Hemingway: que horror! (resenha do livro póstumo O Jardim do Éden)
Enfim, ali estava o grande romancista norte-americano! Para começar, tinha treinado para ser pugilista: cada frase era curta e seca como um punch no queixo. Os contos, magníficos, agarravam ao corpo do leitor, um verdadeiro clinch que só terminara com a página final jogada no centro do ringue, como uma toalha branca pedindo clemência. Depois, aquele machismo risonho, corado, para muitos cheio de bazófia e fanfarrão, tomava poses de toureiro. Com a boca escorrendo de cerveja, aquela figura rotunda, de um avermelhado que os espanhóis chamavam de jamón serrano (presunto cru), disparava golpes a torto e à direita nas praças humildes de lugarejos perdidos da Espanha, ajoelhava-se para completar uma verônica, enquanto em sua imaginação as bandinhas locais tocavam a marcha da Virgen de la Macarena e uma multidão de moleques a escorrer ranho do nariz na camisa de cor indefinida gritava, à espera de umas pesetas vindouras: "Olé!", na galera das arquibancadas vazias.
Tudo isso era pouco. Ernest Hemingway escreve, finalmente, a Grande Novela Norte-Americana: Por Quem os Sinos Dobram. Naquele momento de ensaio geral da peça A Última Tourada da Democracia em Toledo, em Barcelona, em Madrid, suas palavras adquirem o ratatá nervoso das museais metralhadoras dos republicanos, indômitos a combater o fascismo que arrasava a indefesa aldeia de Guernica, com os aviões de voo mortal dos alemães e as tropas mandadas por Stalin e Mussolini contra e a favor de Franco. A citação do título tirada de um grande poeta erótico inglês, John Donne, mais tarde convertido ao catolicismo casto e todo arrependimento, tem um efeito contrário: não os sinos dobram pelos milhões de mortos, naquela guerra civil decisiva: as máquinas registradoras se não dobram pelo menos dançam o paso doble de seu tilintar agudo. São mais e mais dólares caindo nas mãos do viril correspondente de guerra, chofer da Cruz Vermelha e que os amigos espanhóis ou americanos comentavam: "Hem, Hollywood telegrafou que quer os direitos para transpor para a tela o teu romance", "Guei - a palavra não tinha então a conotação que tem hoje -, a Ingrid Bergman e o Gary Cooper já aceitaram os papéis da combatente violada e de cabelos cortados curtos na prisão e do jornalista ianque contando ao mundo sobre as atrocidades que via atrás de seu binóculo no Hotel Ritz, de Madrid, um pouco longe da refrega digna de ser pintada por Goya no Alcázar de Toledo". "Por Quem os Sinos Dobram? Dobram por ti" de John Donne fora o que os editores norte-americanos com complexo de Hiroshima chamam de blockbuster, bomba arrasa-quarteirão. Porque a filmagem de Adeus às Armas, com os papéis emocionantes de enfermeira e ferido confiados à granítica imobilidade de Jennifer Jones (casada com o produtor) e ao supermacho que fazia todas as americanas invejarem Doris Day por contracenar com ele em comédias picantes, o atlético Rock Hudson, não agradaram?! Será que a intuição do público já captava no ar que os beijos do gigantão Rocky tinham assim um ar prenunciatório de Aids ou aquele adeus entre curativos e éter tinha estilhaços demais de sentimentalismo bobo nos esparadrapos coloridos de vermelho para simular sangue?
Cada desafio era uma vitória de Pirro. Hemingway, o Papai bonachão, e seu desfile de esposas (quatro, como manda o Corão, mas em respeitosa sucessão protestante, como é de uso nas famílias de respeito do Michigan) chegava a permanecer semanas na lista de autores mais vendidos (top of the list). Alguns críticos malhavam impiedosamente aquela ciranda de festas em Paris, misturas com ladies inglesas ninfomaníacas, toureiros tornados inapetentes, por la Santíssima Gloria de Diós!, por uma estocada desleal de um touro miúra na linha ética abaixo da cintura. Para os mais ferozes, O Sol Também se Levanta era um enigma: seria uma oração fervorosa à Virgem protetora da tauromaquia virilíssima espanhola ou a única realidade que se levantava em meio a tantos bananais com café au lait, disparadas loucas de carro por Paris deserta de madrugada e soluços lacrimejantes de "O sexo não é tudo, eu te compreendo, meu amor"?
