Walt Whitman, poeta polêmico

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1990/04/14.

Autobiografia é, nos países de língua inglesa, notadamente na Inglaterra e nos Estados Unidos, um gênero literário autônomo, às vezes cultivado magnificamente quando desenham a vida de Joyce, de Oscar Wilde e mesmo de autores estrangeiros como Garcia Lorca e Proust.

Não é declaradamente, o caso deste infortúnio em forma de livro: Walt Whitman, a formação do poeta, de Paul Zweig (no original norte-americano Walt Whitman-The making of a poet), Jorge Zahar editou no Brasil, seis anos depois de seu lançamento em Nova York. Este insuficiente estudo de Whitman (apesar de suas 350 páginas de blábláblá) prova:

1) que nem os severos resenhadores de probos jornais como os do The New York Times Book Review, nem dos ingleses The Sunday Times e The Guardian leram ou compreenderam a confusão criada pelo biógrafo;

2) que Paul Zweig não trouxe qualquer elemento novo para o estudo da contraditória carreira literária do autor de Leaves of Grass.

No longo prefácio, o biógrafo declara sua intenção primordial: "Uma vez que a vida e o trabalho de Whitman foram radicalmente interligados, devem ser vistos em conjunto, como partes de um empreendimento, e é esta a minha intenção". Intenção da qual o presunçoso Paul Zweig se esmera em ficar bem longe.

Imagina-se que uma biografia abranja os anos que precederam o auge da criação de um artista. Não. Paul Zweig só se interessa por Walt Whitman, nascido em 1819, a partir de 1855 e até 1865. Antes e depois infância, adolescência e velhice, nada! Como a deusa da inteligência do Olimpo da antiga mitologia helênica, Whitman aos 36 anos de idade tem como que um "estalo de Vieira": esse americano comum, sem talento visível, viria a publicar o mais original livro de poemas até então escrito nos Estados Unidos. Não nos enganemos: nenhum dos fatos interiores da vida exuberante de Whitman preocupará Mr. Zweig, que claramente inveja e muito! os grandes críticos como L.A. Richards, Richard Blackmur, Lionel Trilling, Edmund Wilson e Kennethe Burke (sem falar em War- ren e Wellek, do new criticism!!), afirmando que pouco tiveram a dizer sobre Whitman. Tolice insuperável:

Por quê? Porque até hoje Whitman constitui um áspero divisor de águas entre admiradores e detratores de sua obra. Exceto alguns poucos poemas, para muitas das supremas inteligências e sensibilidades dos EUA e da Inglaterra o autor de Leaves of Grass não passou de um enfunado orador como esses fanáticos pregadores que exigem dos “pecadores” um “renascimento em Cristo”. Mas com a diferença que para Whitman Cristo mudara de nome, se chamava agora América e Democracia aliás, uma estranha "democracia” que eliminava a mulher e só admitia ferreiros, fazendeiros, cocheiros, a raia-miúda masculina da Nação que se formara abrindo o Oeste, roubando partes imensas do México, exterminando os índios que encontrava pela frente e sucumbia temporariamente diante de uma Guerra Civil em meados do século panado, em prol da abolição da escravatura, mas mais provavelmente a fim de preservar a união nacional, segundo os desígnios mais profundos de Lincoln

Whitman, sempre imbuído da unicidade irrepetível de seu "gênio", não achou nada demais sua ascensão como tipógrafo e jornalista de jornalecos de Brooklin a poeta polêmico. O tamanho do narcisismo whitmaniano pode ser aquilatado por este trecho de resenha não assinada (mas redigida e estampada por ele, em louvor de si mesmo e de seu livro):

“Grande, orgulhoso, carinhoso, comilão, bebedor e fecundador, seus trajes masculinos e livres, seu rosto queimado de sol e barbado, sua postura forte e ereta, sua voz trazendo esperança e profecia às generosas raças de jovens e velhos... falando como um homem sem noção de ter existido até então um produto chamado livro, ou um ser chamado escritor. Todos os seus movimentos têm o jogo livre da energia de um homem que nunca soube o que era sentir-se em presença de um superior. Todas as palavras que se desprendem de sua boca demonstram silencioso desdém e desafio às velhas teorias e formas... Se a saúde não fosse o seu atributo marcante, esse poeta seria verdadeiramente uma prostituta. Joga os braços para todos os lados, envolvendo homens e mulheres com irrecusável amor em seu apertado abraço”.

