Uma obra-prima inacabada com a marca da grandeza olímpica de Eça

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 22-03-1980. Aguardando revisão.

Parece uma das ficciones (ficções) de Jorge Luís Borges, cheia de enigmas, labirintos, espelhos, sabres e mistérios indecifráveis pela vã filosofia humana:

Oitenta anos depois da morte do supremo romancista da língua portuguesa, Eça de Queirós, surge inexplicavelmente um livro inédito seu: A Tragédia da Rua das Flores. Começam imediatamente todas as bifurcações possíveis: um editor acusa o primeiro a publicar essa obra póstuma de autor de “uma mistificação cultural e autêntica burla”. O público que arrebatou na semana passada os milhares de exemplares dessa desconhecida A Tragédia da Rua das Flores em poucos dias de fome literária teria então sido ludibriado? enganado? teria comprado gato por lebre?

O segundo editor, Nélson de Matos, da Moraes Editora, afirma que sim, peremptoriamente: as alterações introduzidas pela Editora Livros do Brasil, acusada lesa-memória dolosa do legado eciano, chegavam a um total de dezenas por página! Pior ainda: o público fora surrupiado um montante inacreditável de 100 páginas de texto, não se sabe se do início, do meio ou do fim do romance. E, impávido, Nélson de Matos, diretor da segunda Editora, como promotor acusa: a edição da Livros do Brasil é tão criminosa e farsesca que transcreve, como um exemplo dentro dezenas de outros, afirma, um trecho como sendo “sensação de agulhas” quando se tratava, na realidade, de “sensação de orgulho”. E esse arrepiante J’accuse de dedo em riste e fúria e sarcasmo devastadores prossegue, até agora sem resposta do pretenso réu de literaticídio: o manuscrito impresso de afogadilho pela supostamenet afoita Editora Livros do Brasil é fruto de fotocópias de um manuscrito que está “sob reserva” na esplêndida e riquíssima Biblioteca Nacional, em Lisboa. Já o manuscrito de posse da Moraes Editora teria sido cedido pelos familiares de Eça de Queirós e submetido durante três anos a uma decifração escrupulosa por um professor da Faculdade de Letras de Lisboa.

Ácido, o segundo editor afirma que o primeiro comete erros que chegam a ser “hilariantes e caricatos”. E um processo judicial agita toda Lisboa, rasgando o manto diáfano da fantasia que velava o corpo nu da realidade editorial e suas lutas sangrentas por esses despojos insuperáveis na prosa em língua portuguesa.

Porque - será preciso dizê-lo? - não se trata de um autor qualquer, pois nem mesmo Alexandre Herculano ou Camilo Castelo Branco poderiam causar um alvoroço tão sísmico dos dois lados do oceano Atlântico. Só a descoberta de um manuscrito autêntico do padre Vieira revelando um nunca revelado erotismo refinado, oriental e satânico seria capaz de despertar tanta celeuma, ou melhor: tais cataclismas que chegam às vestes togadas dos tribunais.

É verdade que os tribunais de justiça dos países tidos por mais civilizados já se enxovalharam antes, condenando como “imorais” as obras-primas pioneiras do romance do século XX: Mme. Bovary (por tratar de um adultério), Les Fleurs du Mal por abordar o amor homossexual em “Les Femmes Damnées”, O Amante de Lady Chatterley, como punição por sua ousadia de supor que uma mulher casada com um homem velho e impotente pudesse “rebaixar-se” socialmente atingindo o orgasmo pleno com um homem rude, guardador da reserva de caça do aristocrático e caquético lord Chatterley. Sem esquecer o gigantesco Ulysses, de Joyce, confiscado nas alfândegas da Inglaterra e dos EUA or conter “matéria ofensiva à decência, à moral e aos bons costumes”: o longuíssimo e deslumbrante monólogo da adúltera e ninfomaníaca Molly Bloon sobre suas fantasias eróticas.

