Svevo. Incompreendido, revolucionário. E sem sucessores na Itália

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1982/06/19. Aguardando revisão.

Em vão a crítica literária contemporânea, principalmente na Itália, tenta explicar a incompreensão que se abateu sobre a obra revolucionária do novelista italiano Ítalo Svevo, surgida no início deste século e sepultada em meio ao quase absoluto silêncio. Pseudônimo de Ettore Schmitz, próspero industrial de Trieste, só tardiamente reconhecido como mestre da prosa moderna e mesmo assim graças à intercessão de grandes críticos estrangeiros - à frente de todos seu “descobridor” e incentivador James Joyce -, Ítalo Svevo viveu em absoluto contraste com as correntes literárias predominantes nas duas primeiras décadas da vida artística italiana.

Fora poucas revistas, de reduzida tiragem, como Leonardo, Hermes, Lacerba e outras, a Itália literária se dividia em três campos opostos e irreconciliáveis. De um lado Gabriele D’Annunzio, o propugnador de uma ideologia “erótico-estética”, e de um sentimento crepuscular de decadência da Europa, da arte e da própria literatura, inventando personagens heroicos, dos quais ele próprio seria a personificação como “homem do Renascimento”, segundo as ideias do historiador suíço Jacob Burckhardt, e englobando perigosas interpretações do “super-homem” saído da mente insana e metafórica de Nietzsche. De outro, Filippo Tommaso Marinetti, que publicava uma revista, Poesia, de tom internacional, sofisticada, cosmopolita e que, aliado aos remanescentes do cubismo, do surrealismo e do dadaísmo de Tristan Tzara, renegava o passado e era “um petardo lançado rumo ao futuro”: a poesia deveria ser moderna, dinâmica como as máquinas industriais, deveria celebrar a velocidade dos automóveis e dos obuses, cantar a guerra, o heroísmo, a maneira livre de usar as palavras fora de qualquer figurino literário. A esta bagagem já gasta na Europa e que os realizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, traziam para cá como “novidades”, opunha-se, inflexível, a postura ética de Benedetto Croce, o grande filósofo e crítico literário italiano que, ao liberar a arte de interpretações parciais socioeconômicas, refutava, com a mesma intensidade, a ditadura da “arte pura” que, no fim, levaria ao absolutismo, primeiro na arte e depois ao Estado absoluto, senhor de todos os indivíduos.

Ora, Ítalo Svevo, na sua longínqua Trieste, longamente disputada pela unità italiana, pela Áustria e pela Iugoslávia, tinha como principal obstáculo assimilar o italiano “puro” falado na Toscana e liberto do dialeto triestino. Filho de um comerciante alemão judeu e de mãe católica italiana, Ettore Schmitz-Ítalo Svevo estava completamente assimilado como judeu num país esmagadoramente católico e sem mácula de antissemitismo, sem isolar-se em qualquer gueto, nem escrever em iídiche: seu propósito era ser um grande escritor italiano e desesperadamente buscou a compreensão de seus compatriotas, que o ignoraram quase que totalmente durante sua longa vida, com exceção do poeta Eugênio Montale, único a precocemente antever a grandeza de Svevo.

Para romper o cerco duplo da profissão imposta pela decadência financeira do pai e da ausência de círculos literários que discutissem a sua obra, negligenciada pelas editoras e custeada pelo próprio autor, Svevo dirige-se humildemente a Pirandello, em busca de ajuda, mas o extraordinário autor de Fu Mattia Pascale e grande renovador moderno do teatro europeu permaneceu surdo a seus pedidos de atenção. Atraído desde cedo pelo teatro, Svevo deixou comédias inacabadas e considerava o teatro a “forma das formas”, a única forma de arte que se transmitia diretamente dos intérpretes ao público, através dos diálogos, dos gestos, dos timbres de voz. Sua intenção era sempre introspectiva, pronta a analisar o ser humano em todas as suas manifestações mais secretas da mesquinharia à rara grandeza, sem nada de espalhafatoso nem retórico, que “enchesse os ouvidos” do leitor de uma eloquência verbal rumorosa e vazia.

