Clarice. Doando um fragmento iluminado de si mesma nestas crônicas

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1984-11-16. Aguardando revisão.

A Descoberta do Mundo, um grosso volume de quase 800 páginas, reúne, pela Editora Nova Fronteira, as crônicas publicadas de Clarice Lispector na imprensa carioca de 1967 a 1973. Não fossem as indispensáveis reimpressões de cronistas insignes como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e outros, a grande maioria dos leitores não teria acesso a esse trabalho miniaturesco, mas nem por isso menos perfeito de alguns dos nossos maiores escritores.

Escritas sob pressão do horário de entrega, suscitadas muitas vezes pelos assuntos que no momento são palpitantes para caírem na indiferença do esquecimento no dia seguinte, essas crônicas são uma parte importante da literatura brasileira, são a pulsação nervosa ou o momento de devaneio poético, filosófico, irônico de um autor ameaçado pelo relógio e oprimido pelo compromisso. São um segmento importante da fisionomia literária do Brasil porque revelam traços novos de seus autores. Carlos Drummond de Andrade, na prosa, pode espraiar-se em sátiras delicadas, mas não menos certeiras contra os tempos e os costumes de nossa época Coroa-Brastel. Sem citar nomes, sem se filiar a nenhum missal fanático nem rezar por esse ou aquele rígido abecedário ideológico, o que quase sempre equivale a recitar seu próprio necrológio para qualquer escritor intelectualmente vivo.

Além disso, as crônicas, como no caso de Clarice Lispector, prolongam uma auto-retrato, aumentam o território do conto, do romance, acrescentando-lhe como que a dimensão de um soneto em prosa: breve na sua estrutura, infinito no seu aprofundamento de um momento complexo, de um enigmático sentimento humano, de uma indagação sobre-humana a respeito da morte, da graça, da ventura, da angústia, de Deus.

Por último - o que seria quase dispensável lembrar - a crônica divulga, através de um meio de comunicação de massa incomparavelmente mais barato do que o livro, o mundo de um autor, sua riqueza inuspeitada, suas surpresas, sua emoção, sua brejeirice. Estabelece-se um contato democrático mesmo com o leitor que nunca leu nenhum dos livros do autor; muitas vezes quem lê escreve ou à cronista, cria-se uma intimidade anônima em que a afinidade veiculada pelo jornal não necessita de um encontro pessoal. No máximo, elogios, agradecimentos, flores, um bilhete de reconhecimento pelo ânimo, pela beleza, pelo consolo que uma crônica trouxe a quem o leu. Fora, naturalmente as tentativas de deitar-se no colo do(da) cronista, fazendo de sua coluna o divã psicanalítico de candidatos ao desespero ou ao suicídio. E fora a tentativa de sugerir que se focalizem temas como a guerra do Vietnã, o robustecimento das raquíticas verbas para a educação nacional ou até receitas de bolos mencionadas en passant no espaço pequeníssimo de uma coluna de jornal.

As crônicas (ou contos? ou trechos de romances?) de Clarice Lispector são um espelho voluntariamente meio opaco dela mesma: Clarice Lispector é o mistério que não se quer decifrar diante de leitor algum. Ela se resguarda, como na sua ficção, como no seu comportamente pessoal. Risonha, mas de um riso fundamente triste, estouvada, de um estouvamento causado pela extrema timidez, deslocada no mundo da fome, da guerra, dos choques diários desde um minúsculo desastre pessoal até um maremoto no Extremo Oriente, Clarice Lispector não ultrapassa uma linha de pudor, de altivez sem orgulho descabido: sutilmente entreabre uma janela, apenas, para um diálogo com o desconhecido: o leitor ou o mundo.

Seria uma questão de gosto pessoal ou uma tarefa impossível escolher esta ou aquela crônica, dar relevo a este ou aquele momento da sua inspiração (palavra em desuso), a este ou aquele estado de espírito no dia em que bateu no teclado de sua velha máquina Olympia, colocada sobre seu colo, como de costume, a rápida anotação do dia. Seria igualmente difícil não sentir o fascínio envolvente de pequenas obras-primas, que só não foram rotuladas como criação deslumbrante por uma artificialidade dessa própria rotulagem, inventada por críticos rígidos, predecessores dos cartões picados de um computador moderno. Por exemplo, entre muitos outros: na parte final de “Daqui a Vinte e Cinco Anos” ela vai adiante na sua indagação, na sua conjectura de como será o Brasil, portanto, 25 anos depois de 1967, em 1992:

