Nabokov. Bufão, lúcido, crítico. Irresistível e irrepetível. (resenha do livro Fogo Pálido)
Ignorantes ou Impacientes, mantel-von longe deste livro!
Nabokov nunca escondeu suas raízes e seu desdém aristocráticos que o isolam dentro de uma redoma de requintadíssima cultura europeia. Seu horror ao que considera a massa ignara e hipócrita o coloca, com evidente prazer, na galeria de uma elite fechada, de uma ilha de muito poucos happy few.
Seus livros são tão complexos quanto labirintos e têm o andante de um jogo de xadrez como ritmo. Para suas deslumbrantes charadas literárias há um único dístico: "Ame-os ou deixe-os", ou, como se diz em inglês: "Love them or leave them", peremptoriamente. Não há uma terceira saída.
Por que tanta arrogância? Porque livro após livro The Real Life of Sebastian Knight, Speak Memory, Ada or Ardor e mesmo nos contos de, por exemplo, A Russian Beauty and Other Stories Nabokov insistentemente, deliberadamente, escreve para ser lido e degustado por poucos, não dando a mínima importância a que o chamem de "alienado", "elitista", "formalista", "esteta decadente", etc. etc. Ao contrário: são descrições de si mesmo que ele carrega no peito como os generais russos vergados sob o peso de dezenas de medalhas gloriosas.
E no Brasil Nabokov teve alguma sorte, sendo o nosso país de Alice no País dos Horrores da Tradição? Obviamente que não. Seu livro menor, Lolita, teve o que se confunde com o sucesso intelectual: o tilintar de máquinas registradoras sacando dividendos de uma vendagem baseada em dois subprodutos ínfimos desse seu romance: a filmagem, com critérios do comercialismo estúpido de Hollywood, e a abordagem ousada dos tabus que a burguesia varre, em vão, para debaixo do tapete da sua consciência e do seu hipócrita critério de "decência": a sexualidade. Uma curiosidade malsã se voltou ávida para aquele livro que falava da "tara" de um homem de meia-idade, culto e sensível, por uma ninfeta norte-americana, sensual e vulgar, ao mesmo tempo que quase tão atraente quanto uma vênus de Milo infantil e dotada de langorosos braços de inocente e sonsa vocação amorosa. A tragédia subjacente da passagem do tempo, da transformação impiedosa da Lolita do título numa gorda e comum dona-de-casa norte-americana, as humilhações e fantasias do homem mais velho, como que uma transposição do tema do preceptor mais velho da Grécia Antiga e seu pupilo pubescente tudo passou com a velocidade do cometa Halley, a maioria dos leitores ávida de saciar nas páginas filosóficas de Nabokov sua fome de sexo e pornografia.
Ada, um livro superior, deliciosamente engraçado no original, cheio de trocadilhos cultos, com situações humanas hilariantes, temos de usar de toda a nossa piedade para considerá-lo, no mínimo, não tendo sido traduzido no Brasil, já que apresentava a média de 20 erros de tradução por página. Continuemos. E Fogo Pálido, romance recém-publicado pela Editora Guanabara, 268 páginas? Antes de mais nada, é um triunfo dos tradutores Jorio Dauster e Sérgio Duarte, em luta com um original riquíssimo de alusões literárias, de trocadilhos em francês, inglês, russo e outros trocadilhos tirados de alusões literárias eruditas.
Como fica o leitor? Aí depende da atitude de quem quiser, literalmente, enfrentar este inclassificável volume. É preciso saber que John Donne e Andrew Marvel foram metaphysical poets ingleses do século XVII? É necessário conhecer as intrigas e fuxicos dos centros universitários norte-americanos com sua vidinha de cultura, maledicência e predominantemente de mediocridade para saborear esta obra-prima menor, mas mesmo assim uma obra-prima de Nabokov?
Só o leitor poderá decidir.
Porque Fogo Pálido é mais do que um desafio, apenas, é um enigma que o leitor terá de ir desvendando, fio a fio, junto com o autor. Fogo Pálido é, ao mesmo tempo, um romance de assassínio, um murder myster, uma dissertação hilariantemente douta sobre o pedantismo estéril dos professores que mumificam a literatura em rótulos (há, felizmente, exceções). E é um romance de um senso de humor delirante, com uma divisão formal inédita: primeiro se apresentam os Cantos que formam um poema de um poeta, John Francis Shade e depois páginas e mais páginas de comentários sobre os versos. Essas notas é que formam toda a estrutura do romance. Por meio dessas anotações é que se conhece o pensamento do autor, um professor universitário que desdenha qualquer contato com os idiotas pernósticos que ensinam literatura ou que criticam literatura quando sua vocação verdadeira seria a de vender cereais num armazém ou classificar arquivos de personalidades insignificantes.
