Auto-inspecção

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1973-09-19. Aguardando revisão.

Não contente em ser a mais admirável contista da América Latina, Clarice Lispector conseguiu superar o seu maior desafio pessoal. Água Viva - a meio caminho entre o conto e o romance - conserva da história curta a concisão que condensa no mínimo de palavras o máximo de impacto, reticência e profundidade de percepção sensível. E do romance guarda a continuidade do clima narrativo, gênero em que Clarice Lispector criou uma expressão própria e pioneira na literatura em português, mas por vezes de um hermetismo subjetivo que cansava o leitor um pouco menos paciente.

Agora, com o singelo subtítulo de “ficção”, a escritora pernambucana consegue criar um deslumbrante itinerário capaz de transcender o conto e superar seu fôlego curto demais para o relato extenso.

O mero comodismo rotulativo carimbou como “romance” ou “conto” as criações dessa escritora singular entre todas que revolucionaram a ficção brasileira. Começando de um patamar de James Joyce e de Katherine Mansfield, já desde Perto do Coração Selvagem se instaurara, numa literatura pesadamente linear e fotográfica da realidade ambiental, uma perspectiva inédita, confessional, de um monólogo interior que justapunha imagens fascinantes de um universo íntimo dado em partilha ao leitor receptivo. Água Viva foge a qualquer resvalo de monotonia, a qualquer hermetismo proibitivo, a qualquer incomunicabilidade entre o texto e o leitor.

Se com A Paixão Segundo G. H. O interesse e a qualidade decaíam depois de um fascinante capítulo inicial, Água Viva é fiel ao simbolismo de seu nome. Como água viva, é uma sucessão de iridiscências coloridas e de tons mutáveis que flutuam na superfície. Mas é uma superfície que queima, que arde de uma combustão interior sincera e comovente.

Não há enredo, nem personagens, nem transição cronológica entre o passado e o presente. Rudimentarmente, trata-se de um monólogo? Ou de uma carta? De qualquer maneira, de uma auto-inspecção sofrida, lúcida e despojada, em que uma mulher se dirige a um homem que amou. De pintora, passou a escritora, enfeitiçada pela “quarta dimensão” que a palavra confere ao artista: “Ao escrever não posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra”.

Os temas fundamentais que acompanharam todo o roteiro criador de Clarice Lispector permanecem, mas agora como que tocados pela luz da obra acabada e perfeita. O instante efêmero em que se sente viva, a morte, os bichos, e a preocupação com Deus.

A autora percebe, porém, novas paisagens: o desconhecido cuja ponta de mistério a palavra desvenda (“Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra”); a liberdade da improvisação; e até o reconhecimento do conteúdo místico da linguagem (“Mas a palavra mais importante da língua tem uma única letra: é, É”)

Dessa conjunção eclode o recurso de utilizar termos de outra língua, o neutro e indefinível it do inglês, para exprimir sua angústia e sua certeza mais abissais: “Mas há também o mistério do impessoal que é o it: eu tenho o impessoal dentro de mim… A transcendência dentro de mim é o it vivo e mole e tem o pensamento que uma ostra tem. Será que a ostra quando arrancada de sua raiz sente ansiedade? Fica inquieta na sua vida sem olhos? Eu constumava pingar limão em cima da ostra viva e via com horror e fascínio ela contorcer-se toda. E eu estava comendo o it vivo. O it vivo é o Deus”.

Com esta ficção, Clarice Lispector desperta a literatura que atualmente não se faz no Brasil de uma letargia deprimente e degradante para elevá-la a um nivel de perenidade e perfeição universais.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1973) 2022. “Auto-inspecção .” In Os escritores aquém e além da literatura: Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Hilda Hilst, edited by Fernando Rey Puente, 2:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.