Ler Vilela? Indispensável

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1971-01-25. Aguardando revisão.

Amantes num breve passeio pela cidade brigam sem motivo, mas marcam um encontro para o dia seguinte, presos apenas pela rotina e pelo medo à solidão.

Uma velhinha curvada sobre sua plantação de couve assusta-se com a passagem de um avião a jato de ruído apavorante. Lê jornais, mas não entende as notícias. Sua vida oscila diariamente entre fazer perguntas a seus filhos eternamente de mau humor ou isolar-se num silêncio cheio de angústia.

Para vingar-se de uma festa que consideram “quadrada”, jovens universitários embebedam o pai do colega que os convidou e o forçam a um patético strip tease.

Reunida numa praça, uma pequena multidão aguarda o suicídio de um rapaz que avisou nos jornais que se atiraria, a uma determinada hora, do vigésimo andar de um edifício. Quando passa da hora marcada e ele não aparece, os observadores se dispersam com raiva, decepcionados pela promessa que não foi cumprida.

Estas imagens compõem o painel de Tarde da Noite (Vertente Editora), o último livro de contos do escritor mineiro Luiz Vilela. O autor como que joga um facho de luz sobre o cotidiano de uma metrópole e capta visões rápidas da hostilidade como contato normal entre as pessoas.

Do tédio como poluição sutil de vidas sacrificadas a um trabalho embrutecedor, a mulheres prosaicas e amorfas que seus maridos tímidos e sensíveis não conseguem deixar. Um datilógrafo, incapaz de arranjar namorada, transfere para a sua máquina de escrever seu único amor e seu único objetivo na vida.

Mesmo os momentos raros de graça, de um humor leve – os contos que envolvem crianças – mostram todo o potencial de tristeza que espera a infância, mero umbral da frustração adulta.

“Menino” é um menino de imaginação e vivacidade: inventa palavras, imagina diante de espelho que é o lobisomem e representa sozinho os desenhos animados de Tom e Jerry. A mãe, cansada e triste, não o compreende e quer integrá-lo no horário certo de ir para a escola, no cumprimento rigoroso de deveres precoces para a sua idade. O professor, insistindo no tratamento respeitoso do “sim, senhor” – “não, senhor” acha um absurdo ele não saber a data exata da guerra do Paraguai. Punido por mau comportamento, o menino demora para voltar para casa, imaginando, entre os carros velozes que cruzam as ruas e perambulando pelos parques da cidade, o que sentiriam se ele fugisse. Mas quando volta, a mãe o recebe com sobressalto e a mesma dose insensível de severidade exausta: no dia seguinte será tudo igual!

A crueldade substitui o diálogo entre os personagens de Luiz Vilela. Desde o mundo infantil: “Aprendizado” começa sugerindo que um garoto dotado para escrever terá um longo percurso que trilhar antes de se tornar um grande escritor. “A arte é um longo aprendizado e a vida dos grandes escritores está cheia de lutas e sacrifícios”, adverte-o o professor de português, Padre Ângelo, ao entregar-lhe sua composição com a nota dez escrita com algarismos vermelhos e um ponto grande de admiração. O aprendizado prematuro na realidade é outro – colegas mais velhos ficam à espreita do premiado e à força arrancam sua redação e a rasgam inteira. “Na mesma hora foi agarrado por três, tentou escapar, mas Grilo o segurava com força. E então viu João se aproximando, com os punhos fechados: - Você vai aprender agora”.

Propositalmente, as ações de maldade – às vezes involuntárias – são desprovidas de punição, mais um absurdo no encadeamento de atos sem sentido. “Um Peixe” é uma traíra feia que resiste vida depois de pescada e que um menino fascinado salva, colocando num tanque. Seria a sua companheira, inventaria jogos e confortos para ela: “Toda manhã – ia pensando, de volta para casa – ele desceria ao quintal levando pedacinhos de pão para ela; além disso, arrancaria minhocas e de vez em quando pegaria alguns insetos. Uma coisa que podia fazer também era pescar depois outra traíra e trazer para fazer companhia a ela; um peixe sozinho num tanque era muito solitário”.

Mas quando volta da padaria onde foi comprar pão para dar ao peixe, a empregada comenta:

“Traíra é duro de morrer, heim?

Ele parou.

