A ficção que não foi inventada (entrevista)
Por motivo de doença em sua família, à última hora, ele que, junto com Toni Morrison, seria uma das grandes atrações norte-americanas durante a 2ª Bienal do Livro de São Paulo, não pôde vir ao Brasil. Paul Auster, 43 anos, viveu durante vários anos na França e em Nova York, traduzindo livros do francês para o inglês ("uma atividade tão mal remunerada que havia épocas, na minha vida, desesperadoras do ponto de vista financeiro") e renovou toda a estrutura da história policial. No entanto, além da sua Trilogia de Nova York (City of Glass, Ghosts e The Locked Room), tornou-se um dos talentos mais evidentes da literatura norte-americana contemporânea com In the Country of Last Things, um vigoroso afresco do declínio de uma grande metrópole, com cenas kafkianas de horror, loucura e, paradoxalmente, amor e caridade também. Paul Auster concedeu via satélite, no Consulado Americano, esta entrevista ao “Caderno de Sábado”:
Mr. Auster, um dos aspectos que mais me impressionaram ao iniciar a leitura de seu livro In the Country of Last Things foi o clima de final de civilização, de inoperância de toda e qualquer autoridade, como se fosse o prelúdio do apocalipse. Esse ambiente desolador recordou-me bastante o do começo de A Laranja Mecânica. É uma tendência dos autores contemporâneos captarem a decadência geral que parece se apoderar de nossa época?
É um acaso, porque ouvi falar de A Laranja Mecânica e a seu respeito, mas nunca li o livro.
O livro relata a violência de quadrilhas de delinquentes juvenis que se apoderaram de uma Londres decadente, presumivelmente um retrato do amanhã, com a queda de todos os padrões éticos e estéticos.
A respeito do meu livro, gostaria de salientar que nele não trato do futuro, não é um livro de ficção científica nem uma previsão do que acontecerá amanhã. Para falar a verdade, meu livro fala mais mesmo é do passado. O subtítulo que sempre me acompanhou na feitura deste livro foi Anna Blume Caminha Pelo Século XX. Há muitas referências a fatos históricos nele, fatos históricos verdadeiros; infelizmente, não tive a oportunidade de inventá-los, foi uma pena. No meio do livro há uma cena absolutamente crucial, essencial, quando Anna precisa comprar um par de sapatos e dá de encontro com o que se revela ser um matadouro para seres humanos. Eu soube da historicidade deste acontecimento lendo um livro sobre o cerco de Leningrado: os alemães circundaram a cidade de Leningrado durante dois anos e meio, durante a Segunda Guerra Mundial. É um fato: 500 mil pessoas morreram só nessa cidade. Muitos russos que buscavam provisões e mercadorias extremamente escassas naqueles tempos de guerra eram atraídos para um edifício com a promessa de obter o que queriam e aí eram assassinados e seus cadáveres eram depois vendidos como carne de açougue. Eu não inventei isto: trata-se de um acontecimento verídico, histórico, verificável. Existem ainda outras referências em meu livro sobre o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, como referências aos guetos que os alemães erigiram, em Varsóvia e outras cidades...
E dados também sobre os campos de extermínio?
Exato, bem como as coisas que se sucedem neste instante mesmo no Terceiro Mundo. Por exemplo, a descrição longa, detalhada, que faço do recolhimento do lixo baseia-se precisamente na coleta do lixo tal como se dá hoje em dia na cidade do Cairo, no Egito.
O sr. se refere aos monturos de lixo com urubus e mendigos catando restos de comida neles, algo assim?
Não, eu estava falando de como é organizado o sistema de coleta de lixo: há os negocistas ou negociadores de lixo que depois sublocam a outras pessoas porções do lixo mediante contratos de trabalho, que se estendem depois a outros subgrupos, formando toda uma rede complexa de "lidadores" que lidam só com essa "mercadoria" que é o lixo, no Egito.
Meu livro é, sem dúvida, um livro sombrio reconheço, mas a minha visão não é pessimista. Creio, ao contrário, que é um livro sobre a esperança, sobre a capacidade Humana de sobrevivência, de luta.
É talvez simbólico o fato de que a personagem principal, Anna Blume, continua a busca de seu irmão num mundo que entra em colapso ao seu redor, não?
