O negro e a cultura de Moçambique não merecem romance tão ruim quanto este

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1982/02/27. Aguardando revisão.

A África Negra – e demograficamente nela se inclui também a racista África do Sul do ignominioso apartheid – era, até há pouco, objeto apenas de retratos feitos por autores brancos: Alan Paton em seu comovente Cry, the Beloved Country denunciando a desumanidade nazista do regime da sua África do Sul natal; Doris Lessing rememorando no ambiente da antiga Rodésia, hoje Zimbabue, uma luta que lhe parecia urgente, cega porém para a luta em prol da libertação do negro: a conquista da emancipação feminina, no quadro de uma “normal” opressão imperialista dos brancos ingleses em Salisbury. Eram, com exceções, instantâneos da savana africana tirados pela esplêndida escritora dinamarquesa, baronesa e fazendeira na África, Isak Dinesen, ou incursões rápidas, superficiais como um cenário de papier-mâché feito em Hollywood: os romances de Ernest Hemingway no Quênia que, infantis, jamais tiveram a África e sua problemática plural e ingente como foco central.

Por outro lado, a mudez sobre a cultura negra da África atingia níveis cômicos, de tão absurdos: o silêncio só se rompia nas salas empoeiradas dos arqueólogos, das fábulas orais tradicionais das tribos mantidas secularmente e recolhidas por antropólogos ou etnólogos curiosos… Ou então uma “excêntrica”, como a estudiosa do Congo Lilyan Kasteloot (quando essa vasta região africana era ainda dominada pela minúscula Bélgica), escreve uma tese doutoral sobre uma cultura emergente, os escritores negros, dos EUA às Antilhas, passando por vários países africanos, inclusive as partes ainda não libertadas, àquela época, do colonialismo português. É sua Anthologie Africaine em que Castro Soromenho aparece ao lado de Noêmia de Souza e Antônio Jacinto. É pouquíssimo, embora fosse já um início quando de sua publicação em 60.

Paradoxalmente, a difusão da literatura negra deve-se à conscientização dos intelectuais e artistas negros dos EUA quanto à sua condição de párias sociais, desde o hoje longínquo Langston Hughes até a publicação de The Invisible Man em nossos dias. As lutas pelos direitos civis lideradas por Martin Luther King e retomadas por James Baldwin em seu ensaio Da próxima vez, fogo! Repercutem nas universidades, na criação de estudos africanos especiais, na modificação do nome do boxeador campeão mundial Cassius Clay para Muhammad Ali, depois de sua conversão ao islamismo (esquecido de que, historicamente, foram os árabes que primeiro escravizaram em massa os negros africanos), no uso esnobe do suahili e de roupas africanas por parte dos estudantes negros das universidades da costa Leste à Califórnia.

A incursão de Picasso, no setor das artes plásticas, com sua inspiração na estatuária do Benin para suas máscaras à la façon africaine e seu famoso quadro Les Demoiselles D’Avignon não causam grande impacto. Os círculos artísticos que convergem em Paris acham que se trata de outra “extravagância” do grand maître, algo assim como sua homenagem à indefesa e pacífica aldeia de Guernica, bombardeada sadicamente pelos aviões alemães como “ensaio” da guerra mundial nº 2. A África era, como o nazismo para os alemães contemporâneos, um pedaço do passado que não tinha sido vivenciado nem vencido. Passado em branco, amorfo, quem sabe inexistente?

Muito antes do black power das minorias negras norte-americanas, no entanto, o prestígio e primeiro reconhecimento relativamente sério da arte africana, em plano internacional, surge com Aimé Césaire e Léopold Senghor e sua temática (nada nova a não ser para os brancos) da négritude, da celebração daquilo que precocemente Lima Barreto no Brasil já queria inaugurar, uma literatura dedicada à “negrice”. Mas Lima Barreto?, indagavam os literatos brancos no Brasil: não era um alcoólatra, um esquivo, um talento voltado para as sarjetas? Nem, por outro lado, jamais Machado de Assis, com toda a sua grandeza clássica, admitiu sua origem étnica, preferindo não militar em prol dos direitos espezinhados dos negros e mulatos do Brasil, para, em vez disso, imitar a criação grotesca da já em si ridícula Academia Francesa, à qual Lima Barreto não teve acesso em vida…

