Di, para quem viver era um círculo mágico

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Corrio do Povo, Caderno de Sábado, 1976-10-30. Aguardando revisão.

No momento em que Porto Alegre fazia uma seresta para seu maior poeta, Mário Quintana, com um coro de que participavam Lygia Fagundes Telles, Remy Gorga, João Antônio, Rubens Fonseca e outros participantes do encontro literário da Cultura, vinha a notícia fulminante que ensombreou todos os rostos: acabava e morrer, no Rio de Janeiro, Di Cavalcanti.

Di morto. São raros os choques e as antíteses de duas palavras que desmentem tanto uma a outra. Quando biologicamente vivo, Di era de riso saudável, fino, era o Di que te abotoava a lapela do paletó ou a gola da camisa para contar casos hilariantes. O homenzinho da sua Rua do Catete, que ia todas as semanas à farmácia perguntar, hipocondríaco de mãos que esfregava de volúpia diante de novas possibilidades: “Chegou alguma novidade, em matéria de remédios?” Era um Di generoso como só os artistas íntegros (que antítese, que brigas de palavras novamente! Perdoe o leitor) sabem ser. Ia à Livraria Francesa da Rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, e escolhia para o amigo um livro que ele conhecia e garantia ser superbe naquele seu francês eça de queirozmente arrastado como se a École des Beaux-Arts tivesse subido o morro e a favela desse uma vaga cadência de samba a Montparnasse.

Era o Di que falava, falava, gostosamente e todos ficávamos encantados, ouvindo aquela Scherezade gorda e lesta, escarrapachado com uma languidez de odalisca de Matisse na sua chaisse-longue. (Di nasceu para “o luxo e a volúpia” e sempre arranjava um jeito de se estender num sofá como se fosse o seu triclínio de romano decadente, de Petrônio lúcido) Di mostrava sua vasta biblioteca - talvez a maior do Brasil de livres-cochons e aí sua gargalhada se abria mais. Era o Di que não me cumprimentou quando eu critiquei a Loteria Esportiva Sueca, que dera o Prêmio Nobel a Pablo Neruda, poeta cuja obra eu em grande parte execrava como piegas e que ele, doutrinariamente, amava. Para logo em seguida me abraçar, o corpo imenso, dizendo que não seria “um prêmio chato desses” que ia cortar a nossa amizade.

Di vivia distribuindo tudo. Compradores italianos ricos que adquiriam três de seus quadros ganharam de graça um quarto óleo, justamente o mais belo de todos, como homenagem ao “tom verde violáceo” da linda romana casada com o colecionador que visitava seu estúdio no Catete. Di distribuia bondade, bom humor, alegria, ouvi-o dizendo a uma amiga que comerciava quadros: “É essa fase eu parei de pintar aí por volta de 46, mon amour, mas você pode dar a data que quiser os meus quadros que eu aguento a barra firme!” Era um Di romântico, utópico, que sonhava, com a pureza de uma criança, com uma humanidade igual a ele: justa, boa, livre. Socialismo e circo eram para ele complementares: tanto aplaudia uma teórica libertação do homem via Moscou quanto aplaudia os palhaços dos circos mambembes de Paris. Depois corrigiu: Brejnev, “esse gordinho sinistro”, nada tinha que ver com a poesia dos clowns, da moça do picadeiro, com a abolição da fome. Ficou um pouco atarantado (desiludido, não), perplexo, em busca de outra corredeira doutrinária política à qual entregar o seu ardor. Até que começou a demonstrar um irredutível ceticismo diante das soluções impostas pelos totalitarismos de Direita ou de Esquerda, à medida que se conheciem os crimes de Stalin e à medida que os Pinochets perpetuavam o franquismo em terras do seu amigo Pablito. Aí houve uma troca engraçada: ele me pedia que lesse “mas não com sotaque da Meseta, heim, Leo, com sotaque daqui da gente” os versos melhores de Neruda, os versos que falavam de amor e desespero, crepúsculo e flores, numa linha claramente lorqueana. Adorava que lessem para ele. Quando era o Romancero Gitano ou os versos anti-clericais de Neruda pedia o impossível: um sotaque autenticamente andaluz para o primeiro e madrilenho “do Primo de Rivera” para os segundos.

Di adorava tanto a vida que ele se renovava dia a dia, tirando de si mesmo uma fúria erótica de viver, com uma fonte de Roma que se renova com águas que caem e sobem para formar novos arabescos líquidos e sonoridades límpidas. Viver para Di era um circuito mágico, uma sucessão de dias e noites feitos para pintar, amar, conversar, pensar. Era tão gregário que raríssimas vezes, em 15 anos de amizade, o vi sozinho. Quando lhe apresentei um sensível poeta norte-americano, Mark Strand, e sua mulher lindíssima, uma Madona loura, ele observou: “Só faltava ser mulata para ser perfeita, mas já que nem a Vitória de Samotrácia tem braços, não sei porque quero sempre imaginar como seriam as pessoas em negativo ou porque tenho essa mania de criar em cima de um material vivo que sem me apresenta como é, você não acha?” Di - qualidade rara - nunca foi chato, maçante, era de uma finesse requintada paa receber. Compunha uma mesa de convidados com uma estratégia de pintor impressionista, colhendo as cores efêmeras de um por-do-sol. “Você me garante que Fulano não é desafeto de Sicrano?” E dava ao menu toques pessoais, enfiando a colher na panela para provar se estava naquele ponto fondu.

