Doris Lessing. Mais uma vez, fascinante

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1986/07/12. Aguardando revisão.

Talvez no ano 2000 o Brasil terá acesso à edição completa da obra monumental de Doris Lessing, cujo quarto volume acabou de ser publicado. O Planeta 8: Operação-Salvamento (Nova Fronteira) faz parte da série Canopus em Argos: Arquivos que sacudiu a crítica e os leitores desde a publicação de seu primeiro tomo, Shikasta, na Inglaterra… em 1979. Doris Lessing – é preciso repeti-lo? – ocupa um lugar único na criação literária ocidental contemporânea e seus livros refletem a vitalidade de suas meditações e constituem um poderoso instrumento de ação por si mesmos. São numerosas as facetas como que clarividentes de Doris Lessing: morando na Rodésia (hoje Zimbábue) faz parte do grupo restrito de autores brancos que denunciaram candentemente o racismo como Alan Paton e Nadime Gordimer. Ex-comunista, até desiludir-se com o fanatismo, a mentira e o terror do stalinismo, dos Khmer vermelhos do Camboja e Mao Tsé-Tung, permaneceu fiel a seu combate contra as desigualdades sociais e contra os dogmas políticos, religiosos, reguladores do comportamento social e do convívio humano pelas leis iníquas das classes dominantes. Feminista de longa data, sua veemência sempre temperada pela inteligência agudíssima causou furor entre os meios conservadores britânicos a favor do imobilismo, da inferioridade da mulher codificada pelas leis do país. Antinacionalista, se Doris Lessing soubesse da existência da xenofobia brasileira no setor da informática lançaria sua ironia ferina contra esse Chernobyl auriverde: para ela, a soberba e a estupidez, aliadas à cupidez hipócrita, são responsáveis pelos nacionalismos exacerbados, ventres de onde nascem todas as guerras.

Haveria outros aspectos de Doris Lessing a evocar, como seu misticismo relativamente recente, que a levou a praticar exercícios de sufismo, um ramo do islamismo, em sua casa em Londres cheia de pilhas de jornais e gatos. A esplêndida autore de Memórias de uma Sobrevivente enlaça claramente este quarto volume de seu painel com o primeiro, Shikasta. O enviado a um planeta que se supõe ser a Terra (modificada pela imaginação da escritora), Johor, torna-se com a humanidade dolorosamente sofredora deste livro, protagonista daquele que é também certamente o primeiro romance ecológico da literatura atual. O leitor que desconhece a grandeza de Doris Lessing não precisa temer um relato enfadonho sobre a necessidade de protegermos as espécies em extinção, as florestas, os rios, o ar, os mares. Este planeta, que para muitos é a Terra como ela se apresenta hoje em dia, desoladoramente assolada pela violência, pela fome, por doenças e a ameaça palpável de uma aniquilação pela radiação atômica, está à beira do extermínio total. A humanidade morena, de olhos negros, que a povoa, epera as naves espaciais que virão do cento da galáxia, Canopus, e se defronta, inopinadamente, com uma era glacial semelhante ao “inverno nuclear” que os cientistas preveem após a explosão de um conflito armado ou um acidente em reatores nucleares.

Como ela esclarece em seu posfácio, sua inspiração para páginas tão comoventes e lúcidas partiu do explorador inglês Scott à Antártida. O gelo eterno, as privações quase que indescritíveis pelas quais aquele punhado de homens extremamente corajosos e estoicos passou – tudo lhe serve de objeto de reflexão sempre fecunda. Por que realmente, Robert Falcon Scott, quis ir a uma das regiões mais inóspitas do globo? Por que as duas expedições inglesas, de 1901 a 1904 e de 1910 a 1913, não foram subvencionadas pelo governo e idolatradas pelo público inglês? Doris Lessing focaliza, à maneira de um Mircea Eliade diletante, o valor transcendente de determinados mitos para o ser humano: a Pátria com P maiúsculo, o Dever, a Abnegação com o intuito de superarmos a nós mesmos e provar um princípio pelo qual literalmente damos a vida: a liberdade, a humanidade, a fé etc. etc. O que torna fascinante a pesquisa de Doris Lessing é a sua ausência de paixão capaz de cegar a verdade vista tão objetivamente quanto seja humanamente possível.

