O talento de dois senhores contistas

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1971-1-15. Aguardando revisão.

O conto atual brasileiro só se esgota nos grandes nomes, já de expressão internacional, para o leitor desatento. Porque surgiram importantes revelações à sombra da perfeição estilística do paranaense Dalton Trevisan, com sua dissecação pungente da repressão sexual e dos sonhos feitos de lantejoulas baratas do Zé-povinho de Curitiba. E depois da incursão renovadora dos contos abstratos, angustiados, de Clarice Lispector em sua fase inicial, comunicando de forma nova por esse meio conciso pela sua própria estrutura.

O mineiro Luiz Villela e o alagoano, radicado em São Paulo, Ricardo Ramos dão seguimento, na prosa, à que eu chamaria de lição de contenção dada na poesia pela extrema economia vocabular de um Carlos Drummond de Andrade e de um João Cabral de Melo Neto.

Não é preciso ir até os contos verbosos, altissonantes de um Coelho Neto para constatar até que ponto germinaram entre os novos contistas brasileiros, a podagem do estilo, a reticência como recurso expressivo e um dinamismo de imagens que espelham a imediatez da notícia transmitida pelo rádio ou o rigor de uma telereportagem de intenção documentária. Luiz Vilela e Ricardo Ramos comprovam que entre os ricos matizes da nossa short story há lugar tanto para a fabulosa veia inventiva de um Rubem Fonseca quanto para a perfeita síntese entre imaginação mágica e enraizamento ao mesmo tempo popular, erudito e criativo de um Guimarães Rosa.

Os livros recentes – Tarde da Noite (Vertente Editora) de Luiz Vilela e Matar um Homem (Editora Martins) de Ricardo Ramos – mostram, em primeiro lugar, esta afinidade de intenções e de temperamento. Arredios, mas intensamente sensíveis, seus autores superam o dilema do recato e da comunicação, rompendo a impossibilidade teórica de escrever colando. É uma literatura de silêncios, como a dramaturgia de um Harold Pinter, que dá ao leitor uma tarefa inédita e aparentada com a tese da literatura aberta: a de decifrar o escrito com a sua própria sensibilidade, fantasia e penetração intelectual. Como nos quadros de Vasarely, em que o espectador dispõe de elementos básicos para formar uma composição que, sem se afastar de suas partes integrantes, pode ser disposta de acordo com os recursos interpretativos de cada pessoa ao entrar em contato com eles.

Contraste interessante numa literatura abundantemente verbosa, fantástica como é a hispano-americana atual – de um Gabriel Garcia Márquez e um Juan José Arreola ou Cortázar – nossos contos contemporâneos nada têm das cores, do brilho e da riqueza espalhafatosa de uma literatura dos trópicos. No país do carnaval, da descontração, do futebol ululado por multidões ruidosas, nossos contistas são britânicos de reticência, ágeis na captação de uma situação humana, quase que pudicos na sua dolorosa descrição.

Luiz Vilela e Ricardo Ramos não incluem o fantástico na sua literatura: é surrealista, já pelo seu absurdo social e metafísico, a própria condição do homem, em sua latitude moscovita, londrina, vietnamita ou belo-horizontina. Felizmente, ambos se distanciam de uma literatura mais engajada com o panfleto stalinista do que com o homem e do que com seu reflexo captado nos sinais abstratos da escrita. Obviamente, ambos se referem a um meio social, a choques sociais entre pessoas que formam determinados grupos profissionais ou de convívio humano – mas têm o bom gosto e o bom senso de saber que uma apresentação objetiva e parca de meios de transmissão de uma realidade vale infinitamente mais do que um relatório, apresentado a uma repartição burocrática como um raio-X das dores do homem ou uma soma contábil de seus males.

Ricardo Ramos e Luiz Vilela diferem de método, participando de uma mesma perspectiva sensível. Ricardo Ramos, com Matar um Homem, adere mais intimamente à denúncia de distorções sociais em que o lucro é o rolo compressor que aplaina todas as aspirações e ilusões de uma comunidade.

O conto que abre sua coletânea, Matar um Homem, focaliza o subúrbio carioca sufocado pelo tédio baudelairiano dos que, exaustos de meramente sobreviver a um trabalho esterilizante, apelam par o sexo e a crueldade como válvulas de escape. A libido e a violência passam a ser formas de agir, de participar de uma realidade da qual os personagens estão alijados por uma engrenagem classista e impiedosa. (“Nas tardes de sábado como não se trabalha, acontecem coisas menos pacíficas”).

