Toynbee e a sua história

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1969-05-07. Aguardando revisão.

Eu nascera numa sociedade em que a desigualdade da distribuição do poder, da riqueza e das oportunidades era tão extrema, que chegava a ser chocantemente iníqua. Essa descrição franca da sociedade culta da era vitoriana, na qual nasceu em 1889, caracteriza o tom que o grande historiador inglês Arnold Toynbee deu a seu último livro, Experiences, que acaba de ser publicado pela Oxford University Press. Alternando recordações autobiográficas com comentários lúcidos sobre oitenta anos de história, Experiences é também uma crítica lúcida dos problemas da própria era tecnológica: o racismo, a substituição das religiões pelas ideologias políticas, a violência e o anacronismo das guerras, do Vietnam a Israel e à Nigéria. Inconformista precoce, Toynbee rompe os tabus da Universidade de Oxford que ignoravam o período de decadência das civilizações da Grécia e de Roma e duvida da tese do maior historiador de seu tempo, Gibbons, que, ao dissecar A Decadência e Queda do Império Romano, concluiu que a Inglaterra e a civilização europeia “não sofreriam o mesmo destino”. Ao contrário, opondo-se a esse otimismo reconfortante, ele arma o arcabouço de sua magistral interpretação de história em doze volumes (A Study of History) sobre a tese contrária: as civilizações – todas – são perecíveis. Elas morrem sempre que não revidam adequadamente a um desafio interno ou exterior. A derrota da Rússia “branca” pelo Japão “de cor e asiático”, em 1906, comprovaria essa tese e seria o germe da sublevação dos povos colonizados contra o imperialismo do homem branco. De 1914, início da Primeira Guerra Mundial, a 1945, data da destruição atômica de Nagasáqui e Hiroxima, a humanidade abandonaria outro mito que aceitava sem discutir há 6000 anos de história: o de que a guerra é inevitável e constitui um fato da vida humana e das nações. Defensor da miscigenação e dos valores espirituais da educação e da religião contra os horrores do fascismo, do apartheid e da sociedade tecnológica que ameaça transformar os seres humanos em meros robôs em tempo de paz ou em suicidas atômicos em tempos de guerra, Toynbee, no entanto, não conclui de forma pessimista essas 380 páginas impregnadas de pessimismo e amarga ironia. Pelo contrário, a união das religiões pregada por João XXIII e o inconformismo dos jovens parecem indicar – segundo Toynbee – uma perspectiva de reavaliação dos principais desafios do mundo moderno, nas mais diversas frentes de batalha. Temas entre os quais o historiador inglês, com sua visão de humanista, resume nesses tópicos das suas Experiences:

Religião: “Oferecer ao ser humano a ciência como substituto para a religião é tão insatisfatório quanto dar uma pedra a uma criança que quer pão. A competição do Individualismo, a organização tipo formigueiro do Comunismo e o espírito tribal do Nacionalismo parecem-se com a tecnologia por serem impessoais. Mas só a religião e não esses sucedâneos preenche a necessidade mais básica do homem, numa era em que o triunfo da tecnologia desumaniza as personalidades, identificando-as não mais pelos seus nomes próprios mas por um número picotado num cartão que percorre as entranhas de um computador. Só as grandes religiões podem dar ao ser humano o auxílio de que ele precisa para entrar em contato direto com a realidade espiritual transcendente que existe por detrás e além dos fenômenos do Universo.”

Ciência e tecnologia: “A ciência e a tecnologia são forças moralmente neutras. O fabricante do gás de cozinha pode fabricar também o gás venenoso na guerra. O mesmo fabricante de um anestésico é capaz de produzir napalm. É um infortúnio para a humanidade ter tido sucesso na área espetacular da ciência e da tecnologia e ter fracassado na área das relações humanas – o palco no qual o drama da luta entre o bem e o mal tem lugar. É um fracasso trágico.”

Vietnam: “Os americanos acreditam lutar como Cruzados (no sentido medieval do termo) da Democracia Capitalista Mundial contra a Tirania Comunista Mundial. Mas acho que eles erraram na identificação do adversário que desafiaram no Vietnam, que não é o monstro mítico do”Comunismo Mundial”, mas sim o Nacionalismo vietnamita. O preço para uma vitória dos Estados Unidos no Vietnam seria a desvalorização do dólar, o sacrifício humano de centenas de milhares de jovens americanos e a condenação moral dos Estados Unidos pelo resto do mundo – uma condenação tão severa quanto a da Alemanha sob o regime nazista, o Japão em 1931-45 e a União Soviética durante a era estalinista.”

Os árabes e Israel: “O erro moral e a calamidade econômica (…) que os judeus sionistas infligiram aos árabes palestinos (…) constituem um colonialismo israelense, um crime que é também um anacronismo moral, pois os árabes, como os vietnamitas, estavam decididos a não se submeterem a um novo jugo colonial e a geografia está a seu favor. O mundo árabe é tão grande quanto o Vietnam e a China continental somados, ao passo que o poderio humano de Israel é insignificante comparado até mesmo com o do Vietnam do Norte.”