Assim, a Inglaterra passa a ser um dos mitos arquetípicos que no plano positivo pode produzir um Shakespeare e no negativo o imperialismo sobre outras raças, nações, tribos, clãs, culturas. Por isso também ela se atreve a contradizer o cinismo atual que visa ver em Scott um idiota, um farsante e vislumbra nitidamente o seu heroísmo, por mais inútil que tenha sido. Sem dogmas, é possível conciliar características quase sempre conflitantes: se tudo que fosse inglês era intrinsecamente melhor, esse orgulho desmesurado e a priori é duplo e dúplice: pode levar à honradez, à imolação de si diante de um altar pessoal como pode levar à cegueira suicida. A autora ressalta um ponto importante e que é na maioria das vezes ignorado: cada era tem o seu Zeitgeist, o espírito de uma época, intraduzível e indecifrável por outra época. O que conduz a uma metafísica profunda:

“O Espírito da História (temos tanta prática no assunto!), como uma mulher desgrenhada, mas complacente, com a máscara do importante governante ou sátrapa:

E para a lata de lixo vão holocaustos, fomes, guerras e os ocupantes de um milhão de prisões e câmaras de torturas.”

E mais adiante:

“Se os brancos tivessem tido a capacidade de examinar friamente, por cinco minutos, alguns processos históricos semelhantes… mas quando alguma vez a casta governante teve essa capacidade?”

Na realidade, as elites dominantes inebriam-se com sua própria propaganda e autolouvação. Com uma distinção decisiva:

“Não, não fazem uso dela pois isso, na minha opinião, é uma das fórmulas da retórica marxista, que substituem o pensamento.”

Mesmo sem conhecer o Brasil da corrupção impune e solta, ela duvida que o mundo tenha jamais sido tão mal administrado quanto hoje, que o abismo entre a camada que governa e os governados tenha sido tão imenso:

“Simplesmente recuso-me a acreditar que o mundo tenha sido sempre tão estupidamente mal administrado quanto agora, que os pobres tenham sido sempre tão indefesos e tão ignorados pelos poderosos. Houve nações, Estados, comunidades, no passado, em que os governantes faziam questão de saber o que se passava nas camadas mais baixas da sua administração”.

O poder pela sua própria natureza é enganador, ela conclui, como se tivesse acabado de ler Proudhon ou Bakunin. Jamais Hitler, Stálin, Fidel Castro, Pinochet, Jaruzelski, Idi Amin, o Xá do Irã e outros terão acreditado que não eram bons, que não estavam agindo em prol da felicidade e do bem-estar de seus povos. Nada disso elimina certas doenças infantis que nos acompanham rumo ao século XX: o nacionalismo, tão obsoleto e criminoso quanto as guerras religiosas ou o domínio do mundo pela Europa. Ridículas são, portanto, as falsas “descobertas”: Niagara e Vitória não eram já arquiconhecidas e mais do que “descobertas” pelas populações indígenas dos Estados Unidos e Canadá e da África, respectivamente?

