Poesia. Uma obra reunindo poetas negros de várias épocas

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1986. Aguardando revisão.

A Razão da Chama (Edições GRD), apesar de cuidadosamente organizada pela competência do poeta Oswaldo de Camargo, deixa uma impressão estranha de já lida, já percorrida. São vários poetas negros brasileiros, de Caldas Domingos Barbosa a Luís Gonzaga Pinto da Gama, de Cruz e Souza e Lino Pinto Guedes a Solano Trindade, até chegar aos novos poetas contemporâneos: Cuti, Paulo Colina, Abelardo Rodrigues, Éle Semog e outros mais. A impressão que se tem é a de uma releitura, ampliada, da coletânea Axé: a temática é estreita e se reduz à constelação de que a epiderme escura é discriminada monstruosamente no Brasil. Dessa verificação inicial se passa à gama inteira de sentimentos que ela causa: revolta pela discriminação, ódio e vingança, orgulho e autenticidade étnica e reconciliação e perdão pela invenção e exercício do racismo pelos brancos e pelos que se consideram brancos no Brasil etc.

É pouco.

Evidentemente que a humilhação causada por um preconceito, a revolta contra a injustiça e o parti pris de atitudes baseadas nos mais vis instintos do ser humano são elementos que bloqueiam a expressão de outros temas. Mas, se nos detivermos, como criadores artísticos, apenas nessa barreira, como poderemos focalizar os mil aspectos da vida de que participam todos os seres humanos de qualquer cor? A celebração da natureza, a discussão de ideologias políticas mas com isenção de posturas dogmáticas, o erotismo e o lirismo, a dificuldade das inter-relações humanas, a discussão de assuntos ecológicos, de perigos inerentes à instalação de usinas nucleares, os temas sociais, a meditação filosófica sobre o efêmero da vida humana, a angústia implícita nesta condição, os combates contra regimes políticos e econômicos iníquos – há literalmente um sem-número de motivos a serem tratados pelos nossos poetas negros, fora desse esboço aqui traçado.

James Baldwin, Lima Barreto, Aimé Césaire, Senghor, Soyinka e tantos mais romperam a prisão da discriminação e criticaram as suas respectivas sociedades, às vezes de forma áspera e eficaz e essa ampliação temática me parece ser o próximo passo do poeta negro no Brasil, demonstrada já fartamente no genuíno talento de que são dotados. E fica ainda no ar a pergunta: Mário de Andrade e Cassiano Ricardo, ambos mulatos, não são incluídos na antologia justamente por não terem falado apenas desse fato em suas poesias? A minha é apenas uma opinião e como tal pode estar profundamente errada, mas julgo que o artista negro – e não só no Brasil – em uma tarefa infinitamente mais ampla: a de reumanizar o campo das expressões estéticas como comprava a sua atuação vital, decisiva, no campo da música e da dança: a experimentação que faz um Ishmael Reed com a linguagem, nos Estados Unidos, não é sumamente interessante e renovadora, recordando a de Raymond Queneau, na literatura francesa?

Por último, sempre estive convencido de que é através dos textos escolares e dos meios de comunicação de massa que se pode combater pelo menos com alguma eficiência a discriminação. Quando se fizer justiça histórica ao negro e à sua contribuição a todos os campos da atividade humana, não será mais difícil a inoculação de racismos torpes por parte de adultos ignorantes e acometidos de lepra moral?

Nesta antologia, o tom galhofeiro da sátira corrosiva se inicia, com graça e vigor, com a epopeia cômica de Luiz Gonzaga Pinto da Gama: “Lá Vai Verso”. À maneira de Camões e outros vates renascentistas, ele anuncia:

“Quero a glória abater de antigos vates, 

Do tempo dos herois armipotentes; 

Os Homeros, Camões – aurifugentes 

Decantando os Barões da minha Pátria!”

