Drummond: comovido, feroz. Exato

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1978-11-4. Aguardando revisão.

Em seu último livro de poemas, Discurso de Primavera e Algumas Sombras, Carlos Drummond de Andrade continua imune à erosão do Tempo. Supremo poeta vivo do Ocidente - posição que os maiores intelectuais norte-americanos lhe reconhecem de forma crescente e justa -, um dos três poetas mais perfeitos do idioma, mesmo em um livro de circunstância como este, ele consegue ser o Orfeu brasileiro a resgatar a sua Eurídice, a mediocridade, da ausência de talento, descobrindo todo um universo poético insuspeitado mesmo nos acontecimentos mais cotidianos. Sua lira profunda paralisa as feras da estupidez e do marasmo, da leviandade que se engalana com plumas pseudo-literárias e sua poesia encanta pelo enlevo da sua melodia. Na lírica do Brasil, ele é o primeiro clarividente, aquele Baudelaire precoce, voyant como o definia lucidamente Rimbaud.

Entre o cronista diário de jornal que comenta, em prosa, os acontecimentos espelhados pelos jornais, pela televisão e pelo seu testemunho pessoal e a grandeza poética e filosófica dos livros que tornaram a poesia brasileira universal, ele aqui funde os dois gêneros, o propositalmente leve, dirigido à grande massa heterogênea de leitores, e a poesia meditativa de requintes estilísticos ocultos nas dobras de um linguajar simples e aparentemente sensível a todos.

O segmento inicial do livro, Notícias do Brasil, já revela essa potencialidade poética dos fatos transmitidos pela comunicação indiscriminada e telegráfica. O aspecto ecológico do desaparecimento de grande parte do leito do rio São Francisco, ressecado e agonizante não se restringe a essa constatação. Há uma dimensão visual de impacto no quadro:

“Já te estranham, meu Chico. Desta vez,

encolheste demais. O cemitério

de barcos encalhados se desdobra

na lama que deixaste;”

Para adquirir uma feição pungente de tragédia social:

“É a gente que vai murchando

em frente à lavoura morta

e ao esqueleto do gado,

por entre portos de lenha

e comercinhos decrépitos;

a dura gente sofrida

que carregas (carregavas)

no teu lombo de água turva,

mas afinal água santa”

E elevar-se a uma densidade poética arguta:

“Não vem resposta do Chico,

e vai sumindo seu rastro

como o rastro da viola

que se esgarça no vão do vento”.

Mas a poluição e o estupro da natureza não despertam apenas a melancolia celebrativa e nostálgica. Há acentos irônicos e irados no poema “Num Planeta Enfermo” que, como o anterior, lamenta e se insurge contra a morte de um rio, desta vez o Parnaíba. As fotos surrealistas da espuma branca a cobrir as águas, despejadas por fábricas impunemente assassinas do meio-ambiente, bomba de nêutron nao arrolada entre as armas mortíferas, despertam, publicadas na Imprensa, associações de sarcasmo contundente:

“Cai neve em Parnaíba,

noiva branca.

Vem dos lados de Pirapora do Bom Jesus

presente de Deus, com certeza,

a seus filhos que jamais viram a Europa.

Ou talvez cortesia do Prefeito?”

Com claras conotações políticas de rebeldia contra o status quo de impunidade do crime contra todos os seres vivos da região:

“Entre flocos de espuma detergente

vão se findar os dias lentamente de pecadores e

não pecadores,

se pecado é viver entre rios sem peixe

e chaminés sem filtro e monstrimultinacionais,

onde quer que a valia

valha mais do que a vida?”

De vez em quando aflora o tema constante de Boitempo & A Falta que Ama - a celebração saudosa de uma Minas que passou:

“Não canto

as armas e os barões assinalados.

Canto

as arcas e os baús de Minas Gerais

já sem ouro e diamantes”

Mas é na renovação ousada de intercalar nomes de tranquilizantes da farmacopéia moderna com neologismos eruditos como o radical than do grego antigo thanatos (morte) e até termos de gíria como “amizade”, no sentido de “meu amigo, meu companheiro” que ele deleita o leitor com o contraponto subrepitício da arte veículo de uma meditação filosófica e da arte como expressão superior à de Mayakovsky como veículo de inserimento na modernidade requerida pelo Manifesto Futurista de Marinetti mas sem os seus paroxismos:

“Receituário Sortido”

“Calma.

É preciso ter calma no Brasil

calmina

calamarian

calmogen

calmovita.

Serenidade, amor, serenidade.

Dissolve-se a seresta no sereno?

Fecha os olhos: serenium,

Serenex…”

Atingindo um tom bufo voluntário e de efeito hilariante:

“Dói muito o teu dodói de alma?

Em seda e sedativo te protejas.

Sedax, meu coração,

sedolin

sedotex

sedomepril.

Meu bem, relaxe por favor.

Relaxan

relaxatil.

Batem, batem à porta? Relax-pan.”

Para no final a inventividade de nomes delisiosos para remédios contra a ansiedade da caótica vida urbana contemporânea chegar no ápice com a urdidura de palavras sintéticas, de origem oculta e sufixos que glosam a empáfia dos remédios que nos vêm dos laboratórios da Suiça, da Alemanha, dos Estados Unidos:

“Não sentes adejar: psicopax?

Então morre, amizade, morre presto,

morre já, morre urgente,

antes que em drágea cápsula ampola flaconete

proves letalex

mortalin

obituaram

homicidil

thanatex thanatil

thanatipum!”

Mesmo este volume de versos sabidamente despretensiosos guarda as marcas da originalidade e do inconformismo íntegro e galhofeiro de Carlos Drummond de Andrade. Já há mais de 50 anos ele se rebelava, com as armas da sátira e da novidade poética, contra o mofo e o formol em que estavam envoltas a prosa e a poesia do Brasil naquele Museu de cera em que Coelho Neto enfileirava baboseiras e prosa de falsa rutilância e os poetas eram acadêmicos plagiários de uma Europa que não conheciam nem de ouvido. Pois já foi no início de sua suave sugestão iconoclasta poética que ele zombava em “Poética Literária” com pontaria certeira:

“O porta municipal

discute com o poeta estadual

qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal

tira ouro do nariz.”

Atualizado no gume afiadíssimo da linguagem de hoje, o mesmo Drummond clarividente, desmistificador e profundo consegue o prodígio de alinhavar versos que são uma leitura em diagonal das Páginas Amarelas, encontrando na aparente desordem alfabética do catálogo telefônico comercial laços inesperados de rimas mentais. Assim, as “panelas de pressão” evocam, surpreendentemente, a Censura e a opressão política:

“rolos compressores

sistemas de segurança

vigilância noturna

vigilância industrial

interruptores de circuito

iscas

encanadores

alambrados

supressão de ruídos”

Numa oblíqua alusão a embates sócio-políticos - interruptores de circuito poderia ser uma alusão à tortura por fios elétricos? - com o termo que designa uma profissão, “encanadores” sugerindo sutilmente o termo de gíria equivalente à prisão, “ir em cana”, e “alambrados” ecoando nas cercas de arame farpado dos cárceres e a falsamente inocente “supressão de ruídos” ao “afastamento” de contestadores molestos e inoportunos.

Da mesma forma, o item doenças “da pele”, do sangue, do sexo… câncer” rima com o Leitmotiv constante da decadência física senão psíquica acarretada pelas

“Doenças da velhice

empresas funerárias

coletores de resíduos”

Assim como em versos antigos as coroas dentárias propostas prematuramente pelo dentista evocavam as coroas fúnebres colocadas em cima do caixão.

Enfastiado, o poeta afasta de si também, numa prece a Deus, “Libera nos, Domine” (Livra-nos, Senhor) da nomenclatura pomposa, arrogante e pseudo-científica de uma linguística que se propõe a colocar a palavra na camisa de força de uma nova alienação; a colonização do pensamento e do sentimento autênticos pela terminologia erudita e usada prudentemente, derivada do grego antigo.

É uma ladainha de admirável senso de humor que ele entoa:

“Das relações entre topos e macrotopos

Do elemento suprassegmental

Libera nos, Domine

Da semia

Do sema, do semena, do semantema

Do lexema

Do classema, do mema, do sentema

Libera nos, Domine

Da leitura sintagmática

Da letura paradigmática do enunciado

Da linguagem fática

Da fatividade e da não fatividade da oração

principal

Libera nos, Domine

Da organização categorial da língua

Da principialidade da língua no conjunto de de

sistemas semiológicos

Da concreteza das unidades no estatuto que

dialetiza

a língua

Da ortolinguagem

Libera nos, Domine”

Para desafiar a legião de designações herméticas e infrutíferas para a percepção da literatura e da linguagem que se cifra em palavrório oco de inletecto e de emoção humana como “espaço heterotópico”, “glide vocálico”, “elitização pronominal obrigatória” e “totalidade sincrética do emissor” e assestar sua impaciência contra os Papas da Infalibilidade da Incomunicação como quem espanta moscas impertinentes.

“Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonok

De Chausurre, Cassirer, Troubtkoy, Althusser,

De Zolkiewsky, Jakobson, Barthes, Derrida, Todorov

De Greimas, Fodor, Chao, Lacon et Caterva

Libera nos, Domine”

Sem esquecer a zombaria proposital de transformar Saussure, um dos “monstros sagrados” da linguística desumanizante quando levada a um cerebralismo estéril e inútil, no termo vulgar para sapato: chaussure

Não se trata, porém, de um volume de poemas improvisado ao sabor das manchetes e dos modismos do dia. Há versos de arrebatadora beleza e doída comoção que podem ser o equivalente ocidental de um hai-kai como as parcas linhas, densíssimas, de “Alagados da Bahia”:

“Casebres à flor d’água

balançam

no silêncio

o sonho de viver

o sonho de morrer

Jenner Augusto sobre a água

sob o céu violeta

sob o céu de chumbo

lê o horóscopo das crituras

que nos alagados

morrem sem viver”

Como também podem voltar a um dos motivos centrais do poeta, a elocubração funda sobre a morte e o efêmero de tudo, ao saudar os noventa anos que o poeta Manuel Bandeira celebraria agora:

“Oi poeta!

Do lado de lá, na moite, hem? fazendo seus

novent’anos…

E se rindo, eu aposto, dessa bobagem de contar

tempo,

de colar números na veste inconsútil do tempo,

o inumerável,

o vazio-repleto, o infinito entre seres e coisas

nascem, renascem, embaralham-se, trocam-se

com intervalos de sono maior e que, sem precisão científica,

chamamos de morte.”

