A literatura (e o mundo) de Henry Miller, uma proibição à obediência

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1980/06/14.

Henry Miller, com sua longa produção, tinha da literatura uma ideia de vivência, de vitalidade, sem admitir qualquer separação entre o texto escrito e a entidade monumental e irretocável denominada, com maiúsculas, Literatura. Ele pertence, com todo o seu desprezo pelos Estados Unidos, ao grupo que, como John Steinbeck e William Saroyan, celebrou o homem comum, a pobreza. a miséria, os fracassos da sociedade norte-americana. Na sua trilogia autobiográfica, Plexus, Sexus, Nexus, subintitulada Uma Crucificação Rósea, ele alude frequentemente à sua vontade inflexível de se tornar aquela coisa abstrata - um escritor - e não seguir os padrões de ascensão social pelo comércio ou a indústria adotada pelos seus colegas de escola.

Nascido e criado em Nova York, de uma família protestante alemã, com o pai e o avô tradicionalmente dedicados à profissão de alfaiate, tinha desde cedo choques com a mãe, que não se impressionava tanto com aquela palavra simbólica – escritor – e vivia perguntando por que ele não escrevia para a (hoje extinta) revista Saturday Evening Post, chela de histórias lacrimosas de mocinhas que fugiam às tentações da cidade grande e acabavam casando-se, se possível ainda preservando a virgindade, com um rapaz direito do interior, que as levavam de volta para longe das tentações das grandes cidades, as Sodomas e Gomorras onde as almas inocentes se perdiam.

O próprio candidato a ficcionista não sabia responder: precocemente ele não se encaixava em nenhum dos nichos de uma sociedade organizada e de padronização individual extrema. Seu melhor amigo era admirador da pintura dos Grandes Mestres e discursava horas a fio sobre a grandeza da pintura, arte para a qual ele tinha queda, mas que considerava inaccessível às suas limitadas habilidades. Os salmos entoados nas igrejas protestantes de Brooklin, com os dizeres maiores do que os versículos da Bíblia encimando tudo, dispersos pelas paredes "Não cuspa no chão!", os salmos o levavam a procurar na música a sua verdadeira vocação. Mas várias distrações se opunham: a energia furiosa de viver plenamente cada momento como se fosse o último, a coleção de palavras exóticas pinçadas de enciclopédias e dicionários volumosos na Biblioteca Pública, a pulsação da realidade dos seres humanos que tinha diante de si naquele bairro pobre de Nova York e sobretudo a devoção espontânea que ele sentira desde criança pelo órgão genital feminino, a volúpia do sexo dissimulado na América sob uma capa de frieza e respeitabilidade.

A dispersão extrema, a falta de tratamento estilístico de sua prosa prolixa, redundante, a ausência de pensamentos profundos ou de uma reflexão menos ligeira sobre a condição humana são todos defeitos que tornam seus livros repetitivos, monótonos, maçudos. O que os redime é o amor genuíno que o autor demonstra por todos os menores, pisoteados nessa corrida à glória, ao ouro, no "sucesso" de uma conta bancária imensa, uma mansão luxuosa, um late, viagens principescas e constantes ao estrangeiro. Seus melhores momentos são, precisamente, os freaks, os loucos, os monstros, os personagens saídos de algum manicômio e ridicularizados pela maioria justamente por serem marginais, terem o coração sensível, que se condói do mal alheio. Mas Henry Miller não seleciona: sua galeria é uma sucessão ininterrupta de vagabundos, de mulheres abandonadas pelas famílias em hospícios, de casas amalucadas onde não se come bem, mas todos se divertem à tripa forra e o trabalho é considerado uma punição de bajular os ricos e inclinar-se perante os eternos caloteiros de nomes que aparecem nas colunas sociais e amontoam cheques sem fundo nas lojas humildes de seus sapateiros, camiseiros, alfaiates.

