Manuel Bandeira, um poeta dez anos maior

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1978. Aguardando revisão.

A poesia de Manuel Bandeira, vista dez anos após sua morte, desmistifica a noção de “poeta menor” em que ele próprio se tinha, com modéstia raríssima no Brasil. Derivada da crítica inglesa, essa classificação hierárquica de major poet e minor poet revela-se claramente insuficiente para rotular a criação poética: há, de fato, poetas que traçam um painel versátil, profundo e vastíssimo do ser humano, como Dante e a dimensão moral e religiosa do homem; Shakespeare e a musicalidade do verso aliada à pintura da ambição pelo poder, à violência dos sentimentos humanos corporificados na credulidade do passional Otelo, na arrogância senil do Rei Lear. E há poetas que nada têm de “menores”: são poetas de produção menos vasta, mais miniaturesca mas nem por isso inferior em grandeza. A percepção geral da poesia de Manuel Bandeira que perdura, numa releitura, decorridos esses dez anos, é a de um poeta de grandes momentos de efusão despojada do sentimentalismo brasileiro: e por compor predominantemente para piano, por acaso Chopin e Schumann são “menores”?

Indelevelmente, fica com o leitor a certeza de que uma das grandes vozes da poesia brasileira silenciou com um dos seus primeiros libertadores de uma sintaxe e um linguajar lusitanos, e portanto postiços para a maneira de falar brasileira, que seria uma das bandeiras içadas pela Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Mário de Andrade costumava chamar Manuel Bandeira de “o São João Batista” do nosso modernismo, aquele que batizou a independência das artes brasileiras, principalmente a linguagem de modelos europeus. Seria reduzir, porém, a dimensão de Manuel Bandeira, querer limitá-lo a um porta-bandeira avançado do abrasileiramento da literatura feita no Brasil e daquela feição afetiva e simples que aproximaram a poesia e a prosa do linguajar e do universo do homem comum. A reunião de volumes de poemas de Bandeira comprova uma segura e crescente virtuosidade do artista no manejo do ritmo, das palavras, sua sonoridade e colorido, com maestria que cresce de livro para livro.

A Cinza das Horas aparece ainda sob a influência de poetas simbolistas franceses e ecos do parnasianismo de Bilac, mas com uma correção de linguagem aprendida diretamente dos clássicos. Menino ainda, no bonde no bairro do Cosme Velho, o pequeno Manuel recita para Machado de Assis um trecho longo dos Lusíadas, que o grande romancista de Memórias Póstumas de Brás Cubas não recordava inteiro. Esse primeiro feixe de versos denota a primeira qualidade precoce de Manuel Bandeira: uma cultura literária amplíssima, que abrange literaturas tão ricas e diferentes quanto a inglesa, a alemã, a francesa, a portuguesa, a espanhola, a italiana. Ungaretti, Soffici, Palazzeschi, Goethe, Lenau, Hoelderlin, Elizabeth Barret Browning, Shakespeare, Valéry, Paul Eluard, Baudelaire, Verlaine são alguns dos nomes que desfilam nas estantes do jovem tuberculoso que fôra à Suiça em busca de cura e que vira a doença e a literatura instalarem-se como determinantes prematuras de toda a sua traejtória humana e artística.

É uma poesia triste, consciente da mutilação que a enfermidade trouxe à sua vida, que brota dessa romântica e musical Cinza das Horas:

“Muda e sem trégua
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.”

O título de outro poema, “Versos Escritos N’água” recorda o admirável poet romântico inglês, Keats, como ele adoecido cedo e temeroso de que suas rimas tivessem o caráter efêmero de letras traçadas na superfície líquida do esquecimento. Mas essa melodia amortecida pelo desencanto, pelo sentimento vago de derrota a priori, já isola Manuel Bandeira, desde esta primeira coletânea, de meros seguidores de Antônio Nobre - como ele melancólico, e como ele banido do mundo robusto dos sadios fisicamente. Há quadras de uma luminosidade própria, que cintilam em meio a essa paisagem soturna:

“E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de se romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.”

Essa poesia crepuscular, que celebra a infância e constata o perecimento de tudo, assinala já toques pessoais e inconfundíveis: na “Elegia para minha mãe” a forma, a rima, a métrica são puras, mas a comoção profundamente afetiva é arraigadamente brasileira, assim como em “O Anel de Vidro” é como que o cancioneiro popular da criança brasileira que serve como tema:

“Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.”