“Mas se não sei prever, posso pelo menos desejar. Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muitíssimo mais depressa, porém, do que em vinte e cinco anos, porque não há mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crianças são verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitiais para subnutridos. Tal é a miséria, que se justificaria ser decretado estado de prontidão como diante de calamidade pública. Só que é pior: a fomeé a nossa endemia, já está fazendo parte orgânica do corpo e da alma. E, na maioria das vezes, quando se descrevem as características físicas, morais e mentais de um brasileiro, não se nota que na verdade se estão descrevendo os sintomas físicos, morais e mentais da fome. Os líderes que tiverem como meta a solução econômica do problema da comida serão tão abençoados por nós como, em comparação, o mundo abençoaria os que descobrirem a cura do câncer”.

Subacente a tudo o que escreveu, Clarice Lispector sempre teve uma aguda consciência social das castas sócio-econômicas que formam o monstruoso desenho piramidal da população brasileira. Proveniente de família de imigrantes ucranianos, judeus paupérrimos, vinda para o Recife com meses apenas de idade, o abandono desolador a que foi relegado o Nordeste, as soluções que encobrem sórdidas artimanhas para prolongar a seca, tudo ela percebeu desde cedo. Só os que têm visão tubular, como os cavalos que não abrangem nada além do que lhes está fora do ângulo das viseiras, poderia tachá-la de “alienada”. Como se qualquer frase de um escritor não estivesse já inserida em sua época, nas preocupações e tendências dessa época e não brotassem de uma visão do mundo que só pode ser social, pois é humana e se dirige a seres humanos. O que, decididamente, não significa uma visão estandardizada, dogmática, sectária, aderente à linha única de um partido único dos dois lados, o esquerdo ou o direito, do totalitarismo.

Os personagens favoritos, pelos quais Clarice Lispector sempre se sentiu imantada - as videntes, cartomantes, empregadas domésticas, crianças, velhos e velhas -, surgem em momentos brevíssimos mas hilariantes ou pungentes, sempre como uma fulguração: Clarice Lispector dá ao leitor sensível um esboço que ele completará.

São empregadas extraordinárias que atravessam a sua vida: Aninha, a mineira que queria ler os livros de Clarice, mas especifica: “Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar”. A cozinheira Jandira, que previa o futuro, a mesma Aninha que endoideceu, a terrível zombeteira que só se referia à escritora como “madame Luxenta”, que faz birra, que tem caprichos, que anda de camisola em casa… Tudo está entremeado daquele sentimento de culpa que Clarice Lispector sentia por ter uma pessoa que lhe servisse (“E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à Humanidade”) e uma solidariedade humana extraordinária que a faz, como Doris Lessing, transcrever as histórias e pensamentos de suas empregadas e reconhecer nelas talentos em potencial, como a que cantava uma melodia belíssima, “uma bobagem que eu mesmo fiz”. Clarice Lispector não denota nunca uma atitude condescendente para com as empregadas: ouve-lhes os conselhos, sobretudo se elas dispuserem de poderes sobrenaturais, forem capazes de ler cartas, radiografar visitas com um rápido olhar. E há as crônicas de um humor finíssimo, como “A Caneta de Ouro” e seus diálogos surrealistas com os filhos. Mas para os que amam a Clarice sacerdotiza, vestal de mundos que só agora a parapsicologia soviética desvenda em parte, tateando nos erros e no assombro, que crônicas magníficas se perenizem neste livro, como “Calor Humano” ou “Insônia Infeliz e Feliz”, “Estado de Graça”, “Restos de Carnaval” e tantas outras que se equiparam aos mais admiráveis de todos os contos sublimes de Clarice Lispector!

Naquela antecipação inconsciente da reação do leitor, a magnífica escritora doou aos leitores de língua portuguesa o mais permanente presente transcendental que durará por todas as datas festivas ou comuns do futuro: um fragmento iluminado de si mesma. Como quando inicia uma crônica polifonicamente, e por que não também transcendentalmente, assinalando no seu estilo simples e inesquecível:

“- Então isso era a felicidade. E - por assim dizer sem motivo. De início sentiu-se vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende”.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1984) 2022. “Clarice. Doando um fragmento iluminado de si mesma nestas crônicas .” In Os escritores aquém e além da literatura: Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Hilda Hilst, edited by Fernando Rey Puente, 2:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.