Houvesse um pouco mais de arte e um pouco menos de sentimentalismo, essa galeria seria comovedora: como é já prende o leitor que não esteja ávido somente de sensacionalismo de alcova e relatos sexuais picantes. Henry Miller deliberadamente pertence à classe social da raia miúda que Steinbeck descreveu tão vividamente em Cannery Row, junto aos pesqueiros da Califórnia. Seu princípio fundamental é o de uma liberdade anárquica que infringe despudoradamente todos os cânones da sociedade estabelecida. Na Biblioteca Pública ele comenta com tinta vermelha, nas margens dos livros, sua concordância ou discordância com as teorias do autor, arranca páginas que lhe parecem memoráveis, rouba exemplares que lhe parecem preciosos e que "merecem" pertencer à sua biblioteca particular. E rejeita, com veemência, a ideia de que tenha que ter patrões, deva ganhar a vida, chavões nos quais ele não crê. Mesmo assim, é forçado, para sobreviver, a recorrer a alguns empregos efêmeros como o de gerente daquela que era então a mais importante companhia de telegramas do mundo, a Western Telegraph, que ele rebatizou com o nome de Cosmodemoníaca e onde ele punha seu espírito anárquico e de humorista a funcionar: faltava dias e dias ao emprego, indo ao cinema ou assistir a teatro de revistas, aquele vaudeville de mulheres nuas e famintas da parte pobre da Broadway ou do Bronx. Outras vezes, irritado por ter que bater o relógio de ponto, ele, encarregado de selecionar mensageiros para a Companhia Cosmodemoníaca, dava preferência somente aos candidatos que tivessem aparência suspeita e pudessem ser ladrões, mentirosos, tarados, beberrões Inveterados. Durante o período em que Hitler e seus sequazes nazistas estavam encarcerando os judeus, destruindo suas sinagogas e queimando suas lojas, ele, alheio a qualquer sentimento de superioridade étnica, procurava deliberadamente os melos judaicos onde encontrava critérios culturais, quem o guiasse na leitura de Knut Hamsun, o escritor norueguês, ou recitasse poemas em yiddish dos quais ele não entendia uma palavra mas cuja sensibilidade e humor grotesco ele percebia, caminhando com seus amigos até chegar a uma livraria que há decênios exibia na vitrina uma fotografia de Dostoievsky. Diante daquele daquele rosto tão inconformista, daquele homem que saíra de uma horrenda prisão do Tzar e criara personagens de fogo e paixão incontida, ele ficava horas parado, estudando a fisionomia de um gênio, "como que rezando para que o rosto daquele mujik me trouxesse a revelação do gênio, aquele rosto comum, tão eslavo, tão de camponês rude. Um rosto que passaria sem ser notado em meio às multidões. Eu ficava ali de pé, como sempre, tentando devassar o mistério daquele ser que se ocultava debaixo da massa pastosa de suas feições. Só o que eu conseguia ler era tristeza e obstinação. Um homem que obviamente preferia a vida dos que estão por baixo, um homem recém-saído do cárcere. Perdia-me naquela contemplação. Finalmente vi apenas o artista, o trágico e inédito artista que tinha criado um verdadeiro panteão de personagens, protagonistas que nunca tinham surgido antes e não surgiriam nunca mais, cada um deles mais real, mais potente, mais misterioso, mais inescrutável do que todos os loucos Tzares e todos os cruéis e malévolos papas da Igreja Ortodoxa juntos". A afinidade é real. Miller também se sente à vontade com a chamada "gentinha", os imigrantes paupérrimos do bairro Leste, o East Side, comerciantes anônimos, desprezados pelos norte-americanos de origem anglo-saxônica, protestantes, para os quais aquele bairro era um amontoado de lixo. É em meio a esses piolhos de uma sociedade abundante que Henry Miller encontra seu meio ideal "Quase como se eu tivesse conhecido o mundo do gueto numa encarnação anterior". E é nessa evocação nostálgica e profundamente poética de bairros arruinados, de gente heroica que perdeu a batalha pelo status, mas vence cada dia a luta darwiniana pela sobrevivência, que ele se revela um autor capaz de emocionar legitimamente o leitor.

