Brasil: entre Dogpatch e Yoknapatawpha
Uma lista de livros americanos traduzidos para o português, como a compilada pela Biblioteca do Congresso, reflete fielmente a transição histórica do interesse cultural do mundo francês para o americano que ocorreu no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Embora houvesse alguma contribuição americana esparsa em épocas anteriores, foi somente em 1940, quando a guerra nos separou de nossa tradicional pátria intelectual, a França, que a grande mudança ocorreu. As tropas americanas estacionadas nas bases aéreas brasileiras no Nordeste protegeram uma cabeça de ponte que levou às vitórias dos Aliados na África. Ela também provou ser uma cabeça de ponte cultural para uma área relativamente nova de ascendência americana.
Assim, pela segunda vez na história, as convulsões militares na Europa tiveram um efeito peculiar na cultura do Brasil: a primeira vez foi em 1808, quando o rei português Dom João VI, com 15.000 de seus súditos leais e aterrorizados, fugiu dos exércitos napoleônicos para o Brasil. Estabelecido lá, ele lançou as bases da cultura brasileira. Sob a varinha mágica dos decretos reais, surgiu de um deserto cultural a primeira biblioteca brasileira, o primeiro museu e academia de arte, a primeira gráfica. Quando os portos brasileiros foram abertos ao comércio exterior, jornais e livros puderam circular livremente pela primeira vez desde a descoberta do Brasil em 1500. Era realmente uma nova era, e o país que havia permanecido em um torpor de obscurantismo por 300 anos sob o domínio férreo dos colonizadores portugueses despertou para o início daquele “destino brilhante” que Franklin Roosevelt observou em nossa época.
Em 1940, portanto, a história se repetiu quando encerramos 200 anos de influência monolítica francesa e entramos em uma fase chamada “Era do Iluminismo Americano” - por seus defensores - ou “Era da Coca-Colonização do Brasil” - por seus detratores. De qualquer forma, a propagação maciça dos valores e ideias americanas, dos supermercados ao pragmatismo e dos métodos publicitários às histórias em quadrinhos, havia chegado.
Antes da Segunda Guerra Mundial, os livros americanos - ao contrário da literatura francesa, que era importada sistematicamente - chegavam por uma espécie de ação capilar. Eles apareciam ocasionalmente, de forma aleatória e, muitas vezes, por mero acaso. Surpreendentemente, a primeira obra literária americana a gozar de popularidade no Brasil foi Evangeline, de Longfellow. Durante o reinado do imperador Pedro II (1831-1889), houve oito traduções sucessivas desse conto sentimental, uma delas supostamente feita pelo próprio imperador. Salvador de Mendonça, o enviado brasileiro em Washington na época, relata: “depois que escrevi ao Barão de Paranapiacaba, notificando-o da morte de nosso poeta [Longfellow], recebi por correio uma quantia considerável de dinheiro enviada por seus admiradores, entre os quais se destacava o próprio imperador. A quantia foi destinada à aquisição da casa em que Longfellow havia morado em Cambridge, para que seus amigos e admiradores brasileiros, como é costume em nosso país, pudessem preservá-la como um monumento em memória do poeta.”
Um exemplo um pouco mais pitoresco das relações culturais entre o Brasil e os Estados Unidos foi a visita de Isadora Duncan em 1916. Encantada com a beleza da famosa cachoeira da Tijuca, no Rio, ela teria “improvisado uma dança frenética sob a cachoeira, em estado de nudez”, para a alegria de seus admiradores brasileiros, que registraram a ocasião em vários sonetos de estilo tropical apropriado.
