Uma viagem ao reino da dor, do amor, do poder, da morte

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1981/09/26. Aguardando revisão.

Algumas coisas há que todos os seres humanos têm em comum. Uma delas – talvez a mais importante – é a capacidade de sofrer. Está em nossas mãos o poder de diminuir inestimavelmente a quantidade de sofrimento e desgraça no mundo, mas não seremos bem-sucedidos nisso enquanto permitirmos que crenças irracionais opostas dividam a espécie humana em grupos mutuamente hostis. Uma humanidade sábia, em política como em tudo o mais, só poderá advir da lembrança de que mesmo os grupos maiores são compostos de indivíduos; que os indivíduos podem ser felizes ou desgraçados; e que cada indivíduo no mundo que esteja sofrendo representa uma falha da sabedoria humana e de toda a humanidade.

Bertrand Russel (Ética e Política na Sociedade Humana)

Descoberta no Brasil recentemente, na excelente tradução de seu Memórias de Adriano, por Martha Calderaro, Marguerite Yourcenar aprofunda agora com A Obra em Negro, na tradução igualmente extraordinária de Ivan Junqueira, sua visão filosófica do homem, da dor, do amor, do poder e da morte.

Ainda não se ressaltou a semelhança que existe entre o romance de Hermann Hesse, Narciso e Goldmund, e este seu vasto painel histórico do século XVI, com suas duas figuras-chave, a do jovem e ambicioso Henrique-Maximiliano Ligre, que parte para as aventuras militares e o alcance do poder, e a de Zênon, que busca a sabedoria oculta, a placidez das aldeias longe dos tumultos religiosos da Reforma e da Contra-Reforma, para tentar alcançar os processos alquímicos de transmutação espiritual. Enquanto um se recolhe à severidade do claustro, o outro percorre os caminhos da volúpia, da fome, da dor e da glória. Partindo dessas alegorias simbólicas, a autora francesa concentrou no meditativo médico Zênon todas as ideias e todos os ideais contrários aos fanatismos religiosos imperantes em seu tempo, amalgamando em um só personagem, Leonardo da Vinci, Giordano Bruno, Copérnico, Erasmo de Rotterdam – todos em busca de uma liberdade, uma justiça e um conhecimento absoluto, longe dos dogmas e das verdades impostas pela tradição.

No diálogo inicial entre Zênon e Henrique-Maximiliano, o simbolismo da escolha de caminhos é evidente: enquanto um peregrina rumo a Santiago de Compostela, onde secretamente o prior dos Jacobitas cultiva a alquimia, Henrique-Maximiliano quer disputar seu quinhão de terra e atingir, quem sabe?, a dimensão de um Alexandre, o Grande, ou a de um César. Mas, mesmo esboçado entre 1921 e 1925, A Obra em Negro já antecipa conflitos entre o homem e a tecnologia como o advento da máquina que deixava desempregados milhares de tecelões de lã e a extensão dos poderes mortíferos de um exército inimigo dotando-o de armas de fogo – situações que vividamente evocam o atual emprego de robôs nas fábricas de auto mísseis, a guerra química, a bomba de nêutrons. Semelhantes paralelismos brotam por todo o livro, como os temas da inflação, das guerras ideológicas, que de religiosas passaram para o plano político, o desemprego em massa, a ação da Igreja cindida pelas heresias, o temor do avanço dos turcos, a insubordinação popular contra a tirania dos príncipes. O pavor da automação já era nítido, nas condenações dos operários têxteis belgas da época:

“Quando Tomás viu que o tear funcionava dia e noite e executava por si só a tarefa de quatro homens, ficou calado – atalhou Colas Ghell –, mas ele tremia e suava como se estivesse com medo. E foi dos primeiros a ser dispensado quando me reduziram o grupo dos aprendizes. E os moinhos rangiam sem cessar, e todas as varetas de ferro continuavam a tecer sozinhas. E Tomás ficava sentado ao fundo do dormitório, junto da mulher com quem se casara na primavera, e eu os ouvia tremer como aqueles que sentem frio. Compreendi então que nossas máquinas eram um flagelo comparável ao da guerra, da carestia dos víveres, dos tecidos estrangeiros”…