Inicialmente seguidor de Zola e sua escola naturalista, Svevo, porém, logo corrigiu suas leituras, pautando-as pelo exemplo magnífico daquele que é talvez o grande novelista da Itália, o Balzac siciliano: Verga e sua literatura calcada na verdade realista, o verismo. A época, porém, além da distância, foi funesta para o reconhecimento oportuno de Svevo: quando finalmente seus livros eclodem em Paris com a força de uma descoberta de valor continental, o fascismo de Mussolini destruía qualquer veleidade literária de quem não fosse forte, são, jovem, fanático, de sangue italianíssimo. O Estado, não o indivíduo, tinha agora importância, a coletividade tinha de sacrificar sua juventude e desígnios imperialistas no Norte da África para reconstrução do “Império” italiano, e todas as formas de atividade pessoal, inclusive a literatura, deveriam forjar um clima de otimismo, glória militar, fanfarronice e demagogia sanguinária. O turbilhão dos acontecimentos políticos assestou o golpe de misericórdia aos sonhos de notoriedade de Svevo. Pouco tempo pôde gozar do nimbo de glória autêntica que importantes críticos franceses como Valéry Larbaud e Bernard Crémieux teceram em torno a seu nome, orientados por James Joyce, seu amigo e casualmente professor de inglês durante sua permanência em Trieste.

Os poucos leitores profissionais de editoras italianas ou críticos de jornais que se referiram especificamente à escassa obra de Svevo – Uma Vida, Senilidade, A Consciência de Zeno – notaram sempre como “defeitos” uma secura de frases, uma introspecção abstrata, uma ausência de ação exterior desconcertantes. Seria uma novela psicológica? – indagavam-se atônitos, diante de uma criação original, inédita na literatura italiana daquele século.

Numa carta de profundo valor, dada a sua raridade e clareza, Ítalo Svevo desfaz, de uma vez por todas, o equívoco que se criou em torno do personagem de Zeno e seu longo monólogo com um suposto psicanalista, para evocar a sua infância e assim refletir melhor sobre os traumas que o impedem, no plano prático, de deixar de fumar e, no plano metafísico, de ter uma crença no sentido da vida e numa vida além da morte:

“Mas existe a ciência para ajudar-nos a nos conhecer. Especifiquemos imediatamente: a Psicanálise. Não receie que eu fale demais sobre o assunto. Só aludo a ela para adverti-lo de que nada tenho a ver com a Psicanálise e disso lhe darei a prova. Li alguns livros de Freud em 1908, se não me engano. Agora se costuma dizer que Senilidade e A Consciência de Zeno foram escritas sob a influência da Psicanálise. Quanto a Senilidade é fácil responder: publiquei Senilidade em 1898 e naquela época a Psicanálise não existia ou, se tanto, se chamava Charcot. Quanto a Consciência, eu durante muito tempo pensei que a devia a Freud, mas parece que me enganei. Vamos devagar: há duas ou três ideias no romance que são tiradas integralmente de Freud. O homem que a fim de não assistir ao funeral de um tal que se dizia seu amigo e que era na realidade um seu inimigo e segue outro enterro é freudiano com uma coragem da qual me orgulho. O outro que sonha com acontecimentos remotos e no sonho os altera como queria que tivessem sido é freudiano de forma idêntica à que usaria qualquer pessoa que conhecesse Freud. Trata-se realmente de um parágrafo do qual me orgulharia se não contivesse uma ideiazinha minha que me dá prazer. No entanto, durante longo tempo eu acreditei que estava fazendo obra de psicanalista. Hoje devo dizer que, quando publiquei o meu livro do qual, com todos os que publicam, esperava sucesso, me encontrei circundado de um silêncio sepulcral. Hoje em dia, falando disto, sei rir e teria sabido rir a respeito, mesmo àquela época, se eu fosse mais jovem. Ao contrário, sofri tanto (com essa indiferença) que criei o axioma: a literatura não é coisa para os velhos. Um homem já calejado de insucessos como eu não sabia suportar tal situação que me tirava o sono e o apetite. Naquela época chega à minha casa o único médico psicanalista de Trieste e meu ótimo amigo, o dr. Weiss, e, inquieto, olhando-me nos olhos, me pergunta se o médico psicanalista de Trieste de quem eu tinha zombado no meu romance era ele. Ficou logo patente que não podia ser ele porque durante a guerra ele não tinha praticado a Psicanálise em Trieste. Reconfortado, aceitou o meu livro com dedicatória e tudo, e prometeu estudá-lo e fazer uma relação sobre ele numa revista psicanalista de Viena. Durante alguns dias pude dormir e comer melhor. Eu estava perto do sucesso agora, já que a minha obra seria discutida numa revista mundial. Mas, quando o revi, o dr. Weiss me disse que não podia falar do livro porque não tinha nada a ver com a Psicanálise. Isso me doeu porque teria sido um belo sucesso se o Freud me tivesse telegrafado:”Obrigado por ter introduzido na estética italiana a Psicanálise”… Hoje já não me ressinto mais. Nós, romancistas, stamos acostumados a brincar com as grandes filosofias e não somos capazes de esclarecê-las. Nós as falsificamos, mas as humanizamos. O super-homem, quando chegou à Itália, não era exatamente aquele descrito por Nietzsche…”

