Um Nobel para a África - Wole Soyinka

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1986/10/17. Aguardando revisão.

A roleta caprichosa do Prêmio Nobel de Literatura deste ano parou diante de um nome que talvez nem 0,0001% dos brasileiros conheça. Wole Soyinka, porém, não é apenas um emaranhado de sons, como vários agraciados pela esclerose tranquila dos acadêmicos de Estocolmo o foram. Wole Soyinka pertence em primeiro lugar a um dos países africanos mais ricos do ponto de vista literário, a Nigeria. John Pepper Clark, Okigbo Cristopher, Gabriel Okara, Amor Tutuola, Chinua Achebe, Onuora Nzeku para citar apenas os mais conhecidos, representam facetas criativas diferentes do escritor da África Negra moderna. Talvez o que distingue a obra – principalmente teatral – de Wole Soyinka é a sua profunda amargura, sua visão trágica e absolutamente infensa a maniqueísmos. Esta atitude custou-lhe inúmeras polêmicas e ódios. Afirmam seus inimigos: como pode um dramaturgo e pensador africano – além disso fino poeta – investir contra imagens sacralizadas da África anterior ao colonialismo europeu? Como ele ousa duvidar da existência de uma África primordial virgem de defeitos, estuprada pela ganância de missionários e comerciantes, rumo à qual é preciso que autores africanos indiquem o caminho de volta como aconselha de forma dogmática Ngugi wa Thiongo em seus ensaios de 1972: Homecoming: Essays in Africa and Caribbean Literature, Culture and Politics.

Soyinka e Chinue Achebe tomam uma atitude de vigorosa oposição a isso que chamam de visão romântica, idealizada de uma África que, por ser humana, não é desprovida de defeitos, no passado, agora ou em qualquer época. “Como voltar ao ventre originário?”, os autores nigerianos indagam. E concluem: é uma tarefa impossível. O futuro não pode se transformar, pela nossa força de vontade, em um passado mítico, talvez inexistente como concebido dessa forma. A realidade para o escritor africano, de fato, é múltipla.

De um lado, como vários deles ressaltam, há a dualidade de pertencerem a uma tradição que a presença do branco destruiu: a tradição comunitária, a negação do indivíduo como entidade autônoma, a necessidade imperiosa de que todos se integrem na tribo, na aldeia e seus objetivos. De outro, há a questão particularmente dolorosa para Soyinka e seu acre pessimismo: os feiticeiros, os xamãs das tribos ancestrais não eram farsantes, não eram exploradores da credulidade do grupo? Quando sua peça Os Habiantes do Pantanal foi ou lida ou levada à cena, imediatamente ele foi tachado de desrespeitoso para com os mais velhos, de inimigo da religião, pois revelava como o Sacerdoteda Serpente Oculta, Kadiye, explorava os habitantes da aldeia com falsas promessas, apoderando-se do dinheiro e das oferendas que lhe tinham sido entregues em troca de bençãos e proteções divinas. Igwezu, o filho do casal incapaz de duvidar dos “antigos”, Makuri e Alu, cobra do representante religioso tudo que lhe foi negado: tendo partido para uma cidade grande (Lagos, a capital da Nigéria, neste caso), lá ele perdeu tudo para o irmão insaciável, até mesmo a esposa. Igwezu está dilacerado, não só por sua derrota pessoal, mas também por estar dividido entre o campo e a cidade. Qual é mais maléfico? O campo com suas crendices e imutabilidade social ou a cidade grande, aquele mundo de negócios, de crescentes favelas, de corrupção, de lutas e arengas políticas que nunca favorecem o povo?

Soyinka não desmente, é óbvio, a importância do passado. O passado existe, colore o presente e até mesmo o futuro com a sua influência. Mas o passado não é uma escapatória fácil para os acomodados: por mais que o passado pré-colonial tenha sido importante ou até hipoteticamente edênico, não podemos voltar a ele: esse paraíso está fechado. Precisamos construir o presente e o futuro, pois não há volta atrás.

Outro aspecto da criação artística desse rebelde nigeriano irrita camadas consideráveis dos que o leem. The Strong Breed, The Lion and the Jewel e The Road são peças que de modo subjacente ou explícito confirmam suas ruminações desiludidas durante o tempo que passou na prisão por motivos políticos: The Man Died (Prison Notes of Wole Soyinka, 1972). A África libertada do jugo colonial encheu-se de ditadores, de partidos únicos de repressão e fraude: desde o Abi-Ackell africano das joias caríssimas, o “Imperador” Bokassa, até o massacre perpetrado por Idi Amin Dada em Uganda. Em Gana, no Quênia o terror dos negros imposto aos negros substituiu o terror dos brancos.

