E foi assim que nasceu o Brasil de hoje, com Drummond e o romance social

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1982-03-13. Aguardando revisão.

No armazém de secos e molhados das artes, São Paulo tinha um estoque modelar, naquele início de século XX: pintores que pintavam caipiras com a expressão apalermada de demi-race, pitando sua ignorância em telas a óleo rigorosamente seguindo os últimos figurinos acadêmicos de Paris. Era um retrato do exótico caboclo, uma tranche de vie (uma fatia de vida) vivíssima, que se comprava e se pendurava na parede da sala de visita, com solenidade. Na arquitetura, a revista Cruzeiro sugeria a seus leitores quatrocentões ou imigrantes italianos e árabes endinheirados cotages do tipo colonial norte-americano, patuscas casas de estilo “mexicano” onde só faltavam os bigodes de Panho Villa.

A Catedral, essa, então, emergia gótica, deslocada em meio a uma praça febril de passantes: ou seria românica? Pois se até vitraux tinha! Era um colosso! E os que passavam, embasbacados, persignavam-se duas vezes: pela presença da fé no templo e pela cultura da cidade que se agigantava a olhos vistos. Em meio ao canteiro de obras que construía a selva de cimento armado, aquele era o pastor de almas arquitetônico imenso, a Sé, a guardar seu rebanho crescente de pecadores, réplica e admoestação da mamãe Europa em plena urbs sul-americana, ignara mas submissa. Em tudo os exemplos da Europa eram lições diante das quais não se permitia titubear: vinhos portugueses, italianos e franceses; monumentos imensos, comemorando o sentimento pátrio; o Museu da Independência ou o Cristo Redentor abrindo os braços em cruz sobre o Rio de Janeiro e encomendando a um escultor francês e iluminado à distância pelo papa; tudo imitava, até os cacoetes, uma visão atrasada de Paris, Lisboa, Madri e Roma. Dos móveis à gramática, tudo tinha de obedecer a um leve sopro de “modernização”, pois não somos esquimós refratários à civilização européia de onde provimos, mas tudo sem exageros.

Música? A idolatria brasileira dos pianos, em que mocinhas da sociedade, conforme Mário de Andrade, arranhavam com as unhas o eterno Chopin ou, no máximo, uma polca nacional capitosa ma non troppo. No teatro, a tradição era alfacinha, quer dizer: puramente lisboeta; e quem não emitisse, claramente, uma mesóclise no palco, com gestos amplos, “latinos”: “Ficar-lhe-iam bem tais filós, ó filha?” era desprezado como “insensível”, “ignorante” ou, pior ainda, “modernista”, o que queria dizer sem classe, cafajeste, sem escolas nem sutileza. Do bel canto (italiano, italiano!) à fachada siamesa da Ópera de Paris dos teatros municipais do Rio e de São Paulo tudo vinha copiado dos modelos de fora. Até os livros eram impressos em Lisboa, um século depois da independência nacional, pela paciente livraria Garnier, cujos revisores se divertiam com as “brasileirices” que aqui e ali saltavam nos livros dos “brasileiros”, cheios de incorreções de gramática. Isso quando não eram textos de escol, com o estilo castiço, um vocabulário culto e riquíssimo, incompreensível para os leitores que no entanto davam suspiros de gozo artístico: “Ah, isso, sim, que é um senhor poeta!”

A matriz fornecedora de moldes passara de Portugal à França: o simbolismo, por exemplo, adquirira em um poeta negro, da alva Santa Catarina, de forte imigração alemã, Cruz e Souza, a febre terçã da luxúria, do desejo ardente pelas virgens de marfim claríssimo, “atrevimento” que o próprio autor se encarregava de “castigar” no final com a destruição do Amor, com maiúscula, pela morte, como no Tristão e Isolda franco-germânico em versão barriga-verde.

O Brasil era, realmente, a terra apontada pelos descobridores, como a mais dadivosa, em se plantando, nela tudo dá: desde o café, com cartazes alvissareiros mostrando um homem de tronco nu a despejar um saco de café pelo orbe, com a inscrição em francês: “O Brasil alimenta de café todo o globo!”, até mudas de movimentos criados nos mais requintados salons cafés da boêmia Paris, crisol do encanto!