Eça de Queirós é como um prisma ou um poliedro, cujas refrações podem ser vistas de diversos ângulos e, sob diversos enfoques, ser decodificado na sua imensa complexidade. Politicamente, os países do Leste europeu param na parte intermediária da sua vasta e fascinante arquitetura de estilo, sensibilidade e inteligência inigualáveis em português: imprimem somente a denúncia veemente, candente, corrosiva que ele fez à sociedade burguesa, seus mitos e tabus, mentiras, hipocrisias, virtudes (escassas como ele as via nessa época) e engodo. Depois, há o enfoque sociológico: Eça de Queirós, ao contrário do que desejam os sectários de uma Esquerda estreita de mentes e de propósitos, não é apenas aquele que põe o dedo nas inúmeras feridas do corpo social da burguesia dominante em Portugal e diagnostica que aquele organismo está podre. De forma muito mais rica e interessante, Eça de Queirós, como todo ser pensante, altamente consciente da verdade, ou melhor, do axioma de que a mudança é uma imposição transbiológica da própria vida, Eça de Queirós muda. E fecha o círculo da sua vida e da sua atividade de maravilhoso criador, reencontrando-se com Portugal, aquele mesmo Portugal que em romances anteriores ele comparara sempre a um chiqueiro, a “uma choldra”, a um pântano de tédio, falta de requinte e de frustração individual e coletiva. Não: Portugal é a volta à Terra mater, ao aconchego da simplicidade rústica do caldo verde rural, longe dos trompe-l’oeil de Paris, de Berlim ou Londres, com sua tecnologia desumanizante e falha. Quando, em A Cidade e as Serras, Jacinto de Tormes, personagem inspirado em um amigo brasileiro de Eça que morava em Paris, volta para o interior do Minho, província de onde fugira, horrorizado, para os refinamentos da civilização parisiense, é o próprio Eça que, exausto da carreira diplomática e farto dos pseudo-êxtases de uma Paris postiça e desumana, toca de novo, como Anteu, a terra sacral e esse contacto telúrico com Geo, a Mãe Terra lusitana, lhe dá o viço perdido, lhe restaura o vigor embaçado por tantos falsos ídolos não-portugueses.

Por fim, há o aspecto revolucionário de Eça de Queirós nos dois níveis: é um pensamento revolucionário e é um estilo revolucionário a serviço talvez da mais lúcida inteligência que argutamente se debruçou sobre a Península Ibérica, incluindo-se nesse rol até mesmo o grande mestre espanhol Galdós. Se D. H. Lawrence desafiaria a Inglaterra modorrenta e falsa da época vitoriana, revelando a potência da libido, a força do erotismo oculto e que explodia deformação maléfica de um ack, o Estripador, Eça de Queirós teria, se possível, mais coragem ainda. Por quê? Porque ele arrostou Portugal no que Portugal tinha (e tem) de mais medonhamente mumificado, sediço, viscoso, enleante em seu horror à verdade: ele desafiou o Portugal hipócrita nos costumes e correto só na gramática embalsamada nas mesóclises.

Não era pouco. Pois se ele ousava, impavidamente, advogar um Socialismo idealista, com Antero de Quental, o finíssimo poeta, a pregar o advento de uma era de progresso para os camponeses paupérrimos dos feudos do Alentejo, a abolição das poucas famílias plutocratas que literalmente possuíam (possuem ainda?) Portugal em suas mãos e ações guardadas nos cofres sacrossantos dos Bancos do Espírito Santo, uma era nova de igualdade, solidariedade, Fraternidade, Justiça! Mais ainda: ele tivera o arrojo - que lhe custaria tão caro! - de denunciar o que todos hipócrita e tacitamente calavam: a concupiscência incendiada dos padres sem vocação religiosa, que entravam para o sacerdócio meramente por pertencerem às classes dos miseráveis párias das castas dos intocáveis, não na longínqua Índia, mas no pequenino Portugal, como o fez, candentemente, em seu romance ainda verde, O Crime do Padre Amaro. Que crime?: o de não ter sido escolhido para ser um vigário de Cristo na terra e servir mais ao corpo e sua servidão carnal do que ao Corpo místico da Igreja e de um Cristo metafísico.

Insolente. Eça ergueu o véu tênue do cinismo coletivo que pairava sobre o adultério: em O Primo Basílio, mostrando como um sedutor sem escrúpulos pode literalmente massacrar uma vida para atingir o seu prazer de garanhão monstruoso e insensível.

Impertinência e, por que não dizê-lo, mesmo fora de Portugal, blasfêmia inaudita, Eça se atrevia a descrever, em dois longos volumes, a lenta evolução de um incesto entre dois irmãos, naquela que muitos consideram a sua obra-prima, Os Maias - um incesto em que nos últimos encontros amorosos o casal sabe que são irmão e irmã. Cúmulo dos cúmulos para os bem-pensantes! Praticamente todas as culturas condenam inapelavelmente o incesto, com exceção das dinastias do Império do Antigo Egito, qando o irmão tinha que, por prerrogativas reais, fecundar a irmã: por que o “monstruoso, torpe” Eça, como muitos o chamavam na sua época, se detinha no lado sombrio, asqueroso do ser humano?

