Hilst não há impostura nem posturas radicais de nacionalismo, de ideologias políticas, de seitas religiosas. Ela mesma assinalou, num depoimento para este ensaísta, diante de sua velha máquina Olivetti, o que pensa ao escrever e quais são os conceitos que a norteiam (as perguntas foram omitidas):

“Os conceitos de tempo, de deterioração, morte e finitude são veículos, agentes da angústia para o ser humano. Meu trabalho tenta perceber o que passa, o que acontece no homem naquela porção que tem a ver com suas raízes mais profundas. Todo exterior é perecível, só a tentativa humana de relação com o infinito é que é permanência. Registrar o possível eterno: minhas personagens tentam se dizer no mais difícil de ser verbalizado, pois tentam tocar na extremidade de uma corda cuja outra extremidade está presa a uma forma, essa, sim, imperecível: o que me interessa são as relações do homem com isso, esse eterno ser/estar.

Pergunto-me se havia reais consequências benéficas através de um processo de autoconhecimento. Há uma possibilidade real de destruição do próprio indivíduo se seu autoconhecimento se faz em níveis de extrema lucidez. Haverá força suficiente no homem para uma fotografia, um holograma de si mesmo? Koestler, Reich, Becker tratam desse assunto. As pessoas temem as suas potencialidades, há situações de possível felcidade que podem ser insuportáveis. Como esclarece Ernest Becker: ‘O que exatemente significaria neste mundo ser, inteiramente, desreprimido, viver plenamente uma expansão física e psíquica? Só pode querer dizer renascer como louco’. Há leitores que acham, por exemplo, que o meu texto tem uma sintomatologia esquizofrênica, do grego antigo, schiz – quebrado, partido – e phrenós – alma, inteligência, espírito, coração, diafragma.

Se você compreende a real condição do homem, isso talvez te leve à morte ou à loucura. Foi isso que compreendi, portanto não estou mais certa das propostas do possível conhecimento de si mesmo. Daí então talvez erigirmos diante de nós um escudo, uma viseira, a couraça: talvez seja a possibilidade de continuarmos vivos, ao lado da ilusão mais tentadora – o amor. O livro mais importante desta década é para mim o livro-chave de Ernest Becker, A Negação da Morte, a síntese de algumas verdades sobre o homem e sobre o comportamento humano”.

Envolta por uma vasta biblioteca que abarca Bataille, Beckett, Jung e Kafka, entre outros estudiosos profundos da condição humana, Hilda Hilst mora sozinha numa fazenda que foi de sua mãe, a 11 quilômetros de Campinas. Veste-se com uma espécie de sári, feita com panos que já serviram para limpar máquinas de uma indústria próxima e mantêm desenhos involuntários de batik extremamente sutis. Chegar à Casa do Sol, perto de Mogi Mirim, é ser recebido por dezenas de cachorros vira-latas que ela adora, mima e recolhe das ruas. “O olhar deles é eloquente, fala, não acha?”, pergunta. Nas paredes do salão principal as fotos da mãe, Bedecilda Vaz Cardoso, e do pai, o culto e inteligente Apolonio de Almeida Prado Hilst (dos Almeida Prado, de Jaú, interior do Estado de São Paulo), que ela venera desde sempre. Apolonio teve o infortúnio de enlouquecer ainda moço e não voltar à lucidez durante os 30 anos de vida que lhe sobrariam, Hilst, como se vê, lhe veio por parte do pai, descendente de uma família da Alsácia, entre a Alemanha e a França, e sua raíz etimológica é hülse, forma dialetal de invólucro, estojo.

