A literatura de protesto americana e as suas raízes românticas

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Comentário – Revista trimestral (jan./fev./março de 1960), nº 1, pp. 34-41, 1960.

A literatura moderna americana, dada sua complexidade e exuberância, apresenta um afresco de grandes proporções em que todo um século - de 1850 até os nossos dias - e toda uma nação se veem retratados pelos artistas mais diversos e mais individualistas. Entre os críticos que tem tentado determinar as características comuns a todos os quadrantes dessa literatura, as linhas e cores constantes nesse mural americano, destaca-se Michel Mohrt, que distingue alguns motivos que se repetem através de tendências artísticas diversas e em períodos diferentes. Assim, por exemplo, a preocupação ética de origem religiosa, herdada dos fundadores da sociedade americana - os austeros Puritanos -, bem como uma nova dimensão do tempo e do espaço em meio à vastidão continental dos Estados Unidos. A preocupação ética, que percorre toda uma gama de escritores, afirma-se de forma extremamente sutil, intelectual e artisticamente requintada na obra de Henry James. O embaixador de “uma outra América”, diametralmente oposta à América que pronunciava o advento de Babbit, documenta (em suas novelas principalmente) o choque, a incompatibilidade do critério estético e do imperativo ético, numa sociedade decadente: a aristocracia europeia. Nesta arena de interesses em conflito, de vaidade, de orgulho e extremo refinamento estético, os personagens americanos, as extraordinárias heroínas de Henry James, sacrificam a própria vida por um ideal moral, como por exemplo a inesquecível Isabel Archer, em Portrait of a Lady.

A acusação feita à sociedade americana por escritores tão diversos como Dos Passos e Hemingway - os representantes da “geração perdida de 1920” - e Scott Fitzgerald, o magnífico autor de Great Gatsby é confirmada, num diapasão diverso, pelas veementes críticas do teatro agressivo de Tennessee Williams, pelo libelo ácido e intelectual de Arthur Miller. Alguns críticos contemporâneos, diante dessa revolta de origem ética, querem constatar, na literatura americana moderna, um divórcio entre os autores e a massa. Alvin e Aldridge observam sob esse ângulo a crítica exacerbada aos mitos da maneira de viver americana, cujos valores utilitaristas são denunciados pelos seus intelectuais.

Quem analisar a recente produção literária americana, particularmente no setor novelístico, notará com frequência esse propósito iconoclasta, essa literatura de protesto que hoje caracteriza também muito da literatura ocidental. É de profunda significação que a Inglaterra - o país de onde partiram os Pilgrim Fathers - manifeste na sua literatura atual sintomas semelhantes aos da mensagem literária americana de nossos dias. Os críticos ingleses criaram mesmo uma expressão para designar essa tendência, iniciada com peça virulenta de John Osborne: Look Back in Anger e denominada, portanto, de “the angry generation”, ou seja: a geração dos jovens irados (Para maiores detalhes ver a brilhante análise de Kingsley Allsop, The Angry Decade). Seria difícil especificar em que consiste essencialmente a “doutrina” desses jovens em rebelião contra uma sociedade, contra um status quo, contra toda a escala de valores de uma civilização. No entanto, uma análise sucinta dos seus móveis, dos seus propósitos será indispensável para correlacioná-la com certas correntes literárias americanas equivalentes.

Inicialmente, recordaremos que o fenômeno da “juventude desajustada” - como os psicólogos preferem chamar os jovens coléricos - não constitui um produto exclusivo da nossa época. Não só a “geração perdida” exilada na rive gauche de Paris, sob o matriarcado artístico de Gertrud Stein, constitui a sua ascendência única. Aqueles caóticos 1920, de um hedonismo frenético, foram precedidos, no tempo, por outros revoltados contra a sua própria época. A voz rouca do Great Gatsby a erguer-se sufocada pelos ruídos ensurdecedores da Broadway, seus olhos ofuscados pelas luzes de uma Babilônia revisitada, confirma uma rebelião mais antiga, mas idêntica à atual, na sua essência. Referimo-nos ao Sturm und Drang - Tempestade e Assalto, na tradução de Manuel Bandeira - de Schiller, ao Romantismo militante, nos seus aspectos político-sociais e, naturalmente, ao Barroco. Neste último período, segundo nos parece, delineia-se mais claramente a Literatura de conteúdo social e ética que caracteriza a época moderna. Essa recapitulação rápida servirá para determinar duas características da literatura anglo-saxônica hodierna, que encontramos originalmente no Barroco e no Romantismo: o seu isolamento espiritual e a sua crítica, individual, dos mores de uma sociedade rigidamente hierárquica.