Uma suspeita ousada deveria nos convencer a desconfiar, sabiamente, das intenções nobres. E isso é possível? Quando congelados em mitos inquestionáveis, sim, até “os pensamentos nobres podem forjar assassinatos e assassinos”. Desse modo, uma expedição ao Polo Sul não “descobre” o Polo Sul nem o pobre Scott e seus oficiais e soldados poderiam, mesmo com o preço da vida, jactar-se de tamanha façanha. Doris Lessing subverte a versão tornada oficial da História, mas não oferece soluções perfeitas, preparadas de antemão. Insinua-se claramente a noção de que ela anseia por uma união da humanidade capaz de anular tanto as fronteiras quanto o domínio de alguns clãs humanos sobre outros. Por mais banal que soe esta exortação, ela a formula: temos que repensar a convivência política, o machismo, a exclusão das mulheres, dos judeus, dos pobres, dos povos de cor, sem o que só colaboraremos para a efetiva eclosão da Terceira (e derradeira) Guerra Mundial. Como socraticamente só sabemos que nada sabemos, é urgente conhecer, pensar, embora a chave dos enigmas que nos circundam e limitam esteja possivelmente além das possibilidades e das interpretações humanas, como ela conclui, de forma inesquecível.

“Tenho a impressão de que não sabemos o suficiente sobre nós mesmos; que não pensamos o suficiente na possibilidade de que nossas vidas, ou alguns incidentes e momentos em nossas vidas não possam ser analogias, metáforas ou ecos de elaboração e de acontecimentos que ocorrem com outras pessoas ou com outros animais, até mesmo com florestas ou rochas neste nosso mundo, ou talvez em outros mundos, em outras dimensões”.

Sem incidir no erro, que, a meu ver, constitui a tendência de resumir para o leitor o princípio, meio e fim de um livro, este O Planeta 8: Operação-Salvamento deslumbrará mais ainda os que já leram Shikasta. É verdade que a tradução de Aulydes Soares Rodrigues continua a mesma, com falhas e sem refletir o brilho do original em inglês, mas, com os salários de fome pagos aos tradutores brasileiros, quem pode exigir um trabalho sublime, sem mácula, tão abnegado quanto o heroico Scott nas geleiras da Antártida?

A força das ideias e das imagens da novelista inglesa resiste a traduções, ventos e tempestades. Extraordinariamente atual, suas indagações e invenções despertam associações de ideias e emoções imediatas no leitor diante desse planeta que já evoluiu mais do que a Terra a ponto de não ser mais assolado por barbarismos do tipo de tiranias, de racismos, de tecnologias monstruosas e crimes causados pela fome ou pela cobiça. Intrigante, uma muralha negra separa aquela humanidade hipotética da neve, dos assassinatos, do egoísmo incontido de povos e nações. Instigante, o estilo de Doris Lessing se impõe, em cada um de seus livros, como uma inquirição sempre solidária com o seu semelhante:

“Alguns de nossos Representantes eram da opinião de que deveríamos fazer desta ocasião a consagração do nosso lago à utilidade e à produtividade, uma cerimônia com canções e hinos, marcando o contraste entre a desolação presente e a nossa vida passada. O passado tão recente… só as crianças muito novas não se lembravam do lago azul e brilhante entre os verdes e amarelos da folhagem. Para que um ritual formal de lembrança? Nossa extensão de águas cintilantes tinha sido azul, tinha sido verde, com minúsculas cristas brancas. Rochas escuras por todas as margens maravilhosas e incrivelmente multicoloridas tinha virado plataformas de mergulho… habitualmente de cor parda, cinzenta e de lama, os tons de uma terra quente e produtiva chegavam a parecer agora extraordinários, quase impossíveis. Teríamos estado aqui, nos povos do planeta ferido, teríamos visto corpos morenos cheios de vida mergulhando e nadando nas águas que refletiam o azul do céu? Teríamos dançado e cantado por estas margens nas noites quentes em que águas tranquilas e escuras nos pareceram coalhadas de estrelas?…”

Não é só a sensibilidade aguçada para a Natureza que distingue o universo privilegiado de Doris Lessing. Ela se interroga também sobre o advento da revolução industrial: teria sido um erro fatal para a humanidade? A espécie humana está já condenada, sem apelação, a desaparecer numa hecatombe nuclear? Ou um “plano global” até agora inescrutável para a percepção humana preside, realmente, a nossos destinos?

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Doris Lessing. Mais uma vez, fascinante .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.