Desse mundo que mal emerge da Idade Média e já depara com a ameaça mortal das fogueiras da Inquisição, um dos episódios mais pungentes é o da construção, na cidade alemã de Münster, de uma enorme Arca de Noé, que salvaria os justos do segundo dilúvio e que estava reservada aos que desprezavam a Igreja e sua venda de bulas papais tanto quanto as hipocrisias luteranas e calvinistas. Essa comunidade inicia-se com propósitos de fraternidade e amor: “Os frutos da terra pertenciam a todos como o ar e a luz de Deus; os que dispunham de roupa branca, louças ou móveis, os levavam para a rua a fim de que fossem partilhados com os demais. Amando-se com um rigoroso amor, todos se ajudavam, se criticavam, se vigiavam uns aos outros, para advertir-se de seus pecados; as leis civis estavam abolidas, abolidos os sacramentos, o açoite punia os blasfemos e os deslizes carnais; as mulheres ocultas em véus insinuavam-se aqui e ali como grandes anjos inquietos, e ouviam-se na praça os soluços das condições públicas”. Mas logo eclodiria a tirania de um usurpador nesse sonhado pedaço do Paraíso instalado na terra: “Matava-se muito; o Rei eliminava os frouxos e relaxados antes que infectassem os demais. Além disso, cada morte economizava uma ração”. Como um Khomeini cristão do Renascimento europeu, o Rei se julgava divinamente inspirado para interpretar sozinho as vontades daquele Deus com o qual ele se confundia e ordenara, absurdamente, “a demolição das torres, dos campanários e de quaisquer saliências que, nas empenas da cidade, sobressaíssem às demais, insultando assim a igualdade que deve reinar em todos diante de Deus”. Como os que hoje esquadrinham os gráficos astrológicos ou leem avidamente as profecias de Nostradamus, todos temiam os sinais do Apocalipse, do final dos tempos. Com olhar equânime, Maguerite Yourcenar mede as loucuras praticadas na Arca sediadas por forças da Igreja e da Reforma, temporariamente aliadas contra um inimigo comum, e não as considera piores que as ações ignóbeis dos soldados, dos nobres, dos burgueses, dos bispos com belas e discretas amantes mantidas em casas suntuosas. Destruída aquela Barca de Loucos, enjaulado o seu pretenso Rei, não era talvez mais hedionda ainda a intolerância protestante com seu bárbaro puritanismo hipócrita?: “A dar-se lhe crédito, a pureza evangélica ia de par em Genebra com a prudência e a sabedoria burguesas: os dançarinos que rebolavam como pagãos atrás de portas fechadas, os pirralhos gulosos que chupavam impudicamente durante a prédica seu açúcar e seus confeitos eram surrados até sangrar; os dissidentes, banidos; os jogadores e os libertinos, condenados à morte; e os ateus, claro está, destinados à fogueira. Longe de ceder aos impulsos lascivos de seu sangue, como o untuoso Lutero, que contraiu núpcias ao sair do claustro nos braços de uma freira, o laico Calvino esperou muito tempo até casar-se com uma viúva no mais casto dos matrimônios”.

Yourcenar (anagrama do nome verdadeiro de família da autora: Crayencour) demonstra mais uma vez seu desprezo pelo comum da humanidade, incapaz de pensar, de libertar-se de dogmas, e chafurdar século após século na intolerância, na ignorância, na pusilanimidade e na estupidez inextirpáveis. Espelhando as suas convicções, Zênon deseja a liberdade de pensar e de agir que as leis arbitrárias lhe proíbem: a máquina humana do corpo dissecado no mármore frio, a sístole e a diástole do coração, a seiva que percorre o interior dos vegetais, os segredos alquímicos das pedras, da água, do fogo, eram os temas que lhe pareciam da mais transcendente importância, pois dariam ao ser humano a possibilidade de refazer-se na sua estrutura espiritual. Como máximo ponto de interrogação nunca apaziguado, Deus. Existirá ou fomos criados por demiurgos imperfeitos e sádicos ou ainda Deus é uma noção absolutamente estranha ao homem e seus males e preces? “Cada noite passada à cabeceira de quem quer que esteja enfermo me recoloca diante de questões que foram deixadas sem resposta: a dor e seus fins, a benignidade da natureza ou sua indiferença, e se a alma sobrevive ao naufrágio do corpo”. Nossos sentidos, demasiado vulneráveis e frágeis, não alcançam fenômenos que não sejam imediatos e se estiolam com o tempo, esse aliado da morte, que acelera a passagem da vida como uma inclinação apressa a queda da areia dentro de uma ampulheta. A dúvida religiosa, na época das superstições vindas ainda da era medieval, dos embates entre a Igreja e a Reforma, a Igreja e a ciência de Copérnico e dos navegadores que descobriram as Índias e as Américas, a dúvida permanece como o motivo predominante: “Deve existir alhures não o que que nos excede em perfeição, um bem cuja presença nos confunde e cuja falta nos é intolerável”.