Ironicamente, ele parece subentender a pergunta ácida: deveríamos voltar ao passado colonial, quando os brancos não tinham estabelecido uma ditadura política? Esta sua denúncia de regimes tirânicos na África Negra recorda bastante o desalento de um escritor angolano, Manuel Rui, que vê seu país libertado de Portugal, é verdade, mas amordaçado pelas armas soviéticas e por suas sentinelas cubanas. Angola em ruínas e desmoronando sob o impacto de uma guerra civil movida pela Unita de Jonas Savimbi. Valeu a pena trocar de senhores? A África poderá afirmar-se de forma equidistante das zonas de influência norte-americana ou russa?

Soyinka – e não só ele – aborda outro tema de quase impossível solução: existe uma África ou o imenso continente retalhado a bel-prazer pelas potências europeias não forma um conjunto homogêneo? Os ideais do panafricanismo serão realizáveis, como o deseja Julius Nyerere, desejoso de abolir até o nome do país que governa, a Tanzânia, em prol de uma visão mítica da África?

Ele não responde propriamente a esta pergunta com receitas dogmáticas nem aceita o que considera meros slogans como – sacrilégio! – à négritude. A négritude nada significa mesmo, ele rebate, destruindo o que considera falsos ídolos, uma tendência muito difundida entre os escritores africanos de língua inglesa, em contraste com os de expressão francesa como Senghor ou Césaire. Ele prefere um termo mais genérico como “personalidade africana”, reencontrando uma unidade dificilmente delimitável na imensa variedade de expressões africanas.

Se não bastassem essas suas facetas iconoclastas, Wole Soyinka pouco se importa em aderir a um partido político específico, embora reconheça uma tarefa social a cargo do escritor, mas duvida que o escritor tenha uma fórmula miraculosa para os problemas socioeconômicos de qualquer regime político. Soyinka parece insistir nos valores individuais e não quer perder tempo com as teorias de racistas segundo os quais “a África nunca contribuiu em nada para a civilização mundial”, ou “o africano é supersticioso, sujo, atrasado mentalmente, não suscetível de progredir”: para que refutá-las se há pouco tempo para se escrever sobre a África e buscar, penosamente, um papel que os africanos possam desempenhar no século XXI? As antigas civilizações do Benin, de Daomé e outras regiões africanas são um dado inegável: para que nos determos apenas no passado se o presente é tão urgente e exige toda a nossa meditação, toda a nossa participação? Parar nos reinos de outrora é tão inútil quanto lamentar-se séculos a fio sobre os horrores da escravidão e do imperialismo. Ora, evidentemente, Soyinka é, até mesmo na Nigéria, um marginalizado, um outsider ocupado, na Universidade de Ibadan, em criar uma dramaturgia nigeriana e em dirigir um grupo de atores itinerantes que percorre as principais cidades do país com esse propósito.

Às vezes, o Prêmio Nobel gosta de colocar suas coroas suecas e seus galardões os bolsos e nas cabeças de dissidentes: Pasternak, proibido na URSS, Thomas Mann, exilado da Alemanha pelo nazismo, André Gide, execrado por suas preferências sexuais pela classe bem-pensante francesa. Ou às vezes o grupo geriátrico de Estocolmo prefere pescar autores absolutamente desconhecidos a não ser de exóticos perseguidores do obscuro: o australiano Patrick White, quando não teima em premiar a mediocridade registrada em cartório: Gabriele Mistral, Roger Martin du Gard… Ao selecionar, este ano, o dramaturgo nigeriano, de certa maneira os acadêmicos suecos confirmaram a seleção para o prêmio da Paz atribuído a Elie Wiesel pelo menos num ponto alto: ambos são “pessimistas sorridentes”, sacudidos pelos dramas de seus povos e pela diáspora imposta aos judeus e aos negros. Na universidade sueca de Uppsala, o Instituto Sueco de Estudos Africanos publicara, já no longínquo ano de 1968, uma das raras afirmações de Wole Soyinka:

“O artista tem sempre assumido, na sociedade africana, o papel de testemunha dos hábitos e da experiência da sua sociedade e simultaneamente (sublinhado pelo próprio autor) o de voz lucida de usa própria época. É chegado o tempo de ele corresponder a essa essência de si mesmo”

