A visita da majestosa senhora

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1987/04/23. Aguardando revisão.

Como um rosto, visto de vários ângulos ao mesmo tempo, há várias Doris Lessing.

Os que tiveram lido apenas as Memórias de uma Sobrevivente recordarão os elementos misteriosos daquela fuga da Rodésia (hoje Zimbábue) dilacerada pelo racismo branco: o gato-cão, a parede ameaçadora que se abre para o passado e suas imagens sempre vivas. As quadrilhas de jovens brancos nas cidades abandonadas parecem reverter, na guerra, ao estado de barbárie das crianças em O Senhor das Moscas de William Golding, perdidas depois de um desastre de avião numa ilha deserta.

Ou descerá no Brasil a Doris Lessing mordaz ao retratar nos cinco volumes de Filhos da Violência a hipocrisia e indolência dos colonos ingleses, imaginando-se country gentry (aristocracia rural), enquanto tomam chá com racismo sob o sol escaldante da África? Eles pelo menos tratam os nativos como crianças ou retardados mentais, darwinianamente “inferiores”, mas os holandeses, os Boers?! Cuia de comida, água e chicote na “negrada preguiçosa”, a raça de Cam, amaldiçoada por Deus e que até os sermões nas igrejas protestantes designam como “servidoras do branco e biblicamente inferiores a ele”.

Poucas mulheres saudarão a magnífica Doris Lessing feminista ardente de O Carnê Dourado: as mulheres brasileiras preferem ainda, na maioria dos casos ler só a revista Cláudia no cabeleireiro: que receitas: que “dicas” ótimas!

Um punhado de adeptos de comportamentos alternativos poderão recebe-la com uma rosa: baseada em Ronald Laing, ela desmistifica os tratamentos com produtos químicos e choques elétricos em seu livro Briefing for a Descent into Hell. O inferno é a terapia normativa, que quer todos marchando obedientes nas fileiras de um exército sem rosto nem escolhas pessoais, é a camisa-de-força que esmaga as potencialidades do “eu” livre.

Ou será que Doris Lessing emerge no Edifício Itália de um UFO gigantesco?

No painel enigmático de Shikasta ela não aceitou o rótulo de “ficção científica” e adotou a denominação vaga de “ficção espacial” para sua criação nova. O planeta Terra está disputado por astros maléficos e galáxias benéficas como Canopus. Johor vem à Terra para recuperar os seres humanos angustiados, robotizados, agressivos. A raça branca é julgada por um Tribunal por seus crimes de destruir povos e culturas no Peru, no México, na África. Os movimentos idealistas tornam-se indissociáveis da violência: a paz se fará com slogans violentos de Lenin e com bombas “em prol da paz e do amor”. Há um partido Democrata Pacífico a Favor da Violência em defesa dos Opimidos.

O terrorismo, aliás, é o assunto de seu mais recente livro. Com suprema, magistral ironia, Doris Lessing focaliza principalmente a terrorista boa (The Good Terrorist, no original, apenas A Terrorista, na edição da Record), que se horroriza com a perda sangrenta de tantas vidas e que, usada por seus companheiros reformadores do mundo, sempre machistas, continua a lavar suas roupas e cozinhar para eles, tudo como antigamente no mundo dos “burgueses”, só que agora com o pretexto ou sob a auréola de uma futura “Revolução”. Entre despreendida e a filha “progressista”, a autora deixa claro que acima das ideologias há sempre a vibração emocional, há o pulsante coração a intermediar as relações humanas.

E quem seria esta jovem loura e sardenta a chegar acintosamente junto com Doris Lessing? É uma intrusa, uma desconhecida, uma “penetra” de nome Jane Somers. Mas o que ela fez para aparecer assim com tanta desfaçatez? É um pseudônimo que a grande escritora inglesa usou para despistar os editores e leitores. E que apreensão dolorida, terrível os Diários de Jane Somers captam! Desde O Rei Lear, de Shakespeare, talvez, a literatura inglesa não mostrara de forma tão patética a tragédia da velhice orgulhosa, desamparada, sem parentes, que vegeta com um mínimo de dignidade e a mais intensa solidão.