A lista que se segue se assemelha muito à idiotice da campanha pública destes dias que antecedem as eleições de 15 de novembro, com candidatos disputando o título de Cretino Máximo, sem deixar de lembrar os escândalos de fraudes de ex-ministros da Justiça, de deputados que votam dolosamente por companheiros ausentes da Câmara em Brasília, a corrupção vertiginosa – e impune – que corrói o Brasil como cupins ou saúvas famintas:

“Com sabença profusa irei cantando 

Altos feitos da gente luminosa, 

Que trapaça movendo portentosa 

A mente assombra, e pasma à natureza! 

Espertos eleitores de encomenda, 

Deputados, Ministros, Senadores, 

Galfarros Diplomatas-chupadores, 

De quem reza a cartilha da esperteza”.

A repulsa pelos que traficam no infame comércio negreiro, a comicidade dos pedantes e postições “doutores” de sabença empolada e divertidas variações em torno do termo de intenções pejorativas – bode – para designar os que não são brancos temperam os versos de “Quem sou eu?” já dentro de um clima quase surrealista e estonteante.

Cruz e Souza exige de seus admiradores uma sintonia com seu vocabulário luxuriante (revel, mucilaginoso, lutulentos), até mesmo em seu famoso poema de revolta contra os que não podiam associar as palavras artista e negro, “Emperedado”, mas uma leitura mais atenta descobrirá um surpreendente clima baudelairiano de contrastar o substantivo e o adjetivo, criando uma sensação original no leitor, como no trecho em que ele se refere às crianças negras abandonadas como “tenebrosas flores” em “Crianças Negras” e sua veemência de uma eloquência por vezes retórica, discursiva e hiperbólica. Já Lino Guedes, um poeta menor, se distingue pelo seu tom emocional, por certo generoso: “Assim esqueço o castigo/ que recebi de sua mão”, estendendo a mão fraternal de paz para quem foi seu carrasco; mas impressiona que ele consinta em aderir a ideias recebidas sem questionamento, que o levam a aconselhar o negro a ser “um homem direito”, de cujo “proceder” apenas surgirá uma modificação de seu status. Que exemplos, que modelos tinha o negro – e ainda tem – em profusão para “ser direito”? Imitando as trapaças e a iniquidade dos brancos? Fechando-se no gueto da superioridade racial, mito que alimenta, desde tempos imemoriais, um povo como o japonês, por exemplo? E qual é o “proceder” que deve ser seguido? O estoico? O servil? O cordato com a injustiça?

Carlos Assumpção introduz um estilo certamente mais requintado e eloquente quando se alça à altura dos versos:

“O alicerce da nação 

Tem a pedra dos meus braços 

Tem a cal das minhas lágrimas 

Por isso a nação é triste 

É muito grande mas triste”

Uma dor que se espraia pelos poemas de Oswaldo de Camargo – “Estou no meio de vós/ como a peste no ombro da desgraça, / como o laço da garganta do cativo/ ou a tristeza que amansa vossa mão..” e atinge, com o gaúcho Oliveira Silveira, um pathos comovedor:

“Treze de maio traição 

iberdade sem asas 

e fome sem pão 

Treze de maio – já dia 14 

a resposta gritante: 

pedir 

servir 

calar”

Paulo Colina, um poeta a meu ver já se afirma em plena maturidade do seu canto, diz, porém, as palavras que ecoam as considerações iniciais feitas acima, com uma concisão e propriedade filosófica certeiras:

“ser marginal todavia 

bastaria ao poema apenas 

a cor da minha pele?”

Com exceção de Abelardo Rodrigues e de Éle Semog, os demais poetas não apresentam, nesta antologia (nem o incisivo Cuti), nada de extraordinário e é com a expectativa de futuras coletâneas, melhores, que fechamos esta agora, magra e insatisfatória no seu todo.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1986) 2022. “Poesia. Uma obra reunindo poetas negros de várias épocas .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.