Arte-amor-morte

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1970/12/30. Aguardando revisão.

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, Editorial Bruguera.

Antes de suicidar-se, em 1941, vítima de aguda depressão nervosa, Virginia Woolf (1882-1941), a grande renovadora do romance inglês, anotou em seu Diário de extraordinária perspicácia: “A beleza final de uma obra literária não é nunca verdadeiramente sentida por seus contemporâneos”. Com a tradução no Brasil de seu extraordinário romance, Mrs. Dalloway, 45 anos após sua publicação em Londres, essa anotação torna-se profética. A inventiva autora de Orlando reúne neste painel extraordinário as duas grandes revoluções do romance ocidental da primeira metade deste século: o Ulisses de James Joyce e Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. Seguindo o itinerário de Ulisses, ela sintetiza em 24 horas a vida de uma mulher, Mrs. Dalloway, e de uma cidade, Londres, como Joyce sintetiza a vida de Leopold Bloom e de Dublin. São os três temas centrais que formam o núcleo da narrativa: Clarissa Dalloway sai de casa cedo, para preparar uma grande festa, e atravessa ruas movimentadas da metrópole. Ao voltar para casa o homem que a amara apaixonadamente e, rejeitado por ela, partira para a Índia, Peter Walsh, reaparece e vem visitá-la de improviso. A caminho passa por um neurótico de guerra, Septimus Warren Smith, sentado com sua mulher italiana, Lucrézia, num banco de jardim de um parque. Smith tem um acesso de loucura e é levado, nesse mesmo dia, ao suicídio. Clarissa fica sabendo dessa morte pelo médico de Smith, que relata brevemente no final da festa o caso desse seu paciente alucinado por visões de guerra, de amor e de maldade humana. São os três motivos essenciais da própria obra de Virginia Woolf enfeixados em Mrs. Dalloway: 1) a vida como Beleza, como mero pretexto estético, divorciado da realidade – Clarissa; 2) a vida como amor e arroubo emocional que arruína o indivíduo – Peter; e 3) a vida como “um conto contado por um louco e não significando nada” – o suicida Septimus. A arte, o amor e a morte cifram-se assim nessas 24 horas da vida de Londres e da fútil e mundana Clarissa Dalloway. Mas, profundamente influenciada por sua admiração por Proust, Virginia Woolf condensa em duzentas páginas da mais bela prosa que a língua inglesa possui – admiravelmente captada pela tradução sensível de Mário Quintana – as 4000 páginas de Em Busca do Tempo Perdido. Como motivo constante, os relógios de Londres, desde o Big Bem, implacável e solene, até o de Santa Margarida, feminino e estouvado. É um símbolo proustiano do Tempo passando e transformando tudo.

Na festa - como na festa da Duquesa de Guermantes que encerra Em Busca do Tempo Perdido -, os personagens, tocados pelo tempo, estão profundamente metamorfoseados. Clarissa renunciou ao amor pelo sucesso e pela lógica – e a lógica a impede de aceitar o desvario amoroso de Peter ou o irracional monstruoso de Septimus. Peter malbaratou sua vida na Índia e é um homem gasto.

Virginia Woolf funde a arguta crítica social da aristocracia feita por Proust e os recursos da memória evocada pelos sentidos que ele exemplificou. Um broche antigo, uma porta aberta, devolvem Clarissa a seu mundo anterior, quando era cortejada por Peter e fazia coisas cheias de imaginação e inconformismo com sua amiga Sally. Dessa forma, as mesmas 24 horas e as mesmas paisagens urbanas de Londres aparecem sob pontos de vista diferentes, mas todos complementares, como vitrais de uma rosácea medieval. “A compensação da gente envelhecer, pensava Peter Walsh, retirando-se de Regent’s Park com o chapéu na mão, era simplesmente esta: que as paixões permanecem tão fortes como antes, mas adquire-se – afinal! – o poder que dá o supremo sabor à existência, o poder de nos apoderarmos da experiência e volteá-la lentamente, em plena luz. Como uma nuvem que atravessa o sol, o silêncio caiu sobre Londres, e caiu sobre o espírito. Todo esforço é findo. Pende o tempo, do mastro. Rígido, somente o esqueleto do hábito sustenta a forma humana. E onde não há nada, disse Peter Walsh a si mesmo, o sentimento escava-se, oco, completamente oco, Clarissa recusou-me. E ali ficou parado a pensar: Clarissa recusou-me.”

Depois das experiências relatadas por Aldous Huxley em As Portas da Percepção, com o uso de mescalina, as alucinações de Septimus antes de morrer adquirem um significado mais inquietante, impossível antes da era da experiência com drogas alucinógenas. Mas é um pressentimento dos mesmos temores e êxtases da autora antes de suicidar-se que se reflete nessas duas formas de si mesma divididas entre o louco suicida e a cultora irresponsável do Belo desligado do Real. São os temas cifrados no seu monólogo final nesta obra-prima incomparável do romance inglês, de todos os tempos: “Mas havia uma coisa que mais importava; uma coisa emaranhada pelas conversas, desfigurada, obscurecida, na própria existência dela, Clarissa, uma coisa que a desgastava, dia a dia, em corrupção, mentiras, conversas. Essa coisa, ela a havia preservado. A morte era um desafio”.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Arte-amor-morte .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.