Caminhos e encontros

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Eu creio que todos buscamos, durante toda a nossa vida, uma forma de plenitude condizente com o nosso temperamento e com as nossas próprias e imponderáveis carências espirituais. O fato de nos sentirmos atraídos por outra cultura, além da do nosso país, revela a nossa insatisfação, a nossa íntima ânsia de complementação, que muitas vezes só é saciada com as novas dimensões de uma cultura, uma cultura frequentemente oposta, no tempo ou no espaço, à estrutura de valores culturais que forma o nosso clima ambiental. Em páginas brilhantes e de profundo conteúdo, uma das maiores figuras do Brasil – Joaquim Nabuco – analisa, de maneira definitiva, esse complexo sentimento de nostalgia cultural que tantos dentre nós, europeus transplantados para a América, sentimos da pátria espiritual, a Europa. Embora desde o surto do movimento modernista as novas gerações de intelectuais brasileiros tenham propugnado – e com razão – a libertação da Literatura e Arte do Velho Mundo, e embora a argumentação de Joeaquim Nabuco tenha perdido, um pouco de sua atualidade, persiste o elemento de busca de regiões culturais estruturadas através dos séculos, persiste o sentimento de ausência do humus espiritual europeu e a eterna demanda dos arquétipos que presidiram à formação da Cultura Ocidental, que partilhamos com os povos do Novo e do Velho Mundo, perdure perdurará sempre em alguns indivíduos.

Ao evocar os meus primeiros contatos com a cultura alemã, revejo a figura de meu Pai, aquele arquiteto de sonhos, aquele semeador de bondade, de cultura e de sensibilidade inteligente, que pela primeira vez me abriu as portas desse mundo novo e deslumbrante, dando-me um ensaio de Stefan Zweig sobre Hölderlin, o Poeta que marcaria toda a minha vida. E revejo as páginas de uma revista suíça Formes et Couleurs, que enfeixava em suas páginas multicores um universo encantado; a imagem do Poeta e traduções, em francês, de alguns de seus poemas. Se bem que a forma demasiado parnasiana das traduções pervertesse os originais, como reconheci mais tarde, contudo, essa primeira revelação de uma esfera ignorada fez-me entrever perspectivas imensas e insuspeitadas. À minha memória surgem as imagens primeiras daquele encontro de um adolescente de país tropical, debruçado sobre uma terra incógnita, de além-mar: as formas imprecisas de uma paisagem campestre, com árvores em flor, um rio tortuoso e claro a correr por vales verdejantes. E sobretudo recordo o olhar incendiado de uma loucura olímpica e deslumbrado pela clarividência mágica do Poeta, recordo o rosto de Hörlderlin, que, como Rimbaud, baixara às profundezas de uma Saison en Enfer vivida em sentimento absoluto. E os meus sete anos de permanência contínua na Europa, a maioria dos quais na Alemanha, veio restituir à fisionomia do Poeta as suas feições originais, dar ao retrato esboçado as cores vívidas de um encontro momentâneo, no diálogo que se estabelece sempre entre o Autor e o Leitor. Diálogo que, creio, será tanto mais profícuo e profundo quanto mais intensa for a participação do leitor e maior a sua sensibilidade, mais total o seu poder de re-criação de uma situação poética. E revendo-me diante desse enigmático mundo alemão, reconheço quanto é indefinível esse estado de graça que constitui o encontro entre duas sensibilidades que conversam, de um século a outro, por meio do milagre da página impressa.

O meu encontro com a Europa foi, portanto, um Re-encontro com a realidade que eu já conhecia de livros e ilustrações, desde o Tesouro da Juventude às páginas das ilustrações francesas e italianas. Ver Florença e extasiar-me diante das obras-primas visuais do Renascimento foi, de certa maneira, situar no espaço, dar foros concretos de realidade a cores, formas e impressões já pressentidas em sua essência. E visitar, na encantadora cidade universitária de Tübingen, na Floresta Negra, a Torre de Hölderlin, à beira do rio Necker que ele tantas vezes cantara em seus hinos, foi desenterrar das camadas geológicas do Tempo a riqueza arqueológica de uma civilização passada. E não é uma forma de revivência percorrer as salas da Casa de Mozart, em Salzburg, e, com o respeito que nos incutem as coisas sagradas, apoiar as mãos no teclado em que o menino precoce compusera as suas primeiras sonatas?