Esse inferno urbano é diabólico, também pelas omissões, pelo que se deixa de fazer. “Ousadia” aproxima-se um pouco do clima de sexualidade reprimida dos personagens curitibanos de Dalton Trevisan. Um homem casado fecha uma revista que acabou de folhear e esperançoso, a princípio encabulado, mas logo se inflamando, começa a conversar com a mulher, Zazá. Argumenta para a mulher que cabeceia de sono que “precisamos movimentar mais a nossa vida, Zazá: precisamos fazer coisas novas, diferentes… Sair desta rotina. É a rotina que envenena a vida da gente”. Quer fazer coisas possíveis, coisas que estão à mão, nada de sonhos impossíveis: “Por exemplo: quê que adianta eu querer ir no Japão se eu não tenho dinheiro para isso?”.

“Dos preconceitos em geral – de raça, religião, político, social, moral – ele menciona, olhando para a silhueta da mulher de costas para ele:”Há até preconceitos sexuais; ou melhor: existem muitos preconceitos sexuais… parecia ter-lhe voltado o nervosismo de antes e ele seguidamente passava com um quê de aflito, a mão na cabeça, ajeitando o cabelo que era liso e já começava a rarear. Às vezes, existem esses preconceitos até entre casais; quer dizer: até entre aqueles onde não deveria haver nenhum preconceito, onde a intimidade devia ser absoluta, onde devia haver liberdade para fazer o que quisessem, aquilo que bem entendessem; afinal é para isso que a gente casa, para poder fazer essas coisas, para fazer tudo aquilo que o corpo da gente pede”.

“Mas é inútil: entre o seu nervosismo e a incompreensão obtusa da mulher ele não consegue nem insinuar o que é que seu corpo pede:”Não fechou logo os olhos: no escuro ficou olhando para a revista na mesa, lembrando-se de uma fotografia, de uma loira e biquini deitada de lado e de costas num sofá vermelho”.

O casamento não é uma saída para a solidão; nem uma válvula de escape para a libido reprimida, muito menos para uma libido que não seja a ortodoxa da procriação como fim e do prazer como pecado inevitável, mal menor e tolerado para a perpetuação da espécie. O amor é uma série de desentendimentos mútuos, apaziguados periodicamente pelo desabafo temporário do sexo, ópio barato para os encarcerados em celas individuais de incomunicabilidade: cada preso, como os personagens de Beckett ou de Ionesco, só comunica ao outro grunhidos de prazer, de ódio, de inveja, de digestão satisfeita.

Frequentemente Luiz Vilela volta aos dois temas preferidos e que lhe dão os melhores resultados – as crianças e os velhos. Ambos sofrem a mesma erosão de incompreensão, de indiferença, de usurpação pelos que estão no meio da vida cronológica – os adultos, pais e filhos. O conto inicial, “Lembrança”, reúne insolitamente o ancião e o menino. Com a brevidade de uma notícia de agência telegráfica, mas com a sabedoria vocabular de um escritor sensível às menores nuances de estilo, a transição brusca entre as duas recordações do avô resume-se a menos de 50 linhas impressas. Desde o início lírico, brando:

“Lembro-me de que ele só usava camisas brancas. Era um velho limpo e eu gostava dele por isso. Eu conhecia outros velhos e eles não eram limpos. Além disso eram chatos. Meu avô não era chato. Ele não incomodava ninguém. Nem uma travessa de comida na mesa ele gostava de pedir. Seus gestos eram firmes e suaves e quando ele andava não fazia barulho”.

Da evocação dos passeios da criança com o avô na praça, o menino correndo atrás dos pombos e agarrando-se ao ancião quando sobrevém uma chuva forte: “O dia estava escuro e uma ventania agitava as palmeiras. Ele estava sozinho no meio da praça com os braços atrás e a cabeça branca erguida contra o céu. Então pensei que meu avô era maior que a tempestade”.

