O Evangelho da Solidão de Eduardo de Oliveira

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
O Estado de São Paulo, 1970/7/23. Aguardando revisão.

Na parte final desta sua coletânea de poemas, Eduardo de Oliveira transcreve a opinião hiperbólica de Tristão de Ataíde, que o considera “o novo Cruz e Souza” brasileiro, a par de outra que o define como “um triste sonhando coisas lindas… (seu livro) é um porto de miragens, gemendo a insatisfação milenária dos poetas.” A mesma indecisão caracteriza sua utilização dos versos:

A parte numericamente maior de seus poemas prende-se à forma parnasiana e à expressão de sentimentos melancólicos (“de tristeza em tristeza me transporta/ esse pesar de que não me liberto/ e cuja dor meu peito não suporta”) ou de sofrimento virtuoso como laissez passer para o céu (“É preciso sofrer. Sem sofrimento/ a humanidade não se purifica/ A dor se esvai um dia e o bem que fica/ nos há de dar conformidade e alento.”) ou de confissão amorosa igualmente soturna (“Penso em você, quando a tardinha desce/ triste e chorando, como estou agora./ Penso em você, quando desperta a aurora/ que vem da noite que desaparece).

Mas a parte nitidamente melhor de sua poesia encontra-se, sem dúvida, nos acentos de revolta pessoal em que o poeta de cor evoca a África de sua origem com “Tumbeiros do Além” que se inicia:

“Eu sou um pedaço d’África 

jogado no chão do mundo. 

Tumbeiros malditos 

Tumbeiros do Nilo 

Tumbeiros-Saara 

Tumbeiros do Caos 

Tumbeiros-Tumbeiros 

Tumbeiros do Além.”

Essa sinceridade emotiva é porém desvirtuada por influência de Gonçalves Dias na métrica:

“Nas plagas distantes 

a que me atiraram 

tristezas chegaram 

cravando-se em mim. 

nas terras do norte o negro é fantasma 

terrível miasma 

de angústias sem fim.”

Essa adesão a métricas cerceadoras do ímpeto expressivo está aliada a um tom em certos pontos condoreiro, que recorda as “Vozes d’África” de Castro Alves, com sua retórica declamatória hoje caída em desuso. São esses enganos, frutos talvez de leituras voltadas para o passado, de valores já consagrados mas cristalizados em sua época específica, que prendem seu voo poético.

Estas observações não querem dizer que o poeta deva se limitar, forçosamente, aos temas raciais. Significam somente que é na temática brotada da négritude de Aimé Césaire e de Léopold Senghor que Eduardo de Oliveira encontra sua maior força. Uma força incerta, que descamba para o lugar-comum de efeito:

“Se o negro levanta 

seu porte de ébano 

é eletrocutado 

é decapitado 

a bem do país 

a bem da nação 

que um dia com sangue 

ajudou a construir.”

Mas uma força que adquiri um ritmo e uma expressão próprias, quando o poeta não interfere intelectualmente na sua confecção, mas, como queria Rimbaud, deixa que seu canto flua instintivamente:

“Bocas negras 

negras vozes 

que têm fome de justiça e de música. 

Almas negras 

negras preces 

que se prolongam num mistério de sombras de infinito. 

Cantos negros, 

negros hinos 

  • todos feitos de banzo e de atabaques. 

Luzes negras, 

negras luas 

caídas numa bola de paz e de dor que vem das Áfricas. 

Olhos negros 

negros prismas 

projetando futuros e mocambos. 

Belas negras, 

negras prenhes 

de castas fecundações que os sóis não trazem. 

Corpos negros, 

negras frontes 

que dão manhãs escuras de alegrias. 

Sonhos negros, 

belos sonhos 

com soluços de noites e pedaços do meu povo.”

O contacto com esta raiz expressiva e com os exemplos vigorosos da poesia negra – de Langston Hughes aos poetas contemporâneos do Congo – poderá trazer uma diretriz certa às suas hesitações poéticas, tornando-o uma expressão inédita da nossa poesia virgem – a da negritude brasileira original.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “O Evangelho da Solidão de Eduardo de Oliveira .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.