A Négritude vinha sanar um hiato de bocejo, de falta de inspiração europeia antes da importação dos autores hispano-americanos e, de forma breve e perfunctória, lembrou aos que não são negros nem mestiços que a sensibilidade negra, a expressão negra, a criatividade negra não precisam expressamente seguir, servilmente, os padrões hegemônicos da Europa, umbigo do mundo. Mesmo nos poemas possivelmente superiores em originalidade aos do próprio Senghor, Césaire já planteava a temática básica do exílio depois da diáspora africana: desprovido da sua cultura original, de suas tradições, de suas linguagens autóctones, mesmo depois de abolida a escravidão nos países americanos, o negro sentia-se como “o homem invisível” que dá título ao livro: não existia para a maioria branca senão como mão-de-obra apta aos serviços mais duros e mais dignamente remunerados. Um pastor calvinista agitou até uma celeuma efêmera em torno da questão teológica: teriam os negros almas, como os brancos? Himmler e seus laboratórios teorizados pelo conde de Gobineau, louro de olhos intensamente azuis, foi mais longe, já que o assunto de alma estava de antemão decidido: para o paraíso germânico, o Walhala, iriam só os arianos, mas aqui na terra se tornara claro, segundo os ensinamentos da “genética” nazista, nisto precursora de “genética” stalinista de Lyssenko, que a “inferioridade” de subraças (Untermensch), como os ciganos, os judeus, , os negros, era “cientificamente” comprováve. Portanto, a Endlösung (a solução final) para os “problemas” da existência de tais detritos subumanos incluía, obviamente, uma segunda alimentação dos campos de concentração: a carne negra e mestiça, assim que os foguetes V-2 de Herr von Braun tivessem dizimado a Inglaterra. A História, caprichosa, trilhou outros rumos: von Braun levou o homem à Lua, participando da Nasa norte-americana, e os negros e mestiços, pelo menos formalmente, libertaram-se do jugo colonial europeu.

Em nada diminui o mérito da raça negra reconhecer que a descoberta e devida apreciação de seus valores, que contrastam com seus equivalentes brancos, se deve ao corajoso pioneirismo de um punhado de brancos não subjugados pela cretinice, congênita ou adquirida por contágio, do racismo que impedia aos demais de admitir lhanamente a validez de todo o ethos africano. Claro que a contribuição sentimentalóide de uma Harriet Beecher Stowe nos Estados Unidos, com sua patética (em termos literários) Cabana do Pai Tomás, teve seu quinhão de conscientização da posição artificialmente inferior em que as castas de cor clara tinham colocado os escravos. Mas menos espalhafatosa e mais profunda é a mensagem de fraternidade de uma Carson Mc Cullers, autora sulista que em seus romances e contas aponta para a injustiça dessa situação e alude ao desperdício de talentos utilíssimos à humanidade que o racismo acarreta como resultado inevitável.

Agora, o Brasil se arvora em nação racialmente democrática, apesar da lei Afonso Arinos, que demonstra a fragilidade dessa nossa “democracia” racial, ao punir quem discrimine qualquer pessoa por motivos de preconceito de cor… Ainda assim, pragmaticamente, o Brasil se voltou – já era tempo – para seus vizinhos hispano-americanos e para os do lado de lá do Atlântico, não só em busca do petróleo da Nigéria ou de Angola (com seus milhares de gurkas de Havana), mas, pela primeira vez, já se esboça, num país em que o IBGE na prova predominarem os “pardos”, o conhecimento tateante de uma realidade plural africana.

Um dos últimos lançamentos a chegar às nossas livrarias é da Editora Ática, com Portagem de Orlando Mendes. Seria um preconceito dizer, francamente, que seu autor, branco, moçambicano, tem dificuldade em se colocar na pele e desventuras do mulato que é o protagonista de seu romance? Seria parti pris também achar que esse romance nos chega com quase 20 anos de atraso, publicado em 1966, ou 30, se levarmos em conta que foi escrito nos hoje longínquos anos 50? Nada disso importaria se se tratasse de um talento realmente vigoroso como o dos angolanos Manuel Rui e Luandino Vieira, já mencionados.

