A poetisa, o caju e o micuçu (entrevista)

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Correio da Manhã, 1964/12/13.

A poetisa nos recebe circundada de figuras pitorescas e bonitas do "bumba-meu-boi" que comprara na Feira de Providência e que preparava para subir a serra com ela em caixas grandes, capazes de contê-las. Numa versão mais delicada de O Homem que Veio para Jantar, Miss Bishop chegou ao Rio há 13 anos atrás... e ficou desde então entre nós. "Tudo começou quando experimentei um caju, fruta tropical que achei curiosa. Sofri uma violenta alergia ao sumo ácido, a ponto de perder o navio que me levava numa viagem pelo litoral da América do Sul. Depois, os brasileiros foram todos tão bondosos e simpáticos comigo, que fui ficando... até hoje", ela esclarece sorrindo.

Sabemos que sua obra poética tem sido distinguida com reconhecimentos de significação como o Prêmio Pulitzer, além de fellowships da Partisan Review, da Fundação Guggenheim e outras. Indagamos se o afastamento voluntário de uma comunidade de lingua inglesa não lhe cria dificuldades na elaboração de sua poesia, circundada que está agora por uma língua que lhe é estrangeira. "Bem, falo muito inglês mesmo aqui no Brasil, além do que de vez em quando vou aos Estados Unidos", de volta às fontes linguísticas, como um mergulhador que volta à tona." Pressente-se que Elisabeth Bishop independe, para sua inspiração, de seu ambiente; como ela declarara em Londres: "É muito fácil escrever poesia meramente descritiva, mas quero justamente evitar o elemento "pitoresco" e prefiro escrever alguma coisa mais abstrata". Mas, evidentemente, alguns temas brasileiros permeiam seus poemas. Há duas semanas, a revista New York que revelou Salinger, Baldwin, Carson Mc Cullers e outros publicou sua belíssima Balada dedicada a Micuçu, morto no morro da Babilônia e que foi julgada pelo maior poeta americano vi-o, Robert Lowell (seu amigo há mais de 20 anos) como "uma das maiores baladas em língua inglesa e, é estranho, nos revela muito mais a respeito do Brasil do que o livro sobre este País que ela escreveu para Life... Na balada escrita com certos termos arcaicos e com uma melancolia indizível no seu andante majestoso, ela fala das favelas das "verdes colinas do Rio", povoadas pelos pobres que não podem mais voltar para casa e constroem seus ninhos ou casas com nada, com ar e que uma brisa parece poder derrubar, nos morros chamados Querosene, Esqueleto, Catacumba e Babilônia. Na sua estrutura, ela introduziu frases de jornais e um pouco da "literatura de cordel" nordestina que aprecia tanto. No seu próximo livro, Questions of Travel essa apaixonada viajante, que conhece já 3/4 do mundo, agrupa uma série de poemas inspirados no nosso País.

Elisabeth Bishop considera Robert Lowell e Marianne Moore (esta foi sua colega de colégio e é uma de suas melhores amigas) os mais importantes poetas dos Estados Uni-dos deste século, "Até T. S. Eliot concordaria com este juízo", explica, acrescentando: Marianne Moore não é fundamental somente por ter publicado poetas de grande densidade como Hart Crane na sua esplendida revista de poesia Dial. É difícil de definir a sua contribuição, tão decisiva me parece, mas estou certa de que é a poetisa mais original, a que trouxe uma brilhante precisão de linguagem através de uma observação poética meticulosa. Seu estilo personalíssimo influenciando atualmente os poetas jovens dos Estados Unidos. Ela conseguiu introduzir uma grande variedade de motivos poéticos, mantendo as ancestrais virtudes "antiquadas" da cultura americana - como a ironia, o senso de humor sutil, o understatement - mantendo-se ao mesmo tempo na vanguarda criadora da poesia em língua inglesa."