Com seu fino senso de humor, sua autoironia cortante, Ítalo Svevo vem sendo incompreendido mesmo postumamente. Leitores apressados não hesitam em rotulá-lo de “intérprete do pessimismo judeu”, como se os grandes escritores judeus ou semijudeus como Proust, Montaigne, Bernard Malamud, Isaac Baashevis Singer, Saul Bellow, Philip Roth e outros não tivessem uma visão plural do homem: não apenas pessimista, mas poética, ética, religiosa, surrealista, humorística… O fato é que a polivalência de Svevo não cabem em nenhum rótulo genérico apriorístico, justamente por trazer à literatura italiana um sopro de cosmopolitismo que só mais tarde o exemplo luminoso de Pavese confirmaria.

Na biografia póstuma de seu marido, Livia Veneziani Svevo: Vita di Mio Marito con inediti di Italo Svevo (Edizioni dello Zibaldone, Trieste, 1951), dá-se também uma interpretação surpreendente do célebre encontro entre Proust e Joyce, furtivamente reunidos em Paris. Contrariando o relato anterior da responsável pela divulgação do Ulysses de Joyce, Silvia Beach, proprietária da Livraria Shakespeare & Co., em Paris, nas primeiras décadas deste século, Ítalo Svevo dá um testemunho diferente desse gélido choque: Proust, saindo em meio àquelas que sua empregada chamava de “papeladas de Monsieur e de centenas de revisões, correções e novas páginas de sua Em Busca do Tempo Perdido que enlouquecia os tipógrafos, apresentado ao magnífico escritor irlandês lhe indaga, distraído:”Conhece a Princesa X?” “Não”, respondeu Joyce, “e não me importo a mínima!”. Separaram-se e não se reviram mais.

Sempre às voltas com faturas, administração de uma firma e outros papeis comerciais, Svevo passara, durante muito tempo, a considerar a literatura uma paragem utópica, inacessível, sufocando seus anseios literários na leitura dos grandes escritores franceses, ingleses, russos, italianos e cultivando o estudo com afinco e constância do violino, como consolo para a perda inestimável da literatura. Sua viúva evoca eloquentemente o espírito esportivo do marido, que esconde a tristeza funda do não reconhecimento do seu talento na Itália, por cuja unidade nacional ele lutara desde cedo, contra os austríacos que queriam anexar Trieste a seu império em esfacelamento. A bondade de Svevo, o desvelo com que tratava os humildes, que o adoravam, sua corajosa rebeldia aos invasores austríacos, seu desejo insopitável de se tornar parte da cultura italiana – tudo toma uma feição nova quando James Joyce, inicialmente seu professor de inglês, entusiasma-se com a leitura de seus romances. Para o velho escritor triestino era como “o milagre de Lázaro”, que lhe dava nova vida, depois de tantas décadas morto. Joyce, com sua generosidade calorosa, não se limita aos elogios verbais, de si tão raros em crítico tão contundente quanto ele com relação à literatura sua contemporânea, não: quer que se reconheça a grandeza de Svevo na França. Faz chegar às mãos dos diretores das revistas mais influentes de Paris os romances de Svevo, encoraja-o sem pieguismos, escreve-lhe, com graça infinita, cartas em dialeto triestino, fazendo comentários obscenos e jocosos sobre a Escola Berlitz, onde foi sacrificado professor de línguas durante toda a sua vida, quase.