Como num corte cinematográfico, o autor abrange, numa tomada geral colhida do alto, um corte transversal dos povoadores do subúrbio: “Há uma enfermeira de plantão estudando inglês, um pederasta que apanha e chora, um bêbado estendido em cruz na calçada. O pastor, o guarda, o médico, todos olham e não dizem nada”. O clima é que facilita a explosão de ódio indiscriminado contra alguém como forma de liberação de uma frustração diária: “A tarde, entretanto, é morna como um bicho vivo. Selvagem também. Arranha, uiva nos sons que um rádio acelera sobre as calçadas, canto fanhoso, insistência, aloucada e estrangeira”. Da tarde o elemento selvagem se transfere, quase sem transição para o ser humano. O ladrão é a fera acuada a vítima ideal para punição exemplar:

“Bicho se acua, aos gritos. E se rasgou o alarido, onda subindo e arrebentando, uma exageração. Pega, ecoou seu Valdir. Cerca, foi Edmilson no berro sem dono, tanto de repetição. Não da vez, não pode. Não mais vaga, muralha crescendo, vagalhão de arrasto. Quem segura o homem? Bicho se caça, a pau e pedra. Houve uma primeira, que não acertou, que seu Bastos viu e contou depois. Bateu longe, muito para cima. Mas a segunda pedrada acertou. No ombro. O rapaz segurou a parte ofendida, com um espanto arregalado. Veio uma outra, que tirou sangue na testa, Edmilson recuou, pensou que fossem parar. Aquilo um massacre. Foi o contrário. Outra pedra, e mais, muitas. O alto-falante não emudecera, a voz de Deus continuava, somente as pessoas estavam caladas. O rapaz era sangue e pavor. Edmilson nem reparou, jogou a sua também, o tiro e a mancha vermelha, filme colorido, sua ou de outro? Pedra contra bicho, bicho contra bicho. Muitos bichos. O bicho contra a parede, alvejado, se esvaindo, se abatendo, caindo no chão.”

O apedrejamento do ladrão, o pontapé indiferente que a polícia dá no corpo ainda morno, a gripe da namorada do nortista a quebra momentânea da monotonia daquela não-vida, tudo serve para compor aquela tarde: “É a hora do ajantarado. Depois eles precisam descobrir um cinema, uma árvore, um canto de galo, alguma coisa que embale e adormeça”.

Ricardo Ramos identifica-se, nesta primeira parte do livro, com o ambiente pobre suburbano, com os dramas próximos da caricatura e do grotesco que tipificam sua condição humana: o circo mambembe em Osasco, com o morto de fome que se candidata a palhaço:

“Vinha vestido de Tio Sam e bateu palmas pedindo atenção”.

Ou capta a irrealidade da televisão, o vídeo substituindo o Verbo bíblico, a Luz que emanava de um Jesus filho de Deus transformada, dócil e sordidamente, no ponto luminoso do cinescópio que se acende e desfila, perante a cidade, as misérias a serem premiadas, votadas pelo público, medidas em seu peso e horror, relatadas por suas próprias vítimas: quem receberá auxílio será a lavadeira com filhos pequenos e incapaz de trabalhar por causa do coração? O trabalhador de enxada que não recebe salário e dome em cima dos sacos? O mascate nordestino preso pela polícia quando vendia pentes de plástico e refrescos sem licença da Prefeitura?

Um conto como “A Pitonisa e as Quatro Estações”, porém, já se afasta dessa temática, um tanto repassada de sentimentalismo e de ironia óbvia, com relação à “televisão ópio do povo”, do Chacrinha à Hebe Camargo e ao bang-bang. Prenuncia a segunda parte – melhor – de Matar um Homem quando se insere a dúvida quanto à infalibilidade em qualquer forma – religiosa, política, social, econômica. A dúvida é que faz germinar o lirismo e uma visão do homem sem rótulos ideológicos, só no labirinto de propostas altissonantes: o Partido, as massas camponesas, a vanguarda operária, a Fé, a Comunhão, o Mundo Livre – slogans em torno de um enigma muito mais sutil e emaranhado do que um Plano Quinquenal ou uma pastoral de efeito cloroformizante.

“Vaga morna o calor. Envolvente mantilha de verde trama, ou campânula baça, redoma, onde azuladas gotas se grudam à pele. Como agulhas ao sol. Ferindo as calçadas, os edifícios, aqueles sufocados sons que turvam a cidade. Uma incinerante camada recobre as árvores quietas, caladas, sossega a visão do tráfego. Poeira fina, gosto de incêndio”.

Nessa evocação inicial parece estar o forte do grande talento narrativo de Ricardo Ramos, nesta acentuada tendência poética. Com esta criação de uma atmosfera traçada meticulosamente, com matizes sutis com uma perfeita adequação das palavras ao clima de que elas brotam, o conto tem um ritmo e um lançamento admiráveis: o não-diálogo entre uma amada indefinida (a namorada? A noiva? A prostituta? Ou um mero símbolo da mulher que acena com uma saída para uma consciência angustiada?) e um jovem preocupado com o amor coletivo, mas já corroído pela aplicação, na prática, de teorias manipuladoras das massas.

Ao refrão da mulher – “Você é moço. Tem a vida inteira pela frente” – contrapõem-se os pensamentos não articulados do jovem – “Confesso que nessa altura eu acreditava em alguma coisa, imaginava, no proletariado e no povo, na força organizada dos operários e camponeses com sua vanguarda esclarecida, e mesmo assim caí em tentação, tive um mal súbito de místico desvario|”. Dessa desconfiança e da tendência para uma visão maniqueísta da realidade – os bons de um lado, os maus do outro como nas pinturas medievais do Céu e do Inferno – o tom dos contos se desloca, na parte final, para a continuação do tema obsessivo – a solidão do homem e sua utilização como cana esmagada na engrenagem de criar o doce açúcar do Lucro, do Juro, do Retorno do Capital Investido.