Dessa imagem forte, de um avô confusamente maior que o destino e que se identifica imprecisamente com um Deus Todo-poderoso e barbudo, tudo se desfaz abruptamente. A mansidão do velho, que na evocação posterior do neto tinha sido abandonado pela mulher, traído, revela-se como a incubação da violência. Na linha seguinte à afirmação “As pessoas diziam que ele era um velho muito distinto” – como numa brusca mudança de tom num concerto colorido de Mozart em que repentinamente o piano contrasta com a alegria lírica da orquestra inaugurando frases de uma melancolia desesperada e lancinante, a face interior daquela mansidão estoica se revela inteira:

“Nunca pude esquecer sua morte. Eu o vi, mas na hora não entendi tudo. Eu só vi o sangue. Tinha sangue por toda parte. O lenço estava vermelho. Tinha uma poça no chão. Tinha sangue até na parede. Nunca tinha visto tanto sangue. Nunca pensara que uma pessoa se cortando pudesse sair tanto sangue assim. Ele estava na cama e tinha uma faca enterrada no peito. Seu rosto eu não vi. Depois soube que ele tinha cortado os pulsos e aí cortado o pescoço e então enterrado a faca. Não sei como deu tempo de ele fazer isso tudo, mas o fato é que ele fez. Tudo isso. Tudo isso. Como eu não sei. Nem porque”.

Nesta coleção de vinhetas dolorosas da condição humana, contudo, o conto mais ambicioso e melhor realizado não se apoia no pendor especial do talento narrativo de Luiz Vilela – o sofrimento dos marginalizados da ação pelos “racionais”, os adultos dessa sociedade lógica e sensata: os velhos relegados a uma vida puramente vegetativa, rotulados comodamente e prematuramente de “caducos” e as crianças, pouco mais que tarefas inoportunas comparáveis a lavar, cozinhas e coser, mas irrequietos e impertinentes como agulhas e panelas que reivindicasse seus direitos.

Em “Os Mortos que não Morreram” produz-se um choque aberto. Não há sofrimento causado pelo que se faz nem pela omissão do que se devia ter feito. É uma Torre de Babel que se ergue intransponível entre homens, mas não feita da diferença de idiomas, mas da diferença de intenções na vida, de contratos irreconciliáveis entre uma concepção de Deus e outra. De um lado, a sensibilidade que é sinônimo de angústia, de sentimento moral de horror à alienação dos valores reais em que vive a maioria, o homem medíocre e materialista. De outro, o burguês imbuído de conceitos rígidos: as metas são a conquista fácil, mesmo à custa do adultério da mulher alheia, o bom emprego, a boa casa, o estômago e as glândulas saciadas. O resto é efeminamento, subversão comunista, pecado contra religião, preguiça de quem não quer trabalhar no duro ou – quem sabe? – início de loucura. Simbolicamente, o não diálogo permanente surge em torno de uma rachadura que aparece no teto:

“Quando a menininha voltou à sala, encontrou um quadro estranho: todos estavam em silêncio e olhavam em direção do teto, sérios, como se algo muito grave estivesse acontecendo; olhou também e viu a rachadura, comprida e ramificada, como o rastro de um temível e desconhecido bicho”.

A fenda é também o princípio do desentendimento – para a mãe inquieta, ela surgiu de repente, não tinha começo antes; para o pai, prático, dever ser um defeito da construção, apesar da casa ser nova, no dia seguinte trará um pedreiro para examinar; para a menina a fenda é um bicho de que tem medo, não consegue dormir porque o bicho está correndo atrás dela para pegá-la.

Simbolicamente também, o desentendimento em mais alto grau se dá durante uma reunião informal. A reunião é apenas uma justaposição de corpos: quando as mentes começam a trocar impressões, a disparidade é tão total que contém em si o gérmen de todas as guerras – de uma diferença de interpretação de conceito se geram Hiroshima, Dachau e o apartheid sul-africano.

O elemento consciente, que aponta para a ameaça constante em que vive a tribo humana, é sempre o escarnecido, o escorraçado, o idiota. “O homem é um animal ameaçado”, adverte Walter, depois que a conversa evolui da rachadura do teto para a extrema vulnerabilidade da vida humana. As reações variam só no grau de rejeição dessa lucidez. Júlio, o noivo de Alice, não vê por que o homem seja ameaçado nem por quem. Alice, tentando apaziguar a disputa nascente, lembra-se de ter lido na escola que um autor distinguia entre o animal irracional, que não sabe que está ameaçado, e o homem, que sofre por ter essa noção da morte. “O trecho? O autor? Não lembro, o nome eu não lembro. Lembro só do trecho. Era no livro de francês… Acho que estudei Pascal também, mas não lembro se era dele, se era dele o tal trecho, a tal lição.”