Até a celebração do cântico sem qualquer nódoa de pieguice, trágico e musical em sua averiguação de um despercebido embate que se trava entre a memória e a transitoriedade do homem que perpassa pela vida:

“Manuel canção de câmara, Manuel

canção de quarto e beco.

ritmo de cama e boca

de homem e mulher colados no arrepio

do eterno transitório: traduziste

para nós a tristeza de possuir e de lembrar,

a de passar,

mescla do que foi, do que seria

simulteneamente roejtados

na mesma tela branca de episódios

em nós, vaga, soprada cinza,

em ti, o sopor intenso de poesia.

Isto nos deste, verso a verso,

e só depois o soubemos claramente,

na leitura da luz da vida inteira.

Foste nosso poeta, doaste som

de piano e violão e flauta ao sentimento

esparso, convulsivo, dos amantes,

dos doentes, dos fracos, dos meninos.

Manuel-muitos-irmãos no gesto seco.

Novent’anos, será? Ou és menino

também e para sempre

agora que viveste a dor da vida

e sorris no mais longe Pernambuco?”

No princípio de seu itinerário poético, o itabirano “triste, orgulhoso, de ferro”, confessava a dubiedade da sua liberdade e do mistério que o acompanha:

“Sou um homem livre

mas levo uma coisa.

Não sei o que seja.

Eu não a escolhi.

Jamais a fitei.

Mas levo uma coisa.

Não estou vazio,

não estou sozinho,

pois anda comigo

algo indescritível.”

Talvez indescritível mas perceptível, incólume, imperecível, ao longo de seus 75 anos: a poesia. Inata, absoluta, onisciente: a poesia.

A inesgotável novidade de Carlos Drummond

Jornal da Tarde 27/12/1980

Raro o dom de Carlos Drummond de Andrade de não esgotar, com o passar do tempo, a sua novidade. De livro para livro, amplia-se o panorama cada vez mais vasto da sua poesia, com uma audácia coerente de espírito pioneiro desde os versos iniciais, há 50 anos. A Paixão Medida (Editora José Olympio) inclui temas anteriores e inova com originalidades enriquecedoras: a presença de Minas, a escavação do mistério da palavra, a ironia branda dirigida à burocracia cega, o comentário sardônico-transcendente dos faits divers do dia-a-dia, a celebração translúcida do amor como mistério inexplicável, tudo se soma a indagações novas em torno de Deus, da natureza, do tempo. Já o poema inaugural, “A Folha”, questiona a dualidade paisagem e apreensão humana da sua aparência:

“A natureza são duas.

Uma,

tal qual se sabe a si mesma.

Outra, a que vemos. Mas vemos?

Ou é a ilusão das coisas?”

Indecifrada, a sequência autônoma de uma folha que cai é substituída por outra que supera a mortalidade humana, a perceber sua queda logo suprimida “por ordem do Prefeito”, que a manda varrer ou a presunção humana de sobrevivê-la é mera miragem do efêmero diante da sucessão alhiea à medida humana da duração da existência? Em escassos, sucintos 20 versos, o poeta alude, sem ostentação de erudição nem citações retumbantes, às indagações perenes da vida como maya ou ilusão do Budismo, à teoria de Bergson, retomada por Proust em A la Recherche du Temps Perdu sobre la durée como intensidade fugaz perpetuada em arte pela memória frágil e quebradiça humana, à questão perene proposta pela filosofia e pela poesia da Grécia Antiga sobre a evanescência do ser humano diante da physis imutável e alheia à marca mortal. Sem aderir a uma resposta mística nem descrente, Carlos Drummond de Andrade como que permite que o leitor se questione junto com ele, o poema um espelho das dúvidas pan-humanas e como uma via de múltiplas interpretações, todas sábia e democraticamente abertas à sensibilidade do leitor.

Essa alteridade do mundo comtemplado pelo olhar desdobra-se no poema seguinte, “A Suposta Existência”, inquirindo se o que não é percebido por nós tem uma existência independente da confirmação de sua realidade, pela finitude e pelo limite de nossos sentidos:

“Que fazem, que são

as coisas não testadas como coisas,

minerais não descobertos - e algum dia

o serão?”

……………………………………………………..

Existe, existe o mundo

apenas pelo olhar

que o cria e me confere

espacialidade?”

Pressupõe-se que o homem é apenas um elemento a mais da criação, sem as trombetas altissonantes do Rei do Universo e Imagem do Criador, roçando a inquirição filosófica de que uma determinação incompreensível para a dimensão humana preside a tudo, pedra, consciência, arbusto: somos vividos em vez de vivermos? A transcendência não nos escapa como na compreensão funda de que

“Mas passeado sou pelo passeio,

que é o sumo real”

e não é mais consoante com o indecifrável inverter os papéis e atribuir ao mundo a função do inventor, enquanto somos meros inventados? Para findar no questionamento agnóstico:

“ou somos todos uma hipótese”

ou humildade diante de um Mistério que nos é vedado, fração temporal que somos uma dimensão infinita “ao sol do dia curto em que lutamos”?

Carlos Drummond de Andrade tem a singularidade dos grande poetas, que consiste em não deixar infiltrar-se em seu texto uma única frase ou consideração banal - contraste que se o exalta, por outro lado trona patéticos os esforços de quantos pelejam por se candidatarem, esforço geneticamente abortado desde o princípio, às alturas de potentes vozes novas da poesia brasileira, sobre os andaimes da presunção, da estupidez intrépita e das “poetisas” e “poetas” estéreis e com a benevolência frouxa de quem lhes tributa espaço. Assim, até em brevíssimo interlúdio, finamente, sutilmente irônico quanto à majestade clássica da métrica poética, em “Arte Poética”, o insuperável poeta da língua portuguesa deste final de século se permite um convívio lúdico com os mecanismos de invocação das Musas na alternância das sílabas “uma breve uma longa, uma longa uma breve” e cria com “A Paixão Medida” uma deliciosa sarabanda de nomenclaturas:

“Trocaica te amei, com ternura dáctila

e gesto espondeu.

Teus iambos aos meus com força entrelacei.

Em dia aomânico, o instinto ropálico

rompeu, leonino,

a porta pentâmetra…”

sobrepuando-se sempre à rigidez em si vazia da forma a vibração humana do frêmito, “a quebrada lembrança/ de latina, de grega, inumerável delícia”. Intercala-se uma referência velada a Fernando Pessoa de que o poeta é um fingidor “e tudo mais é sentimento ou fingimento” e sobreleva sempre o gesto de descobrimento, a coragem atrevida da aventura da poesia, que segue o mapa decisivo e insuspeitado “da cor da vida no papel”, sempre a marca humana vivificando o estabelecido, o codificado e o resguardando de se tornar tradição empoeirada e morta.

Ressoa em cada poema essa energia vital de um sopro, não importa se breve, da vida exuberante em contraste flagrante com todos os esforços em vão de marmorificar os sentimentos em arte, em literatura, em código sepultado. Assim, em “Os Cantores Inúteis”, justapõem-se o pássaro, com sua melodia não aprendida, e o verso modernista de cuja feitura o magnífico poeta se considera um modesto aprendiz. Mas

“A canção absoluta não se escreve”

e o canto da ave e a palavra do homem se anulam com a passagem distraída de amantes, estes, sim, alheios a gorjeios e rimas,

“Surdos a tais cantos discordantes,

A melodia interna é que os governa.

Tudo mais, em verdade, são ruídos”

É um teorema que felizmente não fica demonstrado, pois a própria grandeza do poema e das noções nele contidas provam que esses ruídos, como os ruídos da guerra e os queixumes do amor celebrados por Camões, poeta tão querido e lembrado por Drummond, assumem a própria feição da História épica que cantou em Os Lusiadas e dos embates do amor em seus sonetos que cristalizam o êxtase, a saudade, e a dor de todos os homens. Desdizendo um de seus mais famosos poemas, Carlos Drummond de Andrade, mais uma vez, comprova que “lutar com palavras” não é “a luta mais vã” dentro da fugacidade caótica de tudo, a transcendência atemporal do poema fica, a memória sobrevive enquanto houver “humano entendimento”. Da mesma forma que ele reconhece o irrepetível de cada corpo (“cada corpo é uma escrita diferente… não lhe penetra, na textura, o mito”), insistindo na afirmação da intensidade do momento diante do Nada:

“O corpo de demonstra na pureza

que é a negação de tempo e de tristeza”.

Esse mesmo pacto surpreendente entre o abstrato e o concreto ressoa em “Patrimônio”, quando as duas formas de legado de Itabira se alternam e complementam: a evocação de Minas, o passado, os antepassados, e o vocábulo. No entrelaçamento baudelairiano de correspondências só pressentidas pelo poeta e sua genialidade intuitiva,

“… Palavras

assumem código mineral”

naquela alquimia que transforma a experiência em perenidade a lembrança em melodia lírica:

“Minérios musicalizam-se em vogais”

Pela páginas perpassam momentos graves, de reflexão sobre a morte que vai arrebanhando os amigos um a um e depojando o poeta de uma estrutura de referência que são a extensão do seu próprio eu; citações só aparentemente divertidas, na realidade profundas sobre os ditos populares e antagônicos sobre Deus: “de hora em hora Deus melhora”, “o futuro a Deus pertence”, “Deus sabe o que faz” contrapondo-se a “Deus por todos, cada um por si” e “Deus consente, mas nem sempre”; uma acolhida, reminiscente talvez de Erasmo de Rotterdam, da Loucura que dá abrigo ao insano Amor humano, “pois não sei de mais triste destino/ que este mal sem perdão, o mal de amar”. Nada há de gratuito nem de superficial no delicioso jogo de palavras de Drummond nos momentos em que se ironiza, se imagina com uma gota de sangue húngaro através da Escócia “Onda Alta, Drummond” ou como “pequeno burocrata aposentado a escrever para jornais/ histórias da minha rua e do meu ônibus cotidiano”. Mas o vigor comovente da poesia social do autor de Rosa do Povo continua pujante quando o poeta incorpora os mitos populares ou, com solidariedade contagiante clebra os amores furtivos, rápidos, comprados na zona de prostituição do Mangue, no Rio de Janeiro, adquirindo um tom polifônico, coral, que abrange as vendedoras de sexo, os compradores ansiosos, a zona vasta em que se irmanam uma castidade além do corpo e uma fé ingênua em santas de folinha penduradas ao lado da cama de volúpias baratas, momentânea fartura do pobre, descanso para a solidão individual momentaneamente apaziguada:

“São todos irmãos: a rua

é um país compreensivo

em que se procura o amor

sem escritura e padrinhos,

o país do pobe amor,

alta riqueza do pobre,

consolação e alegria

dos que estão sempre sozinhos

mesmo quando multidão.

