Lima Barreto - doce, feroz, iluminado. E esquecido

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1984/04/14. Aguardando revisão.

“Além de mulato, talentoso!”

Não era o cúmulo do desaforo?!

Abanando-se com leques para refrescar sua fúria, não editando seus livros, os bem-pensantes donos da opinião deste país têm conseguido a contento sufocar quae inteiramente a figura e a obra de Lima Barreto até hoje.

Para suprimi-las, não faltam pretextos. Em primeiro lugar, o racismo cruel e ignorante que indaga atônito: “Mas, afinal, o que queria aquele negro metido a escritor?” E respondem em coro: “O pai dele morrera num hospício, incurável. Mais tarde ele também. Logo, geneticamente, quem sai aos seus..” Dessa visão nazista da Raça Superior, Herrenrasse, ao moralismo mais hipócrita, é um pulo fácil: “Ele próprio não era um bêbado contumaz, recolhido pelas autoridades de Limpeza Urbana?, na rua do Ouvidor das duas primeiras décadas desde século, no Rio de Janeiro?”. Subversivo, elemento perigoso para outros, pregava o Anarquismo, radiografava uma sociedade baseada na empulhação, no roubo, na agiotagem, no esmagamento de imensa maioria por uma minoria de ricaços, a plutocracia inteiramente colonizada pelo capital e pelas ideias estrangeiras.

Nem como material de propaganda para os devotos que se arrastam de joelhos até a múmia embalsamada de Lenin no Palácio do Kremlin, em Moscou, as farpas agudas de Lima Barreto servem. Sua gargalhada e seu espanto ele reservava para qualquer “ismos” elevados como hóstia diante do altar da Santíssima Trindade Marx-Engels-Lenin.

Vários trechos das dinâmicas discussões políticas de seu livro de estreia, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (Editora Ática) publicado integralmente em Portugal, em 1909 (tendo o autor, paupérrimo, aberto mão de seus direitos autorais para que seu romance saísse em Lisboa), reforçam a visão precocemente anárquica de Lima Barreto. Entrelaçam-se com trechos significativos de seus diários e artigos contidos em Bagatelas (Lima Barreto, obras completas, Editora Brasiliense, 1961). Não terá sido o autor carioca o primeiro, na nossa literatura, a citar Kropotkin, o teórico do Anarquismo russo? Na obra de ficção, na realidade uma autobiografia tenuemente disfarçada, as tendências anarquistas ficam claras:

“Não há na Natureza nada que se pareça com a nossa sociedade governada pelo Estado… Observe o senhor que todas as sociedades animais se governam por leis para as quais elas não colaboraram, são como preexistentes a elas, independentes da sua vontade; e só nós inventamos esse absurdo de fazer leis para nós mesmos – leis que, em última análise, não são mais que a expressão da vontade, dos caprichos, dos interesses de uma minoria insignificante… No nosso corpo há uma multidão de organismos, todos eles interdependentes, mas vivem autonomamente sem serem propriamente governados por nenhum, e o equilíbrio se faz por isso mesmo… O sistema solar… Na Natureza, todo equilíbrio se obtém pela ação livre de cada uma das forças particulares.”

Um eco evidente de seu contato com Kropotkin que leu traduzido em francês:

“As partes componentes de um ser vivo ajudam-se umas às outras. Assim, em todas as relações dos entes animados, a luta pela existência tende a tornar-se a luta pela coexistência”

A noção de “luta de classes” lhe soa tão ineficaz quanto as fórmulas pretensamente mágicas do Positivismo e, por extensão, do totalitarismo nazifascista ou comuno-soviético.

“Eu ouvi-o sem coragem de contestar, embora não compartilhasse as suas crenças. Não era a primeira vez que ia ao Apostolado, mas quando vi o vice-diretor sair rapidamente por detrás de um retábulo, na absida da capela, ao som de um tímpano rouco, arrebatando a batina, com aquele laço verde no braço, dava-me vontade de rir às gargalhadas. Demais, ficava assombrado com a firmeza com que ele anunciava a felicidade contida no Positivismo e a simplicidade dos meios necessários para a sua vitória: bastava tal medida, bastava essa outra – e todo aquele rígido sistema de regras, abrangendo todas as manifestações da vida coletiva e individual, passaria a governar, a modificar costumes, hábitos e tradições. Explicava o catecismo. Abria o livro, lia um trecho e procurava o caminho para alusões a questões atuais, repetindo fórmulas para se obter um bom governo que tendesse a preparar a era normal – o advento final da Religião da Humanidade..”