As vituperações de Jimmy Porter, o jovem irado da peça de Osborne, sintetizam a revolta da sua geração: “Hoje ninguém pensa, ninguém se importa. Não há crenças, nem convicções, nem entusiasmo. No fundo, sabemos todos que participamos da mentira e da pilhagem que metade da humanidade tem levado a cabo contra a outra metade da humanidade... lá não há causas boas e nobres. Se o estouro grande (a explosão atômica) vier e todos morrermos, não será por um propósito antiquadamente grandioso, mas será uma morte sem sentido e inglória como ser atropelado por um ônibus”. O anti-herói de Gata em Teto de Zinco Quente ecoa, num lance de cólera, a mesma repugnância ao afirmar que a mentira, a hipocrisia e o truque são as únicas moedas válidas na nossa sociedade. A floresta de ódios desses jovens atuais estende-se prática- mente a todo o território da nossa época: eles se insurgem, contra o puritanismo oco e hipócrita dos burgueses, contra os filisteus que condenam, por ignorância e preguiça mental, a Arte Moderna, contra o “sistema de castas” e a monarquia britânica – “A Rainha é a obturação de ouro na boca podre do leão britânico”, sentencia, lapidarmente, o jovem revoltado de Osborne. Eles condenam violentamente os responsáveis pelo massacre de Hiroshima e pela enervante «guerra fria», mas sobretudo eles execram a massificação e a mecanização crescente do século XX. Com terror eles vislumbram na nossa era os sintomas mais alarmantes do admirável Novo Mundo e do ano 1984 das profecias sombrias de Huxley e de Orwell.

Essa fúria destruidora e em grande parte niilista, porque não substitui por outros os valores que destroça, inclui reações as mais díspares: o Lucky Jim de Kingsley Amis põe em prática um cinismo autossuficiente, que o leva a pactuar só aparentemente com a Sociedade que abomina. Hopkins, o autor de The Divine and the Decay, advoga “a dissolução de todos os partidos políticos e a extinção da diplomacia, em todos os países, devido à sua comprovada inépcia”, Hoylrod, finalmente, apesar de considerar a religião “justificável... só pela sua eficácia e não pelo seu conteúdo de verdade...”, reconhece, porém, que “no tempo presente, em que forças psicológicas gigantescas estão em ação com o intuito de reduzir todos os homens a um nível comum, só a religião pode salvar a individualidade pessoal do ser humano da submersão total que o ameaças. A culminação desse radicalismo encontra-se no Outsider de Angus Wilson (notemos o simbolismo proposital do título) e na sua”crença ativa no Nada”. O seu personagem é um homem “que despertou do caos, um dos dez por cento em revolta contra os noventa por cento”. É interessante vermos confirmado esse veredito por um brilhante psicólogo inglês, Dr. James Hemming. Por intermédio do New Statesman, ele, referindo-se justamente ao Outsider, de Wilson. diagnostica da seguinte maneira essa maré de protesto:

“Em todos os períodos da história, o status quo é aceito pelos que não pensam. Mas uma minoria impele a sociedade no sentido de aumentar a sua consciência integral da situação. Eis os Outsiders. Cada um dos integrantes dessa minoria, através de sua experiência pessoal, transcende, de maneira dolorosa, o status quo e sente-se frustrado ao reconhecer que viver, segundo a concepção da sociedade, significa não viver plenamente (ele diz textualmente: viver pela metade). O seu desespero ante a futilidade aparente da ação paralisa qualquer reação concreta. Ora, hoje em dia, estamos numa fase da nossa civilização em que os Outsiders aumentam de número e, portanto, o status quo, cada vez mais, deixa da satisfazer os mais profundos anseios do ser humano...”

