Capote, um escritor a sangue-frio
Truman Capote explodira como um meteoro no panorama da literatura norte-americana. Abandonando o ginásio aos 17 anos, impaciente com a mediocridade de seus professores, enviou três contos diferentes a três revistas importantes, certo do seu talento verbal que mais tarde éle próprio definiria, dizendo: "Eu sou o Paganini da linguagem". Aceitas, no mesmo dia, suas colaborações o lançaram, sem transições, para uma carreira literária de enfant prodige. Transferindo-se de sua Nova Orleans natal para Nova York, ingressou para o número restrito de escritores da revista sofisticada The New Yorker, decalcada da famosa revista humorística inglesa Punch.
No ambiente cosmopolita, opulento, intelectualmente estimulante da grande metrópole, o jovem sulista tornou-se em breve legendário pela sua verve ferina, pela magia verbal de um estilo luxuriante como a vegetação da Lousiana, nervosa e inventiva como o jazz improvisado às margens do Mississipi. E foi o Sul ancestral que lhe forneceu a inspiração para escrever sua primeira novela, publicada aos 23 anos de idade, "o Sul que constitui uma entidade e uma cultura independentes nos Estados Unidos". Other Voices, Other Rooms foi a sensação literária do ano, evocando a atmosfera decadente, mórbida de mansões senhoriais de um fausto já morto, ornadas de colunas gregas, povoadas de fantasmas que relutavam em abandonar o passado. Sem imitar Faulkner, o grande narrador da saga do Sul, Truman Capote trazia à sua história amarga, elementos grotescos e poéticos novos, abordando com desespero e crueldade o amor homossexual, a perda da inocência, o desajuste e a rejeição social num clima de isolamento e crescente alucinação. No âmbito de uma cultura puritana, cujos maiores autores refletiam preocupações morais sob formas simbólicas e abstratas, como Henry James e Melville, aquele relato em termos candentes e barrocos teve o efeito de uma bomba que destruísse tabus e estruturas rígidas. Mas o mesmo efeito devastador e de calculado desafio causou a sua fotografia, colocada na contracapa do livro de bolso divulgado em milhares de exemplares. Languidamente reclinado num sofá Empire, usando um colete quadriculado e com uma franja loura cuidadosamente caída sobre as sobrancelhas arqueadas, Truman Capote enfrentava despudoradamente o mundo exterior, numa pose dúbia de efebo moderno.
A ira de certa parte da burguesia, choveu sobre a mesa de seus editores, com cartas insultuosas que incrementaram a vendagem daquela excelente estreia literária. Seus detratores começaram a esperar que sua chama criadora se extinguisse breve, confirmando o veredito de outro talento jovem prematuramente desfeito, Scott Fitzgerald, que afirmara: "a genialidade do escritor americano só dá para ele escrever um primeiro ato, brilhante, mas sem sequência". Imperturbável, Truman Capote colecionava sucessos na Broadway com sua divertida comédia The Grass Harp e como contista, ganhou muitos prêmios literários. A publicação, em 1957, de Breakfast at Tiffany's selou a sua celebridade mundial, mas revelou ser também um divisor de águas na sua trajetória artística fulgurante. De fato, por um lado essa esplendida tragédia em miniatura de uma adolescente frenética, Holly Golightly, simbolizava a inquietude da geração desencantada tipificada por James Dean e precedia o aparecimento de outro adolescente famoso, igualmente confuso e poético, o Holden Caulfield de Sallinger em The Catcher in the Rye. Mas por outro, assinalava a morte voluntária do "mito" Truman Capote, o Proust americano de formato de bolso, sempre citado nos mexericos elegantes como um swinger, um playboy sibarita e requintado, circundado de mulheres célebres, ricas e belíssimas: Jacqueline Kennedy, sua irmã a princesa Lee Radziwill, a sra. Paley, esposa do Presidente da Columbia Broadcasting System e outras. Cessaram as festas, as viagens que o levaram até à União Soviética, acompanhando a tournée de cantores negros que apresentavam em Moscou a opereta Porgy and Bess de Gershwin e que ele retratara de forma hilariante e mordaz em seu livro de observações sobre o mundo surrealista da burocracia soviética, The Muses Heard. Durante seis anos consecutivos, criou uma nova personalidade, inspecionando as regiões abissais da angústia e do instinto humanos, forjando uma nova dimensão como escritor. Fôra enterrado para sempre o adolescente gideano de franjinhas louras sempre disposto a "épater les bourgeois".