Se a Espanha, país machíssimo, agradara a Hemingway, uma surpresa ainda maior estava reservada para seus aficionados: agora eram os tambores da África que rufavam pelas pradarias do Quênia; era o rio Congo ameaçador que coleava como uma serpente imensa em meio à selva, tudo encimado pelos píncaros imaculados, eternamente nevados do Monte Kilimanjaro. Os fãs ardorosos de Joseph Conrad, que também subira Congo acima, no romance Heart of Darkness, não precisavam temer a concorrência: Papai Guei não iria fazer trabalho de maricas como "perscrutar a alma do Homem, as raízes do Mal, o vazio da alma humana numa época colonialista e dominada pelo materialismo mecânico". Que nada! A África de Hemingway é a dos safáris destemidos, da perseguição a elefantes assassinos, a de turistas anglo-saxônicos bêbados, concupiscentes, sempre atrás de um novo excitement físico; atravessar um rio pontilhado de crocodilos; perseguir, mal armado, um rinoceronte feroz; ouvir sem tremer o bramido do leão perto das fogueiras timidamente acesas na escuridão da floresta equatorial. A África, como também a Espanha - muitos franceses não diziam que além dos Pirineus começava a África? alors... outro ritual bárbaro, mas inequivocamente masculino de iniciação à coragem. Cair nas ruelas de Pamplona, quando soltam os touros bravos e negros sobre a rapaziada inconscientemente risonha não era o equivalente a dominar aquela aurora do mundo com seus animais anacrônicos, as gráceis girafas, os lentos hipopótamos, a cega manada de búfalos?
Como aqueles homens-sanduíches de Paris, que levam à frente e nas costas enormes cartazes de madeira, do tipo "compro ouro", usuais aqui no Brasil, chegou o momento da verdade em que Hemingway desvestiu sua couraça e depôs sua máscara no chão. Por um segundo - um, apenas - interrogou-se se não confundira literatura com músculo, substituíra pela ação frenética carros de corridas, caçadas, touradas, bebedeiras, mulheres descartáveis - uma filosofia de vida, um pensamento? O estoicismo em si diante da dor e do perigo teriam feito de Séneca um gênio maior do que Shakespeare.
E ele? Não estava era fugindo de alguma coisa?
Até quando?
Descobre, inexoravelmente, o legado de todos nós, seres vivos, a degenerescência física e mental cresce dentro e fora de nós, dia a dia, sub-repticiamente, Como ondas de maré vazante perdemos aos poucos a memória, a imaginação, a disposição, a mobilidade. Insistia enigmaticamente para quem o quisesse ouvir que "o céu da boca é a parte mais mole da cabeça". Ele se via no espelho decrépito, gordo, triste. A impotência e o gozo pleno dos sentidos se esvaíam rapidamente. Tentava. Reescrevia, durante 10, 15 anos a mesma novela, O Jardim do Éden. Eram 400 páginas na primeira versão, depois 1.200 na segunda e mais 1.200 na terceira, com 3.300 páginas inéditas. Mas parecia que o Eden estava perdido para sempre.
Seu ávido editor Scribner não pensa assim. Esfregou as mãos em antecipação dos dólares que ganharia mesmo à custa de esquartejar a obra a seu bel-prazer. Se o espólio de Hemingway continuar entregue à sanha de tantos corvos necrófilos, nunca mais teremos a parte boa de Hemingway. Amanhã no leilão da Christie's de Londres venderão seus shorts e seu último rol de roupa a peso de ouro. Rarissimamente um editor tem o mínimo de bom gosto de poder sequer tocar na obra de um autor, por mais polêmico que esta seja. Mas depois que Papa Hem se suicidou, com um tiro de espingarda naquela parte mais macia da cabeça humana, numa manhã ensolarada de Idaho, surgiram livros seus em pequenas enxurradas.
Um, excepcionalmente bem logrado: As Ilhas da Corrente. Os demais parecem ter intuito de massacrar o que resta do bom nome de Hemingway. Dá-se a lume, como dizem em Portugal, quando deveriam dar ao fogo, centenas de cartas suas, venenosas, ingratas, maldosas, contra tudo e contra todos: dardeja contra William Faulkner cuja grandeza universal está para com a pequenez de Hemingway como a Catedral de Chartres está para um saco de pipocas que dois adolescentes no cio consomem enquanto veem uma fita de Tarzan no Middle-West-milho-e-Bíblia dos Estados Unidos. Faz piadinhas sórdidas sobre a relação de Gertrude Stein e Alice B. Toklas, que o acolheram hospitaleiramente em Paris quando ele começava a querer escrever. Dá a entender que seu amigo John dos Passos está vendido ao dólar americano depois que abandonou o socialismo, como se ele, Hemingway, tivesse mandado todos os seus lucros para a caixa postal de Trotsky, no México. Subliminarmente, sugere que Scott Fitzgerald passava horas diante do espelho, chorando por achar seu membro viril pequeno demais, logo ele, Scott, que adorava acima de tudo o cheiro de dinheiro que a gente rica exala!
