Yourcenar, sempre pioneira. (segunda metade do artigo cuja primeira parte inserimos na seção acima consagrada a Virgínia Woolf)

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1982/01/23. Aguardando revisão.

Marguerite Yourcenar tornou-se uma nova religião e Martha Calderaro é a sua profetisa. Depois do sucesso retumbante e tardio de Memórias de Adriano, e de Zênon, o alquimista, vem-nos um trabalho escrito – precocemente, sem dúvida – em 1929. Realmente, apesar da sua linguagem velada, Alexis ou Tratado do Vão Combate (editora Nova Fronteira, tradução de Martha Calderaro) é uma obra pioneira pela audácia do seu tema e pela linguagem velada que ousa usar já há mais de 53 anos atrás.

Goethe argumentava que a verdade e a poesia se entrelaçam para formar uma terceira proposta: a da obra de arte, soma da realidade vivida pelo poeta e a soma de suas experiências em forma de drama, poema, memória, romance. Até que ponto Marguerite Yourcenar tem a ver com o que escreve e com a sua vida particular, reflexo da sua vida de artista, mas a esfera particular vetada a quem quiser bisbilhotar a sua vida íntima?

Em nenhum momento – a não ser, exclusivamente por sua criação literária, geralmente ambientada em épocas longínquas e que exigem demoradas pesquisas históricas – ela se confessou, nem quanto à sua maneira de escrever, nem quanto às esferas mais íntimas da sua vida, exceto, talvez, no prefácio que após a esta obra escrita – nota-se – em sua juventude.

Em primeiro lugar, se o romance em si revela uma ingenuidade e uma timidez hoje quase incompreensíveis depois das obras de Jean Genet, Marcel Proust, D. H. Lawrence, Henry Miller – sem falar na divulgação das obras demenciais do Marquês de Sade, o prefácio, escrito muitas décadas depois da incepção do livro de uma quase adolescente (ela tinha 24 anos de idade apenas ao escrevê-lo), contêm o lado amargo da experiência advinda depois dos decênios de publicação de Alexis. O ceticismo da autora se refere na contestação, desde os primeiros parágrafos, de qualquer mudança importante que tenha havido nos costumes, hoje enfeixados vagamente na lei da “moral e bons costumes” que pode ser interpretada ao bel-prazer de qualquer autoridade política, religiosa ou pode até cair sob a jurisdição de partidos políticos e do Grupo de Senhoras de Santana em Defesa da Moral.

Yourcenar constata, em 1963, que de 1929 até então durante esse intervalo de tempo, tanto as ideias como os costumes sociais e as reações do público modificaram-se, embora um pouco menos do que se possa supor. De fato, nesse intervalo sobrevieram as punições inenarráveis impostas a qualquer variante sexual nos campos de concentração nazistas bem como, na década de 50, o Wolfenden Report, apresentado ao Parlamento e aprovado pela rainha Elizabeth II, descriminalizou todas as atividades não heterossexuais; vários Estados norte-americanos aboliram as sanções penais contra tais práticas quando não constituíssem ultraje ao pudor e se desenrolassem entre adultos que mutuamente consentissem na relação a dois. Até a Associação Psiquiátrica Norte-Americana dignou-se a não mais considerar “um crime” ou “uma perturbação neurótica” a transgressão dos parâmetros sexuais convencionados como os únicos válidos pela maioria.

Confirmando a sua visão pessimista de que, embora, juridicamente, muita coisa possa ter-se modificado e tenha havido até uma aceitação, pelo menos aparente, da sociedade majoritária com relação a essa minoria desprovida de direitos, ela insiste: “Se bem que o assunto, considerado ilícito antigamente, tenha sido abundantemente tratados em nossos dias e inclusive explorado pela literatura, tendo adquirido, dessa forma, uma espécie de meio-direito de cidadania, parece, com efeito, que o problema íntimo de Alexis não é hoje menos angustiante ou menos secreto do que outrora”. Mais argutamente ainda ela ressalta: “Parece também que a facilidade relativa (tão diferente da verdadeira liberdade) que reina sobre o assunto em alguns meios muito restritos, não tenha feito outra coisa senão criar no público em geral um mal-entendido, ou uma prevenção a mais… os costumes, diga-se o que se quiser, mudaram muito pouco”.

Em seguida ela enumera uma série de obstáculos para a primeira libertação, a da linguagem, reflexo de uma situação estável: “enquanto o mundo das realidades sensuais permanecer cerceado e castrado por proibições”. Para logo, com lucidez, ela interligar os problemas da liberdade sexual e da liberdade de expressão. As épocas se sucedem, mas as mentiras, a hipocrisia, as dissimulações continuam, padrões vitorianos de que nem, ela acha, certas experiências pioneiras científicas de sexólogos do tipo de Kinsey-Report ou dos sexólogos Masters and Johnson nos libertaram. “A meta mais alta, a de conciliar, sem baixeza, a carne e o espírito” permanece eivada de barreiras, a menos das quais não é o conformismo.

Certamente, na França, desde os tempos de André Gide, aludiu-se a uma modalidade de vocabulário abstrato, que contava com a perícia e a cumplicidade do leitor na decifração de termos e textos diáfanos que mais encobriam do que elucidavam as questões a tratar.