São solidões que se abraçam

que se enroscame se deglutem

na festa

(é festa?)

do Mangue.”

“O Marginal Clorindo Gato” constitui, porém, o momento mais alto e mais perfeito dessa denúncia social. Não só pelo relato metafísico das flores que milagrosamente brotavam da sepultura do “justiçado” pelas mil metralhadores dos que tomam a lei em suas mãos e que passaram a ser veneradas por multidões de peregrinos sequiosos de cura, de conforto espiritual, de esperança. Não só pelas vergastadas na insensibilidade arbitrária dos poderes públicos que de início proibem e abatem, por força da Lei, a procissão de crentes e em seguida, por decreto transformam o local em fonte de renda turística nacional para os cofres do Tesouro. Sobretudo pela veemência, paradoxalmente contida, dos versos que insistem no desamparo do povo e que sobrepairam a centenas de anos-luz, qualitativamente, sobre o resto da poesia pretensamente social que hoje poetelhos e poetelhas sem talento tentam impingir aos incautos como “poesia engajada”. Com João Cabral de Melo Neto e o Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade mais uma vez corrobora sua grandeza como poeta social da penúria, como retratista da miséria imemorial das massas desamparadas do Brasil famélico, abstração de gráficos do IBGE e da Fundação Getúlio Vargas sobre “os segmentos da população que vivem em estado de miséria absoluta” agora colocados como espectros terríveis diante do leitor:

“Em cada rua de cada

povoado daquelas grotas

uma injustiça esquecida

mostrava suas raízes.

As humilhações sem conta

que pesavam sobre os fracos:

os direitos mais singelos

nunca jamais consentidos;

o gosto ardente da posse

acima de qualquer código:

a volúpia de mandar

e de, mandando, oprimir;”

Que adesão mais profunda candente e tocante pode haver do que a relação concisa e sem palavrórios ideológicos dos versos inesquecíveis dessa litania sóbria que se inicia contando:

“Nascido em chão de miséria,

acalentado na sede,

à margem, fora de vista

das promessas de viver,

já condenados no útero

ao destino sem destino

senao a ser refugado,

espezinhado, moído,

discriminado, espancado,

vilipendiado, cuspido,

amordaçado, riscado

a ferro e fogo na alma,

em seu peito resumia

um dicionário de agravos

queimando todas as horas

de uma existência maracada”.

Nesta oblíqua, nada atroante lição de verdadeiro empenho solidário social, Carlos Drummond de Andrade involuntariamente demonstra o eunucoidismo dos ruídos inúteis produzidos por uma pseudo-Esquerda e comprova que é nos melhores momentos da moderna poesia brasileira - na prosa poética de Guimarães Rosa, nas Ficções de Hilda Hilst, na poesia social de Mário Chamie, Carlos Nejar, entre poucos outros - que o Brasil das gritantes injustiças sociais encontra a sua final, definitva expressão emblemática. A democratização destes poemas, antes acessíveis somente a uma elite de bibliófilos em edição requintada das publicações Alumbramento, nesta edição acessível economicamente a todas as bolsas combalidas da nossa inflação eficazmente conduzida pelo palavrório de polpudos ministros e ministros que detêm aviões mas não um dígito da espiral inflacionária, o único senão são as ilustrações, de gosto duvidoso, tanto contrastam com a beleza e profundidade dos versos de Drummond. Perto do Natal, porém, este livro fisicamente magro, qualitativamente esplêndido, como alívio para um ano avarento de lançamentos importantes - que se reduzem talvez a no máximo meia dúzia de títulos em 12 meses - significa uma compensação para a pluralidade de males que afligem os impotentes diante do Apocalipse que, tudo indica, já começou. Com Drummond, neste atual testamento, também no fim, é o Verbo que ainda dá sentido à vida.

O poeta absoluto

Jornal da Tarde 30/10/1982

Carlos Drummond de Andrade representa uma ruptura tão radical com a poesia brasileira que antecede a sua aparição que não será mais possível qualquer retorno à poesia anterior. Nada ilumina melhor esse contraste vivíssimo do que a mera menção de um ou dois poemas das escolas precedentes. Fiel ao Parnasianismo francês, adaptado em sua forma marmórea fria para uma seiva estuante, tropical, sensual, os versos de Bilac estão sempre próximos do discurso eivado de exclamações teatrais e retóricas, redordação do legado romântico ainda paradoxalmente engastado nos soi-disant parnasianos, atados à nau francesa ancorada em Paris. Os versos famosos de Bilac que faziam estremecer de espanto e gozo os seus leitores (e mais ainda os seus ouvintes) proclamavam, por exemplo:

In Extremis

“Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia

Assim! de um sol assim!

Tu, desgrenhada e fria,

Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,

E apertando nos teus os meus dedos gelados…

E um dia assim! de um sol assim! e assim a esfera

Toda azul, no esplendor do fim da primavera!

Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!

Ninhos cantando! Em flor a terra toda!

O vento

Despencando os roais sacudindo o arvoredo…

E aqui dentro o silêncio… E este espanto! e este medo!

Nós dois… e entre nós dois, implacável e forte

A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte…

Para finalizar.

Eu com frio a crescer no coração - tão cheio

De ti, mesmo no horror do derradeiro anseio!

Tu, vendo retorcer-se amarguradamente

A boca que foi tua!

E eu morrendo,

Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo

Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,

A delícia da vida! A delícia da vida!”

Primeiro havia um silêncio como diante de uma Sonata ao luar de Beethoven que o Mestre terminou de interpretar. Mas era um silêncio prenhe de eloquência, de reflexões “filosóficas” sobre a brevidade da vida e o litígio perpétuo entre, de um lado, Romeu e Julieta, os amantes, Eros, e de outro a inexorabilidade da Morte, Tânatos, a rasurar tudo e engolfar a vida estuante no seu túmulo de esquecimento e horror. Passada a mudez do espanto pela contundência emocional desses versos “tão lindos!” a platéia, como se estivesse num templo, explodia em riso, pranto, aplausos e um delírio de flores cobria a cabeça de quem declamasse, assim, “com tanto sentimento e expressão!”.

Devastador, por outros tido como “louco”, “charlatão” e “irritante”, Carlos Drummond já se colocava no pólo oposto a essa retórica grandiloquente, digamos, de um quadro de Géricault ou das estampas médicas que mostram o médico jovem a arrebatar um lindo corpo de mulher nua das mãos cúpidas de um esqueleto horripilante que a quer levar com ele para o túmulo, Carlos Drummond versifica:

“Política Literária”

“O poeta municipal

discute com o poeta estadual

qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal

tira ouro do nariz”.

Era um acinte! Tratava-se de um poema ou de uma piada de mau gosto!? Onde ficara a “elevada inspiração”, a “retidão das intenções”, enfim, a poesia, que em tudo devia distinguir-se do real e do prosaico?! Não bastasse essa afronta ao bom gosto dos amantes do “Culto” e do “Belo”, o poeta mineiro insistia logo adiante:

“Sentimental

ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

e debruçados na mesa todos contemplam

esse romântico trabalho.

Desgraaçadamente falta uma letra,

uma letra somente

para acabar teu nome!

Eu estava sonhando…

E há em todas as consciências um cartaz amarelo:

Neste país proibido sonhar.”

Os que ardiam, febris, diante do Tabernáculo Sem Mácula da Arte pura, abanavam a cabeça: nem o menor resquício de majestade havia nesses versos de almanaque de farmácia!… Era um caso perdido, pobre rapaz!… E os que não eram racistas e os que se esqueciam da cor negra do poeta catarinense Cruz e Souza citavam, com volúpia métrica, “a beleza hermética, sim, mas estonteante” do poema denominado

“Braços”

“Braços nervosos, brancas opulências,

Brumais, brancuras, fúlgidas brancuras,

Alvuras castas, virginais alvuras,

Latescências das raras latecências.

As fascinantes, mórbidas dormências

Dos teus braços de letais flexuras,

Produzem sensações de agres torturas,

Dos desejos na trêmula coorte

Braços nervosos, tentadoras serpes

Que prendem, tetanizam como os herpes,

Dos delírios na trêmula coorte…

Pompa de carnes tépidas e flóreas,

Braços de estranhas correções marmóreas

Abertos para o Amor e para a Morte!”

Como que impassível, o poeta mineiro martelava nos olhos e ouvidos que o quisessem ouvir ou ler a advertência contida no poema

“Fuga”

“As atitudes inefáveis,

Os inexprimíveis delíquios,

êxtases, espasmos, beatitudes

Não são possíveis no Brasil.”

Mas ainda, ousa proclamar, com asco e soberba:

“O poeta vai enchendo a mala,

põe camisas, punhos, loções,

um exemplar da Imitação

e parte para outros rumos.

A vaia amarela dos papagaios

rompe o silêncio da despedida.

(diz ele) fugia com todas elas.

Povo feio, moreno, bruto,

não respeita meu fraque preto.

Na Europa reina a geometria

e todo mundo anda - como eu - de luto.

Estou de luto por Anatole

France, o de Thais, jóia soberba.

Não há cocaína, não há morfina

igual a essa divina

papa—fina.

Vou perder-me nas mil orgias

do pensamento greco-latino.

Museus! estátuas! catedrais!

O Brasil só tem canibais.

Dito isto, fechou-se em copas.

Joga-lhe um mico uma banana,

por um tico não vai ao fundo.

Enquanto os bárbaros sem barbas

sob o Cruzeiro do Sul

se entregam perdidamente

sem anatólios nem capitólios

aos deboches americanos.”