Agora, a Editora Nova Fronteira aceita que no Brasil tenhamos mais um livro mutilado: leremos a dupla Hemingway-Scribner, assim como já lemos o "Babi Yar" de Evtuchenko sob a forma de Evtuchenko-censura soviética-e-Editora Civilização Brasileira... Proximamente talvez Guimarães Rosa será copy-deskado por Luis Schwarz, da Companhía das Letras, e Carlos Drummond de Andrade "corrigido" por Alfredo Machado, dono da Record Editora...
O Jardim do Éden foi certeira e ferozmente definido por Cabrera Infante, o exilado escritor cubano, como uma obra menor de Françoise Sagan. O esplêndido autor de A Laranja Mecânica, Antony Burgess, examinou longamente a obra de Hemingway e concluiu que o autor americano não passa de um blefe colossal, tudo é fruto de uma hábil encenação de um indivíduo complexado, mesquinho e exibicionista, intrigante, briguento e sempre pronto a acusar os demais escritores de impotência ou de desvio sexual. É uma crítica exagerada. Há os excelentes contos de Hemingway que até o seboso Gabriel García Marquez, sempre disposto a ver a literatura como sucedâneo de um terror leninista instalado na máquina de escrever (o que não tira seus méritos, por mais inchados que estejam pela propaganda ideológica), chega a reconhecer quando julga o Super-Deus Hemingway em seu Panteão de Deuses Lítero-Guerrilheiros:
"Toda a obra de Hemingway reflete um espírito brilhante, mas de fôlego curto" E ainda: "É difícil entender tantas falhas estruturais e tantos erros de mecânica literária nessa obra de um técnico tão capaz e um diálogo tão artificial, desajeitado até..." Isto foi antes de se publicar Jardim do Éden. Cabrera-Infante, perdão: comparado com este Hemingway da sacra pós-túmulo o inefável Bom Dia Tristeza! de Françoise Sagan parece profundo como um ensaio de Kierkegaard sobre a angústia existencial da condição humana. Sem dúvida, passar os últimos 15 anos de sua vida limando, cinzelando o nada ou o nada levado ao tédio de Sartre equivale à façanha de sintetizar o philosophe francês do existencialismo juntando numa mesma obra La Nausée et le Néant (O Tédio e o Nada). Pois será, com boa vontade, que Hem queria chocar o público da década do Vietnã, do Muro de Berlim, das invasões de Praga e Budapest com um nada original ménage à trois, aquele insosso triângulo escassamente amoroso entre David Bourne, o eterno escritor americano autoexilado na Europa e duas moças, uma das quais, Catherine, anuncia em certas noites, como quem vai virar lobisomem, que ela e ele irão dormir como se ela fosse um rapaz?
É possível que a geração que estava abusando do Éden da libertação sexual pré-aids ficasse curiosa a respeito do primeiro livro do Machão das Letras sobre "ligações perigosas". Quando Catherine, a esposa excêntrica do jornalista-escritor americano no estrangeiro corta seu cabelo bem rente, para ficar igual a um garoto e lhe pede que em determinadas noites ele deixe que ela assuma o outro sexo, ficamos no escuro sobre as práticas que o tolerante alter ego do envelhecido Hemingway permite. Seriam arrebatos dignos de Safo, em nova encarnação na Côte d'Azur francesa? Ou a Grécia de Sócrates e Alcibíades reviveria naquelas noites logo enriquecidas de um terceiro personagem pagão de núpcias ousadas? Jamais saberemos. A menos que mr. Scribner tenha segredos para O Jardim do Éden, segunda parte: "onde o autor revela tudo! Este Jardim fará corar os mais resolutos admiradores da pequena obra-prima que é O Velho e o Mar. Não por sua libidinagem ingênua, mas pela incapacidade, inverossímil, mas comprovável, do autor de escrever. Reconheçamos que nem Virginia Woolf conseguiu criar um personagem que muda de sexo quando quer, em Orlando, sua "brincadeira" literária menos convincente. Mas pululam pelo romance americano inteiro frases asininas como esta ocidental conjugação de animus e anima petulantemente desprovida de cérebro.