O que perturba então na escritura de Orlando Mendes? O seu tradicionalismo literário, amarrado a “modelos” de estilo já gastos quando Balzac morria. Tem-se a impressão de uma cópia – má – de trechos antológicos dos “bons autores” adotados no ginásio, perdão liceus lusitanos. São raros os momentos em que seus personagens adquirem força e credibilidade. Orlando Mendes é um narrador, sem ironia alguma, delicado. A posse carnal, o defloramento é tratado quase que como a descrição do acasalamento de abelhar ao som de baladas longínquas de Chopin. Há o contraste não resolvido de uma legítima indignação pela discriminação racial a par de uma descrição cediça, quase vitoriana, do ambiente carregado de luxúria, insatisfação, injustiça. Sucedem-se as cenas – pudicas ao extremo – de prostituição, assassinato, desemprego, marginalização social, e opressão colonial sem que o leitor vibre minimamente com esse desfilar de acontecimentos telenovelescos, de folhetim de capa e espada.

O que se há de fazer? A férrea natureza do imperialismo lusitano e europeu em geral (hoje substituído pelo imperialismo soviético, possivelmente pior) não dava aos angolanos e moçambicanos durante 50 anos, quase, margem a estudos, reflexões, aprimoramentos – obscurantismo de que o Brasil foi vítima, ao “receber” o presente de uma Imprensa Régia tardíssimo, em 1808, e, competindo com o Haiti, só ter universidades na década de 30, pois desde os tempos de D. Maria I, a Louca, nos era proibida qualquer atividade intelectual ou industrial ou tendente ao nascimento de ideias longinquamente “francesas” de emancipação política, direitos do homem, quebra de monopólios etc.

Orlando Mendes, profissionalmente, é fitopatologista: nada demais, há escritores de todas as origens, até negreiros no sentido estrito do termo: Rimbaud no final de sua vida e Voltaire durante sua vida toda, quase. Assim, como há grandes escritores fascistas que trabalhavam em sapatarias, como Céline, ou toxicômanos, como Baudelaire. O lamentável é que nos seja mostrado como o grande escritor moçambicano – o único? – justamente Orlando Mendes. O autor nem sequer sabe estruturar uma narração: esquece que um personagem, como o Esteves, é velho demais para se apoderar da esposa do herói João Xilim, depois resolve improvisadamente “inventar” uma tia inexistente em Portugal para onde mandar um miúdo (criança), além do estilo maçante, pré-histórico, uma prova a mais de que as boas intenções cravejam os caminhos que levam ao inferno. Efetivamente, as excelentes intenções humanitárias do autor levam o leitor ao inferno literário das frases-feitas, da involuntária inautenticidade do dramalhão postiço. Restam dois ou três motivos legítimos para que Portagem fosse escrito, publicado e, quem sabe?, até lido por leitores ingênuos ou que cultuam esse tipo de literatura, armados – é indispensável – de uma dose maciça de paciência. Porque Orlando Mendes é o período da pedra lascada da literatura: interessante para os darwinistas que procuram ainda o “elo perdido”, o famoso missing link da árvore da qual descemos todos os antropoides até o pomposo e fátuo homo Sapiens, assim autoproclamado. Um dos motivos que realmente ficam desse livro primário é o da revolta dupla que sentem os mulatos, desprezados igualmente por brancos e negros, numa espécie de no man’s land apavorante pela sua dupla segregação. Depois, o desejo legítimo e hoje tornado novamente atual pela ameaça de nova servidão por intermédio do imperialismo soviético: o instinto de libertação, de nacionalismo, de expressão das forças vitais de Moçambique na busca de sua identidade racialmente plural e sua projeção cultural, social, política e econômica na África e no mundo.

Diante de um romance tão capenga quanto este, reminiscente de algum original guardado em alguma gaveta de Rondônia como “o maior romance escrito por um autor do novo Estado”, só nos resta uma saudável esperança: a de que surjam novos romances moçambicanos. Não poderão ser piores. A menos que enveredem pela cartilha suicida do “realismo socialista” leninista-stalinista, do qual Deus há de preservar a nós, à literatura, à inteligência e a Moçambique. Amém.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “O negro e a cultura de Moçambique não merecem romance tão ruim quanto este .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.