Como ressalta com extrema clareza o africanista James Olney em Tell me Africa, An Approach to African Literature (Editora Princeton, 1973), não cabe ao leitor que não for originário da África Negra e tiver crescido em meio a seus hábitos compará-la com a França, a Inglaterra ou qualquer outro país. Por que exigir de um artista africano a adoção de gêneros como o romance, o soneto, a rima? Por acaso, seria legítimo esperar que um poeta chinês criasse o equivalente à Divina Comédia ou que um novelista como Kawabata reproduzisse em japonês a saga do Ulisses de Joyce? Esta parece ser a dificuldade fundamental de todos nós, cada vez que deparamos com uma cultura que não seja eurocêntrica. Que não tenha forçosamente passado pelos movimentos culturais, políticos, econômicos do Renascimento, da Reforma, da Contrarreforma, da Revolução Industrial. Se já há evidentes dificuldades em apreendermos a realidade autóctone quíchua do Peru e da Bolívia, por exemplo, que obstáculos não surgirão para que captemos a mentalidade africana ou do Extremo Oriente, inevitavelmente diferentes da nossa?

É necessário enfatizar, porém, que para Soyinka, como para a maioria dos autores africanos, cultivar a própria individualidade não é um fim em si mesmo: é um princípio visando a integrá-lo melhor na comunidade. Uma surpresa, neste artista profundo, lúcido na sua análise da trágica condição humana, é o toque de ironia e de humor, que por vezes salta de seus textos, tanto de poesia quanto de teatro. Seu poema “Conversa Telefônica” ilustra bem essa sátira amarga. Quem queria alugar um quarto em Londres, presume-se, acha o preço aceitável, a localização indiferente, só faltava a “confissão”. E ele a faz à sua futura, hipotética senhoria: “Sou africano”. A voz feminina mantém-se educada e provém, de uma boca que fuma através de uma piteira, os lábios cobertos de batom. Segue-se um diálogo não se sabe se mais trágico ou cômico em que ela procura saber se ele, seu futuro, hipotético inquilino, é “muito escuro ou mais para preto claro”. Cor de chocolate amargo ou de leite? À resposta “Sou da cor sépia da África Oriental” não satisfaz: será muito escuro? Até o final francamente hilariante: “Madame, a Senhora devia ver não só a morenice de meus pés e as palmas de minhas mãos de um louro água oxigenada! O atrito provocado por eu tanto me sentar, Madame, é que deixou meu traseiro negro como um corvo”. E quando ela desliga, enfurecida, a pergunta final, o pedido derradeiro: “Será que a senhora não quer dar uma espiada com seus próprios olhos, Madame?”.

Um momento de rara distensão de Wole Soyinka, pouco inclinado a brincadeiras, mas sem a solenidade fúnebre de um profissional qualquer do pessimismo. Porque a sua posição, felizmente, não é daquelas rotuláveis por uma síntese crítica comoda e apressada. Soyinka, com suas contradições e sua paradoxal descrença esperançosa no ser humano em suas interpelações dramáticas, tateia, como todo legítimo artista, os próprios instrumentos de sua busca.

Se Virgínia Woolf, assustadoramente, perguntava: “Para que viver?” o autor nigeriano perscruta o porquê da arte, se é que ela tem uma função específica. Numa época em que as liberdades de imprensa, de expressão, de dissenção estendem um arco macabro do Chile a Vladivostock, na União Soviética, na era dos Gulags, das 41 guerras contemporâneas, das ditaduras da África, na Ásia, na Europa do Leste, na América Latina, deve ter ressoado fortemente na consciência da Academia Sueca de Literatura o testemunho de um intelectual que escreve da prisão um dos relatos mais comovedores em prol de uma coerência ética que não se dobra diante de regimes despóticos.

Da prisão Wole Soyinka estabeleceu um princípio que antes dele todos os prisioneiros de consciência do mundo reafirmaram com a própria vida: não pode haver uma sociedade livre se a liberdade for extinta por um decreto governamental apoiado no poder de fogo das armas, de Manágua a Varsóvia. Deve ter sido este inabalável princípio ético de todos os tempos que levou o Prêmio Nobel a distinguir, este ano, afortunadamente, o nome íntegro e fecundo de Wole Soyinka.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Um Nobel para a África - Wole Soyinka .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.