Faulkner. O poeta das velhas verdades.
“As velhas verdades do coração humano, as velhas verdades universais sem as quais qualquer história se torna efêmera e condenada ao esquecimento, como a honra, a compaixão, o orgulho, a piedade e o sacrifício: a missão do poeta a missão do escritor é escrever sobre elas e lembrar ao homem a existência da coragem e do sentimento de honra que constituíram a glória do seu passado, histórias do coração humano em conflito consigo mesmo.” William Faulkner
Pântanos, florestas fechadas, o rio Mississipi lodoso serpenteando por paisagens nunca tocadas pelo homem, a natureza soberba, encerrada em sua autossuficiência e suas leis perpétuas. Nesse estado primário e sagrado, irrompe o homem, ávido de riquezas, sem escrúpulos, a erguer catedrais para o lucro - fábricas, bancos, plantações - e masmorras para a liberdade humana - o púlpito das igrejas calvinistas e impiedosas, os cárceres, as senzalas para os escravos trazidos da África Negra. Um dos quatro únicos grandes escritores das Américas - William Faulkner (ao lado de Guimarães Rosa no Brasil, Juan Rulfo no México e Jorge Luís Borges na Argentina) - escandaliza o seu Estado natal, do Mississipi, aquele Deep South, o Sul profundo, do racismo, da retórica florescente, do atraso econômico e seu verniz cultural, o Sul que foi a única parte das 13 colônias norte-americanas que se libertaram em 1776 do jugo inglês sob George III a cindir os laços com os demais Estados em1861. O Sul é a obsessão de Faulkner e de todos os esplêndidos escritores que brotaram da derrota do Sul na Guerra de Secessão, de 1861 a 1865: Robert Penn Warren, Carson Mc Cullers, Truman Capote, Tennesse Williams, Katherine Anne Porter, Allan Tate. Nenhum, porém se aparentou tanto a Dostoievsky na escavação abissal do crime e do castigo humanos, dos humilhados e ofendidos, dos endemoniados do Sul, enlouquecidos pela dupla ilusão do passado de riqueza perdido e da vitória "moral" do Sul escravagista sobre as tropas do Norte lideradas pelo presidente Lincoln e o terror da mistura de sangue de brancos com negros.
William Faulkner ousa desmistificar a oratória do Sul e revelá-lo na sua verdade integral: a riqueza, o refinamento, a prosperidade estavam baseados, desde o início, na injustiça arquetípica do roubo das terras aos índios e na violência do cativeiro imposto aos pretos: o Sul teria de expiar seus pecados através da derrota e da violação da sua terra pelos nortistas vitoriosos e vulgares, sem escrúpulos nem cultura; o Sul seria a terra esterilizada pelo mercantilismo de um modo de viver utilitarista e filistino, inimigo das artes como da cultura, reduzindo o ser humano a um robô nas fábricas e escritórios da sociedade industrial e a um número abstrato na estrutura dos ministério do Trabalho e da Saúde.
“Os poetas e escritores, sem dúvida, estão errados, mas quase sempre eles estão errados com relação aos fatos. Isso é porque eles não estão interessados nos fatos: só na verdade. E é por isso que as verdades que eles enunciam são tão verdadeiras que até aqueles que odeiam os poetas e escritores por instinto natural se sentem aterrorizados e alterados quando a verdade é dita”. William Faulkner
A verdade aterrorizou o Sul, que não queria reconhecer-se naquele espelho sangrento e apavorante erigido por um de seus filhos, Faulkner: em vez dos estereótipos do Sul povoado de belezas sulistas (Southern belle), de bailes requintados, de uma cultura livresca e um palavreado florido, erguia-se o Sul da miséria sórdida dos campos onde os negros, sem direitos, acossados pelos poor whites (brancos pobres), saíam das casas grandes e senzalas do cativeiro para os templos protestantes ou para a forca da Ku Klux Klan, seus cadáveres como espantalhos horripilantes a bambolear macabramente dependurados de figueiras, seus membros viris arrancados, para não constituírem uma ameaça, sempre temida, às mulheres brancas, róseas, virginais da comunidade sulista.