Como ela me declarou numa entrevista, tinha 33 anos e se formara em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, quando subitamente abandonou o burburinho da grande cidade, que até hoje a apavora, voltou as costas para uma vida mundana, elegante, trepidante. Esclareceu: “No Extremo Oriente chamam de satori essa fulminante iluminação interior. O satori é uma compreensão espiritual do valor da vida, não uma apreensão intelectual, racional, de nossos objetivos durante a nossa existência.” Essa iluminação interior repentina a fez captar a irreversibilidade da verdade enunciada pelo filósofo da Roma antiga, Lucrécio, há 2000 anos: a natureza não leva absolutamente em conta o ser humano, suas preces, seus desejos, suas esperanças. Durante certo período de tempo, Deus lhe pareceu como o Baal de Brecht, monstruoso, sádico. “Por que” – indaga – “Deus permite que o crocodilo do Nilo durma de boca aberta, deixando assim que vorazes ratazanas entrem por sua bocarra e o devorem por dentro estraçalhando suas entranhas? Estaria embutido no código genético humano a crueldade do homem para com seus semelhantes e para com todos os animais em sua devastação suicida e assassina do meio ambiente, das florestas, semeando desertos, extinguindo a vida no mar Mediterrâneo e tornando a água um bem disputado até a morte por tribos e nações inteiras?”

De um ponto de vista semelhante ao da grande escritora contemporânea Doris Lessing, Hilda Hilst também indagava a si mesma se a História não tinha sentido em seu fúnebre desfile de guerras, massacres, inquisições, discriminação dos judeus, dos negros, dos índios, dos homossexuais, em guerra aberta contra tudo que fosse “diferente”. Com explicar que Jesus Cristo e Gandhi pregaram a mansuetude, a paz, o amor ao próximo e foram assassinados? Por que uma figura como São Francisco de Assis não instaurara uma fé na humanidade capaz de levá-la ao amor e sempre apenas rumo ao egoísmo e à barbárie? E previa um final apocalíptico para a espécie humana porque o homem perdera sua alma.

Com espanto de todos os seus amigos ela surgiu, num domingo longínquo, no programa Fantástico, da TV Globo, relatando suas experiências consideradas inexplicáveis pelo físico, seu amigo na época, Cesar Lattes. Vozes captadas por seu aparelho de rádio comum surgiam quando o aparelho estava sintonizado entre uma emissora e outra. Ela reproduzia a experiência do pintor sueco Freidrich Jurgenson que, no norte de seu país, isolado de todos, no meio de uma floresta, começara a captar vozes no próprio idioma, em alemão e inglês. Para a escritora brasileira as inexplicáveis vozes a chamavam pelo nome e no final perguntavam, nitidamente: “E se Deus fosse o amor?” Foi uma fase de escárnio de muitas pessoas que perguntavam: “A Hilda Hilst virou bruxa? Enlouqueceu? Ou quer granjear fama exibindo-se na televisão?” Foi quando a própria visão do mundo da autora mudou: “Eu senti que se os próprios grandes cientistas se mostravam incapazes de definir o que era matéria e antimatéria e Heisenberg admitia a imponderabilidade de tudo, era legitimo então abandonarmos o materialismo e não nos contentarmos em eliminar a pobreza, a fome, a miséria – era imperativo também lutarmos para a abolição de todas as guerras, varrer da mente o ódio, a violência, o fanatismo, a sede de ganância e poder para atingirmos uma justiça planetária, uma liberdade planetária, uma paz equânime planetária.”

Por mais que um crítico queira, com os recursos de que dispõe, esclarecer a criação literária que admira, só o pensamento de quem escreve, neste caso o da esplêndida autora paulista, delineia os seus objetivos e seus pendores mais agudamente. Embora sejam consideradas “entrevistas”, a amizade, a afeição e a admiração intensa que sempre senti por Hilda Hilst transformaram nossos diálogos gravados em um aprofundamento das intenções da escritora de A Obscena Senhora D.


É praticamente impossivel deslindar, analisar fragmentariamente o universo riquíssimo de Hilda Hilst. Não só a diversidade de gêneros – as ficções em prosa, o teatro, os poemas – não se presta a autópsias acadêmicas e sempre incompletas: até agora, felizmente, não celebrarizaram de maneira espúria sua criação através de “leituras” arquidoutas, com as muletas da linguística, nem conseguiram “provar” nenhuma tese preestabelecida para documentar que o que ela escreve tinha que ser isto ou aquilo, segundo tais hipóteses geralmente pedantes e apriorísticas. Mas é necessário que o leitor tenha apenas uma noção dos textos que vai ler. Para o leitor que pouco sabe de literatura, será talvez um mundo fechado, críptico. Que poderá avassalá-lo ou levá-lo a abandonar a leitura, precocemente cansado de decifrar aquilo que lhe parece apenas “coisa difícil”.

