J. D. Salinger
O crítico literário francês Michel Mohrt reconhece no puritanismo uma das raízes principais da literatura americana: “toda a obra de Henry James pode ser explicada pelo puritanismo”. Segundo ele, até a obra caótica e efervescente de Scott Fitzgerald retrata uma consciência dilacerada por imperativos divergentes de uma lei moral e de uma lei artística. Por outro lado, críticos americanos, entre os quais Aldrige e Alvin, constatam um divórcio crescente entre os escritores e o grande público, em geral, nos Estados Unidos. Um autor contemporâneo, de 40 anos de idade, J. D. Salinger, exemplifica, em sua obra quantitativamente exígua, ambas características a constante e a atual da literatura yankee. Em Salinger encontramos não só a preocupação ética, que Mohrt atribui ao puritanismo sobre o qual se assenta toda a civilização americana, como também a confirmação do impasse hodierno entre o autor e a sociedade, a documentação de uma angústia derivada de uma análise da instabilidade dos valores fictícios da massa, fortemente contrastados com a busca de valores culturais e espirituais de uma sensibilidade jovem. São conhecidos os choques dos intelectuais americanos com os mores do seu país, desde o Babbit criado por Lewis até à crítica desencantada da chamada lost generation e desde o exílio voluntário de Henry James, Gertrud Stein, Pound e outros até o conflito violento entre o público e a obra de Tennessee Williams e Arthur Miller. Salinger, cuja produção se reduz, até agora, a uma série de contos excelentes publicados na revista New Yorker e a uma novela - The Catcher in the Rye - simboliza também, de maneira eloquente, uma terceira característica constante em grande parte da literatura americana: a atitude romântica. Romântica no sentido que Rousseau dá a esse termo: identificação com a Natureza, apologia do “homem natural”, do ser humano ainda não pervertido pela era da máquina e das aglomerações urbanas, nem vítima ainda da vertiginosa «massificação da sociedade do século XX. Romântica também na acepção de idealização do ser humano, de crença nos ideais humanitários e sociais da teoria transcendentalista, romântica na sua origem.
Isolado em meio a uma literatura que como a literatura alemã, é constitulda, fundamentalmente, de artistas isolados, sem coterie nem uma tradição literária, como a francesa, Salinger, não se isola, porém, da sociedade em que vive. Sem destruir o mito da American Way of Living, como Williams e Miller, Salinger anota aspectos diversos da vida americana, desenrolados à sombra de instituições todo-poderosas, muitas vezes impregnadas de um utilitarismo chocante, ditado pelo big money e pelo big business. Em The Catcher in the Rye, um livro sumamente sensível, de admirável inventividade irresistível humour anglo-saxônico adolescente revoltado, Holden Caulfield, se insurge, como o confuso Brick de Gato em Teto de Zinco Quente, contra a hipocrisia e a mentira, irmanando-se aos jovens irados ingleses liderados por John Osborne, o autor de Lock Back in Angers. Caulfield, ou indiretamente: Salinger, luta, como eles, pela preservação do individualismo numa era que cada vez mais se assemelha às sinistras predições de Huxley e de Orwell (respectivamente em Admirável Mundo Novo e 1984), referentes ao predomínio da massa e de um onipotente e onipresente Estado. Esse personagem é como que um Candide voltairiano, amadurecido pelo desencanto e tornado ceticamente amargo diante de um mundo que em nada se assemelha “ao melhor dos mundos”. A sua ironia, a sua frustração não conduzem, porém, à condenação global de uma civilização e é justamente esse cará ter conciliatório e construtivo da obra de Salinger que contrasta vivamente com as demais críticas à maneira de viver americana.