Os mestres parnasianos não estavam aí para responder, quase com uma contingência “presente!” quando Lacomte de Lisle, Herédia e outros os chamassem, do outro lado do oceano, perdão, do pélago atlântico? Seu poema épico máximo “O Caçador de Esmeraldas” de Olavo Bilac, tinha sido traduzido na Itália: não era a glória suprema ser reconhecido no país de Dante e da sua Divina Comédia?!

Os parnasianos eram objeto de reuniões em que declamadoras e declamadores “de voz cheia” enchiam os saraus de um frêmito que misturava o orgulho pratriótico com as lágrimas de admiração. Bilac era um poeta ao mesmo tempo culto ledor dos franceses e italianos, aplaudido pelas Academias de Letras federais e estaduais, mas que exaltava os valores pátrios e - supresa! - distinguia até um tipo humano diferente como musa dos vates enlouquecidos por virgens germânicas, Walkyrias de Blumenau e Brusque.

“Pára! Uma terra nova ao teu olhar figura!

Detém-te! Aqui, de encontro a verdejantes plagas,

Em carícia se muda a inclemêmcia das vagas…

Este é o reino da Luz, do Amor e da Fartura!

Treme-te a voz afeita às blasfêmias e às pragas,

Ó nauta! Olha-a de pé virgem morena e pura,

Que aos teus beijos entrega, em plena formosura.

Os dois seios que, ardendo de desejos, afagas…

Beija-a! O sol tropical deu-lhe a pele doirada

O barulho do ninho, o perfume da rosa,

A frescura do rio, o esplendor da alvorada…

Beija-a, é a mais bela flor da Natureza inteira!

E fartar-te de amor nessa cane cheirosa,

Ó desvirginador da Terra Brasileira!”

Era o chic em audácia atrevidamente lúbrica, que punha as mocinhas a corar e arrancava de gogôs paternos sons de leve indignação com as “liberdades” poéticas, logo acalmadas por um sacrifício feito à Arte e à Cultura, um novo status atingido junto com a nova fortuna feita na cidade outrora corte imperial ou na São Paulo heterogênea a explodir em sua face imberbe de cultura os primeiros espinhos de avassaladores Prédios Martinelli.

Em 1922, a Semana (que durou só três soirées) de Arte Moderna escolhe como sua fortaleza o próprio Theatro Municipal, erigido pelo arquiteto e humilde copiador do l’Ópera de Paris, Ramos de Azevedo, bem em frente a um dos bastiões da burguesia: as lojas do Mappin. Serviria de modelo para aquele primeiro happening brasileiro uma das atrações balneárias da praia de Deauville, na França, onde Proust contemplava já as “raparigas em flor” e onde, para distração dos turistas, se armavam exposições, recitais, cenas de teatro, um hiato entre os jantares, piqueniques, recepções e os banhos do mar.

Os que vieram de fora traziam de Paris, como o cameleônico Oswald de Andrade, um baú de “novidades” recebidas pelo autoditada e patriota que jamais quisera sair do Brasil, Mário de Andrade: uma chusma de “ismos estonteantes - cubismo, dadaísmo, futurismo, surrealismo. Todos vindos de Paris, com a etiqueta dos grandes boulevards. Na pintura, Anita Malfatti, entre outras, demonstrava a absorção das lições que tivera com Corinth, na Alemanha, e a burguesia endinheirada ou a classe média inculta torcia o nariz quando não ria escancaradamente: onde já se viu uma mulher verde, um homem com três narizes, a arte ensandecera? Um dos pontífices do bom gosto no momento, Monteiro Lobato, vê indícios de perversão mental.

“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e, em consequência, fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grande mestres.

A outra espécie é formada dos que veem anormalmente a natureza e a interpretam à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedoiro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do esquecimento” (Ideias de Jeca Tatu).

Sessenta anos depois daquela “patuscada” regada a assovios, miados, apupos, vaias, perplexidades, indignação, brincadeira, já se sabe que a Semana de 22 não foi o único movimento nas Américas a injetar o novo no Brasil e a voltar os criadores de arte, reflexão e cultura para o próprio Brasil, cortando o cordão umbilical que nos escravizava à placenta européia. É verdade que, no dizer de um dos participantes, o pintor carioca Emílio Di Cavalcanti, o ambiente era de um ranso acadêmico que lembrava os túmulos grotescos do cemitério do Araçá.