Expulsa do Partido Comunista, depois que se revoltou contra o stalinismo, o esmagamento das revoltas populares de Berlim, Budapest, Praga, detestada pelos conversadores, que veem nema uma prerigosa “agitadora”, invejada por um sem-número de escritores por não ligar ao “estilo” e escrever “sem ritmo, sem um vocabulário extenso”, Doris Lessing mora em Londres, numa casa modesta com quase vinte gatos e pilhas e mais pilhas de jornais velhos. Sem vaidade, veste roupas comuns e seus cabelos castanhos estão sempre despretensiosamente presos por um coque à moda antiga.

Paralelamente ao fluxo majestoso de seus romances, há também os seus contos. Talvez os melhores estejam ambientados na África. Raramente bem traduzida no Brasil, ela ignora que sua coletânea Esta era a Terra do Velho Chefe saiu mutilada entre nós, desprovida das primeiras palavras do título, o que rouba ao relato sua noção de que a terra original do chefe tribal lhe foi roubada pelos brancos. Em uma dessas esplêndidas short stories, Doris Lessing descreve, minuciosamente, o sonho de um adolescente negro com as luzes resplandecentes da África do Sul, onde terá um emprego bem remunerado, envergará um uniforme de policial imaculadamente branco e ajudará seus irmãos de cor a atravessar as ruas de intenso tráfego, guiará os pobres, os velhos e cegos para suas casas ou para os prédios burocráticos que estiverem procurando. Naturalmente a sua ingenuidade se transforma em horror. O jovem nativo é preso por “vadiagem” e por se encontrar, sem permissão, numa zona “exclusiva para brancos”. Algemado, registrado com um número, o empurra para uma cela de delinquentes comuns: ele passa fome e sede nessa sua primeira lição da cartilha do racismo branco fanático. Noutra história, um pintor italiano de passagem – portanto “branco”, embora um corpo estranho no meio daqueles funcionários pomposos de Sua Majestade Britânica – é encarregado de pintar quadros sacros para uma festa religiosa a ser realizada daí a dias. Quando se desvela seu quadro principal, dedica à Virgem Maria, surpresa! Ele pintou uma Madona Negra, como é possível?!

Doris Lessing transmite ao leitor uma sensação nova rica, imediata, da natureza africana, do cheiro das plantas, das planícies imensas, dos rios pujantes, mas nada que lembre um guia de viagens com um crocodilo em cada página como “momento” exótico da África de cores vivas e tradições próprias.

Ela concedeu uma série de entrevistas curtas sobre si mesma reunidas no volume pequeno, intitulado A Small Personal Voice. Algumas de suas respostas e observações são o próprio logotipo da sua inigualável originalidade:

Ao responder por que se deixou levar pela ideia de escrever novelas afirma:

“Um terço de nós – um terço da humanidade, isto é – vive bem e come bem. Consciente ou inconscientemente deixamos que 2/3 da humanidade restante morando mal e se alimentando mal, insuficientemente. É disso que a minha série de romances trata: dessa estrutura imensa de discriminação, tirania e violência.”

A esplêndida escritora inglesa – provavelmente a maior desde final de século – exige uma reviravolta no conformismo mofado com o qual encaramos a realidade. Por que a História, ela pergunta, não pode ser escrita também pelos criados, pelas lavadeiras, pelos que sempre serviram e cujos nomes se perderam no anonimato do tempo? A loucura não será uma gradação superior da lucidez, que permite captar nuances da realidade que o ser “normal” ignora como não sentimos os sons baixos ou altos demais para a nossa limitada escala auditiva?

Na era do Líbano destroçado, da mediação entre os artistas e os indivíduos por meio de produtores, atores, roteiristas, comitês de seleção, a voz quase abafada do escritor não precisa novamente ser ouvida, de ser humano a ser humano, cheia de calor, de amor pelas pessoas?

Quem sabe Doris Lessing, com seus exercícios sufistas, não levitará breve sobre nós?

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “A visita da majestosa senhora .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.