Aquele é um mundo ignorado, todos passam longe dele e, no entanto, ele pulula de vitalidade, de mau cheiro, de fracasso, de nostalgia de um passado mais humano e menos mecanizado. Aqueles prédios caindo aos pedaços eram os lares, por mais modestos que fossem, de milhares de pessoas que tinham sempre uma refeição quente e limpa pronta para os amigos, que sem poder pagar a conta da luz acendiam lampiões a querosene, casas onde reinavam a paz e a cordialidade, lado a lado com o asseio e a pobreza. Com que comoção muitas vezes os meninos que entregam telegramas nas casas dos ricos levam os pais para vê-los trabalhar no meio do tumulto da Bolsa de Valores, com o burburinho das compras e vendas de milhares de dólares se sucedendo nos gritos dos pregões e nos indecifráveis algarismos da ações "blue chip" escritas e apagadas febrilmente nos imensos quadros negros, enquanto a máquina de atualização das ações cospe silenciosa e mecanicamente sua serpentina repleta de números que enriquecem ou arruínam acionistas de um instante para outro.

Todos os que marcham contra a corrente são, involuntariamente, os companheiros desse jovem que a família considera que "não vai dar pra nada": ele persegue o fanático de Jesus, que só recita a Bíblia e os versículos do Novo Testamento em meio à neve e ao vento, tentando salvar almas da Perdição e do Inferno eternos, conduzindo sua carroça puxada por um cavalo em melo aos Cadillacs imensos daquela era de gasolina barata. Henry Miller, no entanto, é um sensual glutão; os hinos piedosos, as "confissões de pecados típicas do protestantismo americano, arrancadas dos presentes pelo pastor que quer "testemunhos de almas salvas para ver a Glória de Nosso Senhor", nada disso o impede a engolir a sopa feita pela organista solteirona, de rosto pétreo e que nunca teve um dia de alegria e de correr atrás de interesses que para ele não se excluem, se completam - o prazer da carne e a leitura ou criação literária. Livro após livro, uma de suas esposas (foram de cinco a seis, no total) o ajuda a alcançar seu ideal de "não ter patrão" e de todas se destaca Mona, em Plexus, que trabalhava como atriz ínfima de teatro só para mantê-lo e vivia projetada apenas para o futuro, o passado já passara, o presente era uma preocupação plenamente capaz de ser resolvida por empréstimos, penhores o que fosse necessário para que ele continuasse sua carreira diante da máquina de escrever. Com amigos, ele começa a usar um lote de papel colorido que sobrara de uma gráfica e a mandar pelo correto sua coleção denominada Mezzotints, poemas curtos, que vende de porta em porta, sem conseguir mais de meia dúzia de assinaturas.

A justificação para tudo, ele dizia, estava naquele glorioso trecho do Livro de Ruth, no Velho Testamento, em que se diz: “Naquela época não havia Rei em Israel; e cada homem fazia o que lhe parecia certo a seu ver”. É o grito mais profundo que ecoa em toda a obra de Henry Miller. O sexo, destorcido como seu único fulcro de atenção, oculta na realidade um místico, de sobrancelhas fartas e negras, que pregava o advento de uma sociedade sem crimes nem impostos nem fábricas nem polícia nem propriedade, "onde cada homem fizesse o que lhe parecia certo a seu ver". Baseado nos escritos de um anárquico norte-americano, Benjamin R. Tucker, enfeixados sob o título excêntrico de "Na Falta de um Livro por um Homem Ocupado Demais para Fazê-lo", apoiando-se em Thoreau e na legitimação da desobediência civil às autoridades constituídas, ele confessa que no fundo era um agitador, no fundo queria realmente reformar a reformar a sociedade - e a primeira forma de desobedecer aos preceitos vigentes de uma sociedade é abandoná-la. É o que ele faz, transferindo-se, com dez dólares no bolso, para Paris, onde viverá quase uma década e onde lhe será atribuída, mais tarde, a Legião de Honra pelo governo francês.

