A nova edição de Trópico de Câncer, e a primeira de Plexus
As etapas da vida de Henry Miller formam uma colcha de retalhos de profissões, em que ele errava, tateando por sua vocação final: pianista amador, boxeador, alfaiate, empregado de hotel, bibliotecário, coveiro. O que lhe importava sobretudo era sobreviver dentro da civilização técnica dos Estados Unidos, onde os padrões da eficiência se chocavam com sua tendência para a anarquia e para uma liberdade sem limites. Qualquer emprego lhe parecia uma limitação dessa 1iberdade, as salas de um escritório para ele não se diferenciavam das paredes de uma prisão, pois de ambas ele contemplava, prisioneiro, a vida palpitando lá fora. Os norte-americanos para ele, são autômatos, peças de uma engrenagem gigantesca na qual ele não quer encaixar-se: a massa dirigida por um desejo único, uma fome única: o lucro, o progresso apenas material.
Sua decisão de abandonar tudo, e atravessar o oceano Atlântico para passar sete anos exilado voluntariamente na França, segue a tradição já de praxe entre os seus compatriotas descontentes na América que ele chamou de "um pesadelo dotado de ar-condicionado". Henry James já se isolara da América, que considerava grosseira e incapaz de produzir cultura no século XIX. T.S. Eliot emigra para a Inglaterra, onde se naturaliza súdito inglês. A "geração perdida," logo após a primeira guerra mundial, faz da Torre Eiffel uma espécie de "Mater generosa" que acolhe os John dos Passos, os Ernest Hemingways, as Gertrud Steins foragidas da América, dos gangsters de Chicago e do Big business. Uma nova leva se sucede, na geração seguinte: a dos negros como Richard Wright e James Baldwin.
Henry Miller dissociara-se ainda da tendência à uniformidade norte-americana que seu dístico latino ecoa: e pluribus unum, "da variedade forjarei um só", homogêneo, homogeneizado, sem micróbios. Henry Miller insurge-se contra os pilares-mestres da maneira de viver norte-americana, feitos segundo ele, com o metal inexpugnável do Puritanismo e do Preconceito. No século XVII os Fundadores da Pátria tinham deixado a Inglaterra de sua origem chocados com o teatro, arte do demônio e com a liberdade das artes e a sede de prazeres de seus conterrâneos esquecidos da severidade de um Deus que pune e não рerdoa. O sexo, рага eles, era pecaminoso se não servisse exclusivamente à reprodução da pole, sem prazer, sem volúpia. Deste conceito, perduraram vários preconceitos nos costumes e nas leis norte-americanas.
Henry Miller sente pelo sexo a atroção irresistível que Van Gogh sentia pelo sol da França meridional. Ninguém, antes dele, no atrevera a romper, na literatura norte-americana, a muralha espessa do puritanismo anglo-saxão. Na Inglaterra, D. H. Lawrence com seu O Amante de Lady Chaterley e na França, o Marquês de Sade com Justine, tinham apresentado alguns aspectos das relações carnais normais ou sádicas, mas com moderação de estilo e uma precariedade de detalhes que atualmente nos parecem tímidas. A avalanche de pornografia que hoje inunda todas as bancas de jornais e livrarias dos Estados Unidos ainda não se abatera sobre a sua população sexualmente frustrada, terra fértil para o voyeurismo de revistas como Playboy.
Henry Miller logo teria em seu encalço todas as Ligas de Decência, organizações religiosas, polícia, juízes e pais de família. No entanto, a leitura objetiva de suas confissões - pois Trópico de Câncer, Sexus, Plexus e Nexus são o seu divã de Freud e confessionário ao mesmo tempo - comprovará não só a sinceridade da sua obsessão com estе enigma que ele não decifrou e que o devorou como criador: o sexo. Comprovará também a sua busca de uma vitalidade espiritual e de uma comunhão que utilize a carne como instrumento e, paradoxalmente, vá além da própria carne,
Seu estilo é coerentemente um espelho da sua obsessão, da sua procura, do seu êxtase e do seu caos interior: ziguezagueante, tocando as raias da pornografia mais rasteira e do pleguismo mais banal, para depois elevar-se a uma verdadeira "metafisica do sexo".
A sua também é uma forma das muitas que a libertação do ser humano assume no século XX, para recapturar a unidade de corpo e espirito perdida desde os gregos antigos, e que ele simbolicamente vem reencontrar - e exaltar - no mundo mediterrâneo, reivindicando esta unidade como conquista inalienável do homem da era eletrônica.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {A nova edição de Trópico de Câncer, e a primeira de Plexus},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/08-henry-miller/00-a-nova-edicao-de-tropico-de-cancer-e-a-primeira-de-plexus.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR}
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