Até o final de inconsolável noção de perda:

“Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…”

Nesta associação de temas populares autóctones e de musicalidade constante estão as primeiras características que Manuel Bandeira irá acentuando, à medida que instaurar uma “fala brasileira”, coloquial e até voluntariamente de baixo calão como apreensão poética e social de uma sensibilidade nativa.

“Os Sapos”, que os modernistas paulistas recitariam ao som de grupos e aplausos no Teatro Municipal, era nitidamente a vanguarda de uma ironia brasileira contra modelos vindos de fora, o nacionalismo estuante de espontaneidade pondo a língua amolecadamente para o poeta parnasiano que se jacta de nunca rimar os termos cognatos, com o coro irreverente dos sapos a coaxar sua zombaria diante de tanto pedantismo a querer mascarar uma falta de talento que o rigor da forma não dissimula.

Essa ojeriza a tudo que é falso e imposto teria um desdobramento célere na lírica de Manuel Bandeira. Depois do intermezzo breve do livro Carnaval, onde a saparia mofa da poesia conservada em formol importado de Paris, “O Ritmo Dissoluto” avança incomensuravelmente como domínio da técnica poética, como acentuação de uma sensibilidade lírica madura e independente de modelos e, sobretudo, como utilização das lições coloridas pelo sofrimento que sua janela, do alto de um prédio de apartamentos no bairro de Santa Teresa, lhe proporciona: é vendo os humildes, os pobres herois a vencerem a batalha diária por um punhado de vida magra - as lavadeiras, os meninos que fazem na rua pipas e balões para fugir de tugúrios esquálidos - que a Cartilha da sua dor pessoal se completa em seu silabário de angústia resignada aceitação da dor coletiva a espelhar a sua. Os quatro primeiros versos, soberbos, que abrem o livro como uma frase dolorida de um movimento da Kreiseleriana de Schumann: “Na sombra cúmplice do quarto,/Ao contacto as minhas mãos lentas,/A substância da tua carne/Era a mesma que a do silêncio” desmaterializam o erotismo vulgar e prosaico para transmutá-lo em uma percepção finíssima, sutil, de uma relação entre o amor que se desfaz no Tempo e o silêncio, como na rima de associação de ideias, não de sons, entre o relâmpago fugaz de uma plenitude dos sentidos e sua imediata liquefação na passagem para a lembrança. De um poema a outro acentua-se o amargor da certeza romântica de um fim de tudo: o prolongamento de sua doença insere em sua visão do mundo não mais a autocomiseração, por mais comedida que seja, mas a aut-ironia que se compraz em rir de seus desastres amorosos e, finalmente, se amplia para o pan-humano de um aprendizado inevitável do sofrimento.

Uma estátua de gesso barato, mas impregnada pela pátina de ternura de muitos anos de contemplação e convívio, adquiriu ao desfazer-se em pó, quebrada por mãos estúpidas e toscas, o valor de uma lição moral: “Hoje este gessozinho comercial/ É tocante e vive, e me fez agora refletir/ Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.”

Daí para a irmanação do poeta com os balões que os meninos pobres não podem comprar na feira e reluzem, coloridos e acessos, sob a enfeitiçada louvação do vendedor, que só aumenta a sua frustração, é um passo breve. O balão enfunado, feito pelo filho da lavadeira e que ainda criança já trabalha na composição do jornal e é tísico, eleva-se acima dos “assobios/apupos/pedradas” da molecada a querer tascá-lo com atiradeiras. Com ritmo musical ele balança no céu estrelado e da Rua do Sabão desaparece muito longe, unindo sua poesia de papel iluminado e colorido à espuma do mar alto, túmulo condigno da sua pureza e da sua beleza translúcida, simbólico da poesia a vencer o prosaísmo de uma vida baça e tímida e permanecer além da morte.