Outra conexão literária com os Estados Unidos surgiu de forma irônica: o autor brasileiro Monteiro Lobato, após sofrer uma enorme perda na quebra da bolsa de Wall Street em 1929, desenvolveu uma espécie de “Americomania” e tornou-se o grande defensor da superioridade americana sobre nossa “irracionalidade e atraso”. Lobato, brilhante autor de contos infantis e talentoso escritor regionalista, deve agora a maior parte de sua fama ao seu trabalho incansável na tradução de Will Durant e outros vulgarizadores do gênero. Seguindo-o, há Érico Veríssimo - um dos autores brasileiros modernos mais conhecidos na América - cujo Gato Preto no Campo Nevado, um delicioso relato de uma viagem pelos Estados Unidos, é considerado o livro de viagem mais lido já escrito no Brasil. Além disso, ajudou a dissipar a crença generalizada na suposta “grosseria americana e imitação servil da cultura europeia”. Mais recentemente, o professor Alceu Amoroso Lima, que lecionou literatura brasileira na Universidade de Nova York em 1956, publicou seu livro A Realidade Americana. Como o título indica, o livro é uma contradição aos julgamentos hostis de uma obra anterior de Eduardo Prado, intitulada A Ilusão Americana. Prado, que muitas vezes é tendencioso, se propõe a destruir “mitos americanos” como o “modo de vida americano” e a Doutrina Monroe.
A cronologia das traduções publicadas após 1939 confirma um fato cultural desconcertante: a literatura americana chegou às massas no Brasil através das imagens que Hollywood nos enviou. Assim, as traduções para o português de, digamos, E o Vento Levou e A Chuva Chegou (se essas obras podem ser consideradas literatura americana) foram precisamente sincronizadas pelo talento comercial dos editores brasileiros para coincidir com o lançamento dos filmes inspirados nesses romances. Não seria exagero dizer que milhões de brasileiros que nunca tinham ouvido falar de Melville foram apresentados visualmente a Moby Dick quando sua versão hollywoodiana chegou às nossas telas. Da mesma forma, A Streetcar Named Desire, com Vivien Leigh e Marion Brando, precedeu e estimulou a encenação brasileira da peça. Esse meio pouco ortodoxo de divulgação literária, apesar das invectivas de John Dos Passos contra “esse nível inferior da cultura americana”, não deve ser minimizado. No Brasil, o cinema é a forma mais barata e mais apreciada de entretenimento de massa para 70 milhões de pessoas (das quais 50% ainda são analfabetas) que vivem em condições sociais e econômicas eufemisticamente descritas como “subdesenvolvidas”. De fato, de acordo com dados estatísticos recentes, o Brasil fica atrás apenas da Índia no ranking mundial de frequência aos cinemas. Seja espalhado pelo Cinemascope nas grandes cidades ou projetado em lençóis presos a varas de pescar (como tive a oportunidade de observar no alto rio São Francisco), atores americanos como Gary Cooper em Por Quem os Sinos Dobram, Spencer Tracy em O Velho e o Mar e James Dean em Vidas Amargas são tão admirados no Nordeste assolado pela seca ou nas cabanas palafitas ao longo do rio Amazonas quanto no elegante bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, que lembra Cannes.
A influência cultural americana também é aparentemente muito forte na geração mais jovem, a julgar pelo meu sobrinho de sete anos, que descartou o voo espacial de Gagarin como “apenas um monte de coisas antigas, por que Flash Gordon fez mais do que esse russo e melhor!” Todos os brasileiros com menos de dez anos, na verdade, incluem em sua mitologia de heróis reverenciados L'il Abner, Mandrake, o Mágico, e toda a coleção de desenhos animados da Disney.