Se procurarmos chegar ao âmago dessa angústia e dessa revolta, veremos que, apesar da diversidade de reações, os escritores do presente se identificam no repúdio, comum a todos, de uma sociedade que abandonou os princípios éticos que, segundo eles, devem reger o convívio dos homens. Tanto os paraísos da União Soviética e da Maneira de viver Americana (American Way of Living) são alvo de seu escárnio e de seu ódio, porque, como exclamam os intelectuais dessa geração, a televisão e a imprensa deram à massa a predominância em tudo, vulgarizando, plebeiamente, todas as manifestações mais altas do espírito humano. Entre parênteses, devemos observar um fato singular: a rebelião mais acre e radical parte, na Inglaterra, desses filhos de operários, que, recentemente, conquistaram vitórias sociais inauditas, no Welfare State construído sobre as cinzas de uma Grã-Bretanha imperial e insular, estruturada, secularmente, em classes rígidas, nas quais, até bem pouco, eles representavam os párias. Na realidade, é a primeira vez na história da Inglaterra que esses produtos recém-saídos da retorta revolucionária do Socialismo militante têm acesso às Universidades mais herméticas, têm uma vida econômica assegurada, desfrutam de benefícios sociais de toda sorte, que os acompanham “desde o berço até o túmulo”, segundo o lema político socialista. Contudo, como geração de transição entre um Império em fase de desmoronamento e um novo clima político-cultural, que permite uma divulgação indiscriminada de valores culturais, esses jovens de origem humildes sentem-se ainda pouco à vontade em meio à riqueza que o Labour Party lhes prodigou, à custa de combates ferozes. Eles reagem também contra os resquícios do complexo de inferioridade que trazem ancestralmente dentro de si, atacando uma sociedade snob e intolerante, que ainda hesita em os aceitar integralmente.

É preciso reconhecer que a revolta atual é acima de tudo, uma crise de consciência, uma tomada de posição à injustiça social e humana que impera praticamente em todo o mundo. É uma condenação de si mesmo e do abandono dos valores éticos e culturais, um abandono que permite, por um lado, a exploração do ser humano por outros seres humanos, conforme a dialética de Brecht, ligada ao marxismo e antípoda da revolta jovem, só se irmanando com ela nessa reivindicação social. Por outro lado, esse abandono revela uma cumplicidade criminosa com a opressão política sob várias formas - os jovens coléricos denunciam tanto o fascismo de Franco como o regime totalitário, a tirania do Estado na União Soviética - e, finalmente, o “governo exercido pela plebe” (“rule of the mob”) em que, a seu ver, se transformou a democracia.

Na América, devemos por de parte desde o início, a manifestação realmente inferior desse movimento de revolta, a sua expressão mais espúria e desprovida de qualquer conteúdo artístico ou de qualquer sinceridade: os chamados “beatnicks”. Este grupo sem transcendência, caracterizado por uma angústia artificial e desonesta, contrasta fortemente com a Angústia nobre e grave de um Faulkner, com o desencanto cético de um Dos Passos e de um Hemingway, com a crítica velada de um Henry James e com o afresco gigantesco de um Fitzgerald. Beat significa derrotado e nick é simplesmente a desinência de Sputnick e já a sua autodesignação revela a posse deliberadamente derrotista e blasé que esses pseudo-derrotados assumiram, como infraestrutura desse movimento anglo-americano, O seu hedonismo fácil e desenfreado, sem base cultural, é manifestado por atitudes baratas e grosseiras de um pseudo-exotismo, A eles se aplica a crítica flamejante que um crítico injusto fez aos Estados Unidos, pois os beatnicks, na realidade, “atingiram a decadência, como os romanos, sem porém, como eles, terem passado pelo estágio da cultura”.

Paralelamente a essas correntes extremas, o bluff espiritual dos beatnicks e as dimensões universais dos grandes autores ianques, há como que uma Literatura Menor americana, tributária desse Mississipi caudaloso de uma angústia caótica e inerente ao Homem. Sem embrenharmo-nos na literatura marginal, dedicada, toda ela, à justificação, senão à defesa, do homossexualismo, do qual Gore Vidal é o representante ao mesmo tempo mais típico e mais ambicioso, literariamente, restrinjamo-nos a três autores, diversos entre si, mas irmanados por três de seus livros.

Truman Capote, J. D. Salinger e Thornton Wilder têm, realmente, pouco em comum. No entanto, os personagens de três de seus romances, Breakfast at Tiffanny's, The Catcher in the Rye e Heaven's My Destination, encarnam aspectos diversos de uma angústia idêntica e de uma revolta comum. De fato, esses três escritores compõem, em suas obras, o mosaico de uma América menor, mais íntima, de cristalização artística mais miniaturesca, mas nem por isso menos interessante e menos típica.