Faulkner não adere a um estilo naturalista, em imitação de Zola na sua denúncia das desigualdades sociais do proletariado parisiense: ao contrário, seus livros são mais detestados ainda porque inovam tanto quanto os mais audaciosos inovadores da língua inglesa, do outro lado do Atlântico. Pois se Virginia Woolf retrata contrastantes situações psíquicas em The Waves (As Ondas) usando a técnica impressionista dos pintores franceses Manet, Monet, Pissarro, refletindo os fenômenos externos por meio da decodificação de cada um dos seis personagens e suas reações subjetivas a uma realidade inalcançável em sua objetividade hipotética, e James Joyce cria o monólogo interior, a associação ilógica de imagens mentais do longo monólogo da ninfomaníaca delirante, Molly Bloom, com seu deslumbrante stream of consciousness, "fluxo da consciência", Faulkner, se possível, vai mais longe ainda.
Em The Sound and the Fury (título inspirado em um trecho da tragédia Macbeth, de Shakespeare, de cunho niilista sobre a vida humana, cheia de barulho e furor, mas sem significar nada como a fala de um louco ou de um idiota), o mundo é visto através de um débil mental, Benjy, desafiando o leitor a decifrar as imagens de medo, ternura, saudade, desamparo, esperança que como manchas de cores diferentes surgem naquele cérebro enfermo e infra-humano em sua animalidade instintiva.
Para retratar o real, Faulkner traça o mapa detalhado de um território que ele inventa totalmente: Yoknapatawpha. Será um condado com uma capital mítica, Jeffer-son, uma área de 2.400 milhas quadradas e um número específico de habitantes: bran-cos, 6.298, e negros, 9.313. Orgulhosamente, o próprio autor se proclama: "William Faulkner, único dono e proprietário". Mas é do Sul que, obsessivamente, falam todos os seus personagens. A "maldição" da mistura de sangues, a humilhação da perda da guerra, a noção paradoxal da "superioridade" da cultura aristocrática, hierárquica das sociedades sulistas e a "inferioridade" do Norte boçal, mercantilista, materialista percorrem todos os seus livros, mistérios medievais do Bem e do Mal vividos não nos adros de catedrais românicas e góticas, mas nas mansões do Sul, Inferno e Paraíso da memória humana.
Faulkner desvenda a derrocada de valores, a decadência física e psíquica das famílias que, maculadas pela escravidão e pela hipocrisia, sucumbem à industrialização, o advento da mediocridade erigida em ideal comunitário, e verruma as taras secretas que corroem as mansões: o incesto, as secretas relações sexuais com pretos e pretas no simulacro e morte do amor, o assassínio de recém-nascidos mulatos testemunhas vivas do "crime ignóbil" que as próprias leis constitucionais dos Estados do Sul penalizam com tribunais, prisões e linchamentos, o freio do puritanismo hipócrita a tentar sufocar a libido que detona então por meio da violência, do estupro, da posse seguida da morte ou da prostituição malevolamente triunfante.
Para os habitantes da cidade verdadeira, Oxford, em que Faulkner nasceu e viveu quase toda a sua vida (exceto algum tempo perdido como roteirista nos estúdios de Hollywood), ele era apenas Billy, que aspirava a ser escritor mas nunca tinha um tostão no bolso, que lia Shakespeare e a Bíblia na biblioteca que lhe ficara do avô, coronel Falkner (o u foi adicionado por Faulkner mais tarde), além de Flaubert, Balzac, Tolstói, Cervantes e Homero.
Billy era afável com todos, baixo nos seus 1.67m, a roupa desleixadamente elegante, um falso sotaque britânico entremeado do ritmo arrastado do falar sulista, um personagem estranho que em meio a uma prosa com o ferreiro que consertara a ferradura de seu cavalo favorito de repente se levantava e sem dizer uma palavra ia embora para só voltar daí a dias. Quando lhe perguntaram por que saía assim sem se despedir ele alegava: “É que eu estava pensando alguma coisa e tive de ir”. Era uma ideia que lhe ocorrera para um livro ou uma expressão pitoresca que captara e que tinha de anotar para não perdê-la e engastá-la em seus romances e contos.
Aquele escritor que retratava vividamente a violência é lembrado pelos seus conterrâneos como um homem que não queria matar nenhum ser vivo, nem uma cobra: todos tinham direito à vida, todos pertenciam ao reino mítico, indevassável, da Natureza prístina e inviolável. Devia ser porque em seus longos passeios pela cidadezinha, de um drugstore a outro, ele bebia muito. Para várias pessoas, era um bêbado contumaz, que, solitário, preferia conversar com a gente comum, a gente simples naquela praça que tinha como centro um monumento ao soldado confederado derrotado mas que lutara "por uma causa nobre". Para sua filha Jill, a bebida era uma válvula de escape para Faulkner: "Quando se aproximava a fase final de um livro que ele estava escrevendo ela depõe no filme dedicado a seu pai e elaborado pela Secretaria de Educação do Estado do Mississipi - eu já sabia: ele começava a beber cada dia mais e a recitar alguns poemas que sabia de cor. Mas quando queria, papai podia passar meses sem beber".
