Toynbee e seu panorama de esperanças e pessimismo

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1978/5/20. Aguardando revisão.

Uma frágil película de terra, água e ar: são os ingredientes indispensáveis para a vida e cujo conjunto forma a biosfera, neologismo criado pelo filósofo e paleontólogo Teilhard de Chardin. A biosfera, porém, foi invadida por um de seus filhos – o ser humano – armado de uma sanha destrutiva potencialmente mortal. Através de um apavorante arsenal letal o homem vem acumulando perigos em todas as áreas da vida: consumindo reservas minerais que se estinguem sem retorno, como o petróleo, o carvão, o minério de ferro; poluindo com os gases mortíferos os rios, o oxigênio respirado por pulmões humanos em uma metrópole como São Paulo ou Tóquio; tornando o mar um depósito cumulativo de lixo onde a vida desaparece. Pior do que tudo: o homem não se contenta em destroçar a própria mãe, como Nero e penetrando o segredo da fissão nuclear despeja sobre Nagasaki e Hiroshima o genocídio político-científico-militar deliberado. Esse membro entre outros membros de todas as espécies vivas da flora e fauna mantidas pela biosfera detém agora o poder sobre-humano de assassinar toda a humanidade e levar de roldão, com o suicídio da espécie humana, o colapso final do próprio planeta Terra, a Mãe originária de cujo ventre ele emergiu.

Em seu livro publicado postumamente no Brasil (no original inglês Mankind and Mother Earth) o supremo historiador do século XX, o inglês Arnold Toynbee inicia o desvendamento das conquistas e retrocesso humanos e fecha essas 723 páginas de um texto comparável a uma obra-prima ao mesmo tempo da filosofia, da erudição histórica, da literatura e da indagação ética de raízes acentuadamente místicas.

Não se prendendo a dogmas, é evidente que Toynbee irrita todos os acometidos de fanatismos – ideológicos, religiosos, raciais, culturais – pois sua obra vasta e insuperável em toda a historiografia moderna e consubstanciada nos 12 volumes grossos de sua magistral A Study of History desarma um a um todos os argumentos de qualquer determinismo apriorístico. De Spngler ele toma a tese pessimista de decadência da civilização ocidental para transformá-la em sua antítese: sim, as civiliazções, como os organismos vivos, nascem, crescem, atingem o seu apogeu e morrem, esclerosadas. Diagnostica porém e sem hesitar: morre o tipo de civilização ocidental, criadas no laboratório do arrogante homem branco e que desemboca na adoração do Estado como divindade máxima, na alienação do homem com relação a seu trabalho nas linhas de montagem e na competição mortífera que o laissez-faire econômico transformou na arena sangrenta em que a guerra é a continuação da concorrência entre nações, classes sociais, raças e segmentos humanos por meio do canhão, da guerra bacteriológica, da bomba atômica e atualmente da bomba de nêutrons e das substâncias químicas que paralisam populações inteiras quando misturadas à água dos reservatórios públicos ou disseminadas por aviões inimigos. Ao nazismo e às espúrias teorias pseudocientíficas da “superioridade genética da raça branca” esboçadas pelo Conde de Gobineau e colocadas em prática por Hitler ele opõe o confronto de nada menos que 21 civilizações que surgiram e se metamorfosearam ou desapareceram desde o período paleolítico até hoje. Isto é: desloca o centro da civilização da Europa para uma pluralidade de polos de civilização, todos mais antigos do que a civilização tecnológica, escravocrata e racionalista do homem branco. Firmemente alicerçado em fontes arqueológicas, estuda a aurora da civilização na Suméria, na Mesopotâmia e – fato inédito – imbui-se de conhecimentos profundos das civilizações teístas do Oriente, o único repto à crise moral do homem moderno em sua escolha derradeira entre o Apocalipse da destruição de toda a humanidade ou a opção pelo Estado mundial em que a solidariedade e a cooperação substituiriam a suicida opressão de maiorias por minorias denunciada por Marx na Inglaterra no século passado.

Herético, iconoclasta, Toynbee não endossou as teses do Iluminismo, segundo as quais a História seria o relato do inevitável e crescente progresso humano, optando, ao contrário, por uma radicação voluntária e corajosa na ética de filósofos como Kant, que não aceitava o estuda da História como a série de guerras e desastres sem significado unificador e transcendental, ou como Hegel, que admitia a evolução espiritual da humanidade como imune à derrocada material dos Impérios, nações e épocas.

