A redescoberta de Henry James I

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Diário de Notícias, 1960/02/24. Aguardando revisão.

O mundo complexo de Henry James assemelha-se a um caleidoscópio: cada uma de suas obras apresenta-nos um aspecto diferente da realidade interior, uma nova disposição de cores, uma nova interrelação de espaços, luz e sombra. Se bem que a sua temática seja numericamente reduzida, as múltiplas manifestações da psique humana por ele exploradas são quase tão numerosas com as da própria vida. No entanto, certas tonalidades básicas permanecem nesse vitral imenso: a maioria dos críticos aponta como sua preocupação fundamental o digladiar-se do hedonismo, representado pela aristocracia europeia e que implica uma profunda decadência moral, e do estoicismo perante o sofrimento, simbolizado pelos personagens americanos, que sucumbem vítimas de seu código ético, oposto intrinsecamente ao esteticismo e ao materialismo sórdido que a opulência e o refinamento extremos ocultam. Graham Greene não examina a temática jamesiana unicamente sob o ponto de vista de um constraste insuperável entre a ética e a estética, mas relaciona a inquietude de Henry James com um “complexo de traição”, um “complexo de Judas” que constitui a sua obsessão permanente. Greene cita as novelas em que um engano propositado é urdido perfidamente para os personagens inocentes, puros de intenções e que morre, moralmente, vítimas da sua não-pactuação com o crime na sua forma mais sutil e letal: o sufocamento da própria consciência. É sob esse prisma que ele analisa The Portrait of a Lady e The Wings of the Dove.

Um dos mais lúcidos e importantes cultores de Henry James, Michael Swan – veja-se a sua monografia Henry James na excelente coleção publicada pelo British Council – concorda com a teoria geral de que o autor de The Golden Bowl foi um “delicado profeta da decadência, mas a sua acuidade crítica divisa ainda sua bifurcação trágica entre o Belo e o moralmente inaceitável:”O mundo de lazer e de riqueza que constitui geralmente o mundo das suas novelas aproxima-se do fim e deve ter sido o lado puritano (de Henry James) que captou o odor da corrupção, de malignidade, que exala esse mundo, que seu lado mais hedonista admirava e cujos prazeres ele adorava”.

Como seu irmão – também mundialmente famoso, o psicólogo William James – ele foi criado num ambiente cosmopolita, frequentando colégios na França, na Suiça e na Alemanha, tendo desde cedo um contato plurinacional com a cultura. Seu pai, Henry James Sr., queria fazer da mente de seus filhos uma “tábula rasa” capaz de impregnar-se de ideias e conceitos ecléticos e livre de preconceitos nacionalistas. Mais tarde, o cenário internacional restringiu-se, na sua temática literária, a binômio América-Europa, sendo raras as suas incursões artísticas exclusivamente americanas (The Americam Scene) ou britânicas (The Tragic Muse). Como Scott Fitzgerald ele descreve o “mundo poético do ócio, dos milionários americanos na Europa” e representa a “genteel tradition” da literatura americana. E como mais tarde T. S. Eliot, decide exilar-se voluntariamente de seu país natal, refugiando-se no Velho Mundo. Em Paris ele entra em contato com Flaubert e Turguenief, principalmente, passando depois uma temporada na Itália, antes de estabelecer-se definitivamente em Londres. Em 1915, tomado de entusiasmo pela causa inglesa contra a Alemanha, naturalizou-se súdito britânico “a fim de poder dizer ‘nós’ quando se referia aos avanços militares aliados”, segundo refere um seu contemporâneo, citado por Swan. Voltando aos Estados Unidos somente em 1903, ou seja: com a idade de 60 anos e depois de um afastamento de quase 35 anos, Henry James viu confirmada a sua intuição de que não se adaptaria ao país em que nascera. Na eletrizante história The Jolly Corner que marca o seu retorno breve à América, ele traça um auto-retrato marcado a fogo daquele que ele seria, o outro Henry James, senão tivesse abandonado a sua terra natal: “um homem cruel, odioso, ruidoso e vulgar”, um Babbitt prosaico e espritualmente morto. A América ele considera “um mundo extraordinário… gigantesco… mas de um prosaismo cruel, desprovido de encanto… que nos força a recolher-nos tão sofregamente quanto possível a Lamb House (sua propriedade na Inglaterra)…” E resumindo sua perlexidade perante aquela nação com a qual não sente afinidade, uma nação rude, de pioneiros e comerciantes, como era considerada então, ele declara, com sinceridade total: “je n’ai que faire…”