Quantos - a maioria - não o consideravam um fracasso? O jovem Bill Faulkner não tinha dinheiro nem ambições: como poderia deixar de ser um fiasco completo? Amável, Faulkner, porém não tinha intimidade com quase pessoa alguma. Só um amigo que adorava literatura ou o escritor Sherwood Anderson, que o ajudou a publicar seu primeiro livro, Soldier's Pay, o conhecia melhor. Mas não era arrogância aquela atitude sobranceira: era a angústia de um moralista cristão incapaz de aceitar as premissas das igrejas protestantes que se desviaram do cristianismo e instituíram códigos puritanos desumanos e incapaz de aceitar a justiça que os tribunais humanos distribuíam com tanta cegueira e parcialidade.
Para Faulkner, só a valentia física, a honra, a fé, a compaixão poderiam justificar a vida humana, aquela alegoria da crucificação diária de Cristo nas vidas humanas esfareladas pelo preconceito, pela opressão múltipla: econômica, sexual, afetiva, social, cultural, cada um preso no casulo da sua própria impotência, paralisado pelas proibições artificiais e monstruosas da sociedade circunstante. Pela falta de afeto as famílias se desintegram, pela falta de escrúpulos morais as famílias perdem suas terras ancestrais, pela falta de piedade os retardados mentais são despachados para hospícios do Estado onde perecerão à mingua, como vermes que se esmigalham com o pé, vítimas de enfermeiros musculosos e sádicos. Em Light in August os dois temas principais da repressão da libido e da miscigena-ção se chocam quando o falsamente acusado de um crime, Joe Christmas, encena orgias sexuais alucinantes com a solteirona branca, antes de se imaginar descendente de negros, aquele Joe Christmas que até então passara por branco. Em Absalom, Absalom! o suicídio, o desejo pela irmã virginal, o deslocamento de um sulista na Universidade de Harvard, no Norte glacial dos yankees vencedores do Sul, o relato pela repudiada Rosa Coldfield do passado da sua humilhação em ser rejeitada como esposa pelo arrivista coronel Sutpen - tudo se tinge de tintas simbólicas: é o Sul que não domina o próprio passado, como um alemão sensível, adulto durante o período hitlerista, depois da guerra não se absolve de sua covarde passividade cúmplice diante do nazismo.
Essa atitude trágica, majestosa, solene, de Faulkner ao descrever a queda, a desagregação total de tudo que é nobre e elevado no Sul não constitui um painel apenas sombrio: a sabedoria da preta Dilsey, por exemplo, que é a consciência e o esteio moral e físico daquela família de brancos corruptos e fracos, é emblemática da integridade ética do Sul, mas o Sul dos pretos que cumpriam mais do que seu dever de empregados: cumpriam a tarefa eminentemente cristã de amor ao próximo e de retidão moral aliada a uma fé na transcendência da vida humana, que ressuscitaria com Jesus, redenção dos homens, no dia do Juízo Final. Os pretos que tinham dado seu suor para o enriquecimento dos brancos também tinham doado a um país e a uma cultura o profundo sentido artístico da sua música plangente dos spirituals, dos blues do jazz frenético de uma alegria estouvada que mal escondia sua melancolia de deslocados na terra, à espera do Paraíso prometido.
Esse painel soberbo, que comoveu profundamente grandes escritores como Malraux, Camus e Sartre na França, contrasta, porém, com o senso de humor, a originalidade de e a graça fidalga de Faulkner, o iconoclasta convicto. Ele propalava a quem quisesse ouvi-lo que o melhor lugar que jamais lhe tinham oferecido, a ele que exercera tantas profissões díspares, fora sem dúvida a de gerente de um bordel: De manhã pode-se trabalhar sossegado, as moças estão dormindo, a madame também, de noite se você quiser você pode ter vida social, com a animação noturna, ou recolher-se a seus aposentos e todos te tratam de sr., até a polícia: é um emprego ideal para um escritor, eu creio. Para escrever, então, bastavam cigarros, um pouco daquele uísque que os norte-americanos extraem do milho e que chamam de bourbon, tiras de papel e um lápis.