Sei que muitos objetarão que a Europa hoje é um museu e que a Alemanha moderna, herdeira do grave legado de Ausschwitz e de Dachau, nada tem em comum com Mozart, Goethe, Beethoven, Bach e Schiller. Esta última argumentação, demasiado simplista, pode ser anulada com a aplicação do mesmo critério em relação aos demais países europeus, à Espanha, por exemplo, isto é: que relação há entre a Espanha de Cervantes e a Inquisição espanhola, entre San Juan de la Cruz e as atrocidades dos Conquistadores em solo americano? Entre Lorca e as tropas fascistas que o fuzilaram, que arrancaram violentamente, em plena floração, a mais bela flor da moderna poesia espanhola?

A esse propósito, a propósito dessa confusão de critérios, o grande crítico e professor alemão Curtius, na introdução ao seu magnífico estudo dos autores franceses modernos, define bem os termos da equação, condenando justamente esses critérios não aristocráticos (aristocracia do Espírito, naturalmente), que julgam, a priori, a cultura de um país pelos preconceitos cegos da massa ignara ou pelas premissas políticas e econômicas de um povo, confundindo fatores intelectuais e culturais com fatos materiais e mensuráveis.

E como adiciona o grande Mestre: “As Nações, como os indivíduos, diferenciam-se pelas suas vocações”, esclarecendo ainda que “ao passo que podemos aprender melhor o que seja Poesia na Espanha, na Inglaterra ou na Alemanha”, aprendemos o que é Literatura somente na França”. E aqui me parece que foi tocado um ponto nevrálgico do nosso contato com a literatura europeia. A nossa geração felizmente já diversificou a monotonia da influência francesa e ampliou a nossa esfera de conhecimentos literários, nela introduzindo o mundo saxônico, desde Whitman e Joyce até Huxley, Pound e Eliot. No entanto, paradoxalmente, e não só no Brasil, o fato que salta imediatamente aos olhos do estudioso atento da Literatura Comparada é a discriminação injustificada que se faz a duas literaturas: a Espanhola e a Alemã. Esta, principalmente, desempenha entre nós o triste papel de uma Gata Borralheira sem varinha de condão… E da mesma maneira que nenhuma civilização, como nos ensina Toynbee, é compreensível pelas partes isoladas de um todo, ou seja: as nações, estou certo de que o afresco grandioso da Literatura Ocidental não poderá ser apreendido em toda a sua magnitude e variedade analisando-se fragmentariamente o que se costuma chamar erroneamente de “literaturas nacionais”. Na realidade, não existe um só movimento literário europeu que se tenha originado exclusivamente em um só país. Até mesmo o Grand Siècle, o século XVIII da França, de Rousseau e dos Enciclopedistas, nem esse século considerado tão visceralmente francês é autónomo e seria impossível sem a importação maciça de ideias inglesas. Chaucer e Shakespeare teriam talvez menor brilho sem as literaturas italiana e francesas de que fizeram largo e esplêndido uso e muito da glória literária francesa perderia seu fulgor sem a contribuição, por exemplo, do romance picaresco espanhol e de personagens isoladas dessa monumental Matriz de gêneros literários que é a Espanha, imensa e solitária. Da mesma maneira, notaremos que a Alemanha é um fio que por vezes se confunde com outros no complexo tecido das letras europeias, dando-lhe um matiz seu e inconfundível ou, para usar uma compreensão musical, no mundo ocidental a Literatura é um tema executado diversamente por diversos instrumentos ou seja, as diferentes sensibilidades dos povos que adotam uma ideia e a interpretam de acordo com a sua própria vibração interna e nacional.