Interessada em divulgar no estrangeiro os poetas brasileiros, Elisabeth Bishop traduziu há pouco, para os livros de bolso da Penguin, na Inglaterra, uma série representativa do Brasil, a ser inserida no volume dedicado à poesia latino-americana que será publicado em março. Os poetas selecionados incluem Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto. Ela é de opinião que tanto nos Estados Unidos quanto na Grã-Bretanha o interesse pela literatura brasileira, pelo nosso teatro, arquitetura etc., tenha aumentado consideravelmente. "Aliás, não era preciso muito para aumentar, porque a ignorância sobre coisas brasileiras era quase absoluta, ao passo que agora se publicam livros, as universidades criam cátedras de estudos brasileiros - a situação está mudando". Já o homem de teatro inglês George Devine, na entrevista que nos concedeu para Correio da Manhã durante sua passagem pelo Rio no ano passado, acusava o Brasil de não fazer propaganda cultural suficiente, afirmando que as embaixadas, os consulados representações nossas em Londres poderiam divulgar muito mais tudo o que temos de positivo para oferecer. Miss Bishop é demasiado educada para fazer uma acusação tão frontal, mas concorda em que uma troca mais intensa de estudantes, professores, críticos e artistas beneficiaria muito o conhecimento mútuo do Brasil e dos Estados Unidos, desfazendo clichés falsos que um país possa ter do outro.

E que sensação tem de viver no Brasil tanto tempo? O Brasil mudou muito nesse período? queremos saber. "Um dos aspectos que se nota imediatamente ao chegar ao Brasil é o da democracia racial. Sente-se como que um alívio pela ausência de tensões, de conflitos entre as raças. Acredito que no meu país essa situação grave será solucionada pacificamente, de forma a permitir que as raças convivam civilizadamente lado a lado Creio que nos últimos cinco, seis anos o progresso no sentido dessa compreensão foi maior do que nos 100 anos anteriores. Pessoalmente, acho que as maiores contribuições americanas ao mundo no setor artístico nos vieram justamente através dos negros, com o "jazz" e os "blues". Além disso, adoro a maneira sem pressa (unhurried) de viver dos brasileiros, como eles são humanos, compreensivos, animados! Se o Brasil mudou? Em coisas essenciais, felizmente, acho que não, mas há coisas que irritam como por exemplo o crescimento luxuriante de cartazes horrorosos mutilando a paisagem belíssima do Brasil, por exemplo na estrada Rio-Petrópolis: é um crime, believe me! Mas um crime maior ainda é o de porem abaixo, no Rio, em Minas, em tantos lugares, edifícios veneráveis, belíssimos, de épocas passadas e que contêm tesouros históricos e artísticos. Não haverá forma de deter essa destruição de todo um patrimônio nacional? Repito que me parece um crime contra a natureza, contra a história, contra Deus até!" (O que diria Miss Bishop se soubesse que um prefeito da maravilhosa Salvador da Bahia mandou demolir a mais antiga Catedral construída no Brasil para dar lugar a uma imensa estação para bondes e ônibus?).

Por último, a poetisa nos fala de seus primeiros contatos com a poesia e principalmente da sua infância na Nova Inglaterra e na Nova Escócia. "Sou de origem meio canadense, meio americana da Nova Inglaterra. É engraçado: meus antepassados pertenciam, antes da Revolução Americana, a partidos opostos. Enquanto a família de meu pai era a favor dos ingleses e do rei George III, a família de minha mãe era whig (liberais) combatendo vivamente os tories (conservadores") que não queriam a separação da Coroa britânica. Lembro-me de uma infância passada numa cidadezinha que era, a bem dizer, uma aldeia mesmo. Levávamos uma vida retirada, dedicada inteiramente à família, mamãe fazia manteiga em casa, eu quando menina levava as vacas para o pasto... Quando traduzi para o inglês o Diário de Helena Morley, que descreve sua infância em Diamantina, achei que havia muita semelhança entre os ambientes que ela descreve e o da minha meninice. A vida, nesse meio tempo, mudou muito..." ela reflete, contemplando a curva da praia de Copacabana ensolarada. Depois, por instante seu olhar fixa o morro detrás dos edifícios modernos em que um bandido jovem, uma vítima de circunstâncias sociais, foi morto a tiros pela polícia e parece que a melodia da sua balada para Micuçu, que agora surge entre um os edifícios de ferro e aço de Manhatan, impregna levemente a atmosfera da tarde que termina:

“On the fair green hills of Rio

There grows a fearful stain:

The poor who come to Rio

And can't go home again.

On the hills a million people,

A million sparrows, nest,

Like a confused migration

That's had to light and rest,

Building its nests, or houses,

Out of nothing at all, or air.

You'd think a breath would end them,

They perch so lightly there.

But they cling and spread like lichen,

And people come and come.

There's one hill called the Chicken,

And one called Catacomb;

There's the hill of Kerosene,

And the hill of Skeleton,

The hill of Astonishment,

And the hill of Babylon.”

Reuso

Citação

BibTeX
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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “A poetisa, o caju e o micuçu (entrevista) .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Correio da Manhã. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.