Sua obra não se prestava a nacionalismo triunfalista nem odes patrióticas da grandeza colonial do pequenino Portugal. Era, para os bem-pensantes da oligarquia lusitana, herético, iconoclasta: por que não considerá-lo um fenômeno teratológico, digno de um museu do médico e do monstro?

O futuro, porém, mostrou cabalmente que o médico predominava absolutamente sobre o monstro em Eça: o monstro era o embuste da sociedade. E isso sem que Eça pudesse prever Freud, Wilhelm Reich, apoiando-se talvez nos gregos antigos, mas sobretudo na intuição certeira das suas convicções mais íntimas, cada vez mais confirmadas pela sua riquíssima, admirável vivência e decodificação da realidade autêntica, em oposição à realidade de papier machê que lhe foi e que ainda nos é imposta.

E essa surpresa agora, desta enigmática A Tragédia da Rua das Flores?

Deixando de lado o seu volumoso contencioso de 100 páginas suprimidas ou não, de erros crassos de interpretação ou não, de mistificação culposa ou não, revela-nos o quê? Um Eça de Queirós maior ou menor como escritor? Mais ou menos audaz? Coerente consigo mesmo ou contraditório, invalidando grande parte da sua obra que tem uma coerência na sua evolução que se distancia do materialismo imediato e ascende a verdades milenares do bucolismo, da ecologia, já vislumbrada antes da poluição de hoje e antes do advento contemporâneo da sociedade de lazer?

A Tragédia da Rua das Flores é, como já se disse, um livro incompleto. Cheio de rasuras, lacunas, de trechos ilegíveis. O que proporciona ao leitor que pela primeira vez se imanta com o texto enfeitiçador de Eça de Queirós ou ao habituado a seus paraísos do estilo perfeito a serviço das ideias cristalinas e justas? Momentos. Momentos de sublime silêncio diante de parágrafos irretocáveis. E momentos de perplexidade, não tanto pelas falhas da leitura de um manuscrito arisco quanto pela audácia do autor escolher um “enredo”, se é que se pode dizer assim folhetinesco, melodramático, claramente reminiscente da Dama das Camélias, de Dumas, do qual se tirou a ópera célebre de Verdi, La Traviata, e ao qual o próprio autor alude no segmento final dessa por vezes faiscante de beleza “Tragédia” lusitana.

Informam-nos que Eça de Queirós, mas sem precisar datas, teria escrito e reescrito este romance inconcluso em sua forma, um romance que ele deixou por cinzelar, durante muito tempo, sem porém, poder dar-lhe a forma final que essa história de amor, paixão e morte merecia. Será uma versão eciana de Um Amor de Perdição? Será seu corpo a corpo com o tema obsessivo do incesto, não mais aquele entre irmãos ou semi-irmãos, mas o incesto da majestosa tragédia grega de Édipo Rei, de Sófocles e que Freud daria a denominação psicológica de “complexo de Édipo”. Mas com uma conotação mais perversa ainda: é delicioso dormir com a mãe, é divino copular com o ventre que pariu o macho. Genoveva, no romance a mãe que fornica com o filho, sem que ambos saibam, mata-se. Timóteo, que seria a Cassandra lúcida desta tragédia, também sucumbe ao conhecimento desse gozo horrendo. Resta Victor, o filho, que como seu nome indica tem uma vitória, de Pirro, amaríssima, é verdade. Seu casamento posterior com Joana é um happy ending postiço, como que decretado pela autocensura de Eça de Queirós, ferozmente vigiado pela Santa Inquisição dos ancestrais de Buzaid e Falcão de infausta memória, mas os mesmos que censuraram Camões e os episódios eróticos do périplo marítimo narrado em Os Lusíadas.

A Tragédia da Rua das Flores, mesmo nesta versão truncada, muitas vezes incompreensível pelas lacunas que deixa, acrescenta ou subtrai alguma coisa à grandeza olímpica de Eça de Queirós? Acrescenta, como, com exagero, se poderia dizer que um rol de roupa anotado por ele acrescentaria alguma coisa de sutilmente inteligente e imperecível para todo o universo do idioma português.