Quanto ao nosso lamentável desconhecimento da Literatura alemã, devemos recordar-nos de que o desconhecimento de uma cultura não implica, absolutamente, uma sua secundariedade. Autores de língua portuguesa, por exemplo, que não gozam de fama no estrangeiro, devido à escassíssima divulgação da nossa cultura no mundo, não por esse motivo perdem a sua transcendência literária e intrínseca. Um Eça de Queiroz, um Fernando Pessoa, um Teixeira de Pascoais, para atermo-nos somente à literatura portuguesa, nada perdem do seu fulgor por não o terem refletido em sensibilidades alheias à esfera cultural do idioma lusitano. Devemos convencer-nos também de que o nosso desconhecimento da contribuição alemã à Civilização ocidental, à qual pertencemos, além de ser, como disse, um ato de grande injustiça, representa, sobretudo, um imenso empobrecimento para o nosso mundo espiritual, no qual não vicejam as Verdades luminosas que os poetas alemães arrancaram às trevas, repassando-as do fogo olímpico da eternidade. E principalmente num mundo como o hodierno, em que as fronteiras espaciais esboroam-se perante os movimentos ideológicos internacionais e desabam sob a vertigem da velocidade supersônica, nesta época que Toynbee denominou de “era da unificação do mundo”, em que o globo se unifica a passos de gigante, pela primeira vez na história da humanidade é indispensável aos povos atuais conhecer-se mutuamente para poderem tecer, uns aos outros, críticas mutuamente construtivas e cooperar na causa comum. Sentir-me-ei, portanto, profundamente grato se as minhas despretensiosas palestras conseguirem despertar a curiosidade da inteligência brasileira para o universo da cultura alemã, que representou para mim um encontro magnífico e fecundo na minha peregrinação cultural por países da Europa e da América.

Antes de estudarmos, ainda que muito genericamente, as várias fases da literatura alemã, seria oportuno reconstruir, em linhas gerais, o quadro sincero da Alemanha que eu vi, para melhor compreendermos a Alemanha que será objeto de nossas palestras. Os caminhos sutis e impregnados de um oculto sentido de predestinação que me levaram a Hamburgo e a Heidelberg, conduziram-me, nessa recherche longa e acidentada, ao âmago, ao mesmo tempo trágico e lírico, da Poesia alemã. No entanto, essa permanência nas universidades envoltas pela pátina de vários séculos de tradição teve seus lados espinhosos. Em primeiro lugar, pelas dificuldades de ordem prática com que se defronte diariamente o estudante que deve financiar os próprios estudos e em seguida por a Alemanha apresentar-se atualmente, a aqueles que nela buscam os arquétipos perdidos, velada pela máscara de um materialismo grosseiro e imediato. O chamado “milagre da recuperação econômica alemã” representa, para os seus intelectuais uma ameaça à subsistência dos valores espirituais aos quais dedicaram toda a sua existência e constituem, para essa riquíssima tradição, um hiato quase intransponível entre hoje e ontem. Dir-se-ia que o destino de Fausto, a figura-chave de toda a psyche e de toda a Arte alemãs foi imposto, na época atual, a esse povo em que, parafraseando Goethe, “vivem duas almas”. Num momento de cegueira sem dúvida momentânea, a Alemanha, entrega, pelos prazeres da terra, a própria vida do Espírito, refém do demônio poderoso da Matéria, do Conforto individual, da Máquina, do Fumo industrial, da afluência monetária. Nas palavras de Jacques Maritain e de outros profundos conhecedores da Arte oriental, a cultura chinesa é a que mais se aproxima da música e da extrema abstração e intelectualização, da mesma maneira podemos aplicar os mesmos adjetivos para definir a Arte alemã, que, no conjunto europeu, é a que mais tende à abstração, à música, à espiritualização de todas as correntes que integram a grande Cultura Ocidental. Mesmo na Alemanha de hoje, persiste o amor intrínseco e difundido por todas as camadas sociais à Cultura, ao Espírito, à leitura edificante e à execução pessoal de instrumentos musicais… Mesmo na Alemanha hodierna, com a sua carência de criação artística, o nível cultural de seu povo é dos mais elevados do mundo. Para citar um exemplo flagrante, basta dizer que lá o amor a todas as manifestações artísticas compara-se, note-se bem, ao culto ardoroso do futebol e dos esportes em geral na América Latina, na Itália e na Inglaterra. O hobby dos alemães é a Cultura. Até mesmo entre os turistas alemães da atualidade, que invadem os “lares” sacros da cultura, Florença, Atenas, Roma e Paris, até entre esses grupos tão [palavra ilegível] encontra-se uma maioria que percorre os museus e visita os monumentos da Antiguidade, de Baedecker em punho, indagando do guia detalhes sobre as maravilhas observadas. E em que outro país as representações teatrais, de ópera, as cerimônias religiosas, as conferências e os concertos musicais são frequentados com tanta assiduidade, com tanto ardor e com tanta discriminação artística? Sobretudo, é preciso viver lá uma temporada para admirar não só o altíssimo nível das performances, como também o altíssimo nível cultural da assistência. Os atores ou musicistas são ouvidos em absoluto silêncio, numa atitude de respeito, de dignidade e de nobreza extraordinários, por parte do público, como se aquele respeito, aquele silêncio digno e nobre fossem, mais do que os aplausos e os gritos de bravo, o maior tributo que uma assistência grata possa pagar à divindade revelada – o consumado fato artístico – que age no palco. Cria-se um clima quase religioso de passividade ativa entre o espectador e o ator, um diálogo vivo e profundo entre o agente e o recipiente.