Precisamente, o mero fato de um leitor estar com o livro nas mãos, lendo-o, indica que há circunstâncias que não podem ser previstas inteiramente. Não sou um adepto de Rousseau, como você me perguntou; para mim os seres humanos são ambas as coisas: bons e maus. Ao contrário, qualquer outra visão é que me parece um tanto ingênua. A concepção de que o homem é bom e puro conduziu a todos os tipos de catástrofes, principalmente no século XX. O comunismo, que tinha metas tão elevadas e idealistas, fundamentou-se na ideia de que, uma vez reestruturada a sociedade, logo surgiriam as melhores potencialidades de cada pessoa e tudo funcionaria de maneira excelente. No entanto, a vida continuou com seu quinhão imutável de ganância, de egoísmo, de inescrupulosidade. É com aspectos desse tipo da natureza humana que temos que lidar de forma realista.
Mas aí não se mumificou a realidade, no sistema comunista, com a adoração de dogmas e a predominância do fanatismo?
Para mim, o fanatismo é algo que me assusta profundamente, seja qual for a forma sob a qual apareça. Talvez o fanatismo seja uma das forças, das ameaças mais perigosas do mundo de hoje. E nós o vemos crescer em torno de nós quase por toda parte. O ideal democrático, no qual eu creio, pressupõe que não prevaleça uma ideia só, mas sim um pluralismo, mas esse ideal democrático vai contra a natureza humana, portanto é dificílimo de subsistir.
O fanatismo religioso parece uma das características da nossa época, com a condenação dos infiéis, a busca de conversão religiosa à força...
Exatamente, refiro-me a certos regimes religiosos fanáticos no Oriente Médio em nossos dias e não só aos fundamentalistas muçulmanos como também aos fundamentalistas cristãos que temos aqui nos Estados Unidos, de modo que não estou dando ênfase mais a um do que a outro: todas as intolerâncias e fanatismos são igualmente uma ameaça, como por exemplo os fundamentalistas cristãos partem do ponto de vista de que tudo que está escrito na Bíblia è literalmente verdadeiro.
Esses grupos estão relacionados com muitos falsos, hipócritas "pastores" protestantes, que usam a TV como Elmer Gantrys da era tecnológiса?
São todos fenômenos correlacionados entre si. Não sei se chegou a seu conhecimento a celeuma furiosa que se acendeu em torno do National Endowment for the Arts (Dotação Nacional para as Artes), que tem sido uma instituição do governo norte-americano que tem trazido apoio para realizações maravilhosas aqui nos EUA, durante os últimos 25 anos. Foi uma organização que beneficiou um sem-número de artistas neste país. Ultimamente, levantaram-se vozes contra ela e corremos o risco de ela vir a ser interrompida totalmente: tudo faz parte dessa maré de fanatismo e intolerância que varre a nossa época, no mundo inteiro.
O sr., como escritor, acredita que a Literatura possa contribuir, já não digo para mudar o mundo, mas para tornar as pessoas conscientes do tempo em que vivem e da natureza humana?
É problemático para mim ser um escritor: creio que a Literatura, a Arte podem mudar as vidas das pessoas, de forma indireta, mudar para melhor, mas não é o que acontece sempre, forçosamente. Sim, porque, se pensarmos bem, veremos que algumas das pessoas mais cruéis e mais sádicas do mundo foram, ao mesmo tempo, grandes e requintados amantes da Arte! Uma coisa nada tem a ver com a outra. Os nazistas ouviam Schubert, liam Goethe e depois saíam matando milhões de judeus.
Mas um livro não modifica nada para uma pessoa?
Permita que eu fale de mim: acho que li livros extraordinários que tiveram uma influência tremenda sobre mim, sim, a ponto de modificar meu ponto de vista sobre o mundo, como Beckett. Quando uma obra de arte é profunda, ela se comunica com o leitor ou espectador - uma intercomunicação humana se dá naqueles momentos. Foi o que aconteceu comigo quando li Dostoievsky: Crime e Castigo. Não só a extraordinária penetração psicológica do interior de um ser humano, mas também que alguém pudesse expressar o que eu jamais julgara ser possível exprimir. Com Dostoievsky e Melville (Moby Dick), eu decidi ser escritor.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {A ficção que não foi inventada (entrevista)},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/26-paul-auster/00-a-ficcao-que-nao-foi-inventada-entrevista.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1990/09/22.}
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