“O passado é uma ameaça. A memória é o porão da lama. Todo mundo tem o porão dentro de si. E todos nós temos medo de um porão. O dos outros e o próprio… É lá, no porão, que estão os nossos mortos que não morreram; os agonizantes que enterramos vivos; nossos fantasmas paralíticos, aleijados, homicidas, anormais, nossos fantasmas que trancamos com chave e cadeado, esquecendo de que não há paredes para fantasmas; e é lá que se esconde, sob um véu negro, nossa face deformada, nossa face vergonhosa, humilhada, selvagem, nossa voz que ninguém ouviu, nossas palavras que ninguém escutou, nossos gestos que ficaram acorrentados no escuro”.

Não é preciso ir até à Rússia de Brejnev nem à Espanha de Franco para denunciar um inconformista com o progresso do país e com a tranquilidade dos que vivem no melhor dos mundos. Essa consciência do horror subjacente à própria condição do homem causa silêncio e tensão. E um revide que não é um argumento, mas uma fuga: “Você é mórbido”, disse Hélio. A vaidade ferida de quem sabe menos, pensa menos, lê menos também se levanta: “Além do mais, tudo isso que você está dizendo é muito sabido por todos, não tem nenhuma novidade”. A ironia do intelectual, a convicção de sua superioridade ajudam a atiçar a disputa que tende mais e mais para um desfecho violento. Em sua tribal função apaziguadora, as mulheres intervêm: “Alice deu uma risadinha de desanuviar ambiente e consertar a situação:”Desse jeito vocês vão acabar é se matando; não quero ir a nenhum enterro amanhã, já tenho outros programas…”

Caio, o marido, temendo que a festa termine num fracasso, apela para a cerveja, a música, o pernil. Há um breve armistício:

“Walter, disse Regina, tire mais esse pedação daqui, é o último; vou buscar mais lá dentro…

Você não sabia das qualidades culinárias da Regina?, falou Hélio, olhando em seguida para Caio, que fez um sorriso de aprovação: “Ela é fogo na cozinha…” E parte para a cozinha, para recordar à espera do amigo o adultério que compartilham num carro, insistindo, insistindo para que ela se entregue novamente a ele, pois com aquele marido, uma mulher como ela… Mas a tentativa de sedução e uma discussão sobre moral têm um desfecho que, como é característico dos contos de Luiz Vilela, não encerra nenhuma situação, meramente adia uma situação insustentável, mas perpetuada pela própria engrenagem do convívio humano. A menina grita, com medo do bicho escondido na fenda, a mãe sai perturbada pelo assédio de palavras e de contatos do seu antigo amante, o marido enganado continua gozando o pernil e a cerveja, sem saber da luta na cozinha entre sua mulher e seu melhor amigo. Alice enfronha-se de novo em seu mundo limitado pela única perspectiva que vislumbra: casar-se, ter uma casa, um marido, filhos, e sem o saber adicionar mais um elo à cadeia em movimento perpétuo da angústia do homem incompreendido pelo seu próximo.

É o próprio autor que se reflete nas considerações de Walter, o que vê que o rei está nu, que o homem é, como os reis de Shakespeare, um ator que finge de monarca, infla-se com sua situação até que a morte ou o imprevisto com uma alfinetada estoura seu sonho de grandeza e de segurança:

“No fundo, disse Walter, animado de novo pela bebida e pelo pernil, enquanto Caio tendo aberto mais uma cerveja ia enchendo os copos:”no fundo é segurança o que nós procuramos. É isso o que todo mundo procura: velhos, adultos, crianças, homens e mulheres. E é isso que nós nunca poderemos ter. Nunca. Em nenhuma época da vida, em nenhum lugar, com nenhuma pessoa”.

Para o autor mineiro, há uma transformação radical na visão filosófica do homem. Da empáfia de Descartes, em pleno otimismo do Renascimento que descobria a tora para as Índias e nas Américas julgava descobrir um Novo Mundo, ele tira conclusões infinitamente mais humildes e mais pessimistas: “Penso, logo existo” modifica-se, mas perto da realidade, para “Penso, logo sofro”.

Entre e a opção de pensar e saber, com lucidez, que estamos à beira do assassinato, do câncer, da traição amorosa, da prisão, da loucura, da mutilação. Ou viver vegetativamente: sem pensar, sem reconhecer os sinais claros de decadência congênita em nossas células, de ódio do homem pelo ódio das bombas terroristas, na poluição da atmosfera, no trabalho escravo, no Muro de Berlim e na ditadura vitalícia de pai para filho no Haiti tiranizado por Duvalier e seus tontom-macoutes.