Até hoje, Svevo não deixou sucessores nem imitadores da sua arte única no panorama italiano. Em seus livros, as relações entre os seres humanos, sem dúvida, estão praticamente toldadas pelos instintos mais escuros do egoísmo, da cobiça carnal, do interesse monetário, da mentira, do desespero, da solidão, da angústia, da atração pelo suicídio como forma de pôr fim a uma vida monótona, sem futuro, arquejando sob o materialismo de promissórias gigantescas que passam pelas mãos de bancários famintos de realização e de sonho. Mas Svevo não reduz tudo a uma função social, de castas, por isso a contracapa brasileira de Senilidade, da Editora Nova Fronteira, choca com sua referência deformante ao amor entre um burguês e uma operária; seria como descrever Capitu como uma senhora de lides domésticas talvez envolta em adultério com parasitas da Fazenda pública ou algo semelhante. Felizmente, a profundidade de Svevo escapa a esses marxismos da vendagem mercantilizada até o absurdo: é certo que na sua Trieste há classes sociais, mas não castas indevassáveis, nem seus romances conduzem a uma visão simplista, leninista, da vida: que grande escritor ele seria, caso assim fosse? Um funcionário moscovita do Sindicato das Letras?

Svevo nunca apresenta uma versão maniqueísta, fácil, da complexidade das relações humanas: seus personagens mudam de coloração conforme são vistos por outros personagens e assumem outras funções de acordo com o matiz que outro personagem lhe traz: a Angiolina idealizada por Brentani, em Senilidade, é a Angiolina grosseria e ridente vista por Balli, o escultor amigo de Brentani; da mesma forma a irmã de Emílio Brentani, Amália, é um ser nobre que se apaga por detrás do irmão ao mesmo tempo que é uma feiosa digna de escárnio por suas roupas de mau gosto aos olhos críticos e impassíveis de Balli.

Alguns críticos franceses quiseram ver na obra de Svevo uma certa semelhança com a de Marcel Proust, semelhança que o autor italiano não conseguiu encontrar. Ela existe, não tanto no estilo quanto nas intermitências amorosas de Zeno, o personagem atormentado por amores sucessivos por várias mulheres, como o narrador de À Sombra das Raparigas em Flor hesitava entre uma e outras das componentes da petite bande da praia de Balbec. Se Proust é incomparavelmente mais amplo em seu afresco histórico da aristocracia francesa, da França provinciana, da chusma de personagens populares principalmente da parte final de seu imenso romance, Svevo limita sua ótica a fatias menores da vida humana que submete a seu microscópio. Mas não é um instrumento científico, inerte, que meramente decompõe as cobaias humanas e as classifica. Humaníssimo, Svevo faz-se coparticipe das disparidades humanas, em momento algum se destaca da massa de seus personagens para rir-se deles ou mostrar-se superior à sua condição humana. Ao contrário: é sempre um “nós” que preside a todas as ações, nunca um frio “eles” servidos como modelo para a irrisão e a chacota. É tímida, velada, a conclusão amarga que ele retira da existência:

“A dor e o amor, a vida em suma não deve ser considerada como uma doença só pela razão de que faz sofrer.” (A Consciência de Zeno, p. 354, Editora Minerva, Lisboa sem data).

A paisagem acentua sempre o tom emotivo das cenas, humanizados os mares, montanhas, lua, bosques:

“A luz da lua não lhes mudava a cor. Os objetos cujos contornos se tornavam mais precisos não se iluminavam, antes velavam-se de luz. Sobre eles estendia-se um candor imóvel, mas lá embaixo a cor deixava entrever o seu eterno movimento, brincando com o prateado da sua superfície, a cor se calava, adormecida. O verde das colinas, as cores todas das casas permaneciam escurecidas, e a luz de fora, estranha, era um eflúvio que saturava o ar, branca, incorruptível, porque nela nada se fundia” (Senilidade, Editora Nova Fronteira, p.32).