Sempre profundo sob uma aparência de riso que não se consegue sufocar, Nabokov apresenta, seja no poema, seja nos comentários, a sua filosofia de vida: culta, aristocrática, estoica. Não apenas a de um exilado russo convencional, mas a de um exilado de todos os tempos e regimes: a sua voz fala pelo ostracismo dos artistas e pensadores em meio à massa falida da humanidade vulgar, burra, pedante, tendendo para o fascismo e para qualquer totalitarismo com a compulsão da gravidade a atraí-los, com a mesma intensidade, para o preconceito, o comodismo e a mediocridade insanável.
Quem assume a personalidade de Nabokov é o professor Kinbote, provindo de um país imaginário e sempre descrito com toques engraçadíssimos: Zémblia. Como Na-bokov é também o próprio poeta norte-americano fictício, John Francis Shade. Sem dúvida, o original inglês é infinitamente mais rico e matizado do que qualquer tradução que se possa fazer dessa obra holográfica, mas sabiamente e com muita destreza os inteligentes tradutores brasileiros se abstiveram de utilizar rimas fiéis ao original e mantiveram apenas a métrica dos decassílabos - o que já é muito, considerando-se a indescritível complexidade dos versos em inglês, tão recônditos de significado quanto o quase impenetrável livro de Samuel Beckett More Pricks Than Kicks ou até mesmo o Finnegan's Wake de Joyce.
Sinceramente, não seria honesto espantar o leitor com tantas citações difíceis, a ponto de a priori ele desistir de ler Fogo Pálido. Sua leitura compensa todos os esforços, sinceramente, pois raras vezes o leitor poderá rir tão intensamente, com gargalhadas já próximas das lágrimas, como ao ler este endiabrado Nabokov. Já o poema é um pretexto para piadas rebuscadas, mas deliciosas. Os exemplos são fartíssimos, impossíveis de enumerar. Qualquer meditação serve, embora seja de uma seriedade filosófica abissal, para comentários hilariantes: Sobre a existência de Deus e de uma vida depois da morte: "Em que momento, no gradual declínio, Chega a Ressurreição? Que dia, que ano? Quem comanda o relógio e enrola a fita? Têm menos sorte alguns? Escapam todos? Um silogismo: os outros morrem, eu não sou outro; assim, não morrerei..."
Quem sabe a morte permitirá longos passeios pelos paraísos prometidos aos fiéis pela religião islâmica, subentendendo-se a promessa também muçulmana de que nos jardins do Eden post-mortem teremos uma potência sexual jamais saciada, com mulheres belíssimas, as houris, sempre prontas a nos renovar os êxtases da carne? E mais ainda: a morte nos deixará plenamente em forma para passearmos, longamente, com Sócrates e Proust entre os ciprestes, debatendo problemas de filosofia, educação, a decadência da aristocracia, o preconceito contra os judeus, a marginalização do artista, os obstáculos colocados diante de toda realização amorosa, inclusive a do amor por pessoas do mesmo sexo e de classes sociais diferentes? Que redenção haverá para a banalidade da televisão e seus anúncios, que rebaixam toda a cultura para o seu nível mais infamemente burro е consumista como no trecho:
"Uma ninfa, dançando em piruetas,
Entrou num bosque e foi ajoelhar-se
Diante de um altar engalado
Com dezenas de artigos de toalete."
Meditações sobre a morte reminiscente de um Marco Aurélio rompem o painel brincalhão e alegre com mosaicos perfeitos como este:
"Pois que morremos todo dia, o olvido
viceja nas tíbias ressequidas,
Porém nas coisas vivas. Os melhores
Momentos do passado hoje são pilhas
Mofadas de papéis, nomes e números."
Na metamorfose física nós nos transformaremos amanhã numa flor, numа mosca, enquanto uma traça devora as palavras e iluminuras de um missal, lentamente: “O tempo é sucessão, e esta é mudança”, referindo-se aos totalitarismos das revoluções redentoras modernas:
“Mas quem pode ensinar que pensamentos
Devemos convocar ao nos marcharem
Pela manhã ao paredón, por ordem de um gorila fardado?
“A Vida é uma charada que a princípio é encarada com escárnio:
“A Vida Eterna - um erro tipográfico!"
Depois passa a:
"A vida humana como comentário
A obscuro poema inacabado."
Até a esperança mística de que como um jogo de palavra lavra cósmico seja "fantasticamente planejada/ricamente rimada" e, com total franqueza:
"Acho que entendo
A existência, ou ao menos uma ínfima
Parcela desta minha, em termos de arte,
Do meu prazer de combinar palavras.
E se meu mundo interno escande o verso,
O mesmo há de ocorrer no das galáxias,
Que creio ser perfeito decassílabo.