Com um estilo voluntariamente descarnado, com a brevidade quase de um hai-kai do conto, Luiz Vilela controla, disciplina, suprime qualquer adiposidade em seus textos. É raro o frescor lírico, o colorido de um adjetivo que ultrapasse essa camada espessa de um policiamento estilístico às vezes excessivo.

Dentro do panorama literário brasileiro, os mineiros ocupam uma posição singular, semelhante à da Irlanda na Europa. De uma terra isolada, de estruturas feudais, de uma religiosidade tradicional, a linguagem é uma celebração da vida e uma contestação do status-quo. Mas para um Guimarães Rosa na prosa e um Carlos Drumond de Andrade na poesia, a contenção não é sinônimo de avareza verbal. Eles se aproximam mais daquela Irlanda transplantada em termos literários para as Américas que constitui a literatura do Sul dos Estados Unidos.

Os contos admiráveis de Carson McCullers, de Katherine Anne Porter, de Tennessee Williams, de Truman Capote têm essencialmente uma profunda afinidade com a introspecção mineira, com aquela mágica metamorfose de apreensão sensível do mundo num depoimento humano radical pela adesão pessoal que marca o destino dos sensíveis, dos aleijados, dos humildes, dos sonhadores, dos fracassados dentro de uma engrenagem utilitarista, fria e cruel. Estas lições de contenção temperada com uma moldagem mais trabalhada, mais – no melhor sentido da palavra – artística poderiam frutificar no caso de Luiz Vilela. Comprovariam, pela excelência de seus exemplos, que o despojamento não é incompatível com o calor e que a economia mais sábia é a que não é sinônimo de secura.

Com a sua visão atormentada, sensibilíssima do homem, Luiz Vilela não denuncia a casca: as instituições sociais que o homem criou para conviver com seus semelhantes desde que deixou as cavernas. Ele submete a um microscópio impiedoso mas nítido o próprio caroço duro e áspero do desamor humano, do qual se derivam todas as deformações sociais, todos os desequilíbrios que ideologias externas tentam curar, como se o tratamento dos efeitos eliminasse a causa.

Irmanando-se à literatura angustiada e atônita do existencialista Camus, que denuncia uma situação fora de premissas religiosas, baseando-se apenas em princípios morais de respeito pelo próximo, aproximando-se, em certos pontos, de uma literatura do absurdo factual e tratada com prosaísmo proposital na sua captação de uma realidade imediata e popular, Luiz Vilela precisa apenas atingir a fase seguinte da sua excelente trajetória criadora para tornar-se um dos mais importantes contistas do Brasil atual. A fase em que, além da excessiva secura, eliminará de seu aprendizado os recursos às vezes demasiado próximos do óbvio, como no conto que dá o título ao livro e que documenta um apelo telefônico de uma candidata ao suicídio incompreendido por um marido que, embora se compadecendo dela, prolonga o diálogo cobiçando uma conquista fácil.

Como diz seu personagem Walter: “E quem disse que eu estou interessado em novidades?” Não é, evidentemente, a novidade que importa na literatura. A banalidade de alguns temas de Shakespeare não o impediu de transformá-los em peças insuperáveis pelo deslumbramento de imagens e de conceitos com que as dotou.

Nem Luiz Vilela adere a uma literatura do fantástico latino-americano, que joga com o sobrenatural e o mágico em coordenadas abstratas, só tangencialmente ligadas à condição humana. Mas mesmo admitindo essas ressalvas, há mesmo entre as novidades uma gradação entre as óbvias e as menos óbvias.

O autor dos contos pungentes, amargos, de Tarde da Noite dispõe do bisturi e da habilidade cirúrgica para cortar ao vivo no corpo enfermo do homem em sua versão brasileira. Seus cortes são incisivos, precisos, perfeitos. Findo seu aprendizado, a literatura brasileira, que tem no conto seu panorama mais rico e mais variado, poderá acrescentar com o contista mineiro um nome de valor internacional aos que já tornam a literatura em língua portuguesa nas Américas uma das mais interessantes em todo o Ocidente em seu veio mais rico e mais variado o conto, de Guimarães Rosa a Trevisan, de Clarice Lispector a Rubem Fonseca.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1971) 2023. “Ler Vilela? Indispensável.” In Grandes contistas brasileiros do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 10:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.