Ainda existem leitores para temas como os desse escritor ingênuo?
Por que William Saroyan é um autor quase que completamente esquecido, mesmo nos Estados Unidos de hoje? Sua produção prolífica de contos, seu romance A Comédia Humana (The Human Comedy), as peças levadas na Broadway com sucesso (My Heart's in the Highland), as aventuras de seu personagem típico, Andrew Hardy, vivido na tela pelo excelente ator Mickey Rooney, numa série famosa na década de 40 produzida pela Metro Goldwin Mayer tudo parecia indicar que seu nome permaneceria como um dos mais queridos pelo grande público.
Há várias respostas, de vários ângulos, para se compreender porque William Saroyan, ao morrer ontem, desaparecera das listas de best sellers e talvez até do coração dos norte-americanos. Uma das razões é simples: William Saroyan escreveu histórias exuberantes de esperança, de otimismo, de ingenuidade, de crença no ser humano, de horror à violência em qualquer de suas formas. Na sua adorada Califórnia natal, aquele filho de imigrantes armênios que cultivavam a terra, descendente de uma raça orgulhosa e em extinção, cobriria uma trajetória esfuziante, tipicamente americana: de desconhecido talento a contratado pelos estúdios de Hollywood, com cheques de cinco algarismos, para escrever roteiros cinematográficos.
Saroyan alcançou a fama entre os dois períodos cruciais da vida nos EUA: entre a Grande Depressão, do crack da Bolsa de Valores, em 1929, até a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, depois do traiçoeiro ataque Japonês a Pearl Harbour. Escritor desleixado, a ponto de um crítico ter ironizado venenosamente que "não se podia esperar de um armênio que escrevesse bem em inglês", William Saroyan foi um autor que acreditava quase que desesperadamente nos seres humanos. Seus personagens são meigos, solidários uns com os outros, a violência das greves é execrada, a hostilidade contra os que creem em uma determinada ideologia, de esquerda ou de direita, não é aceita a priori. O mundo de Saroyan talvez nunca tenha existido, com tanta compreensão humana, tanta bondade, tanto estoicismo diante da adversidade, mas a crença inocente na generosidade alheia desapareceu com ele do panorama não só da literatura norte-americana, mas de todas as manchetes mundiais: do Líbano à Irlanda do Norte, passando pelo Vaticano.
Saroyan foi independente a ponto de recusar o mais importante prêmio literário do seu país, o Pulitzer Prize. Jactava-se de nunca ter escrito uma só linha para ficar famoso e milionário: tratava o poderoso chefão dos estúdios da Metro, Louis Mayer, familiarmente de "Louie" e nunca se inclinou perante os poderosos. Preferia sempre a chamada gente simples: pequenos agricultores, comerciantes de lojinhas em bancarrota, vagabundos que percorriam o país clandestinamente escondidos em vagões de trens de carga, músicos fracassados, mensageiros de telegramas da Western Union, balconistas de boutiques elegantes. Sua crença nos valores humanos foi um balão de oxigênio para a sociedade norte-americana, traumatizada pelas atrocidades nazistas no campo europeu e pela guerra no Pacífico contra o Império do Sol Nascente. Seus compatriotas prendiam a respiração, à espera do toque de campainha do mensageiro que tinha nas suas mãos um telegrama que informava "O Exército dos Estados Unidos tem o doloroso dever de informá-lo da morte em combate do seu filho...". Foi a América das pequenas cidades, idealizadas, com insistência apenas nos seus lados positivos, que constituiu o pequeno mundo terno de Saroyan. Setores fanáticos da Esquerda queriam engajá-lo na propaganda stalinista, mas já então Saroyan abominava o parti pris político e achava que não se devia ter pena somente dos soldados republicanos que caíam feridos ou mortos na Guerra Civil da Espanha, mas também dos pobres coitados coinvoltos naquela guerra dilacerante, e que defendiam não uma ideologia errada do fascismo franquista mas sua própria vida contra inimigos díspares: democratas, comunistas, socialistas. Enquanto Hemingway se empenhava pessoalmente ao lado dos republicanos em Por Quem os Sinos Dobram? e, mais, tarde, Norman Mailer e John dos Passos abraçavam temporariamente uma visão marxista da História, Saroyan se mantinha inflexível na sua defesa do pan-humano e na sua denúncia da ausência de amor entre os seres humanos. Pieguismo barato! redarguiam seus críticos. No entanto, talvez até sem o saber, William Saroyan foi quem preparou o terreno para o advento, décadas mais tarde, de Jack Kerouack e a geração beatnick, seguida efemeramente pelos hippies, Bob Dylan e toda a sua postura negativa diante da coisificação do ser humano nas fábricas enlouquecedoras que Carlitos satirizara inesquecivelmente em Tempos Modernos.