Depois que os idosos relegaram os tratados sentimentais de Orison Sweet Marden sobre otimismo (Joys of Living e You Can, but Will You?) ao ostracismo dos sótãos, começou a aparecer nas prateleiras das bibliotecas burguesas o inefável How to Win Friends and Influence People, de Dale Carnegie, às vezes seguido pelo rude How to Lose Friends and Alienate People, de Irving Tressler. No início, quando foi “descoberta”, a cultura americana provou ser uma influência tão caótica e indiscriminada quanto um deslizamento de terra. Como não tínhamos acesso a outras culturas - a indiferença em relação às culturas hispano-americanas relacionadas à nossa é proverbial no Brasil -, os Estados Unidos forneciam todos os gêneros de entretenimento literário. Assim, enquanto os fãs de histórias policiais se deleitavam com The Screaming Mimi e The Fabulous Clipjoint, datilógrafas e vendedoras que choraram com o sentimental Waterloo, de Bette Davis, corriam para comprar “o romance do filme” para ler em ônibus e trens lotados: All This, and Heaven Too, de Rachel Field, e Back Street, de Fannie Hurst (estrategicamente reformulado como The Street-Corner of Sin na tradução brasileira). O critério seguido por nossas editoras provou ser tão errático e imprevisível quanto o gosto do público ao qual atendiam - e, às vezes, bajulavam: I Killed for the Law, the Career of Robert Eliot and Other Executioners foi seguido por Microbe Hunters, de De Kruif, e pela interminável série Inside, de John Gunther - e até mesmo Diamond Lil, de Mae West, de alguma forma conquistou o coração dos brasileiros!
Somente mais tarde, depois que a euforia inicial diminuiu um pouco, as traduções começaram a ser escolhidas com mais cuidado e a refletir um interesse literário mais genuíno. Como a tradução não apenas proporciona aos intelectuais brasileiros um trabalho remunerado conveniente, mas também um primeiro passo para a fama, parte das biografias de homens (e mulheres) proeminentes das letras pode ser reconstruída por meio de uma análise das traduções que eles fizeram. Um exemplo disso é o notável romancista brasileiro Graciliano Ramos, que traduziu Up from Slavery, de Booker T. Washington, mudando o título para Memórias de um Negro, a fim de atrair mais leitores em um país consciente das questões raciais, embora não abertamente preconceituoso. Lacerda, atual governador do Estado da Guanabara (nome dado ao Rio de Janeiro quando a capital do país foi transferida para Brasília no ano passado), em 1943 ainda era um jornalista promissor que lutava bravamente contra a ditadura corrupta de Vargas quando traduziu para o português The Life and Letters of Thomas Jefferson (A vida e as cartas de Thomas Jefferson). Esse trabalho de tradução pode ajudar a explicar suas fortes tendências pró-americanas ou, como dizem seus oponentes, suas “visões políticas anacrônicas”. Ao mesmo tempo, um jovem do sul, Érico Veríssimo, estava começando uma carreira meteórica traduzindo livros como They Shoot Horses, Don't They? (Eles matam cavalos, não é?), de Horace McCoy. Posteriormente, ele revelou Maugham e Huxley aos seus compatriotas e alcançou a fama com a publicação de seus próprios romances. Um deles foi fortemente influenciado por Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway, mas seu último, O Tempo e o Vento, tem uma forte semelhança com a reconstrução de Thomas Wolfe de sua cidade natal, Asheville, na Carolina do Norte, até mesmo na escolha do título.
Este primeiro passo para a celebridade proporcionado pelas traduções é apenas um aspecto de uma relação complexa entre literatura e sociologia em um país onde o cultivo das preciosas belles lettres tem sido tradicionalmente um meio de alcançar prestígio social. Alguns historiadores sociais encontram as raízes de nossa adoração moujik pelos intelectuais na “função puramente ornamental atribuída à literatura” desde os tempos coloniais e apontam outros fatores herdados da sociedade escravocrata de outrora: um alto índice de analfabetismo e a preservação da educação como um privilégio social e econômico. Esses anacronismos culturais também explicam o estágio embrionário em que nossa indústria editorial ainda se encontra, o que, por sua vez, explica por que a maioria das editoras brasileiras se abstém de correr o risco de traduzir autores “difíceis” como Henry James e Faulkner, que atraem exclusivamente uma intelectualidade economicamente insignificante, perfeitamente equipada para lê-los no original. É claro que a formidável tarefa de traduzir qualquer um desses romancistas também tem sido um potente desencorajamento. O mesmo se aplica às peças sombrias e introspectivas de O'Neill, que não atraem multidões entre um povo descrito pelo conde Keyserling em suas Meditações sobre a América do Sul como propenso a “motivações quase exclusivamente emocionais, e não racionais”.