É, portanto, com profunda preocupação que os amigos da grande Alemanha, a Alemanha de Bach e de Mozart, de Goethe e de Schiller observam a mediocridade chocante da produção artística germânica desde a primeira guerra mundial. A praga do nazismo, a hecatombe da segunda guerra, as fermentações sociais e políticas que assolaram a Alemanha, mutilando-a e matando os seus melhores filhos, esterilizaram, temporariamente, o solo fecundo da Germânia romântica e abstrata, conduzindo-a à loucura suicida do abandono de valores espirituais, reduzindo, numa imagem cheia de simbolismo, catedrais de insubstituível valor a meros escombros fumegantes. O Anticristo deixou um sulco negro de fogo, de lágrimas e de sangue no solo espiritual alemão. Nem o esforço dos professores, dos intelectuais, e dos emigrados por razões políticas conseguiu ainda debelar totalmente o demônio que se apossou da Alemanha, o exorcismo dessa alma profundamente sensível e profundamente ferida ainda não se completou e por isso, na época atual a Alemanha se debate num pântano de inferioridade artística sem precedentes na história moderna da nação. E depois da morte recente dos dois grandes expoentes da sua cultura hoje bifurcada, Thomas Mann no setor ocidental e Berthold Brecht, no setor oriental, o horizonte mostra-se plano, com figuras rasteiras e sem brilho, que só são mencionadas pro forma em exposições e documentos oficiais da cultura oficial alemã. Stefen Andres na literatura e Carl Orff na música, para citar só dois exemplos, dão uma ideia nítida desta mediocridade. No entanto, a reprodução de valores artísticos tradicionais continua a ser magnífica e comparável à melhor existente em qualquer país europeu ou nos Estados Unidos. Principalmente as representações teatrais nas cidades de Hamburgo e de Darmstadt, com os ousados e célebres diretores Gründens e Sellner, além do teatro popular de Berlim oriental na zona russa, dedicado principalmente à interpretação magistral de Brecht, destacam-se no cenário alemão. Na Áustria, o Burgtheater de Viena renasce das cinzas do abandono a que esteve entregue desde o deflagrar da guerra até à recente ocupação russo-aliada daquela que foi sempre a rival artística de Paris, a meca europeia da cultura, às margens do Danúbio. A indústria do livro e a indústria gráfica tornam acessíveis à massa alemã as edições mais primorosas das obras-primas literárias nacionais e estrangeiras, as reproduções mais perfeitas da arte desde a Antiguidade até às obras mais recentes de Braque, de Picasso e de Paul Klee. Esta reiteração de valores do passado mal oculta a inferioridade cultural do país em relação à pujança criadora da Itália, por exemplo. Basta um observador imparcial analisar a brilhante cinematografia peninsular, de De Sica a Visconti, de Rosselini a Fellini e a galáxia de autores italianos Carlo Levi, Alberto Moravia, Vasco Pratolini, Gadda e Montale para certificar-se de que até agora, infelizmente, a Alemanha de após-guerra não apresenta expoentes culturais equivalentes. Não duvido, porém, que a Alemanha se refará do golpe rude do caos recente que constituiu o seu Inferno dantesco e demonstrará aos céticos que a Europa não é ainda, por longo tempo, a Europa moribunda de Spengler e que a sua função de Matriz do espírito ocidental será desempenhada de maneira diversa, mas não menos brilhante.