Mas o poeta não foi. Desfez a mala. Paris perdeu mais um artista dépaysé, porque “no meio do caminho havia uma pedra” e essa pedra se chamava, com feições humanas, Mário de Andrade. Com a grandeza perene da sua inteligência da sua erudição polimorfa (e nunca alardeada) em tantos domínios das artes, com sua contagiante humanidade Mário convenceu, com poderosos argumentos, o poeta mineiro a descobrir o Brasil. No livro que a Editora José Olympio lançará na semana próxima, por ocasião da comemoração dos 80 anos de Carlos Drummond de Andrade, intitulado, generosamente, A Lição do Amigo. Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade e que obtive antecipadamente por gentileza da Editora, o Andrade paulista é o Bandeirante que desvenda os olhos do Andrade mineiro todo esse universo caótico que é, ainda hoje em dia, o Brasil. A correspondência deixa bem clara a persuasão de Mário de Andrade transmitida a seu destinatário de cartas fabulosas de cultur, inteligência, talento, clarividência e bondade humana admiráveis: é preciso incorporarmos o Brasil, com todas as suas insuficiências, à nossa personalidade. Qual o brasileiro culto e sensível não teria tido - argumenta o lúcido autor de Paulicéia Desvairada - a chamada “moléstia de Nabuco”, isto é, a sensação de que qualquer pedaço de paisagem histórica da Itália ou na França, por exemplo, valia mais do que as paisagens incultas, bárbaras, não só do Brasil, mas de todo um Continente, no qual jaziam os escombros de civilizações incas, maias, astecas, ao lado dos milhões de corpos de índios trucidados em seu habitat e na sua cultura do Alasca à Patagônia? Mário apela convincentemente para a probidade artística do poeta que queria ser sem necessariamente ser brasileiro e brande motivos irrefutáveis: nunca seremos civilizados enquanto apenas imitarmos a Europa e os Estados Unidos. “De que maneira nós podemos concorrer pra grandeza da Humanidade? É sendo franceses ou alemães? Não, porque isso já está na civilização. O nosso contingente tem de ser brasileiro. O dia em que nós formos inteiramente brasileiros e só brasileiros a Humanidade estará rica duma nova combinação de qualidades humanas. As raças são acordes musicais. Um é elegante, discreto, cético. Outro é lírico, sentimental, místico e desordenado. Outro é áspero sensual cheio de lambanças. Outro é tímido, humorista e hipócrita. Quando realizarmos o nosso acorde, então seremos usados na harmonia da civilização… Avanço mesmo que enquanto o brasileiro não se abrasileirar, é um selvagem. Os tupis nas suas tabas eram mais civilizados do que nós nas nossas casas de Belo Horizonte e São Paulo. Por uma simples razão: não há Civilização. Há civilizações.”

Já se antecipando como o primeiro voyant brasileiro às teorias do grande historiador inglês deste século, o inglês Arnold Toynbee, Mário de Andrade já abolia a arrogância da Europa em erigir-se como único metro pelo qual todas as populações autóctones da África Negra, da América Índia, da Asia deveriam medir-se. Criticando de forma contagiante, deliberadamente consciente e construtiva, a veneração que Carlos Drummond de Andrade em por Anatole France, seu correspondente cita uma frase em que o Andrade mineiro confessava: “Devo imenso a Anatole France que me ensinou a duvidar, a sorrir e a não ser exigente com a vida”. E serenamente pergunta: “Mas meu caro Drummond, pois você não vê que é esse todo o mal que aquela peste amaldiçoada fez a você! Anatole é uma decadência, é o fim de uma civilização que morreu por lei fatal e histórica. Não podia ir mais pra diante. Tem tudo que é decadência nele…” Para concluir, magnificamente: “Ninguém que seja verdadeiramente, isto é, viva, se relacione com o seu passado, com as suas necessidades imediatas práticas e espirituais, se relacione com o meio e com a terra, com a família etc., ninguém que seja verdadeiramente deixará de ser nacional”. Só um povo primitivo macaqueará, sem nada criar, modelos magistrais, geniais, sem dúvida, mas que são de outras latitudes, outras circunstâncias históricas, étnicas, geográficas, instransferíveis para outros climas, outras sensibilidades, outras traejtórias. Se a Europa chegou ao fim da linha da sua civilização, outras civilizações a substituirão - como hoje já se evidencia no campo político, literário, social e da psique européia em destroços irreparáveis. Se na Europa tudo está feito e é esplêndido, sobre as glórias do passado se assentou a poeir da inércia, da mumificação, do museal. E no Brasil tudo está por fazer, o exílio em nada poderá ajudar a civilizar o Brasil segundo nossos próprios parâmetros e não segundo “exemplos”, por mais admiráveis que sejam, de países diferentes intrinsecamente do Brasil.

A publicação destas fecundas, belíssimas, comoventes cartas do autor de Macunaína demonstra que elas plasmaram definitivamente a decisão e a personalidade deCarlos Drummond de Andrade. Graas a esses ensinamentos fraternos e profundamente fecundos, o poeta, como se diria hoje, “assumiu” o seu país; seu gesto de entrega não foi inútil: o Brasil reverencia nele hoje a antítese de Anatole France ou, sem exageros, a suprema voz poética viva do Ocidente. Um reconhecimento que lhe vem sendo tributado, década a década, nos Estados Unidos, na Alemanha, na Itália, nos países da América Hispânica, até na Checoslováquia e Holanda. Carlos Drummond de Andrade assimilou, de forma fértil, o bispo Sardinha da cultura européia e criou uma poesia sinfônica em que se sustentam mutuamente, como num contraponto musical, o pathos trágico comum a toda a Humanidade, o “sentimiento trágico del mundo” de Unamuno aliado a um léxico brasileiro de uma solidão sofrida e sutilmente comunicável pela “atmosfera” que circunda cada um de seus versos. O itinerário da poesia de Drummond é a continuação e superação da Invenção de Orfeu de Jorge de Lima e é a complementação perfeita da transcendência universal da poesia cifrada em Fernando Pessoa do outro lado do Atlântico. Curiosamente, fiel à introversão mineira e escocesa de seu Drummond, esse Andrade ao ficar no Brasil voltou para a sua casa autêntica. E por um daqueles imprevistos geniais, Carlos Drummond de Andrade, sem o saber, de certo, cumpriu o mesmo destino dos dois personagens mais emblemáticos da prosa em língua portuguesa: o Gonçalo Mendes de A Ilustre Casa de Ramires, imagem viva de Portugal, e o Jacinto que redescobre sua terra natal, em A Cidade e as Serras, farto dos refinamentos mecânicos de uma Paris culta mas já faisandée, perdida a sua autenticidade e portanto sem vigor e eficácia.

Drummond, aceitando o Brasil, tornou-se seu incomparável gênio poético, como Goethe para a Alemanha, Dante para a Itália Shakespeare paraa Inglaterra. O seu epos, a sua rapsódia poética é a transcrição, a meia-voz, de uma filarmônica paar um concerto de câmara, sem alardes nem afetações. Ele é o poeta social das favelas brasileiras e da nossa miséria de 30 a 40 milhões de párias chafurdando no nível do desemprego, do analfabetismo, da orfandade, da ausência de dentes, na desnutrição permanente. Drummond é também o sutilíssimo poeta poítico que acreditou inicialmente, movido por um idealismo romântico, no modelo da Revolução Soviética para depois, coerente, lisamente, afastar-se de qualquer cumplicidade com o Gulag que só até hoje já matou 60 milhões de pessoas, quase um milhão por ano após a “Gloriosa” do Outubro de sangue e terror bolchevique-leninista-stalinista. Não lhe coube, felizmente para ele e para todos nós, a má sorte do poeta cubano Armando Valladares, há poucos dias libertado das prisões cubanas, que nossos compositores populares e mesmo políticos que estiveram na “Ilha” jamais souberam que existia.

Poeta delicadíssimo do amor, da perplexidade diante do êxtase da libido que consigna sob a imagem culta e oblíqua de Zeus que arrebata para o Olimpo dos deuses da mitologia grega o adolescente Ganimedes, deslumbrado por sua formosura, quando Drummond, pudicamente, celebra o amor, por fugaz que seja, reconhece no amor a incapacidade incontornável de duas peles saírem do arquipélago de solidão individual em que estão presos os amantes, cada um limitado pela dessemelhança do outro, mesmo no momento mais fundo de união. Poeta que deu voz aos índios condenados pela “civilização” branca e sua rapacidade incontida, nunca ele perde um delicioso senso de humour capaz de enumerar os remédios da indústria farmacêutica moderna como se fosse nada mais que a recitação de uma litania ou cantochão para os males imelhoráveis da condição humana. Ao relatar a tragédia do “Caso do Vestido” ou interrogar, numa “Elegia”, o significado e o peso da palavra Homem (ser humano), ou ainda quando se inquieta diante da ineficácia da palavra como transformadora do mundo com seu famoso “lutar com palavras/ é a luta mais vã”, Drummond tem para a poesia deste século no Brasil a mesma intensidade fulminante da incursão de Baudelaire, Cristovão Colombo da nova sensibilidade poética posterior à Revolução Industrial.

O poeta se desdobra em cronista lido em jornais como Sancho Pança, o prosador, sombra a acompanhar um Dom Quixote a cavaleiro do sonho, da utopia, codificada em seus poemas.

Renovador de todas as formas que assumiu a poesia no Brasil, Drummond não perde nunca sua angulação fundamentalmente humana, que faz de cada verso, cada palavra, um hino sem fanfarras mas doído, viril, sussurrante, em prol da Liberdade, da Justiça, dos Direitos Humanos, contra todas as violências que cotidianamente, atemporalmente, o homem comete contra o seu semelhante. Sua presença múltipla, indelével, do corpus da literatura mundial é a demonstração definitiva do teorema proposto por Mário de Andrade: ele é a própria voz desta nova civilização, negra, mulata, cabocla, índia, européia, chinesa, coreana, boliviana, norte-americana que compõe esse colorido e dinâmico mosaico chamado Brasil. Como Orfeu que desceu aos infernos, ele com seu estro amansa as feras e, se perde Eurídice - tragédia simbólica do fracasso humano -, canta com força maravilhosa a vida estuante. É, como poucos, o Poeta Absoluto.

Drummond: o maior poeta ao alcance dos famintos de perenidade

Jornal da Tarde 10/09/1983

Nesta metade final de 1983, a população brasileira convive com o cerco medonho de vários Cavaleiros do Apocalipse todos a chibatá-la ao mesmo tempo. A incompetência, a mentira e a corrupção mais deslavadas se dão as mãos para fustigar 131 milhões de pessoas atormentadas diariamente pela inflação, o desemprego, a seca e a fome no Nordeste, as inundações e a destruição no Sul. O momento presta-se a imagens de mau gosto, hesitamos entre o litro de leite para os filhos e o copo de cachaça para minorar nossos males reais. De repente, bálsamos poderosos nos surgem nas prateleiras de nossas abandonadas livrarias. A 11a edição da obra-prima de Clarice Lispector, Laços de Família, nos lembrou, a semana passada, que nem só de FMI e falcatruas vive o Brasil: há uma 4a dimensão do Brasil, intocável pela dívida externa e da qual foi banida a expressão “moratória”: a vida em vez de ser devida, descontada com juros, é uma preciosa, efêmera caixa de música que o Tempo não enferruja em seu pentagrama de sons, ritmos, melodias, insights. Ela é o que nos resta da memória e da grandeza nacionais não carcomida pelos ratos nos arquivos desenhados por um Kafka cruel nos labirintos dos ministérios de Brasília.