“O academicismo idiota das críticas literárias e artísticas dos grande jornais, a empáfia dos subliteratos, ocos e palavrosos, instalados no mundanismo e na política, e a presença morta de medalhões nacionais e estrangeiros emprestando o ambiente intelectual de uma paulicéia que se aprestava comercial e industrialmente para sua grande aventura progressista, isso desesperava nosso pequeno clã de criaturas abertas a novas especulações artísticas, curiosas de novas formas literárias, já impregnada de doutrinas filosóficas.”

O movimento modernista, sabe-se melhor hoje, não deu atenção à renovação radical que em Portugal traziam à literatura e às artes em geral nada menos que Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiro e o ancestral dos hippies, Santa Rita. No setor das artes plásticas o Armory Show de 1913, em Nova York, bem como manifestações no Chile com Vicente Huidobro, o poeta, que funda com Pablo Rocha, já em 1912, a revista Azul - El Arte Libre. No entanto, à medida que as décadas se acomodam geologicamente sobre aquela Semana de 22, melhor se descortinam traços seus consignados na revista que foi seu arauto: Klaxon. Já o nome indicava buzina, urbanismo, automóvel, velocidade, contra a pasmaceira modorrenta dos bem-pensantes.

O professor Pietro Maria Bardi, em suas sutis e profundas ponderações sobre O Modernismo no Brasil, de sua autoria, assinala algumas falhas: por que os modernistas não descobriram logo aqui, onde eles vicejam, os pintores naïf do tipo de Douanier Rousseau? E já que o Brasil tem um contingente tão vasto de brasileiros descendentes de africanos, por que a arte, mais fortemente representada na Bahia afro-brasileira, não representou, na América do Sul, a inspiração que Picasso teria com as máscaras de África Negra no seu célebre quadro-escândalo “Les Demoiselles d’Avignon”? E por que os humoristas, chargistas excelentes, de vigorosa ou sutil grafia como Voltolino, J. Carlos e Belmonte, não foram lembrados? Ou havia preconceito quanto ao desenho humorístico, a charge, como um afluente insignificante de arte?

Aparecida em 15 de maio de 1922, Klaxon durou menos de um ano mas é um repositório precioso das reivindicações dos modernistas fora do calor dos discuros de Menotti del Picchia, da intervenção de Graça Aranha, acadêmico convertido a um modernismo outré: desde a capa contemporânea, em contraste com as revistas do eixo Rio-São Paulo, rotineiras, sem imaginação, caipiras, até os textos e reproduções de obras de arte que continha.

Na própria e então incipiente, rastejante, arte publicitária, a propaganda dos chocolates Lacta e do Guaraná Espumante precede as histórias em quadrinhos, a mensagem sucinta de um cartaz comercial de rua. Como os anunciantes não gostaram de tanto “avanço”, cortaram sua conta publicitária para aquele mensário que saía do bolso dos modernistas, a “vaquinha” proverbial que, no entanto, ao contrário das demais vacas de presepe, não diria “sim” a tudo, abanando a cabeça. Com humor e protesto divertido, os redatores da revista advertem que, se não receberem mais os anúncios, não hesitarão em propagar que tais produtos fazem mal à saúde e abrem suas páginass para qualquer reclamação de um leitor que tenha ingerido “esses ingratos ingredientes”.

Klaxon medita, nos seus nove meses de vida, sobre as proposições revolucionárias dos “modernistas”, de tendência muitas vezes opostas, como Mário de Andrade, de simpatia pelo centro do espectro político, e Oswald de Andrade, pregando um comunismo bolchevista eivado de incrustações futuristas, cinematrográficas, dadaístas.

Esse veículo precioso guarda as intenções amadurecidas do grupo naquele consenso que era possível obter de ajuntamento tão heterogêneo. Mário de Andrade, por exemplo, com sua quase xenofobia, detestava o espírito de vândalo de parte do Manifesto Futurista de Marinetti, que manda destruir os museus e bibliotecas, o que, aplicado a um país raquítico de tais meios até hoje, siginifcaria a barbárie mais chã.

Os redatores declaram-se prontos a morrer pela integridade da Pátria, com maiúscula, mas querem seu nacionalismo poroso, aberto ao espírito de seu tempo, por isso têm a graça de manter representantes da revista na Bélgica, na Suiça e imprimir poemas em francês e italiano. O que se reiterava, por escrito, era o que Menotti del Picchia liderara em sua fala no Teatro Municipal: a libertação das peias da gramática excessivamente lisboeta, severa com o linguajar desleixado das “três raças tristes” que antes de Lévy-Strauss já Olavo Bilac imortalizara em soneto parnasiano. E o mensário de vida breve brandia sua falta de preconceitos com relação aos imigrantes (Menotti del Picchia não era exatamente um nome do Algarve ou da Beira-Baixa…).