Whitman tinha uma concepção atlética da poesia: ela deveria se desenvolver, de preferência, num campo de esportes para belos adolescentes, mesmo os de ínfima casta social (pois isso era a Democracia vagamente grega que ele queria instituir, com exclusão das mulheres, a não ser ocasionalmente como mãe ou como introdutoras do elemento da piedade, no rude mundo dos homens...). Seria a corporificação do ideal latino, de Roma Antiga, do corpo são numa mente sã? Claro que não, pois se ele insistia sempre, com ênfase, que não era um literato, que mal completara os primeiros anos da escola primária e fora sempre um autodidata confuso. Tratava-se, isso sim, de um fenómeno que ele considerava especificamente americano, inédito no mundo: era o homem comum, sem colete e paletó, nem recursos literários refinados, que vinha aproximar a literatura, feita por um homem comum, para os homens comuns. O catecismo pessoal de Walt Whitman incluía outros ingredientes: era preciso aderir a todos os chavões da sua época: um patriotismo já beirando o irracional e mesmo o fanatismo, a crença, sem hesitações, no "progresso" e na "democracia", a devoção diante do altar da Mãe, que encarnava na Terra as virtudes de sacrifício, abnegação e amor de Cristo, crucificada diante de um mundo insensível à sua dor e à sua doação suprema... A Mãe era a mulher para a qual Whitman sempre abriu uma exceção, reservando-lhe um nicho em meio aquela catedral talhada nas Montanhas Rochosas, na região dos Lagos, nos prédios altos de Manhattan, no esplendor e pujança de um país riquíssimo e generoso. Generoso desde que o interlocutor fosse branco, protestante, de origem anglo-saxônica e, evidentemente, nem judeu, nem índio, nem negro, nem indecência das indecências! fosse homossexual, é claro. Como típico self-made man americano, o poeta recortava de revistas e jornais de várias categorias artigos sobre os mais diversos temas, sublinhava as partes importantes e começou a ler, com anotações à margem, desde Carlyle até Epicteto, o Velho Testamento, Emerson, poemas de quinta categoria de poetas "românticos" cujo nome a História nem se deu ao trabalho de registrar...

Segundo seu biógrafo, em dia de pouca imaginação e lucidez, Whitman distinguia-se de Shelley - que cumpre acrescentar é um grande poeta - e para quem os poetas são “os legisladores desconhecidos da humanidade”, diferenciava-se de Wordsworth, o sutilíssimo autor de Ode on intimation of immortality, para quem o poeta era “um sacerdote da natureza” e ultrapassava o conceito de Carlyle - sempre avesso à Democracia que considerava o "aviltamento da raça humana” para quem o poeta era “um herói da humanidade”. Não: na realidade, Emerson tinha acertado com sua intuição de que o poeta “era o único homem completo no meio de homens divididos”. Com esta concepção, Whitman se irmanava: e ele seria o primeiro homem completo, sem divisões quaisquer.