Transferindo-se até o remoto interior do Estado de Kansas, ele encheu 6.000 páginas de anotações minuciosas, durante 72 meses dedicados à reconstrução do crime brutal que eletrizara toda a Nação: o massacre da família Clutter, fazendeiros pacatos de um lugarejo perdido no mapa e atirado agora trágicamente à curiosidade da imprensa e da televisão: Holcomb.
Nome do livro: In Cold Blood - A Sangue-Frio.
Quatro tiros ao amanhecer
Holcomb é o núcleo reconstituído por Capote: suas planícies desoladas, seus critérios invioláveis a Bíblia e a Lei Seca e seu anonimato nas planuras desertas da Middle West. Para reproduzir a fisionomia daquela comunidade pacifica, ordeira, abalada pelos quatro tiros desfechados antes do amanhecer, Truman Capote conviveu com seus habitantes, participou das investigações do xerife local e visitou os criminosos, Correspondendo-se regularmente com eles anos a fio. É rara a presença de uma perspectiva pessoal nessa "tragédia americana" propositalmente relatada de forma impessoal, objetiva; em certos momentos, porém, a sua sensibilidade e a sua maestria estilística preponderam, colorem de uma participação o seu conturbador depoimento:
"Até aquela manhã de meados de novembro de 1959, poucos americanos até mesmo os do Estado de Kansas - tinham jamais ouvido falar de Holcomb. Como as águas do rio, como os motoristas na rodovia e como os trens amarelos que passavam céleres sobre os trilhos da Ferrovia Santa Fé, o drama, sob a forma de acontecimentos extraordinários, nunca parara ali."
A partir dessa localização geográfica inicial, ele restringe, de capítulo em capítulo, os círculos concêntricos que se fecharão como um anel em torno dos protagonistas do seu sinistro drama. Alternadamente, focaliza ora a família, imóvel em sua pacatez diária, ora os assassinos que se movem rumo ao seu objetivo, inexoravelmente. Sucedem-se assim as descrições dos preparativos macabros para o massacre que se seguiria ao roubo planejado de "dólares que chegariam p'ra forrar as paredes de uma casa" - os criminosos compram fita adesiva para amordaçar as futuras vítimas, discutem sobre quantos metros de corda grossa bastarão para amarrá-las, conjecturam sobre o número de pessoas que precisarão trucidar "pois é importante não deixar testemunhas - custe o que custar", e desistem das meias pretas que usariam para cobrir os rostos quando chegassem armados de um revólver e um punhal à casa ampla e isolada. Contrastam com a enumeração dessas preocupações lúgubres as preocupações caseiras da sra. Clutter, semi-inválida, sujeita a depressões nervosas constantes e que coleciona objetos minúsculos. "As coisas pequenas são as que nos pertencem realmente, não precisamos deixá-las, podem ser levadas até numa caixa de sapatos" ela costumava dizer cada vez que a levavam a uma nova clínica psiquiátrica, para novos tratamentos e novos desencantos.
Só na metade do livro o autor revela a origem do homicídio, na imensa penitenciária estadual de Lansing, com um enfoque retrospectivo que serve também de catalizador da busca exaustiva da polícia de uma solução para um crime sem pistas.