- "Está vendo? - disse ela. Esta é a surpresa. Sou uma garota. Mas agora também sou um menino e posso fazer qualquer coisa, qualquer coisa."
- "Não ficou bom dos lados? indagou a moça. Não é truque nem disfarce. É um verdadeiro corte de rapaz e não foi feito num salão de beleza.
- Quem os cortou?
- O barbeiro em Algues-Mortes. Aquele que cortou seus cabelos na semana passada. Você lhe explicou como queria o corte e eu lhe disse para cortar exatamente como os seus. Foi muito gentil e não demonstrou a mínima surpresa. Não estava preocupado de forma alguma. Perguntou-me se era para cortá-los exatamente como os seus. E respondi-lhe que sim. David, isto não lhe provoca nada?
- Sim respondeu o rapaz.
- As pessoas tolas acharão estranho. Mas devemos nos sentir orgulhosos. Gosto de me sentir orgulhosa.
- Eu também. Vamos começar agora mesmo a nos sentir orgulhosos."
Depois que ele concorda, não se sabe exatamente com que, Catherine passa a chamar-se Peter e o chama de Catherine. Tudo indica que o clímax ficou adiado:
"No final os dois estavam extenuados e vazios, mas não tinham terminado. Deixaram-se ficar lado a lado no escuro com as pernas tocando-se e a cabeça dela sobre seu braço. A lua tinha surgido e havia um pouco mais de claridade dentro do quarto. Ela passou a mão explorando abaixo de sua barriga, sem olhar, e perguntou:
- Não acha que sou imoral?
- Claro que não. Mas diga-me, quanto tempo levou pensando nisso?
- Não pensei o tempo todo. Mas durante bastante tempo. Você foi tão maravilhoso ao permitir que acontecesse".
Misteriosamente, de vez em quando parece que tudo, seja lá o que for, termina bem. Catherine então exulta:
"Durante a noite ele sentira as mãos dela tocando-o. E, quando despertou, a lua havia surgido e ela havia feito novamente a magia negra da mudança, e ele não dissera não quando ele falou e formulou as perguntas mas sentiu tanto aquela mudança que chegara a ficar profundamente magoado quando tudo terminou. Depois de estarem ambos exaustos, ela, tremendo, sussurrou-lhe:
- Agora o fizemos. Agora o fizemos de verdade".
Por aí prossegue essa patética descida à imbecilidade forrada de bebidas francesas, comidas regionais, correrias de carros, diálogos de uma insanidade mental comparável à do teor calórico da alimentação em Bangladesh. Que lamentável que o ridículo venha recobrir um autor que, morto, não se pode defender. Nem contra a acusação: em Cuba, jamais Hemingway escreveu uma só linha contra a ditadura de Fulgêncio Batista. Assim que Fidel Castro iniciou, não uma Revolução, mas outro golpe de tiranete latino-americano, em 1959, el Señor Hem foi para Key West, onde há poucas semanas uma figura importante do Estado-Maior cubano, o brigadeiro Del Piño, ironicamente se refugiou também com a família toda. Há quem lembre que el señor Guei inventou o drinque molitos, uma mistura de menta e uísque. Há quem diga que também o daiquiri foi invenção sua. Da mesma forma, o duque de Windsor frisou à jornalista italiana Oriana Fallaci que fora ele e mais ninguém quem inventara o vinco das calças quando o hipódromo de Paris estava pura lama.
Quem admira o que há de admirável na prolixa criação de Hemingway ficará pesaroso por este fracasso absurdo. Seu maior inimigo, Gore Vidal, na Itália, deve ter comprado dezenas de exemplares desse Jardim do Éden para seus amigos indecisos quanto à genialidade ou à boçalidade do Big Hem. Que ele certamente chamará de Big Ham (farsante, charlatão).
É, como suspirava a perspicaz Zelda, esposa de Scott Fitzgerald... quando se trata de alguma coisa escrita por Hemingway, é preciso ter cuidado. Na maioria das vezes não passa, literariamente, de um cheque sem fundos, por la Virgen de la Macarena!
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Hemingway: que horror! (resenha do livro póstumo *O Jardim do
Éden*)},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/12-ernest-hemingway/02-hemingway-que-horror-resenha-do-livro-postumo-o-jardim-do-eden.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1987/07/18.}
}