À maneira de Leonardo da Vinci, que em seus desenhos previra o advento do avião, dos submarinos, de armas poderosíssimas, Zênon especula se a humanidade, em séculos vindouros, não dominará uma técnica de morte planetária, dada a mediocridade da raça humana e o furor que sempre caracteriza a ação de grupos humanos contra outros grupos humanos. Tudo parece reforçar o ceticismo: não só o predomínio do mal e da bestialidade entre os homens e dos homens para com a natureza: postula-se na verdade a impossibilidade de sermos objeto de preocupações daquele conceito abstrato que englobamos na palavra Deus: “Todo o resto – quero dizer, o reino mineral e o dos espíritos – se de fato existe, é talvez insensível e tranquilo, para além de nossas alegrias e tristezas, ou para aquém destas. Nossas tribulações, senhor prior, provavelmente serão apenas uma ínfima exceção na oficina universal, o que poderia explicar a indiferença dessa substância imutável a que devotamente chamamos Deus”. Um a um, Zênon enumera os erros piedosos dos crentes: fora erro crer que a Terra e não o Sol estava no centro do universo; fora erro também o cometido por Demócrito, de crer na infinitude dos mundos, ou Averróis, crendo numa divindade que atuasse friamente no interior de um mundo eterno, ou, como Orígenes, asseverar a imortalidade da alma, erros puníveis pelas religiões ditas cristãs com as tortura e a morte praticadas em nome de um Deus que pregara o amore a bondade entre o homem e seus semelhantes.

Em A Obra em Negro, a escritora, recentemente admitida entre os “imortais” da Academia Francesa, não se preocupa minimamente com técnicas novas de narrar. Longe dela qualquer experimentação estilística: seu relato é sempre um grande mural pintado com tintas vivas e abrangendo toda uma época da humanidade como cenário. Zênon, o alquimista que buscava solitário a pedra filosofal, é o arquétipo ao mesmo tempo da liberdade de pensamento e da pesquisa científica, da busca de um Absoluto talvez oculto em algum texto esotérico indecifrável para o vulgo e é um testemunho de luta audaciosa contra os que querem fazer calar a carne e sues deslumbramentos, ele próprio reconhecendo que a Inquisição tanto o poderia condenar por blasfêmia por ler a Bíblia em sua edição Vulgata como por pecado de sodomia, como sucedeu a Leonardo da Vinci, expulso de Florença e refugiado na corte milanesa dos Sforza.

Desvelam-se cenas magistralmente decalcadas dos mestres flamengos da pintura neste romance erudito, difícil, de pouca ação exterior e todo voltado para meditações filosóficas: a rudeza campônia dos quadros de Bureghel, o demoníaco e o paradisíaco de Bosch criam painéis riquíssimos do final do século XVI na Bélgica, até o final, solene, austero, augusto no seu estoicismo e coerência, operando-se, surpreendentemente, A Obra em Negro da forma menos suspeitada e mais cabal. Um livro que exige uma longa exegese, uma lenta leitura, nesta cuidada e primorosa tradução, ele reitera, na verdade, a insistência renovada da autora na independência do indivíduo livre, infenso a qualquer jugo, artístico, religioso, político, uma independência que se estende à busca dos prazeres sensuais como uma via de conhecimento e de autossuperação, já que parte integrante, inalienável, de uma liberdade maior, mais ampla, que sempre o obscurantismo triunfante asfixiou: “A ousadia do filósofo que preconizava a livre prática dos sentidos e lidava sem constrangimento com os prazeres carnais, exasperava a multidão sujeita neste plano a muito de superstição e de hipocrisia. Pouco importava se o homem que ali se expunha fosse ou não mais austero e por vezes mais casto do que seus intransigentes detratores; admitira-se que nenhum fogo ou suplício terrestre seria capaz de punir licença tão atroz, justamente porque a audácia do espírito parecia agravar a do próprio corpo”.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Uma viagem ao reino da dor, do amor, do poder, da morte .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.