Agora, a ajuda decisiva do Instituto Nacional do Livro, dirigido por esse visionário que ainda crê, Cavaleiro Solitário, na Literatur, o escritor Herberto Sales, estica o orçamento de todos nós que contamos os cruzeiros magros (os centavos foram abolidos) para comprar um livro, esse objeto metafísico que breve, tudo indica, será vendido nas joalherias de mais alto luxo e em prestações mensais vitalícias. Que milagre conseguiu esse místico na selva burocrática estatal brasileira? Que a obra realmente fundamental do poeta Carlos Drummond de Andrade se tornasse acessível aos famintos de perenidade. Nova Reunião, editada pela Livraria José Olympio (2 volumes) coloca quase mil páginas - que sem esse apoio financeiro do Instituto Nacional do Livro só poderiam ser compradas com financiamento do Clube de Paris - ao alcance de bolsas mais modestas, quem sabe em prestações sem juros? O vasto livro anterior, Reunião, de quase 500 páginas, desdobrou-se ao longo dos anos e inclui agora novos poemas, o que, no caso de Carlos Drummond de Andrade, é sinônimo de dizermos novas maravilhas, e repisar a afrimação serena de que o Brasil, como diz sempre o magnífico escritor mexicano Juan Rulfo, possui a literatura mais rica e mais extraordinária das três Américas.

É facilmente comprovável esse teorema.

O itinerário meramente cronológico de Carlos Drummond de Andrade começa em 1930, modestamente apresentado num livro de título mais interrogativo do que aformativo: Alguma Poesia.

São quatro versos, hoje famosos, que obliquamente desvendam e não desvedam a alma do poeta:

“Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida.”

Alguns interpretam a palavra francesa, gauche, esquerdo, apenas em seu sentido ideológico, portanto o poeta é de esquerda, como ele próprio confessou há tempos. A passagem do Tempo, porém, revelaria, o que os eruditos chamam de polissemia, e nós, mais humildemente, designamos como pluralidade de significados: afinal, ser gauche quer dizer também ser desastrado, sem jeito, canhestro, difícil de se encaixar na sociedade bem-pensante majoritária. Em certa época da sua vida e da sua criação artística, Carlos Drummond de Andrade foi politicamente de esquerda, até a sua ruptura com a camisa-de-força imposta ao pensamento e à liberdade pelo Partida Comunista de qualquer nação, mas aqui em sua versão auriverde de mediocridade, censura e obediência cega. Em outros, o gauche será o desastrado que não vê a vida sob o prisma dos que, como dizia o esplêndido poeta Fernando Pessoa, comem comida e, como ajunstaríamos nós, arrotam o sentido mais profundo da existência, da arte, do amor, da passagem humana pela Terra. Em certos casos, ele será os dois gauches juntos: por que não?

Mas o mundo racional - que tinha da Poesia (com maiúscula) o conceito único (os Partidos Únicos existem também fora de outros totalitarismos mais conhecidos) de um êxtase, de um “embelezamento da vida” quase, quase uma pitada de fuga do cotidiano, levitando acima das “sujeiras”, num voo inconscientemente místico de arrebato romântico, desmaios e sais -, ora, essa multidão mal virou a página inicial do livro de estréia do poeta mineiro, ficou muda. Muda, a princípio, logo espumou de raiva num ataque epiléptico de revolta. Pois não é que aquele desconhecido se atrevia a, já encerrando o poema curto, versejar:

“Mundo, mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo.

Mais vasto é meu coração”.?!

O “poeta” decididamente zombava das pessoas cultas que liam os panasianos franceses no original. E aquela ausência de pontuação, acrescentava o coro dos gramáticos enfurecidos, que “novidade” insolente era essa? Definitivamente não era nem um poeta nem uma pessoa séria com essa charada incompreensível e estulta. Os inteligentes descobriram al uma das mais perfeitas flores do Modernismo de 1922, que brotava da nossa língua “inculta e bela” etc., como declamavam os verdadeiros poetas. Um ou outro leitor de literatura espalhado por esses brasis imensos afora estremeceu com os versos, com a sua novidade, com a sua profundidade filosófica: rimar, isto é, igualar-se aos critérios da maioria ruminante não era, de fato, uma solução, era um desespero, um desafio, uma lúcida coragem. As poucas pessoas “de juízo” que continuaram a folhear as páginas do “audaz poetelho presumido” quase desmaiaram de vergonha, de ódio, de pasmo. Pois o autor não continuava, linhas adiante, mofando das “panelinhas” lierárias (que culminavam, certamente, nas Academias de Letras, a nenhuma das quais, aliás, o poeta quis jamais aderir) com metáforas de péssimo gosto, além de prosaicas e caricaturais?! É só ler:

“Política literária”

“O poeta municial

discute com o poeta estadual

qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal

tira ouro do nariz”.

O coro dos que queriam esquatejar esse “monstro” sem nenhuma poesia crescia de poema a poema: o intitulado “Sentimental”, por exemplo, começava assim, sem tirar nem pôr:

“Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

e debruçados na mesa todos conemplam

esse romântico trabalho.”

Romântico?! exclamavam os acostumados apenas a uma dieta de enlevo, de sonho, de amadas inacessíveis como brumas ou de uma carnalidade marmórea e estuante de vida, mas tudo com decoro, sutileza, espiritualidade, elevação enfim. E agora esse prosaísmo de uma sopa de macarrão com letras para evocar a Julieta desse Romeu de armazém?

Mas o golpe final na “reputação” de Carlos Drummond de Andrade se deu apenas um poema depois. Era seu epitáfio em vida, sem talvez ele saber. Vejam só:

“No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.”

Foi literalmente o fim. Daí por diante, quando se falava de poesia, Carlos Drummond de Andrade passou a ser palavrão indecoroso, indigno de ser pronunciado diante de refinados estetas que sabiam a Aida, a Tosca e a Bohème de cor. Aguns, bondosos, teimavam em dizer que os versos eram um enigma, outros nem discutiam: que farsa ridícula! Só faltava o poeta coaxar como fizera um modernista no egrégio Theatro Municipal de 1922, ora, faça-me o favor! Silêncio. Não mais se falou do “inominável”, assunto encerrado.

Insistente, o poeta redarguia, achando o Brasil um país bárbaro (até hoje, convenhamos, não mudou substancialmente), martelando em “Fuga” seu horror ao país das estampilhas, da dissimulação, da cotenção de “bom-tom”, do apego realista, materialista a fazendas, a lucros, a tudo que não cheirasse à imaginação, nem excessos: cumpria não romper a densa camada de hipocrisia que escondia a verdade debaixo de um belo soneto meancólico. O que dizia inicialmente um poema “horroroso” como “Fuga”?

“As atitudes inefáveis

os inexprimíveis delíquios,

êxtases, espasmos, beatitudes

não são possíveis no Brasil.”

E linhas adiante:

“Povo feio, moreno, bruto,

não respeita meu fraque preto.

Na Europa reina a geometria

E todo mundo anda - como eu - de luto.

Vou perder-me nas mil orgias

do pensamento greco-latino.

Museus! estátuas! catedrais!

O Brasil só tem canibais.”

Pouco depois um anjo, não daqueles que o mandou ser gauche na vida, despertou miraculosamente na vida de Carlos Drummond de Andrade. Era um anjo paulista. Mário de Andrade, um gênrio que até hoje o Brasil relega ao esquecimento como deixa apodrecer as estátuas de Aleiajdinho na maio incúria nacional. Esse anjo triste, combatido pela mais feroz cambada de medíocres do Brasil inteiro, condói-se do poeta: vê nele um futuro grande Poeta com maiúscula . E começa, através de um metralhar de cartas loucas, fantásticas, profundas, a dar-lhe o que o próprio Carlos Drummond de Andrade chamou, grato, de A Lição do Amigo. De que adiantava sonhar com uma Paris dadaísta, com uma Itália futurista e fascista, com Impérios coloniais vergonhosos, com um passado riquíssimo, sem dúvida, mas um presente em que os acordes da marcha fúnebre cultural se ouviam claramente no fragor das guerras européias tornadas mundiais e numeradas para facilitar a memorização das datas. O Brasil, sim, embora com seus canibais nos postos de comando, era o país da miscigenação, do negro, do índio, do europeu, da cultura inédita no mundo, da natureza tropical luxuriante: para que ser na Europa apens mais um dépaysé exilado da terra firma do seu idioma materno?

O contágio do professor propagou-se ao aluno. Um Brasil novo se revelava a seus olhos, apesar de todas as ditaduras e todos os surrealismos de um país que, definitivamente, não é sério, mas pode ser delirantemente novo, novo como nada o fora até agora na História. Espanto! Quem diria que o mesmo autor que desprezava o Brasil confessaria, aprendida a lição, reveladora de Mário de Andrade, que “para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa. A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente. O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos. Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só. Lê o seu jornal, mete a língua no governo, queixa-se da vida (a vida está tão cara) e no fim dá certo.”

Não era uma transformação aparente, apesar de tanto a atitude anterior de negação total do Brasil quanto a de injustiças flagrantes com a Europa indicassem um arrebato juvenil, extremado, sem equilíbrio. Mesmo geograficamente o poeta trocara a Minas natal pelo caos urbano do Rio de Janeiro, onde passara a trabalhar no setor do Patrimônio Histórico do então revolucionário Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, a convite de um amigo e intelectual mineiro. Carlos Drummond de Andrade, um pouco como seu conterrâneo Guimarães Rosa, torna-se - se possível - ainda mais intropectivo. E reconstrói Minas, seu passado pessoal e o do seu Estado natal em meio ao bulício da antiga Capital Federal. São dezenas de poemas evocando Minas, ironizando docemente, sem maldade, a inocência e a ingenuidade de Minas, com seus andores, sua graça espontânea dos ditos populares, sua folhinha plácida de Mariana a indicar o tempo ideal para se plantar isto ou aquilo e a prever a meteorologia com uma certeza inabalável, com um ano de antecedência, os Santos garantidos, em cada dia do calendário, o acerto dos conselhos e vaticínios. Sem esquecer os fantasmas de Minas, as cidades barrocas de Minas, a Tradicional Família Mineira, as montanhas do ferro exportadas a preço vil.