Da crença da propaganda política se faz a transição para a participação na publicidade comercial rendosa da mentira do Partido para o detergente e pela goma de mascar. Ambos simbolicamente “matam o homem”: a lavagem cerebral, detergente da liberdade individual, e o sabão que lava mais branco o bolso polpudo dos Donos da engrenagem. A publicidade, óleo que lubrifica emprego aviltante.

Em “Fred e sua Mensagem de Natal” o inglês Fred, condecorado na Segundo Guerra Mundial, humilhado na agência por um cronista social guindado a um cargo importante, tipifica essa derrota. Fred que fazia parte de “gente como a gente, assim habilmente descuidosa, (que) se emprega sempre no transitório”. Fred que fica rico depois que se casa com uma mulata “e com uma rica mulata, coberta de enfeites, agora premiavam a vanguarda da civilização”. O tom inicial, que estava perigosamente perto do pieguismo, adquire o desencanto da sátira, a mordacidade do cínico:

“O tempo passou e nós nos dispersamos. Cada um para o seu lado, acalentamos os nossos interesses imediatos. E de certa forma nos iludimos com a sua realização. Enquanto íamos satisfazendo, essas necessidades imaginárias, em volta aconteciam fatos que nos entretinham. Os carnavais se transformavam em turismo, as partidas de futebol ganhavam um campeonato do mundo, outro, as novelas deixavam o rádio pela televisão, e havia os festivais, muitos, às vezes se pode escolher entre o que nos é dado. Essas coisas, vindas ao correr dos anos, nos traziam a impressão de que participávamos. Eram como a política, voto sim, voto não, que afinal resultou, que afinal resultou, alheia à nossa vontade. E não era tudo sempre assim?”

É quando a percepção da realidade amadurece, uma realidade múltipla incapaz de caber em qualquer dialética preestabelecida e que coincide com o entendimento: “de repente, estávamos todos de cabelos brancos… Então, de todo aquele tempo, uma sensação me veio. Fundamente. Ainda que não seja a idade das lembranças, podemos ser pegos de surpresa. É recordar uma lição há muito aprendida. Pércio nos havia ensinado a acreditar nas pessoas, mesmo sem entendê-las”.

O que prejudica, negativamente, tantos pontos positivos na trajetória de Ricardo Ramos como contista é o roteiro excessivamente autobiográfico, confessional, dessas histórias. Em certos momentos como em “Esboço de Mutante” são meras interrogações que o autor compartilha com o leitor: sentir-se espectador de uma realidade da qual não pode participar realmente, manipulara pessoas por meio da agência de propaganda, os meios de comunicação modernos como truques mecânicos para criar mundos ilusórios.

Por isso, o conto que encerra este feixe de histórias, “Ano Novo com Meu Tio”, trilha de forma muito mais interessante e fecunda o caminho autobiográfico assinalado. Porque retoma a participação pessoal. É quando o escritor consegue envolver o leitor na trama de suas lembranças e comover-se com o tio velho no Nordeste patriarcal e de estruturas sociais arcaicas. É uma fusão de desacordo com uma situação de exploração rural dos lavradores das sociedades canavieira e do afeto irreprimível por um parente, numa adesão afetiva de raízes pan-humanas:

“De uma terra que veio para mim, chão da infância, e depois se transformou, distanciou-se, lastro movediço que pode ou não firmar pé. Quando isso acontece, é sempre muito fundo. Quando não, a superfície vira cena colorida, de olhar se agradado um ponto aqui, outro acolá, mais referência. Mas não é do homem ser dividido?

Estamos com sono, vamos dormir. Damos boa noite, bom ano novo, eu abraço meu tio. Eu o abraço como se ele fosse uma árvore, um boi, um mourão fincado na paisagem. Em volta pode mudar, enquanto ele estiver ali. Será dos últimos, o derradeiro. Ele inteiro, acabado, ele termina onde começou. Meu tio encourado sem fotografia, meu tio que não conhece o sentido das pontes”.

Na solidão do tio, último resistente à partida da família para o Sul, no seu abandono da igreja quando o sermão é longo e não mais em latim, na sua dignidade ao mesmo tempo muda e manchada pela injustiça social que se nutre num trabalho escravo Ricardo Ramos atinge o cerne da sua própria força como narrador. É quando, fiel ao seu diagnóstico profundo da divisão do homem, na sua bifurcação entre opções, ele funde amor ao ser humano e oblíqua denúncia.

O seu é um exemplo raro e vivificador de uma literatura que, por enlaçar-se com o desejo de mudança material não abdica de sua fidelidade aos meios de que a literatura dispõe, e estes meios são os de mostrar uma situação humana atônita, de vários ângulos ao mesmo tempo, mas sempre irredutível a um esquema pré-fabricado; só compreensível através da simpatia, da compaixão e da adesão do amor.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1971–1AD) 2023. “O talento de dois senhores contistas.” In Grandes contistas brasileiros do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 10:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.