Eu tomaria “Floema”, texto incluído em Fluxo-Floema, como a primeira experiência, sabendo dos ardis que qualquer interpretação acarreta involuntariamente.

O nome Koyo nós associamos logo ao Oriente, ao não-usual, a fuga à banalidade. Escreve Hilda (mantenho as grafias originais):

“Koyo, emudeci. Vestíbulo do nada. Até… onde está a lacuna. Vê,

apalpa. A fronte. Chega até o osso. Depois a matéria quente, o vivo, pega

os instrumentos, a faca, e abre” (p.169).

A faca será um instrumento de conhecimento de Deus interiorizado no fundo do corpo humano? Trata-se de um ritual cruel e macabro? Logo se pode intuir um segredo assustador: quem manda cortar o corpo com a faca será uma forma de Deus. Prossegue o diálogo, que lembra em muitos trechos o teatro Nô japonês:

“Tenho o comprimento da minha cas, não hei de crescer mais.

Não tenho entendimento com os vivos, sempre soube dos mortos ou sei

da tua sombra, nunca sei de ti, dêsse que come e anda, dêsse que diz que

é dor. Koyo, o pórtico vedado, nada sei, NADANADA do homem, se

estás à minha frente nem te vejo, melhor, só sei de ti porque subsiste na

minha unha e levantei o pé, és assim mesmo?” (p.170)

Esse estranhamento entre o limitado humano e o amorfo, invisível, inapreensível Ser se faz através de um monólogo e depois outro. Haydum, o solitário indecifrável, descreve sua solidão:

“Koyo, descansei, mas no descanso também sofro dessa

Angústia de ser, e no escuro uma noite ME PENSEI. E vi matéria vasta,

e quando digo matéria já te penso pensando na matéria em que pensas.

Não é como tu pensas. Tive certeza de que um outro igual a mim, um

outro pleno, se faria ao meu lado (…). Afunda com mais fôrça,

levanta acima da cabeça o teu punhal, golpeia muitas vêzes. Desde

o início te falo emudeci, e nada me propões. Qual é o pé onde estás?

Ou apenas te espichaste?” (p.171)

O que devemos, tateando, admitir? Que Haydum é Deus? Que AO PENSAR EM SI MESMO imaginou que outro Deus, tão pleno quanto ele, viria ficar a seu lado? Será o Deus da Bíblia, do Antigo Testamento, cismando sozinho sobre a sua própria solidão depois de descansar após ter criado a luz, a água, a terra, os seres vivos? O tamanho descomunal desse Ser desconhecido, que fala, simboliza a distância que não pode ser medida entre Deus e o Homem?

“Sou teu nervo. Sou apenas teu nervo. Com êle, toco o infinito.

Não sei da garganta. Fica ao redor de ti? Apenas canta? Me louva? Então

come de mim, me comendo me sabes. Não medita. Suga. Vai até a seiva,

até a sutileza (…). Abre um caminho, abre outro, tenta, eu disse seiva sim,

eu disse suga, eu disse come de mim. Ainda me escutas? Disseste

PALAVRA? Cada vez mais, menos te entendo (…) agora tu dizes que

alguns se devoram? Comem de si mesmos? Se são iguais devem afastar-

se, devem procurar aquêles do outro lado, conviver com o que tu chamas

AMARG, APARÊNCIA. Estilhaço do todo, isso que me perguntas,

Fragmento do nada. Também busco.” (p.172)

A incompreensão é mútua. O que significam as inúteis palavras? Que conhecimento Haydum terá da experiência que Koyo depreendeu da vida, que é amarga e nela tudo é apenas mera aparência? Ou, linhas adiante, o que julgamos ser o ser humano ensina a Haydum coisas que ele desconhece?