Sentimento do Mundo é um volume em que o poeta se desespera quase, aflora o suicídio e evoca sua cidade natal de Itabira, num desabafo tão belo que merece ser transcrito na íntegra:

“Confidência de Itabirano”

“Alguns anos vivi em Itabira.

Principalmente nasci em Itabira.

Por isso sou triste, orgulhoso, de ferro.

Noventa por cento de ferro nas calçadas.

Oitenta por cento de ferro nas almas.

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,

vem da Itabira, de suas noites brancas,

sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,

é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que te ofereço:

este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;

este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;

este orgulho, esta cabeça baixa.

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!”

Com um surdo sarcasmo voltado contra si mesmo e contra a suposição do envelhecimento, ele alça a interrogação de um dentista sobre a necessidade de dentaduras duplas a uma interrogação metafísica:

“Dentaduras duplas!

Inda não sou bem velho

para merecer-vos…

Há que contentar-me

com uma ponte móvel!

e esparsas coroas.

(Coroas sem reino,

os reinos protéticos

de onde proviestes

quando produzirão

a tripla dentadura,

dentadura múltipla,

a serra mecânica,

sempre desejada,

jamais possuída,

que acabará

com o tédio da boca,

a boca que beija,

a boca romântica?…)”

Cada vez mais profundo, mais filosófico, sem nenhum pedantismo, o poeta se debruça sobre a dor do mundo: a miséria do operário a extrair da britadeira um avaro salário de fome, a miséria do artista com a impotência de sua única arma: a cor, a melodia, a palavra: a interrogação famosa e eternamente repetida e repondida:

“Lutar com palavras

É a luta mais vã.

Entanto lutamos mal rompe a manhã”

A palavra é a impotência da ação? Seu deslumbrante painel épico a Stalingrado e sua heróica resistência ao cerco nazista desmentem sua indagação quanto à ineficácia da palavra. Solene, majestosa, estuante como um rio ou uma sinfonia, a “Carta a Stalingrado” celebra a luta do homem contra a bestialidade, seu sacrifício de sangue pelo sonho da liberdade, os embates levando de novo a literatura à oralidade da Odisséia de Homero, a grandeza e a poesia pulando dos livros para os jornais e comunicações por rádio, como hoje o talento cantaria o mesmo tema na Polônia, com os dez milhões de combatentes do Solidarnosc de Lech Walesa:

“Stalingrado…

Depois de Madrid e de Londres, ainda há grandes cidades!

O mundo não acabou, pois que entre as ruínas

outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,

E o hálito selvagem da liberdade

dilata os seus peitos, Stalingrado,

seus peitos que estalam e caem

enquanto outros, vingadores, se elevam”.

Uma das mais belas litanias da poesia ocidental, “Carta a Stalingrado” é o fugaz momento em que o poeta crê, não distingue a bravura de um povo da perfídia de um regime monstruoso: breve engano. Logo ele se volt para o famosíssimo “Caso do Vestido”, relatado com fragmentos do dialeto mineiro; mais ainda: Carlos Drummond de Andrade inaugura a sua fidelidade a inovações técnicas e de conteúdo que o levarão a tecer poemas com nomes de remédios para as angústias e sonolências modernas, poemas com nomes de índios do Brasil, disposições gráficas reminiscentes do concretismo, até mesmo a criação de neologismos ao lado de palavras eruditas como “teogonia”, “seródios”, “atro”, até chegar ao ápice de se colocar no destino de um passageiro de avião que não sabe que seu aparelho vai cair e que, em cada mínimo gesto, se despede da vida, com seus rituais estabelecidos, chocando no verso originalíssimo que inicia o longo poema e explodindo na linha final:

“Acordo para a morte.

………………………………………………………..

………………………………………………………..

caio verticalmente e me transformo em

Um tema repetido incansavelmente que costura toda a vasta e admirável poesia de Carlos Drummond de Andrade é o amor:

“Deus me deu um amor no tempo de madureza,

quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.

Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro

e a um e a outro agradeço, pois que tenho um amor.”

E o rectadíssimo poema que deixa tão somente entrever, longinquamente, a intensidade erótica da poesia de Carlos Drummond de Andrade, confiada ao amigo José Mindlin e trancada a sete chaves, sem divulgação a ninguém. Percebe-se porém o vulcão sutil de paixão que seus versos insinuam em “Amor e seu Tempo”:

“Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,

que se torna a mais larga e a mais raivosa,

Roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,

o prêmio subterrâneo e coruscante,

leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre,

salvo o minuto de ouro no relógio

minúsculo, vibrando no crepúsculo.”

Demasiados seriam os tópicos do espectro amplíssimo que Carlos Drummond de Andrade revela, livro a livro. Uma tristeza resignada perante a falta de sentido da vida? Uma conformada verificação de que não há Deus? Uma doce irrisão da ignorância e da mediocridade crescente que em todos os países a era eltrônic impõe com sua marca a nós, deste final atômico do século XX? Uma ternura cúmplice com os anseios, sonhos, esquisitices dos que com ele viajam efemeramente por este planeta Terra?

Uma das características mais interessantes que avulta, no entanto, na sua criação prodigiosa, tantas vezes sublime, é o círculo que ela completa. O poeta inicial, tímido, mas revolucionário na sua aparência de acanhamento, se enlaça, já no final, a complementação, a reposta profunda das suas dilacerantes dúvidas e angústias temperadas de uma orvalhada beleza.

Como um Sísifo fecundo que, erroneamente, menosprezasse o seu legado poético à língua em que o criou e o transmite a nós, seus jubilosos beneficiados, é ele mesmo quem completa o seu grandíssimo ciclo, o mais significativo e duradouro de toda a poesia brasileira: “Legado”:

“Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu

minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?

Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.

Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,

a vagar taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,

uma voz matinal, palpitando na bruma

e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,

uma pedra que havia no meio do caminho”.

Popular, lírico, social… (Alguém é mais completo do que ele?)

Jornal da Tarde 15/09/1984

“Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto se tantamos codificá-la”

Carlos Drummond de Andrade

O grande poeta brasileiro deste século sempre deixou entrever apenas uma nesga - e mesmo assim esgarçada - de suas interrogações metafísicas em toda a sua vastíssima obra. Da mesma forma que a sua inquietação social germinou sempre nesta ou naquela imagem, às vezes em um único adjetivo ou advérbio. Nunca mais, porém, ele voltou à altitude que preside à escritura de A Rosa do Povo (de 1945), justamente desiludido de fórmulas, partidos, ideologias rígidas que prometessem o advento do Paraíso Instantâneo para todos os males humanos e da humana convivência. Agora, seus poemas mais recentes, enfeixados, sob o título de Corpo (Editora Record), são como dois volumes diferentes, um aberto a especulações sutilíssimas sobre o arrebato erótico, à reconquista do passado pela lembrança e pela certeza nova de que a mudança opera em tudo, em nós também, uma eterna improvisação, como deixa claro o epígrafe do livro:

“O problema não é inventar. É ser inventado

hora após hora e nunca ficar pornta

nossa edição convincente.”

A parte final, complementar da primeira, constitui um inesperado e violento painel dos horrores urbanos da miséria - o favelário internacional - e da nossa época de apocalipse imediato, com seu horizonte recortado pela pilhas de destruição final: os mísseis, sua produção e estocagem incessantes.

O poema denominado “A Metafísica do Corpo” chora, modernamente (ou eternamente?) o post coitum triste clássico que se sucede ao deslumbramento dos sentidos:

“De êxtase e de tremor banha-se a vista

ante a luminosa nádega opalescente,

a coxa, o sacro ventre, prometido

ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo

resume de outra vida, mais florente,

em que todos fomos terra, seiva e amor.

Eis que se revela o ser, na transparência

do invólucro perfeito.”

A esta epifania que alquimicamente espiritualiza a carne, um minuto depois se segue o lamento de apenas intuirmos o que sea o verdadeiro gozo, toscamente simbolizado pelo frêmito da carne.

Esta transição, espaço em que coexistem a matéria finita e a transcendência fora do tempo, condensa-se melhor na mensagem cifrada, inconcreta, de Ouro Preto, onde o que convencionamos chamar de o passado é uma atmosfera, uma verdade, que se sobrepõe à ilusão do presente: reiteradas vezes ressurge essa ideia, múltipla de formas e aparências.

“Em Ouro Preto, redolente,

vaga um remoto estar-presente.

A hera e a era, gravamente,

aqui se apagam, na corrente.

Pois tudo aqui é simplesmente

lucilação do transcendente.

A ruína ameaça inutilmente

Essa ideia não contingente”.

Ouro Preto, com seu lusco-fusco entre o permanente e o efêmero, serve de ponte também para a passagem da ática clássica poesia amorosa dos inconfidentes mineiros à nossa época bélica, os foguetes atômicos deslocando ou anulando as musas. De forma cruel Anarda, Almena, Márcia, Nerina, Nise, Glaura, a meiga e bela Marília de Dirceu - todas são afastadas pela hecatombe final já tão próxima:

“Não peço, Glaura, teus afagos,

Que manhã serão pó tristonho

Entre bilhões de crânios vagos:

Negam os mísseis todo sonho.

………………………………………….

Meiga e bela Marília, o Arconte

taciturno olha para mim.

Na áspera linha do horizonte,

eis que os mísseis decretam: sim.

Sim, pereça todo prazer

e das amadas toda a glória.

Com seu satânico poder,

os mísseis enterram a História.”

Com um vigor que o escárnio diante do palavrório político não conseguiu esmaecer, Carlos Drummond de Andrade pinta um dos círculos brasileiros do Inferno: as paisagens da miséria sub-humana, grotesca lápide para milhões de seres humanos convertidos em vermes e forcejando por sobreviver. É o “Favelário Nacional”, que, no entanto, se estende como uma mortalha barroca, sobre 3/4 da Humanidade, e seus bidonvilles, slums, cantegril, hongos, corraldas e mil outras designações que têm em diferentes países. O “mostruário” auriverde, porém, mescla a uma dramaticidade muda uma zombaria impiedosa das “soluções” impostas pelas “ôtoridades”. Às vezes são hai-kais curtíssimos, que ardem como se tivessem sido escritos com ácido sulfúrico e nos impacientam mais ainda por fazer parte de nosso presente de hoje, discernível em qualquer horizonte citadino nacional:

“Competição”

Os garotos, os cães, os urubus

guerreiam em torno do esplendor do lixo.