Com ou sem mulatas, era um lírico. Subindo até as favelas ou retratando a Bahia, era sempre intensamente brasileiro, mesmo na sua Paris adorada fazia propaganda incessante da joie de vivre brasileira, sem no entanto fazer jamais da miséria social um motivo estético. Seu respeito pelos tripudiados em seus direitos sociais e humanos era demasiado intenso, vivido e ininterrupto para utulizar a miséria como tema pictórico-folclórico. Não tinha nada do panfletário, já que era de uma inteligência vivissima e de uma argúcia bonachona e demolidora. Só quando se comovia emotivamente é que aderia e não julgava em termos estritamente racionais: “Você está dizendo coisas de um crítico literário, e Pablo Neruda é um homem digno de grande coração, a poesia dele pode ser menor, postiça, o que você quiser, mas o ser humano vale sempre mais que a sua arte”. Era um dos segredos centrais da personalidade de Di Cavalcanti: queimar Rembrandts para salvar uma criança. Ficou horrorizado quando lhe disse que Faulkner afirmara justamente o contrário: que para salvar Shakespeare incendiaria um asilo de velhos paralíticos. “Mas esse Faulkner é um monstro e um Hitler, então! Fiquem os velhos e que a humanidade perca os Shakespeares!”

Sem pose, sem veleidades idiotas, sem vaidades, Di era a sua maior obra: o menino que soltava balões nas festas de São João em São Cristovão, no Rio de Janeiro, o Di que tinha amigos em toda parte e que jurara nunca pronunciar a palavra abjeta que so apontava no jornal, incapaz de articulá-la: “Guanabara”. Isso aí é a baia que une o Rio a Niterói mas essa palavra aí para designar uma cidade faisonnante como o Rio é como se o Malrau mandasse de repente todo mundo chamar Paris de Lutèce, ia ficar horrível, não acha?” Detestava que mudassm os nomes, ficou logo a favor da gaúcha cidade de Não-me-Toque quando ameaçaram de mudar de nome. “Mas é um crime, querem matar a poesia no Brasil? Vão dar o nome de um general qualquer a essa cidade, como os generais fuzilaram Lorca, quer dizer, puseram a própria poesia e o povo no paredão, naquela madrugada que deixou o mundo todo mais pobre? Será que isso é feito de propósito, de caso pensado, paa tirar do povo a sua poesia, a sua espontaneidade criativa?” O passado para ele se cristalizava pelo menos na nomenclatura. Assistia, murcho, ele que nunca vira triste à devastação planejada do Rio de Janeiro pelas imobiliárias inescrupulosas (haverá as que são escrupulosas?). Quando aterravam a Lagoa Rodrigo de Freitas ele pedia logo, hiperbólico: “Então, por que não aterrar a Baia da Guanabara e unir logo a saudade que Niterói tem do Rio com o encanto provinciano da praia de Icaraí? O governo não precisa nem gastar dinheiros nababescos para fazer pontes nem pedir um centavo à rainha Elizabeth ou aos Rothshilds, não acha?”

O passado, para este homem que execrava a barbárie, era uma paisagem arquitetônica também, era o ponto de referência da memória e portanto a segurança de uma continuidade vital. Queria conservar um Brasil quase bucólico, imtimista, que o “progresso avassalador” destruia dia a dia. Di morreu junto com tudo o que le simbolizava e que agora ficou disperso, flama que nenhum atleta da moral recolheu ainda: a tocha do bom caráter, a insissolubilidade entre artista e ser humano reto que Érico Veríssimo sombolizara sempre aqui no Sul e Di simbolizou no Rio. Ele morreu junto com o pudor, com o horror à autopromoção, ao cabotismo oco, estilhaçou-se com ele a fé no ser humano e na sua bondade natural. Di morreu vítima menos da obesidade do corpo do que de uma magreza de Dom Qixote interior, Di, aquela encarnação do Fidalgo magérrimo e da Triste Figura metamorfoseado num corpo teluricamente alegre de Sancho Pança, glutão e lúbrico, brincalhão e vastamente humano. Morreu mais um sinal de que o Brasil está se tornando um deserto: quem virá ocupar o seu lugar de dignidade e integridade agora que uma geração indecisa, tímida, ainda nao se forjou e a geração de transição faz só isso: transita?

Mas como para o poeta que ele amava, “tardará muito em nascer um andaluz” tão querubínico na sa auréola de inocência mulata, parisiense, cosmopolita, brasileira. Felizmente que, como a Irene de Manuel Bandeira, ele nem precisa pedir licença para entrar no Céu. A esta hora deve estar discutindo com Fra Angélico se o Inferno existe e se, na realidade, as tintas modernas são superiores às antigas. Calemo-nos: conversam os dois, poetas e pintores, um santo e outro em processo de beatificação, os dois no Paraíso que pregou a útima peça a Di Cavalcanti, provando que tanto existe que o Di está para sempre nele.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1976) 2022. “Di, para quem viver era um círculo mágico .” In Alguns artistas da Semana de Arte Moderna de 1922: Entrevistas, depoimentos e ensaios, edited by Fernando Rey Puente, 5:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.