“Sim, Koyo, aprendemos juntos, é a primeira vez que sou

chamado e entendo.” (p.173)

A mudança de tipo de letra denota talvez que agora fala Koyo. Ele por sua vez descreve o seu mundo, a variedade das cores e faz uma brincadeira, fingindo que se engana ao ignorar as abóboras, em vez dos homens, cuja maior parte não olha,

“a maior parte das abóboras, quero dizer dos homens que fizeste,

não vê, ôlho estufado, cego.” (p.175)

Mesmo os filhos de Koyo, as crianças, são mencionadas:

“Te falei das minhas crianças que se espelham no teu ôlho, dia a

dia me perseguem dizendo: pai, o grande ôlho espelhou nosso rabo,

temos a côr da víscera, somos crus, abaixamos em vão nossas cabeças, tu

disseste, pai, que a cabeça dos homens é antena, antena esfaimada de

futuro, tu disseste que AQUÊLE GRANDE nos vê, assim como nos

vemos, e só vemos o rabo, pai, a víscera, a crueza, não vemos a cabeça”.

(p.175)

Com seus sentidos e sua compreensão limitada pela própria limitação intrínseca da condição humana, nem as crianças “vêem” Deus, que as vigia. Deus seria, de acordo com os princípios fundamentais do hinduísmo, aquele que não compartilha com os humanos nenhum de seus atributos? À fortuita semelhança com o célebre conto de Guimarães Rosa “A terceira margem do rio” junta-se um alheamento entre o místico que se aparta da família e da vida de todos os dias:

“Até os meus filhos me olham como os outros. Estaqueiam nas

quinas, o dente branco à mostra, o riso sempre. Falam assim os filhos-

outros: tínhamos um pai um dia, agora um rasto, nem come o que a mãe

põe à mesa, fala em fome, nem nos olha, caminha com a hiena (…).

É todo fogo o ôlho, sabes, eu penso que se faz de doido, afinal temos

tudo, a casa, a mãe amena, o pato do domingo”. (p.177)

O pai, do conto de Guimarães Rosa, a tida como louca na narrativa A Obscena Senhora D, os personagens enlouquecidos por Deus, os místicos radicais como que entram num estado em que a matéria, os hábitos familiares, sempre, a fartura material, nada mais significam, em contato com essa renhida Luta-Busca com o Maior. Tendo ultrapassado o estado “normal”, Koyo se vê agora rodeado de uma paliçada em torno de si. Quem a terá construído? A população enraivecida e temerosa das “alucinações” de Koyo? Ou Haydum? Ou ele mesmo? Ou a família, para se vingar dele – que a abandonou – ou por temor de sua “loucura de Deus”?

“Olho de frente as paliçadas ao meu redor (…), existem apenas

para me cercar? (…) Não sei se sou mais livre agora, paliçadas ao redor,

ou se andando sôbre a paliçada-ponte sou mais feixo. NADANADA de

mim, cada vez menos, desço pelo pau-de-sebo, os outros estão lá, estão

aqui, finjo que não os conheço, o corpo-filho-outro que me vê, cospe com

nojo, o pescoço nodoso é esforço e fúria, estende a língua, grita: velho,

Koyo, a corda não foi feita só pra laçar o lôbo, nem pra estrangular os

porcos, a corda pode ser usada para te laçar, ou pensas que vais ficar a

vida inteira com essa lama no corpo, atirando vergonha sôbre a casa?”

(p.181)

Koyo tornou-se motivo de caçoada no pequeno povoado:

“Morrem de rir, eu sei, os outros. Estufam as barrigas: lá está

Koyo, rodeou-se todo de paus de sebo, quem é que sobe para alimentá-

lo?” (p.179)

o silêncio absoluto é a resposta que Koyo recebe à sua indagação sobre

“A ESSÊNCIA DA SUBSTÂNCIA, HAYDUM? O quê? Isso

mesmo. E a essência da substância, Haydum?” (p. 178)

Esta imolação de Koyo diante da Mudez do Desconhecido tinge o texto de um choque, de luta entre Koyo e Haydum até as palavras finais de sua derrota:

“CAMINHO, CAMINHO, os ossos à mostra. Haydum, um

gôzo não me tiras: NADANADA de mim quando me tomares, nem os

ossos. Estou novamente no centro, as paliçadas ao redor, esta casa-parede

avança, vai me comprimindo. Porco-Haydum: tentei.” (p.186)

É claro que algumas linhas pinçadas deste belíssimo e comovente “Floema” não bastam para dar uma ideia da transcendência desta ficção, com seu panorama vivo, visual da extensão de um filme japonês, fora das elocubrações cartesianas do pensamento ocidental. O misticismo na ótica de Hilda Hilst é sempre o caminho mais áspero, mais árduo, aparentemente misterioso, fechado ao entendimento, mas que exige a construção do texto na cumplicidade de quem lê as frases e o pensamento de quem escreveu, pois, toda obra é, por sua própria definição, uma obra-em-aberto, uma obra esboçada e que o leitor complementará conforme sua individual sensibilidade e imaginação.