Como os retratos de adolescentes de Joyce e (principalmente) de Dylan Thomas (The Portrait of the Artist as a Young Dog), fortemente impregnados de traços autobiográficos, o acervo da produção literária de Salinger documenta as diversas fases da sua concepção do mundo, culminada com a sua novela mencionada. Seu enredo linear serve de base a uma série de cenas saborosas pela sua frescura, pela sua espontaneidade sincera: um jovem de 16 anos, expulso do colégio por falta de aplicação, passa uma semana na Babel que é a Nova York moderna, antes de regressar à casa de seus pais comunicar-lhes sua pequena tragédia juvenil. As conclusões precocemente argutas a que chega esse adolescente são surpreendentes. Referindo-se a certas convenções sociais, ele diz: O diretor do Colégio disse que a vida é um jogo e que devemos viver respeitando as regras desse jogo... Eu pensei: jogo, pois sim... Se você cata do lado em que estão todos os figurões importantes, então, sim: é um jogo direitinho, mas você ficar de outro lado, onde não estão os sujeitos importantes, então: que jogo que há nenhum, eu lhe digo... O seu vocabulário pouco preciso, seu desleixo gramatical, seu emprego frequente de gíria são manifestações externas de sus independência e de sua гevolta em pactuar com o que considera um mundo insincero. A sua irreverência diante dos tabus sociais é desconcertante e no mesmo tempo encantadora, criando cenas divertidas. quando satiriza os snobs, os hipócritas ou cenas comoventes na sua simplicidade e na sua franqueza, quando, por exemplo, ele se identifica com os humildes percorre, atônito, os labirintos de uma Sodoma e Gomorra disseminada por uma metrópole de nove milhões de habitantes. Ecoa também na obra de Salinger a demanda romântica de um Paraíso perdido na pureza original da infância e em quase todas as suas short stories encontra remos sempre crianças, como também nessa novela saudada na Inglaterra, pelo austero New Chronicle, como “uma obra impregnada de verdade, com raízes projetadas dentro da própria vida... uma obra espirituosa, patética e comovente...”. Além do adolescente ser intermediário entre a criança e o adulto, há a personagem importante da irmã menor da figura central, bem como várias vignettes rápidas e incisivas de outras crianças, que trazem uma nota de ternura a essa revelação por vezes cruel dos aspectos mais sublimes e mais sórdidos de uma grande cidade. O próprio tema do livro deriva-se de uma canção escocesa, baseada num poema de Burns, e expressa o desejo supremo do protagonista central: Sabe do que eu gostava de ser mesmo? (trata-se de um diálogo com a irmã menor). Eu sempre vejo mentalmente crianças jogando um jogo qualquer, brincando num imenso campo de centeio. Milhares de crianças e nenhum adulto por perto. Exceto eu, claro, e eu estou de pé junto a um precipício enorme. O que eu tenho a fazer é pegar todo mundo que começar e se aproximar do abismo, isto é: todo mundo que vier correndo para a beira, eu tenho que pegá-los. Isso é o que eu gostaria de fazer o dia todo. Eu sei que é uma coisa maluca, mas é a única coisa que eu gostaria de fazer... Não será necessário insistir no simbolismo profundo dessa imagem, detrás de cujo hieróglifo se oculta um universal amor ao próximo. E ainda para exemplificar como o autor aborda, com simplicidade aparente, alguns dos temas constantes da especulação filosófico-literária, recordemos somente as observações do adolescente no museu de ciências naturais: a sua contemplação dos objetos imóveis e imutáveis, em meio à mutação incessante de tudo, inclusive dele próprio, constitui um tratamento forçosamente linear de tema de fuga do tempo leitmotiffs constante de todas as literaturas e, mais recentemente, de monumento tal Recherche proustiana e da Ode on a Grecian Urn de Keats.
A reconciliação final de Holden com o seu ambiente processa-se unicamente devido à aquisição de elementos estáveis, que debelam a sua crise de puberdade: a ternura familiar, diretrizes sólidas (como o aconselhou o ex-professor: “a característica do homem imaturo é que ele quer morrer nobremente por uma causa, ao passo que a característica do homem maduro é que ele quer viver humildemente por uma causa), o aconchego de um lar. Essa sua metamorfose confirma, em termos literários, as conclusões dos psicólogos e sociólogos americanos que, diagnosticando a onda de criminalidade juvenil apontaram como solução os mesmos corretivos: a estabilidade familiar e a estabilidade individual, em meio a uma sociedade instável, de classes sociais pouco definidas, em eterno fluxo e refluxo, de valores muitas vezes grosseiramente materiais e pragmáticos, desprovidos de qualquer transcendência. Da distância do seu isolamento, da sua melancolia e extraordinária sensibilidade, Salinger traça o itinerário de uma”sentimental journey” sem paralelo na topografia exuberante dessa vigorosa literatura.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {J. D. Salinger},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/19-j-d-salinger/00-j-d-salinger.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Diário de Notícias, 1959/11/22.}
}