Thorton Wilder, sem dúvida, é o mais célebre, sobretudo no estrangeiro. Ao mesmo tempo, ele é o mais “europeu” dos três autores mencionados. Salinger, fora dos Estados Unidos e, parcialmente, da Inglaterra, é praticamente desconhecido. A sua produção se reduz, quantitativamente, a cerca de 20 contos e uma novela, apenas. Qualitativamente, porém, ela é excelente. Truman Capote foi, por vários anos, o “enfant terrible”, o adolescente genial e mimado que deslumbrou os leitores americanos com a sua primeira novela, precocemente madura e brilhante: Other Voices, Other Rooms. Agora, no seu último livro, publicado em 1958, ele denota ter superado a sua fase inicial de jovem escritor extremamente talentoso, mas ainda inseguro estilisticamente. Sobretudo, ele parece ter abandonado as suas atitudes desagradavelmente artificiais de poseur, de Oscar Wilde moderno influenciado pelo execrável Corydon de Gide e disposto a chocar o burguês por todos os meios.

Contudo, quem quiser conhecer esses três importantes depoimentos literários atuais, essas críticas individuais de uma sociedade em profunda crise moral, deverá abandonar quaisquer preconceitos limitadores da liberdade de sentir e de pensar que Henry James reivindicava para o Artista, como sua prerrogativa intrínseca. Realmente, ninguém melhor do que Henry James, um dos supremos prosadores da língua inglesa, o explorador destemido dos subterrâneos recônditos e turvos da psique humana, poderia afirmar que todas as regiões pertencem à Arte. O autor da eletrizante Turn of the Screw, em que se relata a perversão de duas crianças por dois fantasmas homossexuais, poderá documentar cabalmente que à Literatura não podem ser impostos limites e que “há um ponto em que o critério moral e o critério artístico estão muito próximos um do outros” (Henry James, The Art of Fiction).

Como provam também os romances em questão, o mundo cosmopolita de Nova York, a placidez aparente de uma cidade universitária, um místico incompreendido e ridicularizado por uma sociedade partidária do mais total pragmatismo, um adolescente confuso, os momentos de glória e de miséria humanas, a pornografia e a elevação sublime, a busca e a tristeza, a alegria fugidia e a angústia inevitável tudo pertence ao infinito da Arte, que, como queria Shakespeare, “deve erguer um espelho perante a vida».

Provindo do Sul dos Estados Unidos, Truman Capote retomou, no início da sua carreira, a tradição de Mark Twain e juntou sua voz ao contraponto formado por Faulkner, o tom trágico e grave do Sul, e Tennessee Williams, a sua expressão dramática e dinâmica. Sete anos depois da sua fulgurante incursão pelo firmamento literário americano, Truman Capote regressou ao seu país, de uma longa permanência na Itália. Poder-se-ia supor que as cores intensas e as linhas harmoniosas da civilização mediterrânea tenham trazido à sua narrativa uma luminosidade, um desejo novo de equilíbrio, um conteúdo intelectual extraordinários, que frearam o seu caudal de emoções e desembocaram na sua obra-prima, o Breakfast at Tiffany's.

A sua maestria de estilo lhe permite agora malabarismos virtuosísticos e saborosos, conceitos e expressões novas, diálogos deliciosos e, sem dúvida, a cristalização de uma mensagem profunda, latente até então em suas obras, mas nunca plasmada de maneira tão definitiva.

Capote e Salinger escrevem as novelas a que nos referimos na primeira pessoa, ao passo que Wilder preferiu descrever as peripécias do seu personagem na terceira. É significativo esse fato, porque nos dois autores jovens podemos distinguir, na sinceridade do “eu”, a intenção franca de prestar um depoimento autobiográfico e o desejo de participar diretamente do fluxo dos acontecimentos.

