Alberto Moravia e os Estudantes

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Diário de Notícias, 1960/08/7. Aguardando revisão.

Recentemente, por ocasião da visita de célebres escritores italianos ao Brasil, o Pen-Clube, e o Instituto Italiano de Cultura, do Rio, promoveram um encontro entre esses intelectuais e os jovens brasileiros. Infelizmente, o número de estudantes que compareceram foi demasiado pequeno para justificar o título acima, que melhor seria: Moravia e a Ausência dos Estudantes. Pouquíssimos universitários convidados estiveram presentes e raros dentre eles se manifestaram durante o que deveria ter sido um colóquio vivo e interessante. Alberto Moravia e seus companheiros perderam uma excelente oportunidade de conhecer a geração nova do Brasil que, em outros casos, se revela partícipe e atuante, profundamente consciente da realidade brasileira. Por sua vez, os estudantes perderam uma ocasião única de debater assuntos palpitantes com os máximos expoentes da inteligência italiana, da sua literatura contemporânea.

Mesmo assim, transcreveremos sumariamente o que foi o encontro entre a colônia italiana, alguns admiradores mais velhos de Moravia e os poucos jovens que assistiram ao encontro de ideias, realizado nessa instituição cultural. Inicialmente, inverteram-se os papéis: foram Mario Praz, “o maior crítico europeu”, como o considera Aldous Huxley, Moravia e Giorgio Bassani, o autor das Storie Ferraresi que fizeram perguntas ao público brasileiro. Só mais tarde, timidamente, surgiram as primeiras indagações dirigidas aos visitantes italianos:

Alberto Moravia – “Essa teoria foi por mim esboçada num prefácio que fiz a uma antologia de contos modernos italianos, escritos por alguns dos autores aqui presentes: Elsa Morante, Giorgio Bassani e outros. Devo dizer em primeiro lugar que se trata meramente de uma teoria minha, sem pretensões de crítica literária, que expressa, digamos assim, a minha maneira de sentir. A diferença fundamental, segundo me parece, é a de que a novela se encontra mais próxima da lírica, ela se origina mais diretamente da intuição de certas situações e de certos personagens. Ela contém, por assim dizer, esboços em profundidade de uma realidade. A novela é menos racional, menos lógica do que o romance. O romance é mais ideológico, mais denso de conceitos intelectuais e revela uma estrutura, um sistema interno mais pronunciado, poderíamos dizer mesmo um conteúdo filosófico que não se nota na novela: de fato, a maioria dos novelistas não tem uma”filosofia de vida” preestabelecida e bem definida: Tchekov e Maupassant, por exemplo, são dois exemplos de escritores espontâneos, sem um conteúdo ideológico apriorístico. Portanto, o romance permanece mais próximo da vida e denota possuir mais campo para um debate de conceitos intelectuais e de ideias. Tolstoi, por exemplo, poderá ilustrar plenamente essa concorrência, ou pelo menos essa ausência de dissonância, entre o romance e a filosofia. No entanto, é claro, esta minha teoria pode ser rebatida e quem sabe se o contrário não será mais verdadeiro?”

Alberto Moravia – “Creio que essa teoria é absurda e não pode ser defendida: Dante foi o escritor mais político, mais combativo do período medieval, foi exilado, participou intensamente dos embates políticos de seu tempo. O escritor deve participar da realidade de seu tempo.”

Giorgio Bassani – “Não me parece haver dúvida a esse respeito: não deve haver uma separação entre o escritor e o mundo que o circunda. Se o escritor se limitasse a meramente divertir as massas, então seria inútil a literatura e seria muito mais fácil achar meios menos exaustos para divertir o grande público do que a criação da literatura, que implica uma dedicação e esforço ingentes. Creio que se trata de um bon mot snob de Waugh, uma sua revolta, digamos assim, diante das fileiras imensas de autores modernos que militam sob essa ou aquela bandeira partidária. Portanto, cansado da”literatura engagée” ele formulou esse bon mot sem maiores consequências.”

Mario Praz – “Não quero, naturalmente, criar polêmica com meu caro amigo Alec Waugh, mas creio que seja impossível exigir do escritor que ele passeie pelas cidades, de guitarra em punho, divertindo as massas. É provável que Waugh se tenha referido oas minestrels (trovadores), poetas itinerantes ingleses, que divertiam a corte britânica. Mas então se tratava do conceito de literatura de corte, que divertia os nobres, teoria que corresponde à definição marxista da literatura ocidental”não comprometida”. É preciso esclarecer, porém, que as massas da Idade Média não participavam da literatura nem de outras artes, a não ser o contato que tinham com as decorações das igrejas, com os rituais da missa, as formas arquitetônicas das catedrais e com a Bíblia. As massas do período medieval eram analfabetas, só os prelados e os nobres sabiam ler e escrever, a cultura era então um privilégio das classes superiores. Isto por si só invalidaria essa tese de que o escritor na Idade Média, divertia meramente as massas.”