A partir de 1930, quando seus livros encalhados pouco a pouco, porém, despertavam o interesse de críticos e principalmente dos maiores escritores na França, quem fosse à cidadezinha natal de Faulkner, Oxford, no Estado da Magnólia, o Mississipi, receberia como resposta à pergunta de onde mora o sr. Faulkner uma virada grosseira de cabeça e uma cusparada de desprezo no chão empoeirado. Faulkner "desgraçava" o Sul, conspurcava seu solo natal, como a cidadezinha de Luebeck, no Norte da Alemanha, também repudiara aquele Thomas Mann que "sujara o prato em que comia" ao descrever a vida da alta burguesia local em Os Buddenbrooks.
Faulkner não se importava nem com o menosprezo, nem com a incompreensão, nem com a fama ascendente embora lenta. Sempre contra a corrente, ele defendia o princípio heterodoxo de que quem trabalhasse pelo dinheiro era uma pessoa desprezível. Foi a pior fase da sua vida a que passou nos estúdios cinematográficos da Metro Goldwyn Mayer e da Warner Brothers, em Hollywood, na Califórnia, escrevendo roteiros para os estúdios, numa guerra em que ele fora derrotado. Ele já fora recusado, durante a Primeira Guerra Mundial, pelas Forças Armadas do seu país, mas sua pouca altura não constituíra um obstáculo para seu alistamento na Royal Air Force do Canadá. No entanto, a estupidez e a ignorância dos magnatas de Hollywood foram uma guerra da qual ele fugiu, de volta à solidão de Oxford, mitigada Oxford, mitigada por raríssimas amizades, longos períodos de bebedeira, de leitura, de passeios pelas montanhas e vales.
“Todos os escritores são mentirosos congênitos ou não seriam escritores para começar.” William Faulkner
A arte era o sonho que um ser humano limitado tentava comunicar em sua inteireza a outros seres humanos e falhava quase sempre. Mas seu mundo interior cada vez mais se apoderava de seu mundo exterior e ele passava a viver subjugado por seus personagens, como numa peça de Pirandello, em que eles é que ditam o texto e as ações a seu criador transformado em mero veículo daquelas forças latentes. Ele abandonara a Universidade, recusara as tentativas do pai de torná-lo um funcionário bancário: tudo era inútil, ele acreditava no direito sagrado à preguiça; queria, do fundo de seu coração, ser um vagabundo, não exercer nenhuma profissão porque escrever era divertido e era torturante: evocar um mundo mítico, de pesadelos, sonhos, ideais, alucinações e recordações, para com isso "traçar minha marca no rosto do anonimato". Afinal, a literatura era o prazer maior que se podia obter ele dizia frequentemente com o menor custo possível: só um pouco de tabaco, uísque, papel e lápis. A literatura nada tinha a ver com a moralidade nem com a respeitabilidade, ele acrescentava, chocando profundamente a mentalidade predominante, que via na literatura "o embelezamento e enobrecimento do prosaísmo da vida corriqueira". Em uma entrevista, das raras que concedeu, Faulkner sentenciou lucidamente:
“A vida não está interessada no Bem e no Mal. Dom Quixote vivia constantemente a escolher entre o Bem e o Mal, mas sua escolha era feita em estado de sonho. Ele era louco, Só penetrava a realidade quando estava tão ocupado em enfrentar pessoas que não tinha tempo de distinguir entre o Bem e o Mal. Já que as pessoas existem somente na vida, precisam dedicar seu tempo simplesmente à tarefa de manterem-se vivas. Vida é movimento, e movimento diz respeito a aquilo que faz com que os homens se movam: ambição, poder, prazer. Qualquer que seja o tempo que o homem possa dedicar à moralidade, esse tempo deve ser, forçosamente, retirado do movimento de que ele constitui uma parte. Mais cedo ou mais tarde ele é forçado a fazer escolhas entre o Bem e o Mal, pois que a consciência moral exige isso dele, a fim de que ele possa viver, amanhã, consigo próprio. Sua consciência moral é a maldição que tem de aceitar dos deuses, a fim de obter deles o direito de sonhar.”
Defrontando-se com a ética do trabalho que constitui a pedra angular da sociedade como nós a conhecemos, Faulkner se insurgia contra a passividade dos que aceitam o trabalho como base da vida: “Na minha opinião, é uma vergonha que haja tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas diárias, dia após dia, é trabalhar. A gente não pode comer, beber ou fazer amor durante oito horas diárias: só o que se pode fazer, durante oito horas, é trabalhar. Eis aí a razão por que o homem torna a si mesmo e a todos os demais tão miseráveis e infelizes.”