Saroyan representa uma fase dos Estados Unidos que possivelmente desapareceu para sempre: uma candura digna da capa da revista Saturday Evening Post pintada por Norman Rockwell, mostrando cenas idílicas inocentes, no interior de uma América pacata e caseira.
Mais do que isso, porém, a sua vasta criação significa o advento dos escritores norte-americanos que não são de origem anglo-saxônica e trazem uma perspectiva nova a essa literatura: John dos Passos era neto de português, Theodore Dreiser (autor amargo de Uma Tragédia Americana), de alemães, como Henry Miller e Thornton Wilder. Mas se cada um deles insistia numa visão pessoal da América Henry Miller considerando-a um "pesadelo dotado de ar condicionado", dos Passos ressaltando em sua trilogia U.S.A. as desigualdades sociais gritantes da era de depressão, Dreiser pregando um Evangelho Segundo São Marx e a Sagrada Teologia de Salivação Dogmática que compõe com Engels e Stálin - Saroyan, ao contrário, quis sempre manter-se fora dos Comitês de Atividades Anti-americanas do senador McCarthy, criado contra os comunistas infiltrados nos grandes meios de comunicação norte-americanos, e longe das poderosas agências de publicidade, dispostas a vender o câncer sob forma de cigarros por salários milionários e usando técnicas mentirosas para tornar o fumo “glamoroso” e desejável aos olhos dos consumidores e incautos incautos e dóceis aos apelos dos anúncios.
William Saroyan é um produto da época em que ainda era possível um individualismo extremado, equidistante do big money e das Causas Políticas Sacrossantas, duas panaceias materialistas que ele, como cristão coerente, recusava peremptoriamente. Seu primeiro livro, The Daring Young Man on the Flying Trapeze, publicado em1934, no entanto, tem uma conotação trágica: quem o escreve, embora mencionado na terceira pessoa do singular, é um jovem que está literalmente morrendo de inanição. Saroyan não relatou em seus livros cenas picantes de erotismo. Nem aderiu ao naturalismo que seria a moda da época. Nem defendeu causa alguma a não ser a do lirismo, do estoicismo, da fé e da esperança na abolição da violência entre os homens. Durante algum tempo, seus milhares de leitores deixaram-se encantar por aquele mundo de faz-de-conta, que consolava tantas famílias cujos maridos, pais, irmãos, noivos, namorados e amigos estavam na frente de batalha. Terminada a guerra, terminou o sucesso de Saroyan? Em grande parte, sim: mais e mais os Estados Unidos estariam envolvidos em processos mundiais do tipo que Saroyan mais detestava: incursões militares na Coréia, no Vietnã - não havia mais lugar para sua esperança ingênua no "progresso" moral e espiritual da humanidade. Os Himmlers, os Hitlers, os Stálins seriam abatidos pela derrota ou pela morte orgânica, mas seus dignos sucessores logo surgiriam em cena: "Kaddafi, Idi Amin, Bokassa, Somoza, Stroess-ner. A América tampouco fugiria ao desmoronamento de um mundo cuja senha era a dignidade pessoal, a honra, a verdade, a solidariedade: com o escândalo de Watergate, abalara-se a crença do povo que ia às urnas na confiabilidade do cargo máximo, o do presidente da República, exercido pelo dúplice Nixon. Para os seus detratores, William Saroyan nunca cresceu, permaneceu para sempre um adolescente de olhos sonhadores e portanto fora de sintonia com a impiedosa realidade.
Para os que admiram a sua tempera, Saroyan tem o mesmo espírito indômito de um Jack London, combatendo sozinho contra o mundo, ou o lirismo de um Walt Whitman, celebrando a congregação das raças no cadinho utópico das Américas... Ele mesmo se encarregava de responder a quem o acusava de ser sentimental e fugir realidade: "Acho que sempre fui um escritor profundamente realista, embora não pareça sê-lo superficialmente. Mas não acho que escrever seja um ato sentimental, apesar de meramente sermos seres humanos ser uma coisa muito sentimental".