Elsa Morante – “O escritor não diverte o seu público, ao publicar seus livros, ele age diretamente sobre a vida e embora o escritor não assuma o cargo de ministro, de político etc., ele sempre participa dos acontecimentos que o circundam.”

Alberto Moravia – “Não creio que o povo italiano tenha tanto medo da guerra, afinal, há nações que podem perder muito mais do que nós, nós não temos poder suficiente para decidir se haverá guerra ou não, portanto, atemo-nos a observar a situação, já que a supremacia do mundo ocidental está em mãos dos Estados Unidos. A América do Norte, esta sim, terá muito mais motivos de temor do que nós.”

Giorgio Bassani – “Especifiquemos, temos pouco a perder no que se refere a colônias estrangeiras, mas, por outro lado, já temos consciência do imenso, do insubstituível tesouro artístico italiano que uma guerra poderia destruir, irreparavelmente.”

Alberto Moravia – “O povo italiano não constitui exceção à regra: todos os povos da terra sentem os efeitos da guerra fria, que se refletem em todo o mundo, no entanto, os italianos se mantêm, de modo geral, calmos.”

Elsa Morante – “Sinceramente, estou já habituada a responder a essa pergunta e o faço de boa vontade: Creio que existe sobretudo um”racismo” dirigido contra a mulher, em quase todos os países do mundo. Até em países civilizados e evoluídos, como a França, os Estados Unidos e outros, por exemplo, a mulher perde não só o próprio nome como sacrifica parte de sua própria personalidade ao casar-se: transforma-se meramente na sra. Robert Smith ou na madame Paul Verger… Na Suíça, até hoje, as mulheres não votam. No Oriente, na América Latina, a mulher ainda não se emancipou completamente. Aqui no Brasil, segundo pude observar, ou pelo menos aqui no Rio de Janeiro, a mulher tem já uma grande independência. Divirto-me sempre que vejo pessoas ficarem admiradas, extasiadas, ao saber de uma grande realização feminina, como nós nos espantamos quando um gato consegue abrir sozinho uma porta, por exemplo… As mulheres não são absolutamente inferiores aos homens, têm, isso sim, maneiras diferentes de expressar-se, de ser, de reagir perante fenômenos idênticos. Creio sobretudo na tolerância, não só racial, mas também entre os sexos, a fim de que não se estabeleça nem um matriarcado antinatural nem um “mundo dos homens para os homens” sumamente injusto…”

Giorgio Bassani – “Inicialmente, devo explicar que parte do estrondoso sucesso de Lampedusa, um autor realmente extraordinário, porém, se deve a fatores externos, adventícios, que influíram na aquisição rapidíssima do livro. O fato de o autor ter sido um príncipe e ainda de ter falecido antes de sua obra colher esse grande êxito de livraria e de crítica, esses fatores, sem dúvida, influíram naquela parte do público que se deixa influenciar por coisas desse tipo… Fora disso, porém, como já salientaram vários críticos, a aparição de Lampedusa é muito importante no cenário da literatura italiana do após-guerra porque ele encerra um período, uma época artística determinada. Sem dúvida, a sua filiação literária pode ser reconhecida nas figuras de Verga, seu grande predecessor conterrâneo, o maior narrador do século XIX, e na de Tomas Mann, o”cronista” – no sentido mais elevado do termo – de uma sociedade decadente. Lampedusa foi dos poucos escritores italianos a referir-se a uma realidade italiana concreta, ele é o bardo da decadência unida à fantasia, o escritor impregnado o sentimento da morte e do fatum.”

Naturalmente, no decurso de um colóquio curto e que por vezes se revelou penoso, pela ausência de participação de parte do público, não seria possível abordar muitas questões a mais, no entanto, nosso propósito, ao divulgar estas linhas genéricas da atitude dos intelectuais perante os problemas apresentados é tão somente o de conduzir a atenção dos leitores de “Caminhos de Cultura” à obra de profunda e duradoura renovação literária levada a cabo pelos escritores italianos hodiernos. Brevemente iniciaremos uma divulgação esquemática mas constante dos valores atuais da literatura italiana, focalizando os mais representativos expoentes da criação artística do após-guerra: Moravia, Pavese, Pasolini, Gadda, Elsa Morante, Giorgio Bassani, Pratolini, Vittorini e outros.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Alberto Moravia e os Estudantes .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.