Parece que os países preferem nas literaturas estrangeiras não o que lhes falta na sua própria (embora às vezes os intelectuais possam preferir), mas precisamente aqueles elementos de afinidade espiritual que confirmam - e não complementam - o seu próprio gênio nacional. Isso pode ser mais bem ilustrado pela preferência unânime concedida neste país às peças e romances que tratam do sul dos Estados Unidos. A semelhança entre as sociedades agrárias escravocratas do Brasil colonial e a parte sul dos Estados Unidos tem sido frequentemente enfatizada. Algumas das características supostamente típicas do Brasil, como a ascendência da sensibilidade sobre a razão, a precedência do abstrato sobre o concreto e a falta de abstração metafísica genuína, parecem se aplicar, em certa medida, também à sua contraparte americana. Deixando de lado as “ponderações melancólicas dos autores puritanos” (Melville, Hawthorne), os brasileiros instintivamente se voltam para o mundo lírico de Mark Twain e Truman Capote e para uma sociedade que, assim como a nossa, é baseada em ideais abstratos e na mística da honra, à qual Faulkner atribuiu a derrota do exército confederado em Absalom, Absalom! De maneira semelhante, muitos atribuem o atraso de nossas antigas áreas de plantação de café e açúcar aos excessos do individualismo, do paternalismo e de uma solidariedade familiar sectarista que ainda impregna a cultura refinada do Nordeste brasileiro, nosso Dixieland.
O teatro americano, consequentemente, deve muito de seu impacto sobre o público brasileiro às peças de Tennessee Williams, particularmente as primeiras. O público ficou encantado com Blanche Dubois, por exemplo, e foi uma experiência fascinante assistir ao diretor de Chicago Charles McGaw dirigir Um Bonde Chamado Desejo - com um elenco inteiramente brasileiro - na lânguida e encantadora Bahia, que em muitos aspectos lembra a própria Nova Orleans. Os atores reagiram instintivamente, intuitivamente, aos personagens que tinham que interpretar; e a apresentação final foi soberba como uma transmutação de valores estéticos, psicológicos e humanos de uma cultura para outra.
O teatro tem uma influência menos imediata e direta, embora, em última análise, mais profunda e duradoura do que os filmes. Acredito que isso se deve ao fato de que a peça exige empatia não apenas do público, mas também do grupo de atores. O público compreende imediatamente o que os atores estão dizendo sem precisar ler legendas e, além disso, vê no palco pessoas cujo tipo racial se assemelha ao seu, um detalhe psicológico de considerável significado no Brasil multirracial. Essa importância do teatro americano não é alheia ao grande número de atores, diretores e críticos de teatro brasileiros que frequentaram universidades americanas e adquiriram conhecimento em primeira mão dos métodos de atuação e da técnica teatral americanas. Os jovens críticos de destaque no Rio e em São Paulo, bem como o diretor da Escola de Teatro da Bahia, tiveram, em algum momento, contato próximo com a Escola Dramática de Yale, com Berghof e com o Actors' Studios. Recentemente, uma atriz brasileira que atuou em grupos amadores nos Estados Unidos fundou no Rio um novo grupo dirigido por seu marido americano, Jack Brown. A estreia teatral deles foi com a peça The Connection, de Jack Gelber, que muitas vezes revoltou o público burguês e recebeu críticas controversas dos críticos.