Surpreendentemente para a época, Klaxon consagra à mulher um papel pioneiro, em vez de ser a sonolenta sinhá-moça presa como eterna candidata a um marido, a uma mantilha e fraldas, nem a diva dissoluta do tipo Sarah Bernhardt a morrer, tuberculosa, em A Dama das Camélias.

“Queremos uma Eva ativa, bela, prática, útil no lar e na rua, dançando o tango e datilografando uma conta corrente; aplaudindo uma noitada futurista e vaiando os remilicantes e ridículos poetaços de frases inçadas de termos raros como o porco-espinho de cerdas.” Daí o grito de “Morra a mulher tuberculosa lírica!” visto como “no acampamento da nossa civilização pragmatista, a mulher é a colaboradora inteligente e solerte da batalha diuturna, e voa no aeroplano, que reafirma a vitória brasileira de Santos Dumont, e cria o mecânico de amanhã que descobrirá o aparelho destinado à conquista dos astros”. Nada mais de femme fatale, “recheio das empadinhas poéticas, que são os sonetos”. Mário de Andrade opõe à trágica francesa Sarah Bernhardt a atriz de cinema norte-americano Pérola White:

“Sarah é tragédia, romantismo sentimental e técnico.

Pérola é raciocínio, instrução, esporte, rapidez, alegria, vida.

Sarah Bernhardt-século XIX. Pérola White=século XX.”

Klaxon tem como ídolos o progresso, a crença nas ciências. Talvez tenha sido, cronologicamente, o último aglutinado em torno de um otimismo estouvado, último crente no aperfeiçoamento moral do homem, passo a passo com o progresso tecnológico. Jamais poderia ter previsto a bomba de nêutrons, os tanques SS-20, o arsenal atômico.

Essa ingênua crença no “progresso” estava aliada a uma crença inabalável na liberdade de experimentação individual, pondo abaixo os preconceitos artísticos, as rotulações, as censuras ou os ideários restritivos do realismo ou do naturalismo.

Empolgada pelo ritmo do automóvel, o advento da fábrica, do avião, a redação de Klaxon insiste na importância do cinema como arte de simultaneidade (representação, texto, cenário, música, fotografia) e Carlitos é um dos exemplos citados contra o cinema bisonho, que facilitava meramente a digestão, ideia absurda que já os modernistas anteviram claramente: “O cinema não é simples entretenimento desprovido de sentido mais profundo”.

Folgazão, opondo-se ao espírito vetusto predominante, o grupo de redatores da revista chega ao cúmulo de oferecer serviços de poesia a tanto por soneto, madrigal ou balada, com anúncios de pândega sadia como o encimado pela firma esdrúxula:

“Panusopho, Paterommium e Cia.

Grande Fabrica Internacional.

Sonetos, Madrigaes, Balladas e Quadrinhas.

Trabalho bem Acabado, garantido por cinco leituras, rapidez e dscreção. Fornecem-se idéias de todos os preços, cores e tamanhos.

Tabela Geral

Quadrinhas, desde $200 a…………………….1$000

Balladas, desde $300 a…………………………5$000

Madrigaes, epitaphios, acrosticos, etc a preço de

ocasião.

Sonetos simples…………………………………….1$200

Idem com rimas ricas…………………………….1$500

Idem com consoante de apoio…………………2$100

Idem com chaves de ouro……………………….3$000”

E para remate a desfaçatez do aviso em francês:

“Majoration Provisoire, 20%”

Hoje, decorridos meio século e meio da Klaxon e do movimento caótico que mudou os parâmetros da cultura brasileira, há ainda infinitos compradores dos sonetos, baladas e madrigais oferecidos pelos galhardos brincalhões. Mas daquela citadela de atualização sairia todo um Brasil contemporâneo, de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa a Clarice Lispector e o romance social nordestino. Depois de 1922, felizmente, nunca mais o Brasil seria o mesmo cemitério às moscas de cidades e ideias mortas.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1982) 2022. “E foi assim que nasceu o Brasil de hoje, com Drummond e o romance social .” In Alguns artistas da Semana de Arte Moderna de 1922: Entrevistas, depoimentos e ensaios, edited by Fernando Rey Puente, 5:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.