Fora de cogitações tão enraizadas na busca de uma definição ideológica ou na criação de um estilo literário, porém, frequentemente se esquece que Saroyan foi um escritor profundamente engraçado e filosófico. Na sua sátira indireta do big business norte-americano, em busca do lucro passando por cima de quaisquer valores humanos, há muito da graça chapliniana no diálogo entre o jovem Saroyan, que em busca do primeiro emprego, responde à pergunta feita de cara fechada pelo entrevistador:
"Fui ao prédio no ângulo das ruas Market e Sixth (em San Francisco) onde estão os escritórios centrais da Companhia da Relva de Ciprestes Cemitérios Limitada (Cypress Lawn Cemetery Company). Trabalhei lá também.
O vice-presidente da firma me perguntou: "Você tem intenção de tornar a Companhia Cypress Lawn a carreira única da sua vida inteira?" "Sim, senhor", eu respondi. Consegui o emprego."
Como há um humor delicioso nos comentários do dono da funerária que lamenta que durante o Natal daquele ano não tenha havido uma epidemia de gripe, o que fez baixar os lucros da sua funerária. Ao que o jovem empregado replica: "Mas logo compensarão essa perda, não é?" Ou no slogan publicitário que ele escrevera para divulgar aquele negócio macabro cujos gráficos de vendas subiam à custa de epidemias e mortes violentas: "Enterre-se aqui. Um bocado de dinheiro o espera", tradução imperfeita de um jogo de palavras em inglês: "Inter here. A lot for your money", a lot significando tanto muito, bastante quanto também um lote, uma quadra para sepultamento. Os nomes dos seus personagens também são frequentemente cômicos ou poéticos: o mensageiro que entrega telegramas tem o nome do criador da Ilíada e da Odisséia gregas: Homero. A cidadezinha onde seus serenos e bondosos cidadãos moram se chama Ítaca, como a aldeia da Grécia Antiga para a qual Ulisses, símbolo do gênero humano, regressa, depois de quase uma década de perigos longe de casa. Um preto que joga dados com o jovem boêmio em San Francisco se chama Doughbelly, que é mais ou menos "Barriga mole", ou barriga de dough, uma farinha doce com a qual se fazem as rosquinhas chamadas nos Estados Unidos de doughnut...
Possivelmente, a razão mais profunda pela qual Saroyan perdeu a ressonância que teve há 50 anos foi, sem dúvida, a sua insistência num valor obsoleto e cada vez mais arcaico: a liberdade. A liberdade, aliada à verdade, eram as suas únicas obsessões: nem o sexo, nem a ideologia, nem ficar rico, nem entrar para a fila dos conformistas. Só a verdade e a liberdade lhe pareciam decisivas para a vida humana valores, realmente, em desuso crescente hoje em dia.
Por isso, talvez não se lê nem se reimprime um autor que, por menor que seja na escala dos escritores contemporâneos, ficou justa e completamente eclipsado por um Faulkner ou pelas trombetas altissonantes em torno de um Sartre ou de um Malraux. Saroyan deixou frases, contudo, que se acreditava serem eternas enquanto o ser humano não se tivesse robotizado e coisificado a ponto de não reconhecer nelas a meta de qualquer existência humana:
"O que tinha a minha criação literária que pudesse ser útil para todos os que quisessem escrever, em geral?
A liberdade.
E que mais?
Acho que a minha obsessão em chegar à verdade provável a respeito do ser humano, da natureza, da arte, perfurando tudo até chegar ao cerne do que nós somos realmente.
(Minha meta) era a de nos libertar da compulsão dos prazos, da pressão avassaladora do tempo. Tornar-nos livres de tudo que é inútil e postiço, não importa quão fortemente enraizados na fábula do percurso do ser humano. Mas esta esperança de liberdade, esta necessidade dela, não quer dizer jamais que devamos ficar furiosos, fanáticos. Ao contrário, pois a liberdade, a verdadeira liberdade, a liberdade verdadeira, aproxima a fábula da vida humana cada vez mais da ordem, da beleza, da graça, do significado - todos eles elementos que podem ser corrigidos em seus pormenores, revistos, melhorados, refinados, ampliados, engrandecidos."
Não são temas populares hoje em dia a liberdade e a verdade. Muito menos quando a elas se acrescenta uma pitada humaníssima de senso de humor diante das fraquezas e da solenidade pomposa e grotesca de certas atitudes humanas. Afinal, para um autor que achava que a inteligência continha inextricavelmente o amor ao próximo e o sorriso - pode ainda haver leitores interessados hoje em dia?
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
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booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/15-william-saroyan/00-ainda-existem-leitores-para-temas-como-os-desse-escritor-ingenuo.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1981/05/19.}
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