Profeticamente ecologista e advogado da sociedade do lazer e inimigo do "progresso" de siderúrgicas, estradas, arranha-céus, favelas, supermercados, comércio e indústria, ele acreditava na fraternidade, nas qualidades éticas imutáveis do denodo, da bondade, do estoicismo diante do sofrimento, cego ao deslumbramento dos cifrões dos dólares ou à reputação de grande escritor. Ele criara o seu próprio cosmo, como ele mesmo reconhecia, e isso lhe bastava:
“Descobri que meu pequeno selo postal de solo natal era digno de que se escrevesse a respeito dele e que eu jamais viveria o bastante para exauri-lo e que, mediante a sublimação do real, convertendo-o em apócrifo, eu teria completa liberdade de usar ao máximo qualquer talento que porventura pudesse ter. Isso abriu uma mina de ouro quanto ao que dizia respeito a outras pessoas, de modo que criei um cosmo próprio. Posso fazer, como um Deus, que essas pessoas se movam, não só no espaço, mas também no tempo. O fato de eu ter movido meus personagens, com êxito, pelo menos em minha opinião, por toda a parte, prova, para mim, minha própria teoria de que o tempo é uma condição fluida, que não existe, exceto nos avatares momentâneos de seres individuais. Não existe tal coisa como era - mas unicamente é. Se o era existisse, não haveria dor nem tristeza. Agrada-me pensar no mundo que criei como sendo uma espécie de pedra angular no universo; que, por pequena que seja essa pedra angular, se ela fosse removida, o próprio universo desmoronaria. Meu último livro será o Livro do Juízo, o Livro de Ouro de Yoknapatawpha County. Depois, quebrarei o lápis e terei de parar.”
William Faulkner, o gênio da literatura escrita em inglês fora da Inglaterra neste século, sobreviverá até a seus tradutores brasileiros. Absalão, Absalão! é, sabidamente, um livro dificílimo de ser lido, interpretado, quanto mais traduzido. No entanto, a Editora Nova Fronteira poderia melhorar incomparavelmente o nível de suas traduções se introduzisse uma ou ambas das medidas necessárias: dispor de uma auditoria, que verificaria se a tradução merece ser publicada ou não e concomitantemente, de preferência, tornar a tradução uma profissão bem remunerada, como já o é quando feita para peças teatrais (de 4 a 10% da bilheteria para o tradutor). A tradutora Sonia Régis salta várias frases, reduzindo o texto arbitrária e criminosamente, privando o leitor da grandeza total das frases longas, adjetivadas, matizadas, de Faulkner. Será a vingança brasileira contra a tradutora de Guimarães Rosa nos Estados Unidos, Harriet de Onis, que procedeu da mesma forma, só que com mais ignorância ainda, quando massacrou para o inglês Grande Sertão: Veredas? Terá sentido entregar aos leitores e gastar na impressão de uma obra-prima de um grande autor uma tradução tão imperfeita? A Nova Fronteira já foi corresponsável na hecatombe perpetrada por Oscar Mendes contra a indefesa maravilha de Virginia Woolf, To the Lighthouse; por que Faulkner não pôde ser traduzido com mais talento e de forma mais fiel em português?
Não que isso afete o núcleo da grandeza atemporal de Faulkner. Empobrece, isso sim, a perspectiva que os brasileiros possam ter do magnífico escritor do Mississipi. E quando teremos uma tradução nova e mais digna? Faulkner, que permaneceu obscuramente desconhecido em seu próprio país, décadas a fio, com seus livros de tiragens pequenas esgotados e nunca reimpressos, poderá sobreviver a mais essa violência cometida contra a literatura. Foi falando sobre a sobrevivência da própria sociedade norte-americana diante da violência do racismo que ele comentou, a respeito da segregação:
“A segregação está desaparecendo, queiramos ou não. A segregação deve ser abolida pela força ou por escolha nossa, por nós do Sul que temos de arcar com o seu peso? Constitui um triste comentário sobre a natureza humana constatar-se que é muito mais cômodo, mais fácil e divertido sermos CONTRA alguma coisa que se pode ver como a pele escura do que sermos A FAVOR de alguma coisa em que só podemos crer abstratamente como num princípio moral, como a Justiça e, se olharmos mais adiante, crermos na continuidade da liberdade individual e coletiva.”
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Faulkner. O poeta das velhas verdades.},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/11-william-faulkner/03-faulkner-o-poeta-das-velhas-verdades.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1981/03/28.}
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