Nota-se, por exemplo, que o estilo típico do autor, de escrever de um só jato e depois, minuciosamente, cientificamente, ir corrigindo, cinzelando, burilando o texto, produz, contudo, resultados magníficos. As primeiras páginas são dignas do melhor Eça e se desenrolam no teatro, recordando vivamente as descrições de Proust e da Opera com a duquesa de Guermantes, Swann, o barão de Charlus e outros mergulhados naquela atmosfera marítima sensual, languidamente acolhedora dos camarins, frisas, plateia e galerias. É a entrada discreta mas esmagadora da misteriosa mulher belíssima que todos pensam ser uma ilustre princesa estrangeira. É um soberbo momento do Eça insuperável em seus grandes e frequentíssimos momentos da mais alada inspiração que brota, perfeito, quando ela entra no teatro:

“Uma senhora alta, de pé, desapertava devagar os fechos de prata de uma longa capa de seda negra forrada de peles escuras: tinha ainda o capuz descido sobre a testa e os seus olhos negros e grandes, que as olheiras de um brilho ligeiro, ou desenhado ou naturais, faziam parecer mais profundos, mais se destacavam num rosto aquilino e oval, levemente amaciado de pó-de-arroz. Uma mulher esguia e seca, com um cordão de ouro de relógio, caído ao comprido do corpete de seda, desembaraçou-a da capa - e ela, com um movimento delicado e leve, voltou-se e ficou imóvel de perfil, olhando o palco”.

Seguem-se vinhetas imersas em ácido, pintadas com a corrosão sulfúrica da concisão:

“De frente, no meio de uma família respeitável e religiosa, sorria a menina Mercês Pedrão, a Mercedinhas, que - dizia-se - dava a todos os menores de cinquenta e cinco anos , que se lhe aproximavam, os afagos refinados de uma voluptuosidade prudente. E no camarote ao fundo, com diamantes nos peitilhos, estavam dois pretos tristes.”

Ou: “E era muito observado o social Padre Chão, querido pelo seu talento em imitar actores, animais, uma locomotiva silvano e o som triste de um oboé”. E ainda: “Nas varandas, uma criança chorava obstinadamente. E a gente anônima - que digere, procria e morre anonimamente - fazia errar os olhos, muito negros, aqui e além, sem ideias.”

Eça diz, falando do alvoroço que a misteriosa criatura despertou entre a platéia modorrenta: “‘Biloculavam-na à carga cerrada’ como disse o poeta Roma, autor estimado dos Idílios e Devaneios”.

O personagem principal, o jovem Victor, fala ou pensa com a sabedoria do Eça mais velho e mais experiente mas sempre autobiográfico em sua busca impertérrita do sublime apesar dos tropeços com a realidade prosaica e unidimensional, incurável sonhador romântico:

“A vida real, em redor, dava-lhe a melancolia de uma imperfeição bruta. Não desesperava de encontrar uma amante como Julieta; ao contacto de realidades muito fortes, perdera já algumas superstições românticas, mas a falta completa de ironia fazia-o persistir na veneração do Ideal.”

Há caricaturas dignas de um Daumier: sinistras, crudelíssimas, como o velho conde caquético surdo que se fazia repetir as palavras por um homenzarrão de pera aguda. As espanholas jovens “caiadas” de branco e arfantes de sensualidade; a generosa condessa de quem todos ou quase todos os homens diziam, constatando um fato: “A condessa era, é ainda, como um prato de mesa-redonda: o que a recebe do seu vizinho da direita serve-se e passa-a ao vizinho da esquerda.”

Para o leitor fica um fio condutor que percorre realmente toda a obra fulgurante de Eça de Queirós: o seu feminismo, a sua crença inabalável numa superioridade intrínseca da mulher que é muito mais corajosa do que a maioria dos homens, resmungões, infantis, timoratos, que conquistam impérios nas selvas da África ou do Brasil mas não sabem captar as nuances de sensibilidade de uma mulher que, por amor, e não por luxúria, enfrenta o suicídio como a Luísa, vítima do torpe Primo Basílio. Ou como esta Genoveva que nada tem da fragilidade de uma Dama das Camélias mas sim o viço de um tronco forte, que só o incesto e a morte derrubam. Os homens, geralmente, hesitam, amam em vão, sem nunca terem a coragem de se declarar. Ou vão apra os Alentejos da alma, quando suas Luísas são presas do tédio e de Don Juan de meia-tigela, inescrupulosos como qualqer assassino barato. Ou divagam, com as rédeas do poder na mão, indecididos em saber como usar a fêmea que montam.