Alexis quer registrar uma voz. Uma voz anti-Gide, daí o subtítulo claramente atigideano, pois se o romancista atormentado de Les Faux Monnayeurs antepusera a tudo um volume escrito na adolescência, Tratado do Vão Desejo, Yourcenar, mais cética, subintitula o seu de Tratado do Vão Combate. De que combate e de que vão desejo se trata? Da proposição temerária de que: “Tanto mais que há um fundo de puritanismo na preocupação de separar o prazer do restante das emoções humanas, como se ele não merecesse o seu próprio lugar”.

O livro inteiro é uma carta de despedida dirigida por Alexis à sua mulher, optando por uma cisão entre o prazer, desfrutado independentemente do amor, e as conveniências de um casamento. Marguerite Yourcenar atribui a todo um século romântico a idealização da pessoa amada, quando ele, em suas próprias palavras, prefere o prazer, independentemente dos deveres que este implica: “A procura de uma liberdade sexual mais completa e menos corrompida por mentiras”.

Essa separação digna, nobre, é um reforço da busca de si mesmo como o distanciamento menos egoísta que pode apresentar, altruisticamente, à mulher que abandona: “Existem certos momentos em nossas vidas em que somos, de maneira inexplicável, e quase aterradora, o mesmo ser em que um dia nos transformaremos”. Para Alexis, tornou-se definitivamente uma, indivisível, a sua constatação de que os díspares elementos que compõem a nossa vida não podem ser rotulados discricionariamente: isto é permitido; isto, não. Nem mesmo a arte é um substituto do que é insubstituível: o frêmito da vida. Os livros – ele conclui melancolicamente – “os livros não contêm a vida. Contêm apenas as suas cinzas”. Por isso os livros libidinosos e sem escrúpulos, que lhe estavam proibidos na biblioteca do avô – Laclos, Sade e outros – não contêm a profundidade com que os assuntos sensuais exigem ser tratados, já que decidem da infelicidade ou da efêmera aventura humana: “Livros que não costumavam colocar nas mãos das crianças. Estes não me agradavam. A volúpia – já o suspeitava – é assunto demasiado grave; deve tratar-se com seriedade tudo aquilo que é capaz de causar sofrimento”.

Toda esta longa carta é um auto-reconhecimento: doloroso, mas capaz de revelar a quem se examina os seus pontos reais, a sua autenticidade. Desde cedo ele não notara simplesmente que “não era como os outros”. Graças a um processo de auto-exame, ele não demora a concluir que “Eu me via transformado naquilo que eu era realmente porque todos nós seríamos transformados se tivéssemos a coragem de assumir a nossa própria personalidade”.

Às noções incutidas pelas Igrejas, de que o sentimento de culpa anuncia o estão de pecado em que estamos, ele opõe uma helênica sabedoria, antes da codificação da carte pela “bula” eclesiástica, que lhe ensina que antes do pecado há a volúpia e é a volúpia que nos torna conscientes de sermos, antes de tudo, um corpo. Ademais: um corpo dotado de leis próprias, de vontades, sonhos e até uma existência totalmente independente do confessionário. A Bíblia, a noção de danação, os conselhos para a prática da abstinência violam as leis, anteriores, do corpo. Não há um terceiro caminho; ou ele assume “que suas inclinações são mais poderosas – embora possam até parecer criminosas – e uma renúncia completa e talvez anti-humana”. Feita a escolha, a decisão é iluminadora. “Não soube, ou não ousei descrever-te, a adoração ardente que me inspiram a beleza e o mistério dos corpos nem (muito menos) como cada um deles, quando se oferece, parece trazer até mim um fragmento da juventude eterna… É que sou demasiado sensato para acreditar que a felicidade floresce apenas à margem de um erro e que o vício, não mais que a virtude, só pode dar alegria aqueles que o têm. Prefiro o erro (se é erro) à negação de si mesmo que é o limite da demência. A vida me fez aquilo que sou, isto é: prisioneiro (se assim se quer) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno e me entrego”.

Mesmo a cuidadosa tradução de Marha Calderaro deixa transparecer a delicadeza de sentimentos, as reticências de um texto já envelhecido na sua timidez em aceitar diagnósticos e ditames. Hoje, sem dúvida, apesar de toda a sua delicada discrição, Marguerite Yourcenar ousaria bem mais, depois que Baudelaire foi condenado pelo Ministério da Justiça francês por Les Fleurs du Mal e especificamente por Les Femmes Damnées. Alexis é assim menos do que um livro ultrapassado, um testemunho corajoso de uma época em que estava vivo ainda o processo contra Oscar Wilde na Inglaterra e o seu “amor que não ousa proclamar o seu nome”. De qualquer forma, é um livro involuntariamente otimista, pois ao consignar o silêncio que se abatia sobre as variantes escritas (não praticadas) já deixava antever um Reich e sua revolução do orgasmo e um Gay Movement nos EUA na luta das minorias eróticas por seus direitos pisoteados igualmente pelos eclesiásticos, partidos políticos, autoridades civis e militares e pela maioria esmagadora de todas as instituições que tutelam as vidas de seus cidadãos, incidindo em crimes contra a economia popular, o erário público, crimes de poluição e corrupção diários. Mas, ao contrário de Marguerite Yourcenar, é possível crer-se numa reforma dos costumes, num abrandamento da hipocrisia e da mentira e, quem sabe?, num futuro sem data em que todos possam aceder, sem prejuízo da coletividade, à expressão de sua autenticidade, integrados no trabalho comum em prol de uma sociedade integracionista e não discriminatória?

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Yourcenar, sempre pioneira. (segunda metade do artigo cuja primeira parte inserimos na seção acima consagrada a Virgínia Woolf) .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.