Se não titubeava em recorrer à religião e mesmo à teologia para explicitar a evolução do homem primitivo ao homem que ele se recusa coerentemente a chamar de homo sapiens (que “sabedoria” haveria nas atrocidades dos seres humanos cometidas contra seus semelhantes?), Toynbee tampouco deixa de utilizar concepções nada ortodoxas da ciência. A teoria da evolução de Darwin, por exemplo, ficou alterada essencialmente com a intervenção material maciça e impune do Homem que eliminou todas as espécies que lhe são nocivas, destruindo o delicado e vital equilíbrio ecológico entre flora e fauna. Aproximando-se das grandes religiões da Índia, o Hinduísmo, o Budismo, o Jainismo, ele questiona a colocação grega, retomada pelo Renascimento italiano, que distinguia no ser humano o centro do universo, o Rei da Criação, feito à imagem e semelhança de um Deus antropomórfico:

“A progressão da vida na biosfera tem valido seu preço em angústia? Um ser humano vale mais do que uma árvore, ou esta vale mais do que uma ameba?”

e denuncia o materialismo intrínseco do poderio humano:

“A progressão da vida produziu uma série ascendente de espécies apenas se calcularmos a ascendência em termos de poder (grifo nosso). A humanidade é a espécie mais poderosa que surgiu até agora, mas é, por si só, má.”

Para concluir que o homem tem o único aferidor da justiça ou maldade de seus atos: a consciência, o juiz inabalável que condena e abomina o mal. Toda a História conflui assim para julgamentos éticos: o napalm usado pelos norte-americanos no Vietnã e pelos cubanos em Angola, a escravidão dos prisioneiros na Grécia e na Roma antiga, o canibalismo, o genocídio dos armênios pelos turcos e dos judeus pelos alemães, a miséria a que está relegada a maioria dos bilhões de habitantes da cápsula espacial Terra – não são todos resultados de um sufocamento da consciência humana pela desumanidade?

Substituindo a seleção natural descrita por Darwin, ele diagnostica o ser humano como a espécie mais poderosa em termo de destruição artificial de todas as demais espécies que povoam a biosfera:

“o homem é o primeiro dos habitantes da biosfera a ser mais potente que ela própria”.

Com seu corolário inexorável:

“Se o homem destruir a biosfera, irá exterminar a si mesmo, bem como todas as outras formas de vida psicossomática sobre a superfície da mãe da vida, a Terra.”

A partir desta constatação da ambivalência moral da ciência e da tecnologia, Toynbee relaciona a finitude do homem, mortal, com um reino que está aquém e além da biosfera física: o reino espiritual, imaterial, invisível. E reconhece o nódulo central da existência efêmera humana: não o domínio material sobre o ambiente, mas o domínio espiritual sobre si mesmo. Discerne entre o domínio do mundo pelo homem pregado no Velho Testamento e a resposta cristã do amor a seu semelhante, capaz de superar o próprio egoísmo, confirmado pelo Tao tê Ching chinês:

“Quanto mais armas aguçadas houver,

Mais incivilizada crescerá a terra inteira.

Quanto mais artífices engenhosos houver,

Mais instrumentos perniciosos serão inventados.

Quanto mais leis forem promulgadas,

Mais ladrões e bandidos haverá”.

Vivendo simultaneamente entre o real e o transcendental, o homem “parece que não conseguirá salvar-se da destruição de seu poder e ganância materiais diabólicos, a menos que passe por uma mudança em seu coração, a qual o leve a abandonar seu objetivo presente, adotando o ideal contrário”, o pregado por Buda e São Francisco de Assis. Se toda a sua vasta obra historiográfica se baseia na teoria do desafio apropriado que cada época e cada civilização dá aos perigos que as rondam, o desafio do século XX é mais do que nunca ético: poderá o homem comum por em prática a compaixão pelo próximo, o desprendimento altruísta, os preceitos pregados e postos em prática pelos santos? Seria concebível que “ao invés de destruir a biosfera, o Homem use o poder que tem sobre a mesma, para substituir o estado natural por um estado de Graça em que prevaleça o amor”? O presunçoso e autorrotulado homo sapiens saberá admitir em tempo que “a tecnologia é apenas uma condição”, uma possibilidade paralela à dimensão moral e espiritual do Homem?