Franco-atirador murado em sua fortaleza elevada, Lima Barreto já precocemente previra a manipulação do futebol como uma fonte de distração rendosa, a fim de desviar a atenção do povo de seus reais problemas. Denunciara os prefeitos que derrubavam morros e florestas, alterando o que hoje se chama de equilíbrio ecológico de um ambiente. Antecedera-se a Léopold Senghor, recém-eleito para a cômica Academia Francesa dos “imortais”, na criação de uma literatura voltada para o negro, a sua cultura, não uma négritude comparável à de Aimé Césaire mas um “negrismo” que ressaltasse o elemento negro como a argamassa de união nacional, a construtora de toa da estrutura econômica e, em parte determinante, também da cultura do Brasil.

“Estas ’Recordações’I” não têm, porém, outro propósito senão o de fazer a biópsia desse organismo vivo mas em grande parte apodrecido que é a imprensa, na qual colaborou, no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Sem dúvida, não alude quase às exceções: aos jornalistas competentes, inteligentes, honestos, que não vivem de adulação e ignorância arrogante. Por isso as redações que descreve não são mitigadas por figuras humanas, parecem um museu de monstros auto-ungidos em deuses pelo engodo que impingem à massa de leitores amorfos, moldáveis, estúpidos: 

“Nada há tão parecido com o pirata antigo e o jornalista moderno; a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda prova… E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do seu assentimento e da sua aprovação… Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas. Só se é geômetra com o seu placet (beneplácito), só se é calista com sua confirmação e se o sol nasce é porque afirmam tal cousa… E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham pra a seleção da mediocridade..”

E sucedem-se, ferozes, as cenas e retratos da redação: um diretor enfurece-se e se preocupa com o que dele dirão os grandes gramáticos do idioma, a ele que estava entregue a salvaguarda da língua pátria, conspurcada por erros de português? E responde à pergunta se está certo dizer “um copo d’água” ou “um copo com água”:

“- Conforme: se se tratar de um copo cheio, é um copo d’água; se não estiver cheio, um copo com água.”

Outro se enraivece quando se usa o adjetivo “eminente” para outra pessoa que não for José Bonifácio e não atina com quem seja Ruskin, o admirável esteta inglês estudioso das catedrais gótica francesas, traduzido por seu grande admirador, Marcel Proust, possivelmente o escritor de prosa francesa mais importante deste século. Ainda outro “paquiderme plumitivo” exerce uma tirania de árbitro do bom gosto no jornal: “O seu estágio diplomático em Quito dava-lhe também um infalível julgamento inenarrável nas maneiras de tratar duquesas e princesas.”

Como há os que se arvoram em “sábios” mandam proceder à análise antropométrica de um casal assassinado, aos quais tinham tirado as cabeças. Citando doutamente autoridades em medicina legal, chegam à conclusão de que o morto era… um mulato. É inútil descobrir-se que o declarado “mulato” não passava de um italiano com carteira de identidade e ficha dactiloscópica: “Um dia antes dessa elucidação, o doutor Franco de Andrade (autor dessas esdrúxulas mensurações antropológicas) era nomeado diretor do Serviço Médico-Legal da Polícia da cidade do Rio de Janeiro”.

Haveria inúmeros outros exemplos da imbecilidade que sufoca a esmagadora maioria da imprensa até os nossos dias, de mãos dadas com a mais cínica e impune distorção das informações dirigidas ao leitor. Nos EUA já se esboça um movimento de grandes proporções gravíssimas para aqueles jornalistas que se julgam consagrados, auto ungidos senhores da verdade, mestres em manipular, conforme seus caprichos, inclinações ideológicas ou preguiça recheada de ignorância e burrice agressivamente arrogante, as notícias em seu poder.

Romance inicial de um dos poucos gênios da Literatura Brasileira que o descaso brasileiro pela cultura e pela informação relegou quase ao anonimato, Lima Barreto surpreende pela doçura que se esconde por trás de tanta e tão justificada amargura. Para quem, de forma devastadora, concluíra que o preconceito levava os brancos racistas (a imensa maioria) a enxergá-lo menos do que se enxerga uma árvore, as meditações estoicas no seu desespero diante do ódio a priori que lhe dedicavam continuam dolorosamente atuais no Brasil, que, desde a sua morte (ou assassinato por omissão dos demais), não mudou:

“… Mas, não é a ambição literária que me move a procurar esse dom misterioso para animar e fazer viver estas pálidas Recordações. Com elas, queria modificar a opinião de meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a não se encherem de hostilidade e má vontade quando encontrarem na vida um rapaz como eu e com desejos que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são legítimos e, senão merecedores de apoio, pelo menos dignos de indiferença”.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Lima Barreto - doce, feroz, iluminado. E esquecido .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.