O resto é lixo. O Caso Morel, Artenova, 181 páginas

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1973-7-25. Aguardando revisão.

Há um capítulo-trailer, em que dois personagens vão visitar, numa penitenciária, Paulo Morel, aliás Paulo Morais. Enquadramentos estilísticos típicos da contenção de Os Prisioneiros e Lúcia McCartney: “Cubículo pequeno. Cama estreita com cobertor cinzento. Mesa cheia de livros; rádio portátil; pia; latrina; mais livros empilhados no chão”. O prisioneiro quer ajuda para escrever um livro e ter certeza de que será publicado. O flash inicial termina com todos comendo biscoitos e a pergunta sem resposta: “Você já escreveu alguma coisa?”

Segue-se, já no segundo capítulo corajosamente afrontado, um Avertissement (uma advertência) mostrando que o livro não é para jovens (nem moços nem moças), só para casados, pais e mães de filhos, gente séria, com o fito não de divertir, mas de instruir ou moralizar.

Encaixam-se citações, geralmente eruditas, mas sem a fonte, explicando, por exemplo, como os romanos inventaram rudimentares anticoncepcionais de pano de linho. A história segue labirintos sinuosos. Há uma cena de impotência, e discussão pela taxa de 200 cruzeiros cobrada pela moça bonita disponível. Há um cobrador que aponta para seu ajudante adolescente o prédio onde mora a filha com o amante poderoso.

Atualizado, o autor revela conhecer os skinheads de Londres, os rapazes tarados que moem velhinhos com barras de ferro, ou os poemas de W. H. Auden sobre o pênis e suas formas de estados de espírito diferentes.

Intervém o primeiro bocejo, educadamente disfarçado, por altura da página 64. É quando uma das numerosas amantes do fogoso Morel/Morais pega em sua mão e o leva para o quarto exclamando: “A vida devia ser uma festa assim, mas os automóveis não deixam” e o autor observa: “Você vinha vestida num roupão, carregando uma escova de dentes, uma toalha em volta do pescoço, lavava o rosto, as mãos, e ia ao banheiro fazer xixi”.

A história se torna encrespada a partir do capítulo 6, ao qual o leitor chega de duas maneiras. Se for cristão complacente, com uma das virtudes teologais: a paciência. Se for dos irascíveis, irritando-se com certos esclarecimentos: “Líamos Rilke juntos”, seguindo-se uma citação errada em alemão. Intercalam-se cenas de sadismo, sodomia, chicotadas, talvez até um assassínio na praia deserta por uma vítima sequiosa de misturar seu próprio sangue com o sêmen de seu domador-amante. Tudo isso enquanto Paul/Paulo Morel/Morais faz flexões na prisão rememorativa, imitando os Panteras Negras que se mantinham em forma numa cela americana.

Já grogue, como se tivesse tomado vidros de pílulas para dormir, o leitor lembra confusamente que o ideal do narrador é ter uma casa com quatro mulheres ao mesmo tempo, uma poligamia saudita na avenida Vieira de Souto em Ipanema. Os ainda acordados copiam a advertência: “Em todo o Museu do Louvre só escapa a”Batalha” de Uccello. O resto é lixo”. Indeciso entre tanto maniqueísmo de lixo literário e luxo de aposentos que provocariam gritos de aprovação do costureiro Dener, o leitor heroico continua. É o espermatozoide que venceu a batalha exaustiva de chegar ao cerne do livro. E, para a multidão que se deteve cinco, dez, vinte, cinquenta, cem páginas antes, declara que o que se leu não era um livro – palavras do autor, que, erudito, elucida ainda: “Apenas uma pequena biografia, mal escrita. A story told by a fool…

Não soa a uma confissão extorquida sob tortura. Não há edemas no corpo gráfico: só cansaço dos tipógrafos, do último leitor e enfado pelo tempo perdido. Mas quem se lembra da citação completa de Macbeth acrescenta: “Uma história contada por um idiota e não significando nada”. Que poderia ser o epitáfio de um bom contista ao navegar os mares nunca navegados do romance, que não é um almanaque de citações, de luxúria de segunda mão ou pensamentos de terceira. Se a literatura brasileira já tinha Um Ramo para Luísa para o bom contador de histórias José Condé, com este O Caso Morel conta com uma faustosa coroa fúnebre para uma carreira de romancista morta no primeiro esforço. Requiescat em pacem.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1973–7AD) 2023. “O resto é lixo. O Caso Morel, Artenova, 181 páginas.” In Grandes contistas brasileiros do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 10:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.