A volúpia, a defloração de uma menina por um padre lascivo e hipócrita em “Matamoros”, texto que integra o volume Tu Não te Moves de Ti, também atingem um paraxismo inaudito:

“… mexia tudo muito, tanto, que a mãe chamou um homem para

que fizesse rezas sobre mim, disse a mãe a ele que a menina sofria de um

tocar pegajoso, que os dedos afundavam-se em tudo o que viam e de

mãos amarradas, o homem grande me levou ao quarto, sim, amarrei a

mão da menina para que não empreste sujidade à vossa santidade, a mãe

dizia, para que não lhe tire o perfume espelhado da batina, me deitaram

no catre e o homem disse à mãe que sozinho comigo lhe deixasse e dessa

vez fui largamente tocada, os dedos compridos inteiros se molhavam,

ficou nu sobre mim, entornou-me de costas, eu sentia um divino molhado

sobre as nádegas, gritava, o homem rugia à minha mãe do outro lado: não

se importe senhora, são demônios azuis que se incorporam. Depois me

tirou o barbante das mãozinhas me fazendo sugar o sumo santo e segurei

um túrgido tão grande que os dedos à sua volta fechar-se não podiam,

pude tocar demorada, os côncavos das mãos avermelharam, depois meus

dedinhos inteiros penetraram na boca do homem e ele os chupava em

gozo como se chupa o carnudo das uvas. Oito anos apenas me faziam a

idade.” (p.53)

O misticismo alijado da sociedade humana, a libido avassaladora, as alegrias e as desditas do amor fruído e perdido se aliam, nos últimos textos, à degenerescência inelutável do envelhecimento. Como no primeiro dos dois textos sobre “Agda”, de Qadós, do qual destacamos o seguinte trecho:

“Guarda-te Agda, é tempo de guardar, o fruto dentro da mão,

espia apenas, como poderás tocar com a tua mão amarela esse que diz

que te ama, esse tênue. Agda, começa o de sempre, cuida dos porcos,

limpa o pátio, põe água nos cactus, examina as avencas, os antúrios,

lenta lenta caminha, como estás velhas há tempos, e tanto nessa manhã.

Lembra da tua mãe quase no fim dizendo não suportarás, minha filha, tu

que te cuidas tanto, o creme de laranja para o rosto, o outro para as mãos,

o verde claro para o corpo e a cinza do fogão para clarear os dentes, filha

não suportarás é melhor morreres. Agora agora a vida ao redor de ti,

limpa, me olha, e sobretudo não ames, NUNCA MAIS, hás de ter tanta

vergonha, se alguém te toca já sabes do triste da tua carnação, tudo baço

baço, e as mãos, olha as mãos, chama-se isso ceratose, filha, é de velhice,

primeiro a mancha, depois uma crosta nada espessa, pensas vai passar, o

médico sorri, diz começa na meia idade senhora é o tempo, a senhora

entende? Sorris. O tempo? Sim, esse que ninguém vê, esse espichado,

gosma, cada vez mais perto da transparência… Nunca mais, te disseram.