Um ex-companheiro de cela dos assassinos, ao ouvir pelo rádio a notícia da chacina, delata os seus autores, aos quais contara a respeito da família rica e simpática para a qual trabalhara, no Kansas, num lugarejo longínquo. Esta forma poliédrica de narrar permite ao novelista revelar aspectos sempre novos e inéditos do mesmo acontecimento, visto sob diversos ângulos pessoais, com evocações e antecipações independentes do fluxo contínuo no tempo ou da limitação geográfica no espaço.
No entanto, é a partir do interrogatório na Chefatura, depois da captura dos culpados, que A Sangue Frio atinge o seu clímax, recordando nitidamente a atmosfera dos romances de Dostoievsky na sua sondagem apavorante da psique do criminoso com seus labirintos e contradições inextrincáveis,
Coma que ordenando a sucessão caótica da própria vida real, o autor alinha as boas intenções abortadas, as absurdas preocupações do mais complexo dos assassinos, Реггу Smith, com o conforto das suas vítimas poucos minutos antes de mata-las, os diálogos sussurrados, quase ternos que mantêm com a mocinha Nancy, misturando nessa última troca de palavras um tom de alucinante amenidade e subjacente tensão em que se discutem cavalos de corridas e esportes favoritos:
“Pouco antes de eu amordaçá-lo com a fita gomada, Mr. Clutter perguntou-me e essas foram as suas últimas palavras, queria saber se a mulher dele estava bem, eu disse que ela estava cem por cento, prontinha p'ra dormir, e que logo o dia ia raiar e que de manhã cedinho alguém ia encontrá-los e então tudo aquilo, eu e Dick e o resto, tudo ia parecer um sonho que eles tinham tido. Eu não estava tentando enganá-lo. Não tinha intenção de fazer mal a ele. Achei que ele era um senhor muito simpático, agradável, de voz educada. Foi o que eu continuei a achar até o momento exato em que cortei o pescoço dele”.
Com A Sangue-Frio Truman Capote pretende expressamente inaugurar um noνο gênero literário, por ele próprio intitulado de non-fiction novel, uma novela que não esteja baseada na imaginação do autor, mas sim que amalgame a literatura e o jornalismo:
"Eu tinha uma teoria própria sobre a reportagem. Sempre achei que se eu pudesse fundir a arte do novelista com a técnica do jornalista - a ficção somada à certeza de que tudo era verdade - obteria maior impacto e maior profundidade".
As reações críticas foram controvertidas. Newsweek, que dedica ao livro a capa de um de seus números, fala de "triunfo estético e triunfo de conteúdo". Enquanto Paris Match exalta "essa legítima obra-prima, o Crime e Castigo dos nossos tempos", The New Republic acusa Capote de ter meramente acumulado "pesquisas jornalísticas" que juntas não formam uma novela. Raymond Mortimer, o severo crítico do Times de Londres lamenta o desperdício de tanto tempo e talento na recriação de um fato policial: como obra de ficção Graham Greene é superior e como história de crime e terror, Simenon é insuperável, conclui.
Um exame menos extremado leva-nos a reconhecer na última obra de Truman Capote extraordinários valores literários, principalmente ritmo da narrativa, a sábia dosagem de suspense e de objetividade fria e calculada. Contudo, a adoção precisamente de um método narrativo do qual estão banidos a inventividade, o lirismo, o espírito cáustico e um irresistível sense of humour equivale à eliminação das suas melhores características como escritor. Obra de transição de uma carreira excepcional, A Sangue-Frio é um magnifico "thriller" e uma vitória de Truman Capote frente ao desafio que se impusera voluntariamente. Mas se estas 300 e tantas páginas eletrizantes lhe trouxeram mais de dois milhões de dólares e um enriquecimento profundo como experiência humana, literariamente sua plenitude artística se encontra nas obras anteriores, estas, sim, exemplos indeléveis da sua virtuosidade incomparável.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Capote, um escritor a sangue-frio},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/22-truman-capote/01-capote-um-escritor-a-sangue-frio.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1966/07/28.}
}