Não, não fui eu que vi. Foi o Ministro

do Interior.”

Ou:

“Feliz”

“De que morreu Lizélia no Tucano?

Da avalanche de lixo no barraco,

Em seu caixão de lixo e lama ela dormiu

o sono mais perfeito de sua vida.”

Seria impossível enumerar todos os passos dessa verdadeira Via-Crucis, alvo semiprofissional discutido em “seminários, simpósios,/comissões, congressos, cúpulas/ de alta vaniloquência/ (a) elaborar a perfeita e divina solução”, essa chusma de mineiros retirantes: “Em riba de cinco estacas fincadas no mangue/ a gente acaha que vive/ com a meia graça de Deus Pai Nosso Senhor”. São quadros inesquecíveis: em Salvador os alagados a sair do lamaçal em que vegetam para disputar entre si a chuva de farinha, macarrão e feijão que o presidente, em visita à Boa Terra, mandou, munificiente, distribuir. O papa abençoando as favelas, os olhos úmidos, “a miséria, irmãos, foi dignificada”.

Carlos Drummond de Andrade, deixando que o espectro da Morte espreite por este ou aquele poema, nesta coletânea completa, confirma os dois amplos volumes que guardam o melhor da sua poesia (Nova Reunião) e sua posição inconteste de maior poeta vivo do mundo ocidental. Sempre plural, lírico, popular, elegíaco, social, abstrato, humorístico, irônico, solene, tantas são as facetas, tantos os heterônimos de seu indecifrável e perene fascínio.

Maravilhas, até no que o poeta faz com mão ligeira

Jornal da Tarde 20/4/1985

Carlos Drummond de Andrade é daqueles supremos autores cujo mero rol de roupa apresentaria sempre uma originalidade e fragmentos de sua ímpar genialidade. Amar se Aprende Amando é uma dessas suas obras menores, em escopo e densidade se comparada aos majestosos cimos da sua majestosa cordilheira literária que se erguem bem acima de qualquer poesia viva do Ocidente, hoje: desde o revolucionário Alguma Poesia inicial até Sentimento do Mundo, Claro Enigma, Fazendeiro do Ar, Lição de Coisas, Boitempo e outros volumes.

Amar se Aprende Amando (Editora Record) ainda não é a revelação há tanto tempo esperada, da sua poesia erótica, da qual um dos poemas permanece, por desejo do poeta, trancado a sete chaves nas fiéis mãos de José Mindlin, essa figura renascimental em que se misturam a indústria, a bibliofilia, a cultura e o discernimento artístico.

O motivo central que une todos esses poemas é o amor - às vezes até o amor de amantes - mas quase sempre o amor-amizade que Carlos Drummond de Andrade distribui fartamente entre seus amigos e que parece ter rompido, há poucos anos, o dique de férrea reserva itabirana do autor mineiro. Drummond, quase de repente, começou a fazer o que sempre se negou, peremptoriamente, a fazer: conceder entrevistas. Um pouco a torto e a direito, é verdade, tanto que verificando logo a magreza ralíssima das perguntas que lhe eram feitas, refluiu para sua reserva anterior, mitigada embora pelo seu calor humano finalmente liberado de suas mineiras amarras anteriores.

Pior para nós não foi tanto o encerramento dos diálogos com interlocutores quase sempre ínfimos - o que causava um visível constrangimento ao poeta mineiro-carioca e a nós - mas sim o cansaço que levou o finíssimo cronista a encerrar suas colaborações na imprensa, inclusive o Jornal da Tarde, e nos deixar a todos órfãos, enregues às palavras balbuciadas por misérrimos ajuntadores de palavras e necessitados de uma traqueostomia que lhes e nos oxigenassem melhor os pulmões poluídos pela burrice alheia e o cérebro privado dos curtos e tantas vezes magistrais sonetos em prosa do Mestre Drummond. Paciência!…

Este seu novo livro, não nos enganemos, contém momentos magníficos da eloquência drummondiana e nenhum traço da estultície que hoje passa por “poesia” frequentemente entre nós. O poema que rasga o primeiro encontro com o leitor, “Reconhecimento do Amor”, é aquela mistura que nenhum outro poeta brasileiro conseguiu de unir à profunda reflexão filosófica (sob o risco de pedantismo diríamos mesmo a angústia ontológica herdada de Heidegger) da solidão humana ao deparar-se com o desnorteante relâmpago do amor um vocabulário simples, cotidiano, banal em outras mãos que não a deste Grande Poeta. Mesmo que jamais o tenha lido (e não se trata de influência aqui), há nos poemas de amor de Carlos Drummond de Andrade uma funda empatia com a lírica petrarquiana, possivelmente através de leituras constantes de Camões. A análise do limbo em que se encontrava o amante antes de conhecer a amada recorda a “vil tristeza” camoniana, o desespero de Petrarca por Laura morta e os poemas de Leopardi celebrado um amor irrealizado mas palpável nos sonhos:

“… Trazias nos olhos pensativos

a bruma da renúncia:

não queria a vida plena,

tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida…

… Descansei em ti meu feixe de desencontros

e de encontros funestos.

… sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam

desde a hora do nascimento,

senão desde o instante da concepão em

certo mês perdido da História,

ou mais longe, desde aquele momento intemporal

em que os seres são apenas hipóteses não formuladas

no caos universal.”

Ilhado pela angústia, pela ausência de espelhos que o reflitam ou de vozes que com ele dialoguem e o completem, o amante erra, amando confusa e coletivamente os seres, a natureza, como sucedâneo da amada. Mas o amor, reconhece maravilhosamente Drummond, é o Outro aquela quase que unio mystica do Tantra-Yoga indiano, em que a distinção feita por Platão entre “o mais nobre”, o que ama, e o amado se desfaz:

“Amiga, amada, amada amiga, assim o amor

Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo

Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas”.

O amor traz a lucidez da integração com outro espaço, não um mísero alargamento do egoísmo para um egoísmo a dois: o amor revela, só ele, “a transparência da vida, a aridez do desamor e a jubilosa integração naquela metafísica que dispensa até, em seu refinamento sideral, os corpos dos amantes. Dilui-se no Nirvana do infinito nas duas acepções: no que não tem fim e no que não está acabado e que o amor agora eterniza e ao qual o amor dá o acabamento final.

Aproximando-se, sem nenhuma patriotada literária grotesca já de per si, dos grandes bardos amorosos, Shakespeare, Dante, John Donne, Drummond revela, poema a poema, como o amar, “sempreamar” e “pluriamar”, é a razão de viver a que se referia o famoso dístico francês “l’amour a des raisons que la Raison ne connait pas”, o amor triunfantemente se sobrepõe à cartesiana e infecunda “Razão” para ser a própria razão do humano existir. Mais ainda: como para Donne, a Morte não triunfará sobre os amantes pois o amor é a vitoriosa anulação do tempo, é a cristalização eterna do efêmero aparente: “pois só quem ama escutou/ o apelo da eternidade.”

O leitor, fascinado, descobre também minúsculos poemas perfeitos nessa parte primeira do livro, como o que se intitula, com a simplicidade de uma paisagem de Pancetti, mas sem a melancolia de suas marinhas: “O Mundo é Grande”:

“O mundo é grande e cabe

Nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe

Na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe

No breve espaço de beijar”.

Com que alegria Mário de Andrade, a quem Carlos Drummond de Andrade se dirigiu, veria a floração brasileira daquele auqe, não fossem talvez as cartas do gênio paulista, seria talvez mais um poeta estrangeiro, dépaysé, em Paris. Exemplo: os poemas que o poeta mineiro retoma brincadeiras infantis de roda como Uni Dúni Teni para mostrar como o amor eclode nestas paisagens tropicais que a pintura sabiamente naive de Iracema evoca com suas cores e esplendor. Ou como Mário de Andrade aprovaria, comovido, a utilização de trovas populares como “atirei um limão n’água” para, quase imperceptivelmente, nos levar a conclusões surpreendentes pela sua beleza estilística e pelo seu conteúdo de sabedoria: “Atirei um limão n’água,/ como faço todo ano./ Senti que os peixes diziam:/ Todo amor vive de engano”. Sem apelar para retóricas que enodoam o nome do povo, da democracia, e nem cobrem a falta de talento de tantos escribas farisaicos, Carlos Drummond de Andrade reafirma as verdades poéticas, rurais de Sancho Pança e seus provérbios, em seus dementes colóquios e solilóquios diante de seu mestre Dom Quixote. O requinte estético, para repisar o óbvio, pode estar nos versos sem métrica de um repentista nordestino como num grito metafísico de um Gerard Menley Hopkins sapientíssimo ou uma quase mudamente loquaz Emily Dickinson, o conhecimento mais abissa e a beleza não distinguindo entre um hai-kai de Bashô e um canto singelo de lavadeiras do Minho.

Visto de uma perspectiva pessoal, portanto subjetiva se for permitida a reiteração, este livro é menos feliz nos poemas de encomenda e louvor de pessoas amigas. Aí, parece-me a mim, é menos abundante a colheita poética reservada ao leitor: quem sabe esses poemas coubessem melhor em álbuns preservados ciosamente pelas pessoas a quem são dedicados, com raras exceções? No entanto, o mesmo veio de inspiração a mesma fonte em que Petrarca foi descobrir a luz cintilante de seus versos - sem, repita-se, que se trate aqui minimamente de influência direta do Grande Poeta italiano - revelam-se mais nitidamente no contro de “O Amor Antigo” e seu eco, os versos sob o número LXXXV das Rime Sparse:

“O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentena.

O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza,

por aquelas megulha no infinito,

e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

o antigo amor, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.”

Harmonizando-se, através dos séculos, com a certeza de Petrarca:

Io amai sempre ed amo fore ancora,

e son per amar più di giorno in giorno…

… E son fermo d’amare il tempo e l’ora

Ch’ogni vil cura mi levar dintorno…

Sem arrependimento, mas como mera ressalva: as poesias-dedicatórias da parte que ocupa o meio e a parte final de Amar se Aprende Amando, porém, nada têm de dignas de um esquecimento leviano. Em quantas delas ressoa a voz inconfundível do mais rico poeta da língua portuguesa desde Fernando Pessoa:

“Fazer 70 anos não é simples.

A vida exige, para conseguirmos,

perdas e perdas no íntimo do ser,

como, em volta do ser, mil outras perdas.

Fazer 70 anos é fazer

catálogo de esquecimentos e ruínas.

É, sobretudo, fazer 70 anos,

alegria pojada de tristeza.”