Não, a morte, embora espreite em todas as frestas, ainda não. Primeiro virá a popularização dos versos e ditos de Manuel Bandeira: é o refluxo em que agora é o povo que incorpora a poesia ao seu linguajar diário, como antes o poeta tomara emprestado ao linguajar popular sua poesia intacta. A resignação perde qualquer tom de autocomplacência paraesparraar-se num relismo estoico que ri de si mesmo e do que não pode ser mudado. “Pneumotórax” introduz termos médicos como início de um poema, e partindo desses dados pessoais do autor tuberculoso termina com uma saída humorística de cinismo voluntário e resignação jocosa:

“Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três… trinta e três… trinta e três.
- Respire.
…………………………………………………………………
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo
e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

A solução heroico-irônica de “tocar um tango argentino” diante do irremediável, os versos de quem quer ir para Pasárgada, paraíso fictício da Pérsia, são alguns dos momentos de confluência entre a poesia e a consciência coletiva brasileira. Audaciosamente, sem medir versos nem rimá-los e, sobretudo, sem medir consequências, Manuel Bandeira é uma espécie de Tiradentes da poesia brasileira, que quer ver liberta de todas as cangas acadêmicas, todas as pelas estrangeiradas e macaqueamentos ridículos de modelos importados desnecessariamente, quando a exuberância da natureza e do povo do Brasil oferece opções riquíssimas para o talento de uma Nação nova. É a ruptura definitva e arrojada de um Bandeirante altivo que se insurge contra a tirania da gramática e do castiço linguajar de Trás-os-Montes ou do Chiado lisboeta:

“Estou farto do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com com livro de ponto expediente protocolo e
manifestações de apreço ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar
No dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo.”

Até o final-ultimatum:

“- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”

Era a arrebentação deliberada de todos os diques que impediam a “poluição” da linguagem culta, elevada, sem oxigênio, por termos populares, era o “não” dito à poesia retórica, bombástica, bem comportada e exangue. Palavras indígenas, paisagens brasileiras colorem os versos agora libertos pari passu com as revoluções que Carlos Drummond de Andrade trazia à poesia e Clarice Lispector e Guimarães Rosa traziam ao conto e ao romance. As obras-primas supremas de Manuel Bandeira sucedem-se numa riqueza impressionante e avassaladora: haverá poema mais ternamente brasileiro do que o que faz São Pedro dizer à boa preta Irene que entre no céu sem cerimônia e sem racismos grotescos?

“Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entre Irene. Você não precisa pedir licença.”

Não eram só as amarras do estilo que Bandeira rompera: em reconhecimento lúcido das predominância da bondade sobre todos os outros valores humanos, ele desfizera as noções discriminatórias da Casa Grande e Senzala e reconhecerana supremacia moral a verdadeira superioridade humana, ao lado dos atributos da paciência, da dedicação, da lealdade, da abnegação e do altruísmo revivificador.

Sobressai, entre tantos outros exemplos, “Profundamente”, o poema da criança que não vira os balões de São João porque adormecera profundamente e hoje, como na temática erudita do ubi sunt? (onde estão?) evoca poeticamente o mundo do passado, consumido pela hera da morte:

“Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.”

Da mesma forma, seria impossível não destacar o poema conciso em que o poeta melancolicamente equipara seu trajeto com o percurso de um pássaro, talvez o emblema sucinto de Manuel Bandeira todo, em quatro linhas apenas:

“Andorinha lá fora está dizendo:
- Passei a vida à toa, à toa.
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa…”

Não só na simplicidade da linguagem e no lirismo da imagem, até no pormenor da ausência de ponto de exclamação para o eco do poeta em seu diálogo com a ave, se acentua o horror de Manuel Bandeira à megalomania endêmica hoje em tantos poetas, em proporção inversa à sua quota de talento. O poeta pernambucano, ao contrário, prima por sua economia de interjeições autolaudatórias e quando se retrata, é com tintas carregadas de uma ironia agura com um lâmina cortante:

“Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
a faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietaão de espírito
Que vem do sobrenatural
E em matéria de profissão
É um tísico profissional.”

O mundo de faz-de-conta em que Monteiro Lobato, no sítio do Pica-pau Amarelo, já iniciara as crianças brasileiras de quarenta anos atrás, é o refúgio desse menino triste que continua vivo dentro do poeta que se considera menor, do doente que rima existir com frustração permanente e irremediável. Em outro setor ainda da poesia brasileira Manuel Bandeira inova: na utilização publicitária da poesia. As três mulheres lindas anunciadas no cartaz do sabonete Araxá servem de Laura a esse Petrarca urbano e iconoclasta: Pasárgada, com a magia promissora de seu Éden mítico, as mulheres inatingiveis do outodoorI passam a significar a transcendência do real mofino e a fuga para o imaginário poético e fantástico. Bandeira permite-se achados poéticos deliciosos, como o galicismo voluntariamente empregado:

“As três mulheres
do sabonete Araxá me invocam,
me bouleversam, me hipnotizam.
Oh, as três mulheres do sabonte Araxá às
4 horas
da tarde!”
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá”