A Psicologia: “Ao tentar perscrutar o futuro, creio que a psicologia se tornará preeminente entre os estudos humanísticos, pois, ao contrário dos estudos de grego e latim, ela oferece ajuda prática e oportuna ao homem numa era (a tecnológica) em que ele precisa de toda ajuda possível, de Deus ou de outros homens, para evitar e conter o crime e a loucura de liquidar a própria raça humana (através da bomba atômica). Conhecimentos sobre a psique humana estão sendo pervertidos para fins de propaganda política, de publicidade comercial e embotamento (da sua psique).”

A guerra: “Vivi o suficiente para ver a repulsa dos quakers à guerra ampliar-se em grandes dimensões… pelo reconhecimento da verdade que eles revelaram há três séculos: a de que o argumento decisivo para abolir a guerra não é ditado pela prudência, mas sim por um argumento moral.”

Nigéria: “Nossa época teve que cunhar uma palavra nova – genocídio – para descrever o novo tipo de massacre (…) cometido a sangue frio por forças políticas despóticas, utilizando todos os recursos da tecnologia atual. Depois do assassinato nazista de 6 milhões de judeus, o genocídio das tribos no Norte da Nigéria levou o seu povo, com razão, a temer o extermínio em sua própria pátria.”

Racismo: “No decurso de minha vida cheguei a testemunhar um aumento das repressões violentas por motivos de racismo, além do impedimento, por uma legislação severa, de uma anulação das diferenças raciais por meio da miscigenação, no território dominado por uma minoria branca, na África do Sul. A integração racial como apartheid, são aspectos da lei e estão limitados pelas próprias limitações da lei em qualquer esfera. Há muitas formas de relações sociais que não podem ser reguladas pela legislação. O apartheid seria ineficiente se uma maioria da minoria branca dominante da África do Sul se opusesse a ele. Parte da comunidade negra nos EUA já se inclina por um apartheid negro. Uma guerra civil incessante – de uma raça contra a outra – constitui uma operação aterradora para qualquer nação. No mundo islâmico, no Brasil e no México, o conflito racial foi evitado graças aos laços comuns da religião e à mistura das raças. Os judeus, os povos teutônicos de língua inglesa, holandesa e alemã e os brâmanes são os que mais rigidamente mantêm o tabu racial da mistura, impedindo a assimilação e perpetuando a característica alarmante do racismo que é a sua natureza irracional.”

Universidades: “Não surpreende que nossa forma ocidental tradicional de educação universitária não se adapte a todos, pois foi criada originalmente para preparar clérigos. Mas a sociedade medieval ocidental era hierárquica. (…) Na nossa sociedade contemporânea socialmente flexível, fluida, a oportunidade de ter uma educação completa para todos os tipos de talentos capazes de se beneficiar com ela constitui a própria chave da justiça social. Sob o risco de nossa própria vida, precisamos apelar para a religião e a educação institucionalizadas a fim de nos ajudar a fechar a porta da morte (atômica) que agora está tão horrendamente escancarada diante de nós.”

O mar, não a Lua: “Aconselho (o homem moderno) inicialmente a descer do espaço, não para a terra, mas para o mar, cujas riquezas em potencial ainda praticamente inexploradas são uma fonte de alimentos (quase inesgotável) para a humanidade. Os japoneses são pioneiros no cultivo de algas e na criação doméstica (e planificada) de peixes, mas além disso o mar é a origem de jazidas minerais tão ricas quanto as que o homem já extraiu na terra nestes cinco ou seis mil anos de história da indústria extrativa. O mar é um patrimônio que espera ser apropriado, como propriedade de toda a humanidade, pelo futuro Estado Mundial (reunindo todas as nações).”

Mudanças espirituais: “A pressão do Admirável Mundo Novo (de Huxley) sobre a personalidade individual do homem por ser superada somente por uma transformação moral do homem e da sua mentalidade. Na era do computador, a única salvação para as pessoas reside na graça interior da serenidade espiritual, e a serenidade não se atinge ingerindo drogas nem capitulando diante do fatalismo. O homem, animal social, não pode marginalizar-se da sociedade (…), pois nenhum de nós vive para si mesmo e homem algum morre para si mesmo. A serenidade que pode fortalecer espiritualmente o ser humano para sobreviver no Admirável Mundo Novo sem renunciar à sua personalidade é a serenidade que não busca entrincheirar-se contra os assédios do sofrimento, mas, ao contrário, aceita o sofrimento como meio para atingir o fim de seguir a diretriz do amor. Graças à serenidade do amor não temerei o mal, ainda que eu ande no vale da sombra da morte.”

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1969) 2022. “Toynbee e a sua história .” In Conferências, ensaios e alguns artigos especiais, edited by Fernando Rey Puente. Vol. 9. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.