O esboço rápido e franco que tracei da Alemanha atual poderá dar uma ideia de quanto mais difícil será descrever, em alguns minutos, quinze séculos de literatura. Por isso vejo-me forçado a uma visão panorâmica dos diversos períodos literários, mencionando por hoje a evolução da literatura alemã até o período barroco e prosseguindo nas próximas palestras a estudar melhor as diversas épocas desta riquíssima paisagem artística.

Inicialmente, referindo-nos à interdependência das literaturas ocidentais a que aludi, devemos ressaltar que a Alemanha, exceto em dois períodos de sua multissecular história literária, nunca fugiu a esse imperativo histórico-cultural e que até mesmo as suas obscuras origens literárias são partícipes de outras literaturas afins do Norte da Europa. Os albores da arte da palavra na Alemanha caracterizam-se pelas sagas pangermânicas mais tarde glorificadas por Wagner e que relatam batalhas constantes pela posse de objetos encantados ou em defesa de ideais de glória e poder, num desenrolar-se contínuo de feitos heroicos e sanguinolentos que, como já ressaltou um sutil crítico francês, não exercem fascínio sobre a nossa sensibilidade latina. A esse período intenso e agitado sucede-se uma floração mística de extrema delicadeza, escrita em latim, durante os primeiros séculos da Idade Média. Só em meados do século XII é que se delineiam claramente ou, recorrendo à nossa imagem, se processa cronologicamente a primeira variação alemã de um tema pan-europeu.

A classe nobre e poderosa dos Cavaleiros – ou Ritter, como ela é chamada em alemão – emerge no cenário social e cultural do Império Germânico. Ao contrário dos ideais ascético-religiosos, a escola denominada da corte preconizava um amor entranhado por esta vida, que devia ser vivida intensamente, com dignidade e sem negar a transcendência da outra vida, prometida pelos santos e pelos mártires, e pela qual deveríamos sacrificar a nossa existência terrena. Na Alemanha de meados do século XII, presa desta eterna oscilação humana entre os prazeres temporais e a eternidade, vemos suceder-se, ao movimento de distanciamento da alegria de viver e de amar. Como o dia e a noite, essas duas fases envolvem séculos e civilizações inteiras em suas órbitas, o sol da vida terrena, como todo o seu brilho, o seu calor, o seu colorido festivo e a sua intensidade concreta logo cedendo lugar à “noche de los sentidos” tão cara aos místicos espanhóis e de todos os países e tempos. A noite que adormece os desejos pagãos da carne, queimando-os em holocausto a desejos e prazeres imateriais e não efêmeros. Falaremos oportunamente dessas epopeias medievais elevadas a um alto grau artístico principalmente por Wolfram von Eschenbach e por Gottfried de Estrasburgo, os propugnadores de duas totalidades: do Amor e da Fé.