Ah sim vou limpar o pátio, vou pôr água no cactus, ai sim meu Deus é

preciso esquecer o tato, o adorno, as argolas, de ouro, é preciso esquecer,

esfaqueia a memória, não, nunca sentiste nada e muito menos agora, nada

sentes, não, não sinto nada… Agora será sempre o abismo, espio lá no

fundo, o que há no fundo? Securas, tudo consumado. Nunca mais. Nunca

mais… Agda eu mesma saciada, dobrando-me, cada vez mais o abismo,

cada vez mais a terra, depois de tudo a vergonha, é, sim, vergonha, ele

dirá aos amigos a velha gania nas minhas mãos, a velha amarela

estertorava até com a ponta dos meus dedos, dedos tua mão meu amor,

não é preciso tua mão sobre o meu todo baço, tua mão ensolarada sobre o

meu corpo de sombra, eu raiz avançando no debaixo da terra, raiz-corpo-

carne, coisa que se desmancha… NUNCA MAIS deverei ser tocada…”

(p.51)

O erudito e sensível crítico Anatol Rosenfeld foi o primeiro a destacar a unicidade da criação soberba de Hilda Hilst em nível mundial. É raríssimo um grande poeta ser um profundo dramaturgo e um admirável escritor de prosa. O “caminho para Damasco” paulino que transmudou Hilda Hilst e a levou para longe da metrópole, para o semiclaustro da fazenda solitária, se deu com seu encontro com Kazantzakis, o grande escritor grego contemporâneo. Nas estantes de sua casa pode-se ver sem dificuldade os três autores que mais de perto a tocaram: Beckett, Kafka, Camus. Hilda Hilst quer a totalidade, seu cosmos pessoal e literário abrange, às vezes, na mesma linha, a escatologia, derivada do grego skatologos, ou seja, a doutrina sobre a consumação do tempo e da história e também o tratado sobre os fins últimos do Homem e escatologos: o tratado de excrementos, coprologia. Brotam visões de Bosch de suas páginas, retalhos de paisagens do interior inóspito, rude, caipira, do Brasil analfabeto, ou cenas cinematográficas de Bergman, de Tarkóvski, de Kurosawa. Há mais de 40 anos que ela não pára de escrever, ignorada pela chamada “grande crítica” brasileira, não difundida em Portugal nem em países de língua espanhola da América Latina, nem mesmo na Alemanha, que elevou aos mais altos píncaros de elogios as obras de Guimarães Rosa e de Euclides da Cunha.

Devido às muitas dezenas de ficções que se espalham por cerca de 30 livros, de poemas, de peças, de prosa, seria impossível nos determos mais do que em alguns momentos fulcrais, como fizemos, dessa que é, a meu ver, a maior escritora em língua portuguesa, que se deleita não só com Fernando Pessoa mas também com a lírica de Marly de Oliveira, Cecíla Meireles e com a inventividade dos vocábulos de Jorge de Lima.

Assim, para que esta breve reflexão não se alongue mais, valeria lembrar que os contos intitulados “Teologia Natural” e “Vicioso Kadek”, de Ficções (1977), inovaram a narrativa curta na nossa língua, nada havendo dos dois lados do Atlântico que se lhe compare, que eu saiba.

Para os leitores sedentos de sua elegíaca ou gozosa poesia, deixei para o fim apenas um único poema. Friso que não tive aqui a desmesurada ambição de pretensiosamente querer o que me ultrapassa: ser o escoliasta, o comentador, o explicador de Hilda Hilst. Eis o poema, com o vivo desejo de que a grandeza múltipla de Hilda Hilst se espalhe pelo Brasil e pelo mundo afora, como uma das raras grandes escritoras desta segunda metade de um milênio que finda, cronológica e simbolicamente também. Ave!

“Honra-me com teus nadas.

Traduz meu passo

De maneira qe eu nunca me perceba.

Confunde estas linhas que te escrevo

Como se um breijeiro escoliasta

Resolvesse

Brincar a morte de seu próprio texto.

Dá-me pobreza e fealdade e medo.

E desterro de todas as respostas

Que dariam luz

A meu eterno entendimento cego.

Dá-me tristes joelhos.

Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra

E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.

Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.

Tu sabes que amo os animais

Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome

Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.

Talvez assim te encantes de tão farta nudez.

Talvez assim me ames: desnudo até o osso

Igual a um morto.”

Reuso

Citação

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    Clarice Lispector e Hilda Hilst},
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  abstract = {Cadernos de Literatura Brasileira: Hilda Hilst (Editora:
    Instituto Moreira Salles), 1999-10. Aguardando revisão.}
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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1999) 2022. “Da Ficção .” In Os escritores aquém e além da literatura: Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Hilda Hilst, edited by Fernando Rey Puente, 2:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.