Um clássico velhaco

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1975-7-16. Aguardando revisão.

Ele conhece a maioria das bibocas do Grande São Paulo. Nas espeluncas das ruas Itaboca e Aimorés, reduto do chamado baixo meretrício da capital paulista, aprendeu a jogar sinuca e traçar uma cervejinha gelada. E lá teria conhecido Malagueta, um velho mandrião que vive de expedientes, Perus, um jovem aprendiz de “virador”, e Bacanaço, malandro maduro, transpirando picardia.

Em 1963, com o apoio da Editora Civilização Brasileira, João Antônio Ferreira Filho, hoje com 38 anos, decidiu transportar para o papel as peripécias de tão folclóricas figuras. Iniciava-se, com raro brilho, o que seria uma inconstante carreira de escritor. Seus contos, sempre exaustivamente elogiados, ganhariam traduções em várias línguas. O escritor e crítico Marques Rebelo definiria João Antônio como o “clássico velhaco” da literatura brasileira. No entanto, apesar de todo o seu sucesso, o autor preferiu silenciar durante vários anos, dedicado exclusivamente a seu trabalho como jornalista. “Vivi uma briga permanente comigo mesmo”, ele confessa, rememorando, entre outras coisas, duas internações no Sanatório da Muda da Tijuca (RJ). “Sou uma pessoa pouco gregária, de difícil trato”, completa. “E por isso reuni várias inimizades, além de muitos calotes.”

O ano de 1975, em todo caso, promete saborosas gratificações para João Antônio. Até o fim deste mês a Civilização relançará Malagueta, Perus e Bacanaço, além de publicar três novas obras: Leão de Chácara (contos), Corpo a Corpo e Casa dos Loucos (coleções de reportagens, perfis, crônicas). Ao mesmo tempo, volta às livrarias uma antiga coleção da mesma editora, os Livros de Cabeceira do Homem e da Mulher, totalmente replanejada por João Antônio. Sem contar que a Rede Globo de Televisão já programou um de seus casos especiais com as histórias dos três malandros. Embora o autor confesse que nenhum deles existiu na verdade: “Eles representam uma síntese de vários tipos gorkianos com que convivi”.

E que relação haveria entre tantos trabalhos diferentes? Entre a gente de Malagueta e os Livros de Cabeceira? “O escritor que existia em mim não morreu”, garante João Antônio. “Mas vários anos de jornalismo conseguiram fazer com que eu passasse pelos acontecimentos profissionalmente, sem dor.” Os Livros de Cabeceira, segundo ele, representariam um meio-termo entre as duas situações. “Pretendo que nesta segunda fase da coleção se esqueça o antigo tom intelectualizado e inglês da primeira, suspensa há uns dez anos, em benefício de um ar mais vivo, corajoso, curioso, brasileiro”, afirma João Antônio.

A sua ficção, a propósito, permanece bem próxima do seu trabalho de reportagem. “Curto cores das cidades, gravo diálogos ouvidos nos ônibus, me apaixono pelos ambientes, pelas pessoas e pelas histórias que escuto.” Foi assim que chegou à trama de Leão de Chácara e dos outros contos de seu segundo livro. “Sempre me identifiquei com os pingentes da vida”, diz ele, justificando a escolha de seus temas.

Filho de um motorista de caminhão, passou a infância e a adolescência nos subúrbios paulistas. Trabalhou como office-boy de uma refinaria, foi bancário, estafeta e caixeiro de mercearia. Para desgosto do pai, abandonou o emprego e resolveu estudar cinema e teatro na Universidade de São Paulo. Por volta de 1956, conheceu cineastas como Maurice Capovilla e gente de teatro – Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Oduvaldo Viana Filho. Seus companheiros do Arena paulista apostavam em seu talento de ator cômico – mas João Antônio preferiu escrever, baseando-se sobretudo nas lições de Lima Barreto, que considera o maior escritor da América Latina: “Ele, que também foi um pingente, jamais fez concessões a modismos literários ou aos poderosos. Pagou caro sua atitude. Tenho procurado ser como ele”. Talvez nem precise. Basta ser o que ele é.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1975–7AD) 2023. “Um clássico velhaco.” In Grandes contistas brasileiros do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 10:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.