Depois deste período de epopeias místico-amorosas, a literatura alemã atinge um dos seus ápices, adaptando os poemas provençais à psique e ao idioma do país e criando com os chamados Minnesänger, ou seja: troubadours, todo um mundo de novos conceitos e dotando a nascente literatura alemã de uma riqueza artística que continuará a crescer até chegarmos à era clássica de Goethe e de Schiller. Como os Minnesänger constituirão o objeto de nossa próxima palestra, dada a sua importância para o estudo da literatura alemã, mencionarei ainda, neste breve resumo de cerca de 15 séculos de produção literária, a importância fundamental de Lutero no panorama cultural alemão. Foge a nosso propósito determo-nos na análise do significado social e religioso da Reforma, limitaremos a nossa pesquisa, portanto, ao fato linguístico e literário-cultural da tradução direta da Bíblia, feita pelo dissidente de Würtemberg. A afirmação lenta mas segura da linguagem popular em contraste com o latim erudito, adquiriu foros de triunfo permanente com as versões luteranas do texto latino. Trata-se talvez da primeira vitória democrática no setor cultural de um povo, pois o propósito específico de Lutero foi, além de preservar a integridade e a legitimidade das mensagens sagradas, tornar o Verbo Divino acessível ao povo, em suas próprias palavras: “Devemos ouvir as mães falarem em casa, as crianças brincando nas ruas, o homem comum que vende nos mercador e tirar-lhes as palavras da boca, para que todos compreendam que falamos alemão também como eles”. Destruindo corajosamente as imagens rebuscadas e eruditas que envolviam os textos sagrados, como teias de aranha em volta de livros preciosos, Lutero fundiu um novo idioma, e cristãmente desceu aos humildes e à massa para difundir a mensagem de Jesus. Ao mesmo tempo, pela primeira vez na história do Império Germânico, obteve-se o milagre de unificar linguisticamente todas as vastas e diversas regiões que o integravam, criando-se uma língua neutra que era compreendida por todos, acima dos míseros dialetos e divergências linguísticas locais. Lutero representa para o idioma alemão o que Dante representa para a língua italiana e enquanto na Itália o dolce stil nuovo foi criado em língua toscana, o novo idioma que circularia como moeda válida em todo o Império Germânico baseou-se principalmente no alemão falado na região centro-oeste da Alemanha.

Após o interlúdio humanístico da Renascença e da reação cultural nacionalista da Reforma, com o seu corolário dos Mestres Cantores de Nuremberg, novamente a Alemanha recebe o influxo de ideias provindas do estrangeiro, não só da Inglaterra, com a introdução, em 1586, dos chamados Englische Komoedianten – comediantes ingleses – que representam Shakespeare e Marlowe e dão um grande impulso ao novel e embrionário teatro alemão, como também, fato insólito na história literária alemã, da Espanha. Trata-se, sem dúvida, de um dos períodos mais dramáticos e mais significativos, artisticamente, da história cultural alemã. O período barroco constitui, ao lado da poesia medieval e de Lutero, o mais rico de todo o período anterior a Goethe. Encontramo-nos diante de um fenômeno único na história de contato entre povos aparentemente tão dissemelhantes como o alemão e o espanhol. O elemento latinizante, essa constante da literatura alemã, volta a predominar, o appeal popular das canções rústicas de Hans Sachs e dos demais Mestres Cantores é substituído por preocupações de refinamento estilístico e de profunda erudição literária. Pela primeira vez assinala-se uma vitória cultural da Contrarreforma, do Catolicismo que reconquista as suas fortalezas perdidas ao protestantismo herético. Na Europa cristalizava-se o regime político absolutista, a literatura pela primeira vez era posta ao serviço de forças políticas e ao serviço do Estado, com o despertar progressivo da consciência nacionalista das nações europeias em luta pela hegemonia continental e transatlântica. Sob o ponto de vista linguístico o período barroco significava a consolidação oficial da Língua Alemã, agora defendida ciosamente por estatutos detalhados das chamadas Academias e Sociedades de Defesa do Idioma, patrocinadas pelos soberanos das diversas regiões e que congregavam em seu seio os eruditos mais eminentes da época. Alguns de seus títulos barrocamente saborosos merecem ser lembrados: A Sociedade Frutífera, isto é: de serviços frutíferos para a preservação e pureza da língua alemã, A Ordem dos Pastores e das Flores, nas quais cada membro tinha direito a uma designação especial, inspirada na mitologia bucólica grega e na nomenclatura botânica e outras mais. Protegia-se o idioma nacional da infiltração de palavras estrangeiras, traduziam-se palavras latinas como impressão e expressão, criando-se os seus equivalentes alemães que persistem até hoje: Indruck e Ausdruck, num clima de emulação literária artificial procurava-se refinar o estilo dos autores ainda incertos no manejo do novel instrumento de expressão literária, criavam-se regras baseadas na Art Poétique de Boileau, os cânones do bem dizer, do bem escrever e da pronúncia correta eram estabelecidos rigidamente. Um grande teórico de língua alemã e ele próprio versejador, embora medíocre, Martin Opitz, no seu Livro da Poética Alemã delimita a esfera da ação do idioma alemão, suas regras, estabelece de uma vez por todas, apoiado nos exemplos da [frase conclusiva faltando].