E engasta palavras eruditas como tetrarca com expressões consideradas chulas mas que ele eleva à mesma categoria de dicção poética, como “safado” e a forma popular “pra”, na ode modernista às deusas do consumo tão inatingíveis como as divindades do Olimpo, mas que prometem o céu como Stendhal já discernira que o encanto da beleza é sua (enganadora) promessa de felicidade. Da fuga para o irreal, uma fuga bem-humorada, em que a sensualidade é exprimida de forma delicada, alterna-se o itinerário de Manuel Bandeira rumo à auto deprecação já limítrofe com o nonsense: “Atirei um céu aberto/ Na janela do meu bem:/ Caí na Lapa - um deserto…/ - Pará, capital Belém!” em que a indiferença da amada rima esdruxulamente com uma lição de geografia; já que o amor não tem retribuição, o irracional é uma resposta adequada à vida tão avara de compensações. Outras vezes a graça dos semi-tons tinge de humores esta trova brejeira:

“Atirei um limão doce
Na janela do meu bem
Quando as mulheres não amam,
Que sono as mulheres têm!”

Por trás da singeleza dos versos, há toda uma textura sábia, que mistura redondilhas do cancioneiro medieval português com modinhas populares de funda tristeza disfarçada de alegria estouvada, como o apelo trágico para que se lhe arrebate do coração o fardo mais paralisador do que a angústia de viver:

“Bão Balalão,
Senhor Capitão,
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor Capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança…
Aérea, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor Capitão!”

Há facetas complementares do artista tradutor de Macbeth de Shakespeare, de Maria Stuart de Schiller e até de aventuras de Tarzã, como há o Manuel Bandeira professor de literatura e um Manuel Bandeira poeta político, a enumerar as virtudes do brigadeiro Eduardo Gomes e revelar a sordidez dos comunistas binários que só pensam em termos de “é do nosso Partido” ou “deve ser silenciado”. Mas os politiqueiros que roubam o povo, os Estados Novos, a inflexibilidade dos marxistas que não pensam continuam e, a História comprova, passam.

A convicção absoluta que persiste após a releitura de Manuel Bandeira encerra assim o ciclo de uma avaliação póstuma de dez anos: poeta de grandes poemas miniaturescos, introdutor de brasileirismos cheios de cor, dengo e autenticidade, de uma ternura risonha que nunca descamba para a pieguice a sua poesia cresce à medida que a peneira incorruptivel do Tempo separa os pseudopoetas dos verdadeiros. A poesia brasileira terá só em seus momentos de ápice de pensamento e linguagem alguns trechos comparáveis à aceitação lucreciana da Morte como fim de todas as coisas, como na sinfonia toda em tom menor de “A Morte Absoluta”:

“Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia.
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem teu nome num papel
Perguntem:”Quem foi?…”
Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome”

Foi o único vaticínio errado do poeta. Seu nome e seu sulco vincaram indelevelmente a poesia brasileira, sua presença ficou quando a morte, “a indesejada das gentes”, chegou e pôs um fim à sua vida, que ele mesmo glosava dizendo: “continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente”. Poeta finíssimo do desentendimento amoroso, do desmoronar do passado resvalando para a morte e para o esquecimento, defensor dos nomes de ruas poéticos trocados por prefeitos ignaros, Manuel Bandeira em seu único arroubo de imodéstia - justificadíssima, aliás - acertou. Acertou ao prever em sua - à guisa de autobiografia - saborosa “Itinerário de Pasárgada”: referindo-se aos jovens que o procuram cada vez mais ele diz, sem saber com que lucidez profética:

“Eu positivamente não gosto de mim. Mas eles acabarão gostando: sei, por experiência, que no Brasil todo sujeito inteligente acaba gostando de mim”.

Para o poeta dos pianissimi da percepção intelectual, para o poeta que buscava apaixonadamente “a estrela da manhã”, não se cumpriu o desejo - entre tantos outros negados - de um desaparecimento completo de seu nome e da sua memória. Sua tese de desfaz na antítese de que a inteligência e a sensibilidade brasileiras o iriam descobrindo a amando à medida que o conhecessem e, acrescentemos, o Brasil se civilizasse: ele próprio já era a síntese de um Brasil superior e imperecível.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1978) 2022. “Manuel Bandeira, um poeta dez anos maior .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente. Vol. 4. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.