O comércio da beleza, o contrato de casamento da bela Angiolina com o alfaiate corcunda da aldeia distante desperta a repulsa pelas barreiras que revela existirem ainda diante da livre escolha do parceiro, da submissão da mulher ao mundo de Dons Juans sôfregos e impunes, a situação de penúria sendo mais do que financeira, uma situação de desamparo diante de um mundo materialista, utilitarista e impávido, em que se estabelece uma relação impossível de valor financeiro para um corpo, um sentimento, uma obra de arte, uma vida…

É verdade que o trecho final de A Consciência de Zeno é trágico, sombrio, profético, descrente: Svevo era ateu e tudo se desfaria na morte, que poria fim àquele insólito momento breve de intimidade entre dois seres que creram que se amaram, que viveram juntos e dos quais nem a memória resta hoje:

“Talvez que uma catástrofe inaudita, produzida pelas máquinas, nos abra de novo o caminho da saúde. Quando os gases asfixiantes já não bastarem, um homem feito como os outros inventará, no segredo do seu gabinete, um explosivo em comparação do qual todos aqueles que nós conhecemos parecerão brincadeiras de crianças. Depois, um homem feito também como os outros, mas um pouco mais doente do que os outros, roubará o explosivo e dispô-lo-á no centro da Terra. Uma detonação formidável, que ninguém há de ouvir – e a Terra, voltada ao estado de nebulosa, continuará o seu curso nos céus libertos de homens, sem parasitas, sem doenças”.

Mas esse moralista desiludido, embora conhecendo a crueldade, a indiferença e a mentira humanas, não se atém a uma descrição chorosa da dor humana de viver: seus personagens como que se sublimam através do sofrimento: Zeno traduzindo para todo o universo a doença que o afligia, num mundo sem deuses nem sentido, a não ser o momentâneo da beleza, da retidão de caráter, do amor, Emílio Brentani dando à sua inconstante Angiolina um aspecto menos falaz, mais duradouro e nobremente sereno, fundindo a sua lembrança com a lembrança da irmã morta em circunstâncias tragicamente detonadoras da sua solidão imutável e esquálida:

“Durante muito tempo a sua aventura o deixou desequilibrado, descontente. Passaram pela sua vida o amor e a dor e, privado desses elementos, encontrava-se agora com a sensação de alguém a quem tivesse sido amputada uma parte importante de seu corpo. Mas o vazio acabou por encher-se. Renasceu nele o amor pela tranquilidade, pela segurança, e o cuidado de si mesmo afastou-o de qualquer outro desejo.

Anos mais tarde olhava com certo encanto admirado para esse período de sua vida, o mais importante, o mais luminoso. Vivia como um velho com as recordações da juventude. Em seu espírito de literato ocioso, Angiolina sofreu uma metamorfose estranha. Conservou inalterada a beleza, mas adquiriu ainda todas as qualidades de Amália, que nela morreu uma segunda vez. Tornou-se triste, desconsoladamente inerte, seu olhar adquiriu uma limpidez intelectual. Via-a diante de si como sobre um altar, a personificação do pensamento e da dor, e amou-a sempre, se amor é admiração e desejo. Ela representava tudo o que de nobre ele pensara e observara nesse período.

Sua figura, além do mais, tornou-se um símbolo. Olhava sempre para o mesmo ponto do horizonte, o futuro do qual partiam os resplendores dourados que reverberavam em seu rosto róseo, luminoso e branco. Esperava! A imagem concretizava o sonho que ele uma vez erguera junto a Angiolina e que a filha do Povo não soubera compreender.

O símbolo alto, magnífico, reanimava-se às vezes para tornar-se mulher-amante, mas sempre uma mulher triste e pensativa! Sim! Angiolina pensa e chora! Pensa como se lhe fosse explicado o segredo do universo e da própria existência humana; chora como se no vasto mundo não houvesse encontrado um Deo gratias qualquer.”

Em suas minuciosas anotações sobre a vida diária, Svevo não traça um retrato de uma só cor de tudo o que testemunhou: o pessimismo alterna-se com o prazer de estar vivo, a intensidade dos sentimentos combinando-se com a intensidade das cores, das luzes, dos pensamentos e julgamentos humanos. Como ele próprio confessara antes do acidente automobilístico que lhe interrompia a vida aos 67 anos de idade, ele viveu “uma vida que não parece bela, mas foi adornada de tantos afortunados afetos, que eu aceitaria revivê-la”.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Svevo. Incompreendido, revolucionário. E sem sucessores na Itália .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.