Lógico que há, na vasta galeria de Eça de Queirós, a mais rutilante da nossa língua, homens viris, nobres, como o personagem central de A Ilustre Casa de Ramires e inúmeros outros. Mas nesta Tragédia da Rua das Flores fica consignada a aliança de um grande sensual, como Eça de Queirós, com as mulheres, objetos de concupiscência de homens que dão asco, ao esfregarem as mãos e exclamarem, ao ver uma fêmea ou presa que julgam fácil: “Tenho mulher”. É a coisificação da mulher, reduzida a um receptáculo genital da ejaculação masculina, aquele apavorante isolamento dos órgãos de prazer do resto do corpo, ao contrário de outras culturas, como as do Oriente e da Hélade, que erotizavam os sentidos e também a mente e o espírito. É uma diminuição a que as três Marias corajosas de Portugal, não se sujeitavam e deram a última pá de terra ao apodrecido governo de Salazar com seu livro que liberta não só as mulheres como os homens também da canga do machismo esterelizador de ambos os sexos e seu prazer natimorto.

Genoveva inscreve-se naquele exíquo friso marmóreo de heroínas femininas, se o termo não for demasiado gasto e banal, das Annas Kareninas, das Emmas Bovarys, das Luísas, das Medéias e protagonistas de Henry James e poucas mais capazes de pronunciar a frase sacrílega para os burgueses circunspectos: “A paixão justifica tudo.”

Mas a honra, o Cristianismo Institucionalizado pela igreja, o “que dirão” preponderam, esse Armand não se casará com uma Dama das Camélias que renuncia a ele, depois de falar com o pai do jovem apaixonado. Eça de Queirós parece forçar-se a jogar Genoveva na vertigem do suicídio. Tudo levaria a crer que ela, pelo menos, assumiria, como se diz hoje em dia, toda a enormidade de saber e acolher de novo no ventre o filho tornado amante. Assim como Camilo, o artista, insta com Victor, o filho-amante inconsciente e involuntário à decisão solene e audaz: “Pelo menos - disse Camilo -, põe nos actos desta vida uma cor de fatalidade que os torne interessantes”.

Eça de Queirós é como um pagão grego ou romano sem divindades que não sejam o sol, a vida, a volúpia inteligente, a Natureza, “a parte mais nobre da Arte”, a intensidade dos sentimentos autêntico, a vibração mediterrânea de um Camus que celebra a vida que se esvai no efêmero eternizado pela intensidade, lúcida e de certa forma imortal.

A sua posterior “conversão” a um Porutgal revisto, adoçado, sem arestas e até cristão, religioso, convence menos, até neste livro, todo chama, ardor, lume e cinzas como um fado popular. Um resquício do seu paganismo lucrecianamente do meio-dia da lucidez total, resta na morte do tio Timóteo. Ele que faz à mãe-amante a terrível revelação edipiana, recusa a extrema-unção quando chega a sua morte abalada pelos acontecimentos que o emocionam literalmente até morrer:

“Não. Nada de padres. Não me amargurem este último momento. É o melhor da vida”.

Não pode ser compartilhado, este derradeiro e melhor instante da consciência de sermos como qualquer pretenso vigário de uma Divindade. É o momento sacral, supremo, do encontro conosco, de cada um consigo mesmo, portanto, ou com Deus ou com o Nada, sem intermediários espúrios.

É uma estátua sublime, inacabada, esta comovente Tragédia da Rua das Flores, essas flores de um jardim que lembra o Éden, de repente eclipsado pelo conhecimento, um paraíso no qual a sociedade - mas não a biologia e talvez nem mesmo os deuses - introduziu a noção de culpa, de pecado e punição, crime e castigo, ambos fruto da estreiteza de mentes e de conceitos sociais.

Permanece como uma obra estranha, conturbadora, do Mestre incomparável do idioma, que não cai nunca nos penhascos facílimos da grandiloquência nem do pieguismo, ao tratar de um tema tão propício ao grotesco, do qual porém ele se desvencilha sempre.

Resta confrontar com a outra edição o que se perdeu ou ganhou nesta. Pois às vezes até os tipógrafos são, inconsciente e involuntariamente, colaboradores ótimos dos escritores: suprimindo ou acrescentando, por acidente, trechos, letras, palavras que dão nova coloração ao texto.

Será difícil, porém, que uma obra-prima incompleta, inconclusa pelo próprio gênio que a criou fale com mais persuasão e igual força.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (22AD–3AD) 2022. “Uma obra-prima inacabada com a marca da grandeza olímpica de Eça .” In Redescobrindo Portugal: Perfis e depoimentos de alguns escritores portugueses, edited by Fernando Rey Puente, 6:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.