Durante 600 páginas, aproximadamente, o grande historiador inglês cobre o desdobramento daquilo que ele chama de “o Oikoumene”. Isto é: o habitat do ser humano: as civilizações de todos os continentes e não mais daquele arrogante fragmento geográfico da Ásia, a Europa beligerante e imperialista. A Suméria, o Egito, a civilização andina e a omeca, maia e asteca, a Síria, a Grécia, a Índia, a China, a Pérsia (atual Irã), Roma, o mundo islâmico, o mundo bizantino, a Cristandade ortodoxa oriental, o Sudeste Asiático, o Japão, a civilização ocidental são algumas das etapas estudadas em capítulos que não aceitam mais a divisão por Estados mas preferem justapor no tempo e no espaço civilizações regionais simultâneas.

Os descobrimentos portugueses, a chega à Índia por Vasco da Gama, ao Cabo da Boa Esperança, na África, por Bartolomeu Dias, a circum-navegação do globo por Magalhães entrelaçaram essas civilizações coevas e independentes e selaram o destino de milhões de asiáticos, nativos das Américas e africanos com o domínio tecnológico e predatório do homem ocidental. Já a Revolução Industrial inglesa, de meados a fim de 1700 foi além: inverteu a relação entre o homem e seu ambiente, ameaçando ambos da extinção inédita da História da nave espacial Terra.

As consequências da Revolução Industrial inglesa são quantificadas na maior parte e o quinhão de bem-estar e conforto materiais maiores que trouxe a uma parte da humanidade contrasta com seus males: aumento vertiginoso da população mundial, através das descobertas médicas que lograram o prolongamento da vida humana, sem um decréscimo da taxa de natalidade global, a disparidade na distribuição de riquezas e de terras, com a concentração em poucas mãos de porções leoninas do poder econômico e político, o êxodo da massa rural, sem emprego numa lavoura crescentemente mecanizada, a par do aumento geométrico das favelas e cortiços nas megalópoles já quase totalmente incontroláveis, elas mesmas, por administrações municipais arcaicas, criadas para atender a problemas menos urgentes e de dimensões menores; a cobiça desmesurada dos industriais, explorando a classe operária, a poluição ambiental mortífera, etc. Do ponto de vista dos outros continentes, a colonização foi uma sequela imediata da primazia técnica europeia sobre os demais povos do globo: “já por volta de 1871, as potências ocidentais e a Rússia dominavam em todo o mundo”. Nada desse progresso teve um paralelo de elevação das potencialidades morais e espirituais do Homem. Câncer até hoje inextirpado, o Estado nacional demonstra ser hoje um anacronismo total que só um Estado planetário com poderes transnacionais pode debelar. O único progresso ético obtido foi o de se reconhecer que o Estado tem que zelar pelo bem-estar de seus cidadãos, criando o Welfare State, além dos progressos contra o sofrimento e contra a morte prematura que representaram os anestésicos, o transplante de órgãos, os defensivos como o DDT contra os insetos devoradores de colheitas, a adoção de medicinas preventivas contra epidemias como a febre amarela e a malária.

Qualquer Estado nacional residual, Toynbee crê firmemente, é fonte de belicosidade, de defesa de interesses egoístas que se opõem aos interesses da coletividade planetária. Pari passu, a excessiva especialização dos conhecimentos criou ignorantes de um novo tipo, os que nada sabem fora de sua área delimitadíssima e altamente pormenorizada de saber fracionado do todo. Da mesma forma, a burocracia, o gigantismo da massificação não permitiram que se desenvolvessem relações pessoais e entre as pessoas e os funcionários desse Leviatã todo poderoso e moderno: o aparelho estatal.

Nas linhas finais desse panorama conflituoso de esperanças veladas e pessimismo, Toynbee não fez vaticínios, embora aponte soluções éticas. Propõe a questão-chave para todo o futuro: o Homem assassinará a Mãe-Terra e cometerá o suicídio ou a redimirá coibindo a cobiça e a agressividade? Esse é o enigma básico do Homem atual.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Toynbee e seu panorama de esperanças e pessimismo .” In Conferências, ensaios e alguns artigos especiais, edited by Fernando Rey Puente, 9:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.