Essa “fase americana” foi temporariamente contrabalançada pelo talentoso, mas efêmero, Teatro Arena, cujas fortes tendências esquerdistas levaram seus membros a um tipo de drama doutrinário repleto de antiamericanismo. Em Revolução na América do Sul, uma montagem sombria das condições caóticas no Brasil, o jovem autor (que recebeu o cobiçado Prêmio São Paulo de Teatro) retrata os americanos como monopolistas implacáveis que possuem até mesmo o direito de um cidadão brasileiro de cometer suicídio. No momento em que o herói da peça se prepara para usar seus suspensórios para pôr fim à sua vida atormentada, um anjo com um forte sotaque americano se dirige a ele. Apontando para os suspensórios de borracha, o anjo diz sorrindo: “Primeiro, você tem que pagar royalties. Eles são fabricados pela Goodyear, querido!”
Entre aqueles que exaltam as conquistas teatrais americanas, o jovem diretor João Bethencourt se destaca proeminentemente. Depois de estudar no departamento de teatro de Yale por três anos, ele diz: “A Off-Broadway é hoje uma das principais fontes de inovação teatral no mundo. Isso é um trunfo importante se levarmos em conta como é difícil para qualquer coisa nova - isto é, qualquer coisa que transcenda o aspecto meramente comercial do show business ou qualquer coisa que não se conforme ao método de atuação preferido pelo público americano, o método realista - afirmar-se no teatro americano. É por isso que o ‘musical’ americano, complementando essa influência libertadora dos teatros Off-Broadway, ainda é um refúgio para aqueles que buscam elementos imaginativos e poéticos em uma apresentação teatral menos realisticamente austera.” Ele acredita que os atores e dramaturgos brasileiros deveriam buscar inspiração nas soluções que os artistas americanos encontraram para o problema de transformar a experiência em expressão teatral válida. Embora a expressão brasileira seja necessariamente diferente da americana, o problema básico é comum à ambas as culturas.
Dado que nosso diálogo cultural tradicional com a Europa foi retomado desde o fim da guerra, a influência americana está sendo fortemente desafiada pela nouvelle vague francesa, tanto na literatura quanto no cinema; pelos filmes italianos de Visconti, Fellini e De Sica; pelas turnês anuais de Jean-Louis Barrault; pelos romances e peças da “geração revoltada” britânica. A polifonia cosmopolita de influências se estende de Ionesco e Beckett a Brecht e à Ópera de Pequim. Desnecessário dizer que os comunistas elogiam obedientemente tudo o que é soviético, dos filmes russos a Gagarin; no entanto, sua principal atividade gira em torno de sua oposição fanática a qualquer influência americana, cultural ou de outra natureza. Seu monótono Delenda America (a América deve ser destruída) é em grande parte responsável por uma confusão muito irracional entre política e cultura. No entanto, não é preciso ser de esquerda para reconhecer - nos dias cruciais da Revolução de Fidel Castro - “a indissolubilidade, em nossa era atual, dos aspectos políticos e culturais de nossa civilização”, à qual Camus fazia referência impressionante e constante em suas obras. Acima de tudo, em vários círculos liberais do Brasil, o fracasso americano em isolar as ditaduras hediondas de Batista, Trujillo, Stroessner e de muitos outros na América Latina freou o interesse que a literatura americana poderia despertar espontaneamente. Muitos intelectuais sentem-se incapazes de dissociar Wall Street de Walt Whitman, mesmo que, às vezes, o Departamento de Estado americano e os escritores americanos sejam tão diametralmente opostos entre si quanto o estilo de Henry James é ao do falecido senador McCarthy. Essa tendência está sutilmente implícita até mesmo na preferência que escritores e jornalistas brasileiros demonstram por certos autores americanos. Basta dizer para caracterizar essa tendência que Guimarães Rosa, o maior escritor brasileiro da atualidade - e possivelmente o maior que este país já produziu - expressa uma admiração escapista por autores americanos como Wilder e Twain ou por Robert Penn Warren, cujo All the King's Men foi calorosamente aclamado pela intelectualidade brasileira por causa de sua “denúncia inflexível dos políticos americanos”.
