673 páginas que levam à exaustão. Sem recompensa.
Norman Mailer, reconhecidamente e com muita justiça, é um dos grandes escritores norte-americanos deste e de muitos séculos. Seu vasto livro de estreia The Naked and the Dead (Os Nus e os Mortos) destripa a guerra de que seu país emergira, no Pacífico e na Europa, como uma tragédia grega em que todos são vítimas do destino e o livre arbítrio é uma doce mentira para os que fazem comunhão ou o barmitzvá. A crueza, o horror, os raros momentos sublimes de solidariedade humana entre homens em guerra jorravam de suas páginas de forma cruel, uma bofetada inesquecível nos diplomatas, nos tratados entre as nações, na estratégia que dos quartéis-generais dispõem de vidas como peões inúteis, inertes e indefesos de um tabuleiro em que os interesses, o poder, a arrogância se mascaram, convincentemente, de o Bem, a Justiça, a Liberdade, a Democracia.
Em 1969, The Armies of the Night, que salvo erro foi traduzido no Brasil como Os Degraus do Pentágono (e não, como diz a orelha de seu novo livro, Os Exércitos da Noite), Norman Mailer atingia, a meu ver, o seu momento supremo. Aquela marcha incoesa de marchadores pela paz, que querem destruir outra guerra e em que se misturam esquerdistas utópicos com hippies drogados para juntos fazerem levitar o maciço prédio do Pentágono norte-americano em Washington, aquela marcha, aqueles diálogos incongruentes são todos parte de um momento inesquecível de um Norman Mailer vigoroso, superdimensional, lírico, demente, mas paradoxalmente lúcido, coerente, idealista, verbalmente feroz e eficaz como um relâmpago.
Que importância real tem o fato de ele ter ganho com esse livro o prêmio Pulitzer? Na realidade, nenhuma, a não ser talvez em termos de vendagem. de impressionar o leitor com aquela distinção.
Depois, o Norman Mailer fanfarrão é contratado pela fabulosa revista Life primeiro para descrever a subida de Armstrong rumo à Lua, seu foguete disparado de Cabo Canaveral, mais tarde Cabo Kennedy, na Flórida. Depois para captar, em palavras, a linguagem do corpo, a gestualidade de Cassius Clay, o campeão negro de box convertido à fé dos islamitas negros (black Muslims)
E, inexplicavelmente. Norman Mailer envereda por uma linha de tentadores best-sellers com uma (ruim) biografia de Marilyn Monroe e, para muitos, um enfadonho relato obsessivo da vida de um condenado à morte, A Canção do Carrasco, parecido com A Sangue Frio, de Truman Capote, mais nitidamente, palpavelmente inferior a nata original "novela de não-ficção".
Seus inimigos principalmente a revista Time como Gore Vidal, exce lente escritor, mas com quem Mailer ja entrou em conas de pugilato, gostam de enumerar as muitas mulheres com que Norman Mailer já se casou e as vezes em que ele brigou, bêbado, com críticos literários ou meros desafetos que o irritaram no momento.
Agora, um livro desproporcionalmente longo é anunciado como "o melhor livro de sua carreira" e execrado por críticos tanto exigentes quanto imparciais. Seria conveniente que a Editora Nova Fronteira, que o lança aqui no Brasil, atentasse para o fato de que, nos Estados Unidos, a Publishers' Weekly é apenas uma publicação das casas editoras e que, portanto, seus elogios - invariavelmente para qualquer livro ou qualquer editor que focalize - são descontáveis do business account das próprias editoras. Destacar a "opinião" de um órgão de editoras sobre um livro é tão enganador ou indigente quanto ler as cartas internas de uma grande empresa, como, digamos, Volkswagen, e usar o fraseado da diretoria para afirmar perante o público que os carros dessa fábrica, deste ano, são insuperáveis sob qualquer ponto de vista.…
Na realidade, Noites Antigas (673 páginas) é uma autêntica montanha-russa, em que se alternam os momentos em que o leitor, aturdido com tantos nomes difíceis do Egito Antigo, tantos deuses, sacerdotes, faraós e fellahim, esfrega as mãos esperançoso agora, sim, o livro vai decolar e ficar interessantíssimo. Curtíssima ilusão. Mr. Mailer mergulha em livros de egiptologia com a leveza de um hipopótamo as margens do Nilo e deixa o leitor mais tonto do que se tivesse sido picado por um escorpião minúsculo recém-nascido. Mas como? dirão muitos, impressionados com cifras, mas como se o autor recebeu mais de melo milhão de dólares por esse livro? Na realidade foram 501.000 dólares, pois seu editor queria poder dizer que comprara os direitos autorais por MAIS de meio milhão de dólares e, é claro, até um cent acima de 500.000 cumpre essa função de impressionar os que têm da literatura uma visão contábil.
Outros ainda redarguirão que Mailer levou dez anos, de 1972 a 1982, pesquisando sobre o Antigo Egito para documentar-se antes de parir este elefantino tour de force. Acontece que, se as obras literárias tivessem a sua grandeza ligada só à pesquisa, teses de agrônomos e geólogos, pesquisadas in loco anos a fio, teriam o potencial de obras-primas. Claro, Flaubert inteirou-se minuciosamente de como morreria sua Mme. Bovary ao ingerir veneno e nada reconstruía sem uma minuciosa análise de costumes, vestuário, vocabulário, dados históricos etc.
No caso de Noites Antigas e sua montanha-russa, depois da expectativa ingente do leitor vem sempre uma ou outra cena que deriva sua beleza curta do engenho com que Mailer usa as palavras. Mas é um truque que não dura muito tempo.
As sucessivas encarnações de Menenhetet trazem em vez da curiosidade o tédio. As orgias sexuais frequentíssimas são material excelente para uso de hard porn num indubitável roteiro cinematográfico futuro.
O que é que falta? Melhor seria dizer: o que é que escapa ao autor? O mistério do Egito Antigo, banalizado em suas mãos em violações de sarcófagos, incestos, sensualidade, intrigas palacianas carece justamente do elemento que o Harvard Magazine, num momento de brincadeira dos estudantes que escrevem a revista satírica Harvard Lampoon, conseguiu inserir como resenha de Noites Antigas: através do Egito imemorial Mailer ataca "o câncer totalitarista, a morte espiritual do nosso tempo". E hilariante!
Mailer nas noites do Egito parece um Guia Baedeker que não sabe como distribuir seus emplacements geográficos e cria entre a vida, a morte e o sexo, uma barafunda que nada tem em comum com uma cultura milenar que se debruçava sobre a Morte e seu significado como talvez nenhuma outra. Falta profundidade a Norman Mailer para emaranhar-se em águas tão profundas. O resultado, para os poucos que o lerem até o fim, é uma exaustão sem recompensa. Ou talvez haja uma recompensa promissora nas linhas de esgotamento final. Afinal, nelas, depois de um périplo tão inútil quanto exaustivo, Mailer reconhece: "Mas isso tudo me diz que devo entrar no poder da palavra". Para seus leitores decepcionados nenhuma conclusão poderia ser mais corajosa, lúcida e consoladora. Quanto ao restante, essa pirâmide sem mistério de palavras, palavras, palavras estéreis, sinceramente: que o húmus do Nilo lhes seja leve, com ou sem meio milhão de dólares.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {673 páginas que levam à exaustão. Sem recompensa.},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/21-norman-mailer/00-673-paginas-que-levam-a-exaustao-sem-recompensa.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, sem data, provavelmente 1983.}
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