Em todos os três livros, o personagem central é um jovem confuso. Em Breakfast at Tiffany's uma moça, Holly Golightly, que vive de maneira caótica e livre no ambiente boêmio de Greenwich Village, a Rive Gauche de Nova York. Em The Catcher in the Rye, um estudante de dezesseis anos, Holden Caulfield, que, expulso do colégio por pouca aplicação, passa uma semana na babilônica Nova York, antes de comunicar o sucedido à sua família. Em Heaven's My Destination, George Brush, um caixeiro-viajante na vida profissional, mas no plano espiritual - o único verdadeiro para ele -, um místico em constante contacto com Deus através das suas criaturas, os seres humanos. Todos os três romances integram-se na estrutura ampla da literatura de protesto anglo-saxônica, -diferenciando-se do repto inglês pelo candor, pelo altruísmo e pelo idealismo dos seus personagens centrais, fiéis ao romantismo sempre presente na atitude americana perante o mundo. O Romantismo não só inicia a fase mais autóctone da literatura americana mas simboliza uma das constantes da sua psique, como sucede com relação à literatura alemã, O homem americano, preservando na sua herança cultural hibrida elementos derivados de movimentos filosóficos e literários contrários, une, por exemplo, a crença iluminista na perfectibilidade do homem e da sociedade humana ardentemente defendida por Benjamin Franklin a um culto rousseauniano da Natureza e de um utópico e edênico homem natural. Muito da visão romântica e livre de preconceitos de Huckleberry Finn, o herói juvenil de Mark Twain, se mantém intacta nestes personagens que lhe são afins. Os três protagonistas reagem de maneira americana a problemas universais e o fazem de maneira quase oposta uma à outra, Holly Golightly busca, através de um hedonismo total, sufocar a angústia da sua solidão, a saudade de uma infância feliz - outra evocação romântica -, a perda da ternura e do afeto familiar que significou para ela a perda prematura do irmão. Ela aceita todas as regras do jogo sórdido que um mundo dominado pelos deuses do sexo e do dinheiro lhe impõe, mas nunca trai os que se mostrarem bons para com ela, permanece sempre fiel aos seus princípio de respeito da personalidade humana e de tolerância, Se, no final da novela, ela viaja incessantemente, de um continente a outro, entregando-se em diversas latitudes a homens de raças e temperamentos diferentes, ela tenta, assim, escapar, no êxtase do momento, à angústia inerente à condição humana, e encontrar, na totalidade da experiência, um absoluto que saciaria a sua angústia, momentaneamente.

Holden Caulfield, o adolescente confuso de Salinger, simboliza a reconciliação final com a sociedade. Uma reconciliação que nada terá de passivo nem de resignado, mas na qual se refletirá um espírito combativo e um desejo de reforma digno dos pioneiros que vieram forjar uma sociedade mais justa deste lado do Atlântico. (Recordemo-nos do direito à busca da felicidade, o “right... to pursue one's happiness” com que a Constituição americana ampliou extraordinariamente as dimensões da condição humana em solo americano). Ele encontra a sua vocação, indicada pelo título do livro, na missão de salvar do abismo crianças que estivessem brincando num campo de centeio, à beira de um precipício: ele seria o catcher in the ryes. O amor que Salinger revela pelas crianças e que constitui um dos temas constantes de toda a sua obra, ele o transmite a Holden. A semelhança de Holly, este encontra na infância e no afeto familiar a forma de vencer a angústia que a sua solidão e a sua recusa em aceitar a hipocrisia e o materialismo da sociedade intensificam.

Finalmente, o vendedor de livros didáticos, George Brush, de Thorton Wilder, tem em comum com o herói de Salinger a sua origem poética. A criação de Holden foi inspirada pelos versos do poeta romântico escocês, Robert Burns: “when a body meet a body in the ryes” (“quando alguém encontra alguém, no campo de centeios”), O herói de O Céu é o Meu Destino foi inspirado nos versos “que as crianças do Middle West costumam escrever em seus cadernos”:

“George Brush é o meu nome,

...A América é o meu país...

E o Céu é o Meu Destino.…”

As peripécias de George Brush, um Quixote em conflito com uma realidade quadrada e sem transcendência, são hilariantes e patéticas. Num bordel, em Kansas City, ele imagina estar numa das melhores casas da cidade; num restaurante chinês, tenta regenerar uma garçonnette reconquistando-a para o caminho da Moralidade e do Bem. De uma certa maneira, o George Brush de O Céu é Meu Destino é uma versão americana de O Idiota de Dostoievski. Ambos procedem com correção total e com sinceridade e pureza absolutas num mundo relativo, corrupto e cínico. E, místicos transfigurados ambos, a sua ação na terra é a de reconhecer na Criatura os vestígios do Criador e recordar aos seus semelhantes à sua origem divina e a sua irmanação intrínseca com toda a humanidade. Ambos pregam a mesma doutrina cristã de amor ao próximo e de temor a Deus, pondo-a em prática na vida diária.