Ao mesmo tempo, vários literatos brasileiros que viveram nos Estados Unidos voltaram para casa profundamente desencantados com o que experimentaram do American Way of Life. Eles constituem nossa versão nacional de uma geração perdida. Duas diatribes podem ser suficientes para mostrar como essa crítica generalizada é expressa e qual a influência que ela pode ter sobre milhares de leitores. Fernando Sabino, cujo romance O Compromisso foi profundamente influenciado pela obra de F. Scott Fitzgerald, diz:
“Fitzgerald me interessou muito porque, quando o li pela primeira vez em Manhattan, eu estava enfrentando os mesmos problemas angustiantes que o atormentaram durante toda a vida, especialmente o do artista que precisa ganhar a vida. Seu sentimento de frustração profissional, determinado pela predominância dos fatores econômicos sobre os estéticos em seu próprio país, me impressionou profundamente, assim como sua prostituição intelectual para Hollywood. Também admiro Henry Miller por seus ataques às aberrações gritantes do American Way of Life, principalmente sua padronização e desumanização. Carecendo do elemento espiritual de que precisa para sobreviver na atmosfera sufocante da vida americana, Miller exalta o culto a Eros como uma reação contra um conjunto puritano e hipócrita de valores morais. Com isso, ele expressa um protesto eloquente contra os fracassos da democracia e semelhantemente do capitalismo”.
O crítico brasileiro Afrânio Coutinho, que nos últimos vinte anos foi o principal responsável pela introdução do New Criticism no Brasil, elogia as “maravilhosas conquistas das universidades americanas”, mas encontra um “forte antagonismo entre a cultura americana e o estilo de vida americano” que, em sua opinião, é responsável pelo “caráter marginal do mundo cultural nos Estados Unidos”. O crítico americano Philip Rahv me disse uma vez que o número médio de pessoas intelectualmente alfabetizadas nos Estados Unidos não excede 20.000 (de uma população de 170 milhões). As massas que se alimentam de best-sellers são os verdadeiros representantes dos Estados Unidos; é a massa que luta pela pátria americana e tenta “vender” ao mundo “a ideia por trás dela” - o American Way of Life. No entanto, os jovens pintores e poetas que em 1956 se reuniram no Ministério da Educação do Rio de Janeiro para criar seu extremamente controverso Movimento Concreto não abandonaram sua distância estética em favor de uma abordagem politicamente engajada da literatura. Assim, eles assimilaram as diversas influências de Apollinaire e Mallarmé, mas predominantemente as de e. e. cummings e do “fascista” Pound (ao fascínio do qual até mesmo comunistas brasileiros dedicados às vezes sucumbem). Seu uso de composição agráfica-visual, núcleos de palavras e assim por diante, em uma tentativa de permanecer fiéis ao conselho de Suzanne Langer - “os poetas devem alcançar uma linguagem poética mais objetiva e clara, livre de sua estrutura sintática e discursiva” - apenas reforçou sua posição esotérica em relação ao público brasileiro. No entanto, eles nunca abandonaram seus modelos: imitaram ideogramas chineses depois de lerem Pound e Ernest Fenollosa; consideravam cummings seu mestre. O tradutor afirma, em seu prefácio a Ten Poems by cummings: “Graças à sua atitude saudável de inconformismo, e.e. cummings é um dos poucos poetas que buscam meios de se rebelar contra o antigo grupo de poetas. Seu trabalho vivo e vigoroso em andamento aponta para novos poetas, novos meios de superar o atraso na poesia e dá um impulso dinâmico a muitas manifestações jovens no campo da poesia contemporânea”.
Assis Brasil, um dos poucos críticos brasileiros que buscou tornar Faulkner mais conhecido neste país, tentou resumir uma ideia dessa influência americana heterogênea e generalizada, dizendo que “embora não possamos apontar autores americanos individuais como uma influência definitiva na ficção brasileira moderna, parece haver uma atmosfera americana em nossos romances e contos atuais, pela qual Faulkner e Saroyan, creio eu, são os principais responsáveis”.