Os poemas aqui reinidos percorrem toda a gama da criação drummondiana anterior: brincadeiras certeiras com os poetas concretistas com os exegetas incompreensíveis da linguística cabalística, ironias deliciosas como “O dono do Sítio Paraíso/ derrubou a mata/ mas ecologicamente/ comprou uma gravata/ verde”, neologismos, termos eruditos, irrisões bondosas a respeito de nomes arrevesados de remédios. Para os mais atualizados há como que uma predição da visita recente do militar (de esquerda marxista) da Nicarágua, Daniel Ortega, por estas plagas: “Vinha um homem fardado por fora ou por dentro/ dizia o que era licito fazer/”, como o comprovam o jornal La Prensa e o povo manietados pela censura sandinista em Manágua. Ou o hai-kai magnífico:

“7 anos de idade.

Muro de Berlim

é eternidade”. (Nota: o poema é de 1968)

Como se disse no início dessas considerações, até no que faz com mão ligeira há maravilhas no universo de Drummond, como se não bastasse a constatação: “Contra a sorte cinz’amarela/ a Poesia. Último reduto”.

Uma revolução inesquecível

Jornal da Tarde 19/8/1987

“Aquele morreu amando”

Carlos Drummond de Andrade

O Brasil está sem rosto. Amanhecemos todos orfãos, o sol do nome Carlos Drummond de Andrade escondido pelo eclipse da morte. Já fôra assim com Guimarães Rosa, com Clarice Lispector e, quase despercebido, quando cessou a Invenção de Orfeu. De vez em quando os povos ficam sem a voz maior que fale por eles, perde a sua quinta dimensão, além do tempo e do espaço. Itabira, feita de ferro nas almas e nas calçadas, está calada em suas noites de bruma, em meio aos morros que somem um a um, levados nos vagões de trem para o Japão. Minas também: não fala: quem sabe Minas nem mais existe? Drummond morreu a mais humana de todas as mortes: de amor. Podem dizer que foi o desgosto pela morte da filha adorada, Julieta, há 12 dias: não foi, foi o amor absoluto que ele tinha por ela e que se viu desvalido quando ela o precedeu. É inútil que todos os médicos da clínica, as enfermeiras da Unidade de Terapia Intensiva afirmem e jurem que ele morreu de complicações cardíacas e respiratórias: são nomes complicados para ocultar-se que alguém morreu de amor. A alma estava afetada, o espaço biológico do homem apenas reagiu como sismógrafo. E como numa maquinaria moderna, complicada, desligou os circuitos principais e Drummond morreu. Ou ficou encantado, como revelava Guimarães Rosa, aquele alquimista do sertão em sua posse de gala na Academia Brasileira de Letras?

Carlos não teve um enterro com glória e fanfarras em um Pantéon Nacional que não temos. Sua campa foi comum, no Cemitério São João Batista, no Rio, em cujos portões está escrito a advertência bíblica: “Descanse em Paz e retorna ao pó, tu que és pó, do pó vieste”. Modesto, o Poeta acha que a inscrição em latim fica assim um pouco pomposa, mas a vizinhança é do seu gosto: casinhas modestas de vendedores de flores para túmulo, lojas pequenas de escultores dedicados a celebrar no mármore o efêmero da passagem dos mortais pela vida. O silêncio, o recolhimento também são do seu feitio quieto, mineiro, ensimesmado.

Para quem sempre fugiu das gloríolas do mundo vão, só um desejo não será atendido, independentemente da vontade das gentes: seu nome não será esquecido. Foi inútil que ele se negasse a envergar o fardão e a tomar o chá aguado da geriatria quase nula de valor da Academia Brasileira de Letras, embora pela sua recusa ele tenha se esquivado ao ridículo daqueles rituais gauleses tão aclimatados entre postulantes na maioria nordestinos. Foi inútil a sua modéstia em fugir, a maior parte de vida, dos entrevistadores que só tinham tolices a perguntar, de que serviu ele recusar a leitura de manuscritos copiosos, todos assinados pela mediocridade ávida de brilharecos de duração de um segundo? Cada vez que alguém quiser exprimir qualquer sentimento humanao - paixão, galhofa, meditação melancólica, defesa dos fracos, busca de justiça e liberdade e tantos outros - aí estão suas centenas e centenas de versos a calhar para cada uma das situações que chancelam a alegre/triste condição humana. Com a grande poesia desse mineiro que na fase final de sua vida se mostrou afável, brincalhão, hospitaleiro ao receber a chuma de inquisidores a respeito da quadratura do círculo: de onde vem a inspiração? O que leva o sr. a escrever versos? A poesia tem um propósito? Com a sua maravilhosa, abrangente, funda poesia, ele, mesmo sem querer, não pôde exilar a notoriedade da enunciação do seu nome.

É verdade, o Prêmio Nobel, por não ter sido atribuído nem a ele nem a Borges (de Guimarães Rosa nem falemos), tornou-se tão ridículo e sem significado quanto um prêmio de figurinhas reles de uma fábrica cafona qualquer. Mas as honrarias sempre aumentaram a timidez desse “gauche na vida” que mansamente, com a aparência de quem não se propõe a nada, revolucionou a poesia brasileira masi do que o foguetório intenso da semana que durou três dias, em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo.

Drummond aparentemente, só aparentemente, banalizou a poesia falando de jovens enamorados que escrevem o nome da namorada com as letras da sopa de macarrão ou de uma pedra que havia em seu caminho. Não falou de broquéis, de “morrer assim, num dia assim” como os parnasianos e os simbolistas, buscando rimas exóticas, palavras que só dormitam no dicionário e uma falsa aclimatação de graníticas serenidades gregas e parisienses ao fervor sensual do brasileiro, mestiço de várias raças sequiosas de sexo pagão, para o inferno as excomunhões dos homens de batina!

Durante algum tempo, o Poeta sucumbiu ao canto das sereias refesteladas no rochedo de O Capital, sob as barbas fartas de Marx. Era o tempo da adolescente crença, passageira, na divindade do proletariado, no heroísmo gigantesco de Stálin, a ilusão de um mundo melhor às margens do rio Moscou.

Mas logo as tramóias, as mentiras mais torpes lhe revelaram que o regime que se apregoava era tão indistinguível do pior dos capitalismos quanto o atual degoverno prima pela incompetência, se comparado com outras repúblicas, velhas ou novas. Mesmo assim, ficaram os versos épicos da defesa de Stalingrado, na luta corpo a corpo em defesa do solo pátrio, em aldeias russas sem brilho nem nome, em nada comparáveis à pompa pusilânime de povos riquíssimos em cultura, arte, refinamento e monumentos arquitetônicos do lado ocidental da Europa…

Quase puritano em sua censura dos próprios versos eróticos que celebrassem “o céu da pele” da amada ao roçar a sua, ele deixa entrever, no entanto, que esconde em si um vulcão de sensualidade. Caberá a seu amigo, o colecionador e bibliófilo José Mindlin, revelar ou não ao público o tesouro de poesias eróticas que o Poeta lhe confiou para guardar para sua possível publicação póstuma. Mas o amor - entre seres humanos, entre o homem e a paisagem, o amor pleno, o amor que se desfaz como no célebre “Caso do Vestido” o amor-paixão e o amor calado - tece, como linha que não se vê, a estrutura de toda a sua admirável criação poética. O amor que veio tarde, o amor como aprendizado, talvez o amor tenha nos versos do poema intitulado “Amor e Seu Tempo” a sua expressão mais perfeita:

“Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,

que se torna a mais larga e mais raivosa,

roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,

o prêmio subterrâne e coruscante,

leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,

salvo o minuto de ouro no relógio

minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,

depois de se arquivar toda a ciência

herdada, ouvida. Amor comea tarde.”

Praticamente não houve um tema que Carlos Drummond de Andrade não abordasse. Em poemas jocosos, ele agradece a uma indústria química pelo “milagre” da poluição de um rio subitamente amanhecido com vasta bolhas de sabão em suas águas. Com ironia observa que o barraco em meio ao lixo que pobres mendigos pretos habitavam era, quando um temporal abateu sua “morada”, o único jazigo tranquilo e seguro de que eles jamais dispuseram em toda a sua vida. E se a ecologia não estava ausente de sua caústica argúcia participante, as críticas corajosamente políticas aos governos totalitários tampouco e até mesmo aquela camada esquecida da população brasileira, os índios, e seu destemido defensor, Rondon:

“Uma terra sempre furtada

Pelos que vem de longe e não sabem possui-la

Terra cada vez menor

Onde o céu se esvazia de caça

E o rio é memória

De peixes espavoridos pela dinamite

Terra molhada de sangue

E de cinza estercada de lágrimas e lues

Que o o seringueiro o castanheiro o garimpeiro

O bugreiro colonial e moderno

Celebram festas de extermínio…”

Dos assuntos prosaicos que ele transformava, miraculosamente, em versos filosóficos a respeito do valor simbólico do pagamento, neste caso dos humildes funcionários públicos, que sempre se atrasava (o que ele não diria hoje dos nossos polpudos “maraas”!), passava ao desmoronamento físico do passado que se visualizava nas imagens doloridas dos prédios postos abaixo, no Rio de Janeiro, destruindo-se a memória do ontem e, ateu convicto, para ele não havia Deus. Ou como ele iniciava uma divagação: Deus é triste, solitário e legou ao homem a sua tristeza infinita. Talvez uma única vez ele ecoa a vos dos que têm fé e sua refutação:

“Único”

“O único assunto é Deus

O único problema é Deus

O único enigma é Deus

O único possível é Deus

O único impossível é Deus

O único absurdo é Deus

O único culpado é Deus

e o resto é alucinação”

Responde, quem sabe ele próprio, às suas reflexões raramente místicas?

A morte ronda muito de seus escritos. Sem morbidez. Até com a originalidade de se morrer no avião e meticulosamente se preparar aquela que, sem o sabermos, será a nossa última viagem, em um dos mais conhecidos poemas. A morte como resposta final: a quê? Imprecisamente, a tudo: a morte preside à resolução ignota do enigma final:

“Vida depois da vida”

“A morte não existe para os mortos. Os mortos conquistam a vida, não a lendária, mas a propriamente dita a que perdemos ao nascer. A sem nome sem limite sem rumo (todos os rumos, simultâneos, lhe servem) completo estar-vivo no sem-fim de possíveis acoplados. A morte sabe disto e cala. Só a morte é que sabe.”

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1978–11AD) 2022. “Drummond: comovido, feroz. Exato .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.