Constatamos, portanto, nos três personagens americanos a sua recusa fundamental em aceitar o mundo como ele é. Um deles o evita, pela fuga constante e pelo êxtase do caos, dos sentidos, do momento fugidio. Holden, depois de seu contato caleidoscópico com Manhattan, a fabulosa Babel moderna, encontra um modus vivendi com a sociedade. reconhecendo no altruísmo e na aceitação dos valores positivos da sociedade a forma de coexistência possível. E finalmente George Brush, apesar de todos os seus dissabores, não foge nem encontra uma forma de reconciliação, porque, na realidade, ele não vive neste mundo materializado e grosseiro. Não só o céu é o seu destino, mas espiritualmente ele já vive naquele estado de beatitude dos simples e dos puros, filhos diletos do Senhor. Ele consegue, como o místico alemão Silesius, descobrir “no Homem a centelha divina, as pegadas de Deus”, distinguindo o eterno sob a forma efêmera da aparência. Como Thorton Wilder termina essa novela profunda e comovente: “... A Acusação feita contra ele, conforme se comprovou mais tarde, baseara-se num mal-entendido. Foi solto (da cadeia) e prosseguiu na sua jornada. Nessa esplêndida alegoria moderna, o desfecho se reveste também de simbolismo. O choque dos artistas, dos místicos, dos sábios com o comportamento sancionado pela sociedade baseia-se sempre num”mal-entendido”. George Brush, como D. Quixote e o Príncipe de O Idiota, veem a vida sob um prisma diverso. Não dizia Kierkegaard que “a verdade é subjetiva”? A Verdade dos místicos e dos poetas jamais coincidirá com a do homem comum. Como ressalta Fray Luís de León: “... o poeta, inspirado por Deus, vê o que os demais homens não veem...”

Essas três obras marcantes da literatura menor americana enraízam-se no solo comum das situações grotescamente cômicas, derivadas desse mal-entendido universal, derivado de pontos de vista contrastantes. A sua “ira” jovem é mais branda que a cólera homérica dos autores ingleses, devido às soluções individuais que os personagens encontram para a mesma angústia e a mesma revolta. Nesses três protagonistas podemos reconhecer três gradações diversas, ou melhor: uma progressão gradual da revolta romântica perante a realidade. Holly Golightly simboliza a primeira fase do Romantismo: ela ama o caos de uma vida sem metas fixas, busca na terra a totalidade dos sentimentos, a “flor azul” romanticamente inacessível. O ideal máximo de Holly: tomar breakfast em Tiffany's, um restaurante elegante, anexo a uma joalheria requintada, não constitui, como se poderia concluir apressadamente, um ideal materialista de conforto material e segurança financeira. O seu é um ideal estético, de Beleza, de luxo, de embelezamento da vida diária. Sem o saber, ela vivia de acordo com uma aspiração profundamente romântica: a de poetizar a vida diária, como queria Novalis, o corifeu do primeiro Romantismo alemão.

Com Holden Caulfield, que “salva crianças num campo de centeio” - The Catcher in the Rye, deparamos com a segunda fase do Romantismo, o Romantismo social, de resistência à tirania, no seu caso a tirania dos adultos, que ele considera hipócrita e intolerante... Finalmente, com George Brush, a fase do Romantismo que na Alemanha contou com numerosas conversões ao Catolicismo é simbolizada por esse encontro entre uma visão ideal do mundo e um apelo interior à redenção dos homens. Nele confluem as correntes romântica e mística que nos conduzem a uma esfera oposta, intrinsecamente, ao mundo “lógico” e à “realidade palpável”, em que D. Quixote é um lunático e o Príncipe russo da novela de Dostoievski não passa de um “idiota”...

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1960) 2024. “A literatura de protesto americana e as suas raízes românticas .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Comentário -- Revista trimestral (jan./fev./março de 1960), nº 1, pp. 34-41. Reprint. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.