Como já foi dito muitas vezes, nossa literatura e nosso teatro podem se beneficiar muito com um contato contínuo com seus equivalentes americanos. Ambas as literaturas, na verdade, apresentam características semelhantes: um lento crescimento da consciência nacional sobre temas, problemas e ideais nacionais e, além disso, o mesmo surgimento tardio de uma literatura autônoma após um século de imitação dos cânones europeus (britânicos nos Estados Unidos e franceses no Brasil). A grande discrepância entre o desenvolvimento cultural americano e brasileiro é evidente pela simples comparação de datas. Na década de 1920, por exemplo, enquanto os Estados Unidos produziam uma literatura nacional reconhecível, o Brasil ainda estava ocupado proclamando sua Declaração de Independência cultural dos modelos estrangeiros. Esse foi o Movimento Modernista, que mais tarde se tornou tão importante para integrar os artistas brasileiros à realidade social, política e cultural de seu ambiente nativo.
A situação atual indica tempos temporariamente difíceis para a literatura americana no Brasil: nossa importação de livros é severamente prejudicada pelo obscurantismo burocrático e pela atual debilidade de nossa moeda nacional, um fator econômico que impede uma compra maior de textos estrangeiros. Também deve ser mencionada a completa ausência de revistas literárias trimestrais, como The Kenyon Review, Sewanee Review etc., que são mal imitadas pelos suplementos literários dominicais dos jornais brasileiros, que estão gradualmente desaparecendo. Embora os estudantes brasileiros, por exemplo, demonstrem um vivo interesse por autores americanos, eles carecem até mesmo de informações rudimentares sobre a ficção contemporânea produzida nos Estados Unidos. Tive a oportunidade de constatar isso pessoalmente durante uma turnê de palestras por todo o país. Dirigi-me a um público composto principalmente por jovens e traduzi capítulos de Breakfast at Tiffany's, The Catcher in the Rye e outras histórias de escritores americanos contemporâneos. Desnecessário dizer que Capote e Salinger receberam uma verdadeira ovação por suas brilhantes realizações.
No entanto, somos obrigados a aceitar alguns fatos preocupantes sobre essa questão do intercâmbio cultural. Um deles é a virtual impossibilidade de traduzir autores como Henry James, Faulkner e Fitzgerald, nos quais o conteúdo e a forma estão tão indissoluvelmente ligados. Depois de contornar, da melhor maneira possível, todas as formas fascinantes e labirínticas que Henry James, por exemplo, tem de descrever uma situação psicológica rarefeita, resta apenas a essência da arte: a beleza do corpo e a vivacidade da vida desaparecem. A interpretação jamesiana da famosa cena em que Milly Theale volta do médico e se senta desolada em um parque de Londres, com sua sublime crueldade — “Talvez fosse superficialmente mais impressionante que se pudesse viver se se quisesse; mas era mais atraente, insinuante, irresistível, em suma, que se vivesse se se pudesse” — se perde totalmente em português. Mas Henry James nunca teve a intenção de se tornar popular. Por outro lado, muito pode ser traduzido suficientemente bem para oferecer uma herança comum para americanos e brasileiros: Salinger, Capote, McCullers, muitos dos autores que contribuem para a revista The New Yorker também. Os livros sobre a abertura do Oeste e o “romance econômico” dos anos 70 devem agradar muito a um país que se encontra na mesma fase de desenvolvimento econômico, com sua “ética da selva, suas ferrovias e o progresso econômico colossal que compuseram aquela festa única e louca do capitalismo”. É seguro assumir, portanto, que, salvo um desfecho catastrófico no âmbito da Organização dos Estados Americanos, a literatura americana continuará a exercer uma influência poderosa sobre os jovens artistas brasileiros ansiosos por imitar o gênio criativo de um país em muitos aspectos semelhante ao seu.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Brasil: entre Dogpatch e Yoknapatawpha},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/01-recepcao-no-brasil/00-brasil-entre-dogpatch-e-yoknapatawpha.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {The Kenyon Review, vol. 23, nº 3, pp. 394-407, 1961.}
}