Paul Zweig aproxima-se da loucura comprovável quando quer absurdamente aproximar Walt Whitman do Bhagavad Gita, um dos mais sublimes textos sagrados da Índia, e do... New York Tribune, um jornal de grande tiragem e que, como dizia Whitman, tinha o mesmo objetivo do poeta: estar imerso nos acontecimentos imediatos... Falta pouco para se transformar Whitman no Reverendo Moon ou em Rajneesh. Um psiquiatra inglês, o dr. Richard Maurice Burke, que clinicava no Canadá, chegou a escrever uma demente biografia sobre o poeta norte-americano em que o compara, nada mais, nada menos, que... a Jesus e a Buda, já que Whitman constituía um avatar indicador de um novo estágio da evolução humana!!! Ora, sobriamente, objetivamente, Whitman não foi o primeiro a querer mesclar a poesia com a fala comum de todos os dias: depois das efusões muitas vezes de um emocionalismo excessivo dos românticos ingleses com Byron e na Alemanha com Wackenroder, os parnasianos franceses almejavam o verso despersonalizado, marmóreo, que no Brasil assumiu uma eloquência e uma sensualidade tropicais na poética de Olavo Bilac e finalmente os simbolistas, como Rimbaud na França e o complexo Stefan George, na Alemanha, voltavam-se para uma feitura eminentemente aristocrática da poesia, que se tornava quase um enigma, propositalmente indecifrável para o vulgo e, sem dúvida, foi o início do abismo que separa o público ledor de massa da poesia refinada, para poucos, daí por diante.

Whitman, afirma-se, teria "quebrado os grilhões que escravizavam a literatura dos Estados Unidos aos cânones cultos da poesia britânica, tomada como único modelo respeitável. Daí a Zweig, em frequente rasgo de loucura, querer considerar Whitman como o predecessor de poetas refinados, cultíssimos como TS. Eliot e Ezra Pound e, ao mesmo tempo, da geração desgarrada dos beatnicks e, portanto, de Alen Ginsberg, autor de Howl (“O Uivo”) é querer declarar que a Mona Lisa e Andy Warhol se encontram na obra dos pintores impressionistas franceses...

Walt, abreviação que ele mesmo adotou de seu nome verdadeiro, Walther, isso é preciso reconhecer lhanamente, desvencilhou-se de seu adorado modelo cultíssimo e esplêndido, um admirável, profundo poeta: Milton, imbuído profundamente de conhecimentos teológicos e de cultura renascentista italiana em seus poemas L'Allegro e Il Pensaroso e sobretudo em sua obra-prima Paradise Lost ("Paraíso Perdido). Realmente, em seus cadernos de anotações que são conselhos para si mesmo e para a feitura futura de seus poemas, Whitman sublinha

“Não faça citações nem referência a outros escritores.

Não entulhe o texto com coisa alguma, deixe-o fluir levemente como um pássaro voa no ar, como um peixe nada no mar.

Beleza, simplicidade, nada de frases tortuosas ou obscuras, a mais translúcida clareza, sem variação.

Expressões e frases comuns - americanismos e vulgarismos - baixo calão somente quando muito oportuno”

Ele declarou também, várias vezes, que sem a ópera, da qual ele era assíduo frequentador em Nova York, a sua poesia não teria jorrado. A dramaticidade da ópera notadamente italiana permanece em seus poemas, mas mesmo acima da influência da ópera paira a tradição da oratória: os americanos, não só de meados do século passado, ajoelham-se diante dos grandes oradores. Não distinguem entre a grande oratória e a demagogia dos politiqueiros ou dos "pastores" evangélicos. agora pela televisão, em busca de justiça, de elevação moral, de uma vida reta e cristã.

Inegavelmente ridícula é a dúvida que, a esta altura dos acontecimentos e depois de tantas “pesquisas” doutíssimas e comprovantes exaustivos, Paul Zweig nutre a respeito da homossexualidade mais do que patente, mais do que óbvia, de Whitman. Seu livro Leaves of Grass foi tachado por várias autoridades americanas de "obsceno", "indecente", mas como Mr. Zweig não tem um videocassete absolutamente incapaz de deixar dúvidas a respeito das tendências sexuais de Whitman, ele, sempre que pode. passa por cima desse assunto escabroso.

No entanto, chega a supor, um tanto sordidamente, que o poeta dormia na mesma cama com o irmão doente mental: nunca se saberá se houve ou não incesto, Anjos da Guarda! calcai aos pés esta nova Sodoma e Gomorra surgida nas terras límpidas da América! Até mesmo diante de um poema mais do que explícito, quando Whitman tem uma noite erótica com o que a tradução chama de “um crioulo” na cidade portuária sulina de Nova Orleans, ele se interroga, suando: será mesmo? terá havido de fato?!