A obra vasta do autor novaiorquino não se destaca pela análise profunda, filosófica, das situações humanas de medo, angústia, violência: tudo para ele está preso ao Altar do EU e do instante fugidio, como em certas filosofias orientais em que o presente é Deus, estar vivo é participar de um fragmento infinitesimal da Divindade. O fato de ter sido o primeiro autor norte-americano proibido pela constituição estadual de Nova York e da Flórida, por exemplo, como obsceno, por suas descrições explícitas de relações sexuais em Trópico de Câncer, entre outros, distorceu a sua personalidade perante o público. Black Spring, provavelmente seu melhor livro, documenta amplamente esse seu apego quase animalesco à vida concreta, da qual o sexo é uma parte importante, e sua recusa em aceitar qualquer eufemismo embelezador da realidade: o estrume é o estrume, uma vagina é uma vagina e aliviar a bexiga é infinitamente mais importante do que ler Virgílio.

Essa contracultura proposital, em celebração da vida e não da vida enterrada em palavras, por mais gloriosas que possam ser, que marcaria a personalidade de Henry Miller como um dissidente precoce, encarniçadamente contra todo o sistema de vida norte-americano. Sem ele os beatniks e a geração dos que espontaneamente largaram os empregos bem pagos para ser drop outs (marginais) ou hippies não teriam surgido. Não que ele não tenha tido predecessores na história da literatura norte-americana: Theodore Dreiser e principalmente sua Tragédia Americana já se insurgiam contra o capitalismo selvagem do seu país, mas propondo como substituição um socialismo radical. Henry Miller nunca formulou um credo político coerente: era individualista demais para isso. E um nostálgico que quer voltar ao passado da sua infância rebelde e, no entanto, cercada da ternura em família e no meio dos amigos, todos aloucados, excêntricos, mas generosos, humanos, iletrados ou não, acima de tudo seres humanos de corações pulsantes e prontos a compartilhar as dores do próximo.

Não se pode esquecer porém a dose de humor terra a terra, grosso mas contagioso, do autor de Trópico de Capricórnio: ao rebelar-se contra "os idiotas que inventaram o trabalho como norma de vida", ele indaga: por que não amar, criar e compartilhar, em vez de aceitar passivamente a arregimentação de multidões no curral moderno da indústria e do comércio, seres robotizados, devorados por impostos e por governos coercitivos, senhores do sim e do não, do que se pode e do que se deve, quando a Natureza é livre e a noção de um Deus punidor e vingativo é imaginação de cérebros doentios e pestilentos? 

Seu ideal é o fracasso, não o sucesso, O anonimato da individualidade, não a fábrica de ídolos militares, políticos ou do show business ou do big business: Robinson Crusoe. Robinson Crusoe, para ele, provocou seu próprio naufrágio para isolar-se numa ilha deserta. Era a sua miragem: apartar-se do mundo em que havia bancarrotas, greves, colonialismo, psicoses, bombas de gás, aspiradores de pó, prestações da geladeira, aquele "Pesadelo Dotado de Ar Refrigerado" que era a sociedade dos Estados Unidos, ele que se sentia infinitamente mais perto do Japão e sua graça delicada ou mais ainda da Europa das catedrais góticas, de Rabelais, de Villon, de Boccacio, da vida erótica oculta das freiras e dos monges revelada por Aretino. O Sexo, sobreviesse no metrô apinhado de Nova York ou na galeria de um teatro quando uma ereção o fazia colar-se à mulher desconhecida à sua frente, ouvindo a ópera Parsifal de Wagner, era, como a aquarela ou uma receita de um prato delicioso, mera parte da vida que segue. Para afirmar sua própria e inabalável profissão de fé: "Cada ser humano possui sua própria parte de deserto civilizado, sua ilha preenchida por si mesmo e que constitui os rochedos em que ele mesmo afundou: a felicidade, relativa ou absoluta, está fora de cogitação." Esse Robinson Crusoe voluntário desdenha os programas de paz dos governos porque sabe que terminarão todos numa saraivada de balas e prediz: "Amanhã podereis ocasionar a destruição do mundo. Amanhã podereis cantar no Paraíso acima das ruínas fumacentas de vossas metrópoles. Mas hoje, nesta noite, eu preferiria pensar apenas em um único homem, um indivíduo solitário, um homem sem nome nem país, um homem que eu respeito porque não tem nada em comum convosco - Eu. Esta noite dedicarei tudo à meditação daquilo que eu sou."

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “A literatura (e o mundo) de Henry Miller, uma proibição à obediência .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.