O período barroco é, sobretudo, o período da Guerra dos Trinta Anos, o embate feroz e cruento de duas concepções religiosas e de dois domínios temporais em choque no qual intervieram no campo alemão, dilacerado pela luta fratricida, a Áustria, a Boêmia, a Suécia, a Dinamarca e a própria França. No crescendo apavorante das guerras que se alastravam pelo continente europeu, a Guerra dos Trinta Anos assumia, para a época, proporções apocalípticas, causando as reações mais intensas na sensibilidade desse século profundamente conturbado. No seu desespero, na sua angústia e na sua impotência diante da morte, da bestialidade dos combates, das torturas impostas por um exército ao outro, o homem barroco lançava mão de recursos extremos para combater o pesadelo constante das guerras religiosas e da destruição moral e física de todos os alicerces sobre os quais se erguia a vida diária. Alguns entregavam-se ao saque, à matança e à selvageria mais desumana, trucidando seus semelhantes da maneira mais monstruosa possível – recordam-se os exemplos de forçarem camponeses vencidos a ingerir quantidades imensas de líquido até que seus corpos estourassem ou matá-los de cócegas nas plantas dos pés. Outros entregavam-se ao cave diem mais grosseiro e imediato, entregando-se a orgias de vinho e de prazeres sexuais desenfreados. Muitos deles, buscavam conforto no isolamento dos homens e na busca de Deus e de uma explicação extraterrena do inferno terreno que se desenrolava ante seus olhos atônitos. No entanto, apesar da grandeza moral e literária da chamada Escola Silesiana, chefiada pela figura extraordinária do místico Angelus Silesius e com o dramaturgo e sonetista magnífico que foi Andreas Gryphius, parece-me que a consciência de toda essa época de cataclismas avassaladores adquire corpo e expressão em torno de um só nome, o de Grimmelshausen. Com Grimmelshausen, que constituiu para mim uma das mais legítimas revelações artísticas de todo o meu longo diálogo com a literatura de vários países, a Alemanha, se até então não adquirira maioridade completa em relação às nações irmãs, com este prosador insuperável oferece a toda a cultura ocidental sua primeira figura internacional, seu primeiro gênio literário, em escala cronológica. Seu livro jamais suficientemente enaltecido, o monumental Simplicissimus é uma espécie de D. Quixote alemão e se Shakespeare queria que a literatura fosse erguida perante a vida, refletindo-a como se fosse um espelho, esta obra corresponde plenamente a este ideal artístico e retrata de maneira imorredoura toda uma época, toda uma galeria de personagens arrancados, ainda palpitantes, à vida. E é toda a humanidade que desfila pelas páginas tragicômicas do Simplicissimus: os episódios mais variados se sucedem, do mais grotesco ao mais sublime, do mais torpe ao mais belo e elevado. A metamorfose do personagem central, o humaníssimo Simplicissimus, através dos seis volumes que constituem essa obra gigantesca, é também a metamorfose de indivíduo puro e ingênuo, que se corrompe pelo contato com uma sociedade selvagem e putrefata e se redime, finalmente, reencontrando-se a si próprio por meio da solidão, do abandono do mundo e do diálogo metafísico que se estabelece entre ele e Deus, a resposta de todos os enigmas, o consolo de todos os sofrimentos, a harmonização de todas as aparentes divergências da vida humana, efêmera e mesquinha. O romance de Simplicissimus constitui a adaptação alemã do romance picaresco espanhol à literatura alemã e se bem possamos justamente considerar o Diablo Cojuelo e principalmente a preciosa obra-prima do Lazarillo de Tormes como obras insuperáveis da literatura de qualquer país, devemos notar a diferença do tratamento do mesmo tema por parte de um autor espanhol e de um autor alemão. Temos de convir que, como sucedeu com o Parsifal francês, o romance picaresco originariamente espanhol adquire, uma vez transplantado para a Alemanha, cores mais trágicas e uma penetração psicológica insuspeitada até então. É como se uma espécie rara de vegetação exótica aurisse, na nova terra e no novo clima, uma força telúrica nova, que lhe trouxesse cores mais vivas e um perfume mais intenso. A vitalidade indescritível de cada frase deste livro monumental anima cada adjetivo, cada verbo, cada substantivo. Se toda a documentação referente à língua alemã perecesse e só restasse o Simplicissimus, os investigadores dessa Atlântida desaparecida poderiam reconstituir toda uma época da humanidade com este livro apenas e baseados somente neste livro poderiam afirmar que houve uma grande literatura escrita em alemão.

