A terapia que rendeu um milhão de dólares.
"Algumas das ideias que surgem no livro estiveram na minha cabeça desde que comecei a escrever. Ideias sobre estilo e narração, sobre forma e procedimento. O livro, por exemplo, apresenta "blocos de consciência", trechos de vários tamanhos colocados um sobre os outros, mantidos juntos por associação mais do que por cronologia.
Tentei algo assim em Letting Go, e quis tentar novamente chegar a uma narrativa dessa forma, ou quebrar assim uma narrativa. Havia o problema do estilo: especificamente quero dizer linguagem e tom. Desde Goodbye, Columbus, acho que fui atraído por uma prosa com as nuances, vibrações, entonações, espontaneidade e facilidade da linguagem falada, conservando, ao mesmo tempo, a firmeza, o lastro da ironia, da precisão e da ambiguidade, da paciência e da reflexão que associamos a uma retórica literária mais tradicional.
Não sou o único que quer escrever assim, obviamente, nem esta é uma "nova" aspiração no planeta; mas é a espécie de ideia literária, ou ideal, que persigo em meu livro.
Não tenciono dizer que O Complexo de Portnoy tenha sua concepção baseada em motivos puramente literários. Mas a concepção não é nada ante a realização. Quero dizer que até minhas "ideias" sobre sexo, culpa, Infância, homens judeus e mulheres gentias, fossem absorvidas por uma estratégia e objetivo ficcionais, acima de tudo, não eram ideias diferentes das de todo mundo. Todo mundo tem "ideias" de romances; o metrô está cheio de gente pendurada com as cabeças cheias de "ideias" de romances que não podem começar a escrever. Frequentemente sou uma delas.
Meu último livro, O Complexo de Portnoy está cheio de palavrões e cenas de sexo; o anterior, When She Was Good não tinha nenhum. Por que isso? Tornei-me de repente um swinger? Por que não sou mais "quadrado"? Mas então, eu já era swinger em 1957, com Epstein. Era um conto que algumas pessoas acharam muito decepcionante em suas revelações sexuais íntimas. Quando converso nunca sou refinado como deveria.
A obscenidade como vocabulário útil e válido, e a sexualidade como tema, têm sido disponíveis desde Joyce, e não acho que haja algum escritor americano sério que se tenha sentido restringido pelos anos que correm, ou repentinamente libertado pelo que se rotulou de The swinging sixties"
Obscenidade não é apenas uma espécie de linguagem que é usada em O Complexo de Portnoy. É quase o próprio problema tratado. O livro não está cheio de palavrões por que "é assim que as pessoas falam"; essa é uma das menores razões para que se use a obscenidade na ficção. Pouquíssimas pessoas realmente falam da maneira pela qual Portnoy "fala" nesse livro. Ele é um homem falando de uma obsessão total: é obsceno porque deseja ser salvo. Uma estranha, talvez louca, maneira de salvação; mas a investigação dessa paixão, e o combate que ela precipita com sua consciência é o que está no centro do livro.
Os problemas de Portnoy surgem da sua recusa de se ligar a tabus que, certa ou erradamente, ele acha desumanos e limitadores. Não desejei apenas conseguir uma verossimilhança; minha esperança era fazer chegar a obscenidade ao nível de um tema.
Os gentios talvez fiquem ofendidos com o livro, não os judeus. Apesar disso podem voltar as acusações dos tempos de Goodbye, Columbus. Alguns críticos disseram que minha obra fornecia "combustível" para o antissemitismo. Estou certo de que todas essas acusações voltarão. Embora eu sempre tenha ficado satisfeito com minha boa sorte de nascer judeu, mais do que qualquer dos críticos pode começar a imaginar.
É uma solicitação complicada e interessante, uma experiência muito singular e gosto dela. Encontro-me na qualidade histórica de ser judeu, com todas as implicações, Quem pode pedir mais? Devido à condenação, pelas Nações Unidas, da "agressão" Israelense, e à onda antissemita que existe na comunidade negra, muitos judeus norte-americanos devem estar se sentindo mais alienados agora do que em qualquer tempo. Consequentemente não acho que seja um momento para um livro tão pouco ortodoxo como este, ser suportado, ou mesmo tolerado, especialmente nessas áreas onde eu não sou propriamente aclamado como um messias.
Temo que a tentação de citar linhas isoladas tiradas do contexto ficcional tenha preenchido as manhãs de domingo posteriores à publicação do livro. Afinal, os rabinos tinham de libertar sua indignação, exatamente como eu. E há frases no livro, com as quais um homem pode construir um sermão bem indignado, alguns disseram que meu livro tem influência do espetáculo de Lenny Bruce (ator e autor teatral norte-americano), mas eu diria que fui mais influenciado por um cômico tranquilo chamado Franz Kafka e uma piada muito divertida que e fez, A metamorfose.
Não quero dizer que tenha moldado meu livro segundo qualquer obra de Kafka, ou tenha aspirado a escrever um romance à moda kafkiana, Na época em que eu estava começando a reunir as ideias para o que seria O Complexo de Portnoy, eu dava um curso sobre Kafka na Universidade da Pensilvania. Depois, percebi que o curso poderia ter sido chamado de "Estudos sobre Culpa e Perseguição" (Metamorfose, O Castelo, A Colônia Penal, Crime e Castigo, Diário de um Subterrâneo, Morte em Veneza, Anna Karenina...)
Meus dois romances anteriores, Letting Go e When She Was Good, eram quase tão melancólicos quanto o mais melancólico deles. Eu ainda estava fascinado por estes livros negros e procurava uma maneira de desenvolver outro lado do meu talento. Particularmente depois dos três anos gastos com When She Was Good, com sua prosa igual, sua heroína puritana e assombrada, seu interesse irresistível pela banalidade, eu estava impaciente por escrever algo extravagante e engraçado".