Diz um trecho crucial do poema:

“Noite nupcial

numa trêmula gelatina de amor

límpida transparente

Ilimitados jatos de amor quentes e enormes...

Ébrio e louco de amor nadando

Em seu... no mar incomensurável!

Intumescida carne do amor

Carne inchada eu do amor e deliciosamente

doloroso sangue branco do amor.”

Zweig não sabe literalmente qual interpretação adotar. Ora diz: “Um século depois, a vida sexual de Whitman ainda é um mistério. Era ele homossexual?” Tornou-se abertamente homossexual nos anos 1850s, sendo a sua nova poesia uma celebração de liberdade erótica? Quem eram os homens que ele relacionava nos seus cadernos de 1850: jovens, fisicamente atraentes, em geral trabalhadores ou cocheiros até mesmo policiais?" Segue-se uma lista farta de nomes de "possíveis" amantes de Walt Whitman e suas características físicas.

Mas Paul Zweig, durante alguns minutos, parece decidido a aceitar a tese e escreve

“Qualquer amor que ele tenha sentido foi por homens, isto está bastante claro”. E ainda, o óbvio:

“Os poemas de Cálamo são lúcidas rapsódias de amor e perda. Estão entre os melhores poemas de amor em língua inglesa e são dirigidos a um homem”.

A “camaradagem” viril entre homens teria como argamassa a solidificá-la o amor homossexual, que por sua vez constituiria o elo fundamental da “Democracia”, seja qual for a acepção personalíssima que o poeta queira ter dado a esse regime político por certo esdrúxulo, já que, como anotado acima, excluía as mulheres como parte negligenciável de qualquer sociedade a não ser como a Mãe-Madona, produtora de poetas e rapazes apolíneos. A Guerra de Secessão trouxe a Whitman um corte transversal em sua vida. Talvez, reitera-se, talvez, como mera especulação, sem base alguma, entre os moços feridos que gemiam nos hospitais de Washington, rapazes dos dois Exércitos dos Confederados, do Sul dos Estados Unidos e da União, do Norte, recebiam as visitas diárias e pequenos presentes, além do conforto das palavras de estímulo daquele velho bardo de barbas brancas que enxotava daquelas jovens mentes de mecânicos, fazendeiros, barqueiros etc. a noção da Morte iminente, a dor insuportável de pernas e braços amputados, olhos cegados.

Aí, Whitman, o democrata por excelência, teve momentos de depressão e de descrença no futuro democrático da América. Havia uma sombra negra, assustadora sobre a Terra Prometida ao sul do Canadá. Iriam, com o tempo, exacerbar-se os choques entre os imigrantes católicos irlandeses e ale mães e mais tarde os italianos, os judeus, os negros e os índios? Tudo cairia derrotado pela ganância do dinheiro e do big business. Seria inútil deter-nos nas páginas finais, mentalmente débeis, do biógrafo que tenta aproximar – como?! - Whitman de Borges, o cosmopolita e erudito polígrafo argentino, de Kafka, cuja visão sombria da humanidade absolutamente nada tinha a ver com a “democracia” sui generis do poeta americano nem seu culto erótico e atlético do corpo masculino. Zweig tenta aproximar seu biografado de Joyce (!) e de Beckett (1) como poderia tentar aproximá-lo do puritano Gide ou do requintadíssimo Proust – é tudo uma série de bobagens sem nome.

Whitman não teve sorte até hoje no Brasil. Tudo que se traduziu dele retira-lhe a substância poética. Um excelente ensaio sobre ele como o de D.H. Lawrence não encontra editores. Emerson, o primeiro a saudá-lo numa carta de altos elogios, mordazmente reviu seu entusiasmo inicial, desejando que Whitman não fizesse tantas enumerações que pareciam um longo inventário em seus poemas. Qual o real valor da poesia de Whitman? Quando lhe faremos justiça, equidistantes do moralismo hipócrita e do encômio igualmente exagerado e deformante?

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “Walt Whitman, poeta polêmico .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.