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E porque, nessa análise da Alemanha, menciono quase exclusivamente homens de letras e pensadores? Porque, antes de encontrá-lo formulado, eu cria intrinsecamente no axioma de que as obras do Espírito, as criações artísticas dos homens permanecem através dos séculos. Citando o mais eminente historiador da atualidade, Toyenbee, pode-se afirmar, com o peso da sua autoridade, que “como podemos ver, graças à perspectiva do tempo melhor do que podemos observar durante a nossa própria geração, as obras dos poetas e dos filósofos sobrevivem aos feitos dos homens de negócios, dos soldados, dos estadistas. Os poetas e os filósofos sobrepassam os historiadores e os profetas e os santos transcendem, em importância no tempo, todos os demais. Os fantasmas de Agamenon e de Péricles surgem no mundo de hoje pela graça das palavras mágicas de Homero e de Tucídides e quando Homero e Tucídides já não forem lidos, podemos profetizar com certeza que Cristo, Buda e Sócrates ainda permanecerão indeléveis na memória de gerações vindouras, ainda inconcebivelmente distantes de nós. Da mesma maneira que a ação física fenece no tempo, o Verbo, fruto da sensibilidade e dessa floração intelectual que são a ideia e o pensamento, o Verbo permanece através de todos os tempos e documenta, tanto quanto a Fé religiosa, a origem sobre-humana do Homem. Em latim a palavra vates significava ao mesmo tempo poeta e profeta. Devemos ver nessa clarividência do espírito clássico não um mero acaso ou uma mera coincidência, mas o pressentimento indeciso, a expressão intuitiva de uma verdade profunda. O nosso tributo a esse grande país membro da Comunidade Ocidental só podia ser feito como homenagem de gratidão a essa Cultura e de preito aos construtores de ideias, aos reveladores de universais desconhecidos que foram os poetas e pensadores alemães, porque como dizia um dos mais insignes e inspirados Filho do movimento romântico, Novalis,”quanto mais poético, mais verdadeiro, a poesia é a Realidade pura e absoluta”. E para dar à ilustre assistência uma ideia aproximada da magnitude e transcendência da Poesia alemã, transcreverei a seguir, ainda que em língua sensivelmente inferior ao original, uma adaptação para o português do ensaio que deu o título a esta primeira palestra: “Caminhos e Encontros”. No trecho que destaco a seguir um dos mais inspirados e perfeitos prosadores austríacos, Hugo von Hofmannsthal, expressa, no estilo latinamente burilado e com o pensamento germanicamente profundo peculiares à mescla de culturas típica da Áustria, uma dessas verdades espirituais que já sentimos informe em nosso espírito e que só o Poeta pode descrever adequadamente

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. Caminhos e encontros . Edited by Fernando Rey Puente. Conferências, ensaios e alguns artigos especiais. Vol. 9. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.