Os analistas e os analisados conheciam vários complexos. De superioridade (que esconde na realidade um complexo de inferioridade), de culpa, de castração. Mas, agora, um novo distúrbio acaba de causar um enorme sucesso de vendas nos Estados Unidos, tornando milionário seu descobridor. O leitor brasileiro já tem acesso a ele: o "complexo de Portnoy".
Mistura de sensualidade e sentimento de culpa, de um desejo desesperado de ajudar o próximo enquanto se suprime o desejo, esse complexo nas mãos de sua primeira vítima, o romancista e contista norte-americano Philip Roth, é tão hilariante quanto o gás do riso, que força os atingidos a delirar de rir.
Seus sintomas mais óbvios são: uma relação excessivamente intima com a mãe, a ponto de sufocar o desenvolvimento normal do adolescente; uma obsessão sexual que chega às raias do grotesco; uma inversão de papéis entre a Mãe Dominadora e Tirânica e o Pai Dócil ao Extremo e Conformista com o emprego que lhe rende pouco.
Philip Roth não tem o que reclamar: com este romance libertou-se de sua infância e adolescência tragicômicas e recebeu um milhão de dólares por essa sessão de terapia de 303 páginas, na edição brasileira.
Escrito sob a forma de monólogo, Complexo de Portnoy foi o maior best-seller do mercado editorial americano, quando de seu lançamento, no ano passado.
Como o Mar Vermelho, que separou os hebreus de seus perseguidores egípcios (já desde o Velho Testamento), este monólogo irreverente, hilariante, separou seus leitores em campos diametralmente opostos. De um lado, irredutíveis, os Supermoralistas, que carregam bandeiras americanas e acham este romance uma obra sórdida, antipatriótica, um manual descarado de onanismo, um acinte ao bom-gosto e à dignidade dos americanos 100%. De outro, os arejados que revisam o rótulo míope posto a esse [.….]. Portnoy, vice-presidente da Comissão de Oportunidades Sociais da Prefeitura de Nova York que, estendido no clássico divã de Papai Freud, narra seus choques com o mundo ortodoxo judaico e suas alucinações com as maravilhosas shikses (moças não-Judias).
Para quatro milhões de leitores (compradores do livro original em inglês) o Complexo de Portnoy é uma obra-prima de humor, humor-negro que, como a luz negra, focaliza as obsessões desse anti-herói judaico cercado por angústia de todos os lados: a obsessão com a Mãe, fiel observadora dos ritos judaicos, com o Pat de salário baixo e prisão de ventre crônica, com a Masturbação como Libertação de Papai e Mamãe, com as mulheres lindas e inacessíveis, apaziguadoras de uma sensualidade exagerada até o limite do grotesco.
No Ocidente, a distinção entre literatura e pornografia é entregue a tribunais, a Ligas de Moralidade, à polícia e sobretudo ao tempo, Qualquer escritor que retrate fielmente um aspecto da realidade erótica do ser humano torna-se automaticamente um autor maldito, banido pela Alfândega de Nova York ou condenado por prisões inglesas e francesas: D. H. Lawrence ao tratar da pujança das relações sexuais em O Amante de Lady Chaterley; Joyce revelando as associações mentais de uma adúltera compulsiva, Molly Bloom, em Ulisses; Henry Miller cultuando a libido como uma manifestação sadia de vitalidade animal e como forma de complementação mais profunda de dois seres humanos.
Explícito, hilariante, sem reticências, este romance de Philip Roth espelha uma realidade específica, num tom nitidamente autobiográfico. Era fácil prever que se levantassem contra sua confusa confissão os judeus ortodoxos, que sentiram sua fé maculada; os melindrosos descendentes da Rainha Vitória, que tentam varrer para debaixo do tapete qualquer referência fiel à condição humana; os desprovidos de humor, que consideram desrespeitosos episódios de uma comicidade raramente atingida pela literatura maliciosa.
Complexo de Portnoy é um termômetro menos literário do que moral, porém. Que ele tenha passado, incólume, pela nossa censura prévia é prova de maturidade intelectual e cultural de pelo menos parte dos nossos censores. No plano literário, é uma obra-prima do riso, um riso convulsivo que contém evidentes relações com a autoironia da vítima, que ri de seu próprio destino. Como termômetro moral, será apreciado por todos os que desmistificam o sexo, por todos os que não lhe atribuem a importância obsessiva que a fase atual das artes, da publicidade e do mercado gráfico e editorial de parte do Ocidente lhe atribui.
Banido na Espanha de Franco como na Rússia de Kossiguin regimes que conseguem banir a época contemporânea da investigação da libido e da liberdade humanas este magnífico complexo serve para divertir regiamente o leitor. Como também para saber se ele se enquadra no rol dos que consideram Literatura sinônimo de "Coisas Elevadas e Fora da Realidade" ou, ao contrário, no dos que acham que não há nada mais elevado na Criação do que o próprio Homem, com sua alma e ambas as partes de seu corpo: acima e abaixo do tórax. Para estes, só o autoconhecimento mesmo a inspeção dilacerante e transmitida através do riso sardônico já justifica, por si só, os 23 cruzeiros desta tradução geralmente boa de um texto que Rabelais, se se erguesse da tumba, assinaria com orgulho e gratidão.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {A terapia que rendeu um milhão de dólares.},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/24-philip-roth/01-a-terapia-que-rendeu-um-milhao-de-dolares.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1970/10/27.}
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