Naturalmente, a extrema complexidade e sutileza de Henry James que tanto o irmanam literariamente a Proust, o tornam para sempre um escritor esotérico de elites, de cliques de adoradores radicais de sua obra. E como Proust, Joyce e Kafka – com os quais ele integra a plêiade máxima de prosadores do nosso meio-século – Henry James permanecerá intrinsecamente um autor inacessível às massas – fato que ele previra e lamentara, - um autor na melhor acepção do termo: aristocrático. O seu mundo interir atormentado, os hieróglifos através dos quais ele se expressa, a obliquidade da sua percepçãoe e expressão intelectuais intensificam a dificuldade concreta de se penetrar as correntes turvas e densas do universo psicológico que ele sondou em seus protagonistas que, como as figuras de uma tragédia grega, não podem fugir ao Fatum inexorável e individual. A transmutção dos fenômenos externos em pontos de contato com a memória, em associações evocativas e a sua identificação entre paisagem e vivência histórica – características típicas de Proust, que dá aos seus personagensuma existência transcendente e eterna ao relacioná-los com a Arte e a História – a investigação destemida dos céus e infernos contidos na alma humana como a que fez Joyce: todos esses elementos em si já bastariam para distanciá-lo da massa e dos críticos insensíveis a seu vocabulário quase oriental no seu extremo refinamento. Já seus contemporâneos Hardy e H. G. Wells irritavam-se com seu esilo meândrico, suas frases longas, interpoladas de infinitas nuances que as modificavam e qualificavam e esses autores, além de outros, condenaram acerbamente o autor de The Ambassadors. A pletora de adjetivos , a verbosidade barroca e cintilante de sua última maneira (late manner) levou Wells a parodiá-lo ironicamente e a definir os esforços literários de James como os de “um hipopótamo tentando fazer rolar uma ervilha”!

Para os críticos e leitores forçados a ler Henry James em traduções ou os que o lerem no original sem conhecer suficientemente o inglês, o problema agrava-se de maneira radical, pois poucos autores são tão integralmente intraduziveis como Henry James> em seus livros a coloração específica, única de suas frases constitui muito do sortilégio inconfundível que se depreende da sua leitura. Não há correspondência exata – e às vezes nem aproximada – entre as palavras inglesas e, por exemplo, as que deveriam ser suas equivalentes – mas não o são – em português, alemão ou italiano. O resultado dessas traduções – além de constituir a célebre “traição” de que fala o adágio italiano: tradutore-traditore – é forçosamente grotesco, pois trduzir Henry James corresponde, mutatis mutandis, a reorquestrar uma composição de Debussy toda feita de arabescos, de cromatismos interinsecamente ligados à estrutura dos instrumentos como as frases iridiscentes de Henry James estão indissoluvelmente ligadas aos termos em que são criadas, na hierarquia de valores verbais da língua inglesa. A lista de exemplos ilustrativos incluiria a quase totalidade das suas obras, principalmente as da fase derradeira.

A sua investigação “daquilo que jaz por detrás da mise-em-scène… da vida” termina não com uma afirmação niilista, mas com a denúncia, com a revelação de uma sociedade putrefata oculta sob a aparência de beleza e magia, mas como ele próprio declarou, suas obras não foram escritas com o propósito de “deixar uma recordação agradável nos leitores”. Tem razão Swan ao focalizar a “insistência com que James se refere à frustração da vida inerente a toda existência humana,”a atenção que ele dá à ideia de que “na vida de qualquer ser humano há sempre qualquer coisa importante que ele perdeu ou não conseguiu realizar”. Ele próprio declarara: “a vida é deprimente, a arte é inspiradora” e um de seus personagens exclama: “a frustração é a própria vida!” Seria também interessante relacionar a sua fascinação pelo sobrenatural com a descrição mórbida dos monstros feita por Lautréamont e estudar o exorcismo do Mal latente em todas as coisas, expresso pela obra de Kafka, a fim de determinarmos a divergência de origens dessa incursão no sobrenatural e principalmente definir a divergência de conclusões a que chegam os autores francês, tcheco e americano. Muito do demonismo das suas histórias fantasmagóricas, cujo horror produz o “frisson calvanique” exigido por Baudelaire da poesia moderna, - em The Jolly Corner o retorno a sua cidade natal de um homem que tem de lutar contra o seu alter ego um fantasma monstruoso e maligno – muito desse mundo surrealista contém um sentido alegórico impregnado de simbolismo como o duelo entre o Mal e a Pureza, a Inocência e a Experiência nas evocações flamejantes e visionárias de Blake. O acidente sofrido por Henry James quando ainda muito jovem e que o invalidou para uma “vida normal” devido ao mistério com que foi circundado constitui atualmente objeto de pesquisas minuciosas e indagações por parte de seus biógrafos, exegetas e até mesmo por parte de psicólogos, na Alemanha e na Inglaterra. Mas ele levou para o túmulo o seu segredo, a chave de sua derrota pessoal perante a vida. No entanto, a sua amarga derrota humana só acentua a luminosidade das suas criações artísticas. A afirmação gradual da obra de Henry James – hoje reexaminada pela crítica e considerada uma das supremas contribuições à novelística ocidental – impõe-se com a serenidade inerente às coisas perfeitas, à medida que sob os escombros de sua frustração individual, redescobrimos o tesouro inestimável da sua Arte.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “A redescoberta de Henry James I.” In Testemunhos Literários do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 3:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.