Estou razoavelmente convencido
De que sobrevivemos..."
Os comentários armam o quebra-cabeças. Há um sutil fio de novela policial: quem matou o poeta? Servem essas notas também para que Nabokov erija um museu de cera de personalidades excêntricas, como sempre fascinantes quando brotam de sua imaginação: um juiz que cola carinhosamente os dados biográficos e as fotografias das pessoas que condenara à morte ou mandara para a prisão, a universidadezinha presunçosa que manda plantar na "alameda Shakespeare" somente as árvores mencionadas pelo grande dramaturgo inglês em suas peças ou em seus sonetos de amor; os zemblianos têm como passatempo favorito matar todos os Reis e Rainhas além de pretendentes ao trono de forma violenta; bombeiros incendiários açulam a multidão a linchar os piromaníacos não-sindicalizados (e só estes). Os monarquistas e os Demos (democratas moderados) poderiam ter salvo Zêmblia de se tornar uma tirania moderna típica, "caso houvessem podido resistir ao ouro corrompido e às tropas de robôs que um poderoso Estado policial, aproveitando-se de sua situação privilegiada a poucos quilômetros de distância, do outro lado do mar, despejava sobre a Revolução Zemblana”. Como em outros livros, Nabokov dardeja seu sarcasmo vitriólico contra dois monstros que detesta: Freud e Marx, como no diálogo que mantém com o poeta Shade:
"Acerca do impacto e da interpenetração do marxismo e do freudismo, eu disse: A pior, entre duas doutrinas falsas, é sempre aquela que for mais difícil de erradicar Shade: Não, Charles, há critérios mais simples: o marxismo precisa de um ditador, e um ditador precisa de uma polícia secreta, e isso é o fim do mundo; mas o freudiano, por mais imbecil que seja, ainda pode depositar seu voto numa urna, mesmo quando chame a isso (sorrindo) de polinização política".
Abordam-se outros temas ainda atuais, como o preconceito racial: "Shade declarou que o que mais detestava no mundo era a Vulgaridade e a Brutalidade, ambas idealmente reunidas no preconceito racial. Diz-se que, como homem de letras, não podia deixar de preferir a expressão é um judeu' a é um homem de ascendência judaica', ou 'é um preto a é um homem de cor', mas acrescentou imediatamente que essa maneira de mencionar dois tipos de preconceitos num só fôlego era um bom exemplo de superposição descuidada ou demagógica (muito explorada pelos esquerdistas), pois apagava a distinção entre dois infernos históricos a perseguição diabólica e as tradições bárbaras da escravidão".
Como deixar de sorrir ou de gargalhar mesmo diante da originalidade dos conceitos magníficos de Nabokov/Shade:
"Todos os sete pecados capitais são pecadilhos, mas sem três deles - o Orgulho, a Luxúria e a Preguiça a poesia talvez nunca houvesse nascido".
Ou ainda:
"Todas as religiões se baseiam em terminologia obsoleta."
Sucintamente, Kobote analisa a União Soviética desde 1917 para concluir: "Na Rússia moderna, as ideias são blocos pré-fabricados, de cores lisas; o matiz está proibido, o intervalo é murado, a curva cede lugar aos degraus grosseiramente recortados".
Além das peculiaridades risíveis da língua russa e seu suposto autoritarismo exemplar: "O pouco (do idioma) zemblano que (os dois soviéticos) sabiam era falado com aquela cômica pronúncia russa que dá às vogais uma plenitude sonora de cunho didático".
Vladimir Nabokov zomba da era moderna e de sua intrínseca imbecilidade, instituída como poder autocrático em diferentes regimes democráticos ou fechados:
"Todo artista acredita haver nascido
Num tempo lamentável. O meu é péssimo,
Pois julga necessária a intervenção de algum gênio com nome de estrangeiro
Para fazer as bombas e foguetes
Que qualquer imbecil construiria.
Pobre e cômico tempo, que acredita
Ser um sábio o dr. Albert Schweitzer".
A decadência da literatura e das ideias na Inglaterra, "onde outrora a poesia/mais alto se elevava": é o crepúsculo de uma Europa anterior ao terrorismo, à violência das guerras intermináveis, de El Salvador ao Afeganistão, do Camboja à Eritréia que este livro menor mas admirável evoca. Com uma eventual lágrima furtiva, como nas óperas kitsch italianas, mas sempre com o rigor de um mestre das palavras e do pensamento: irresistível bufão, lúcido, este Nabokov irrepetível!
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Nabokov. Bufão, lúcido, crítico. Irresistível e irrepetível.
(resenha do livro *Fogo Pálido*)},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/13-nabokov/01-nabokov-bufao-lucido-critico-irresistivel-e-irrepetivel.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, sem data, provavelmente 1985.}
}