William Kennedy, o humanista (entrevista)
Em inglês, o nome da planta denominada iron weeds (Vernônia) tem um forte impacto duplo: sugere os caules de ferro, mas de ervas ordinárias, inúteis quando não perniciosas. Aplicada metaforicamente à borra humana, os vagabundos sem casa, eternamente bêbados, sem lugar para dormir, expostos ao relento e ao frio vergastante, os bums que uma sopa do Exército de Salvação de vez em quando salva da morte imediata, esses caules de ferro sem serventia para uma sociedade utilitarista povoam o último livro do escritor norte-americano William Kennedy. Aqui, ele fala de seu livro. No Brasil para tratar com o diretor Hector Babenco da adaptação de seu livro vigoroso para tela, esse professor na Universidade de sua cidade natal, Albany, capital do Estado de Nova York, concedeu a seguinte entrevista a Leo Gilson Ribeiro:
Este seu livro brotou de sua compaixão pelos vagabundos ou se insere numa longa tradição da literatura norte-americana de focalizar este 1/5 miserável da população dos EUA que vive abaixo dos padrões mínimos de alimentação, alojamento etc.?
Foi um material que veio para mim, não me considero nem parte de uma tradição nem um escritor que prefere chafurdar na lama para denunciar mazelas sociais, um muckraker. Eu tinha uma afinidade com eles, os vagabundos, afinal cresci em minha cidade natal sempre ao lado deles; uma afinidade com o submundo, que se tornara muito famoso com todos aqueles gangsters da era da Lei Seca, com os cassinos clandestinos Albany era um centro para todas essas atividades. Não era gente da Máfia, era gente do lugar, tudo era controlado pelos políticos irlandeses a partir de 1921.
Era toda uma exploração que incluía a prostituição também e usava a máquina política do Partido Republicano. Essa gentalha que eu descrevo é em parte consequência desse sistema. Eu começara minha vida como repórter, da seção policial, tinha meu nome escrito junto com os artigos que publicava.
E o jornalismo interferiu no trabalho do escritor ou foi uma influência comparável à de Hemingway?
Não, eu, ao contrário do Hemingway, que considerava o jornalismo com desprezo, sempre dei grande valor ao meu trabalho na imprensa. Até hoje ainda faço jornalismo. Publiquei um livro sobre os grupos étnicos, o submundo, a Igreja, os pretos, os alemães, os judeus, os italianos de Albany.
E principalmente os irlandeses?
Sim, os irlandeses predominavam, mas era exatamente um melting pot, um caldeirão de mistura de raças, como Nova York.
Mas, voltando à sua ficção e embora tendo que usar certos rótulos estereotipados, há nela elementos de uma literatura de horror, os mortos nunca estão realmente mortos, continuam aparecendo, há cenas surrealistas e somos levados a indagar: afinal, o que é a realidade?
Para mim a realidade é que, para o meu personagem Francis Phelan, aquelas pessoas nunca morreram, eram assombrações que o perseguiam.
Como o filho ainda bebé que ele derruba sem querer e causa a sua morte?
Até o filho, com quem ele vai falar na sua pequena sepultura, no cemitério, e que desencadeia a ressurreição de todos os outros mortos. Não são alucinações, são recordações, sim, proustianas, em que a lembrança aflora do passado e reconstrói o presente. E aí se inicia a sua Odisséia de travessia do Purgatório.
Por isso a epígrafe da Divina Comédia, de Dante, que naquele ponto também abandona o Purgatório? E por que aquela sensação obsessiva de culpa que ele sente sempre?
Bem, ele tinha deixado o bebê cair e embora ninguém soubesse disso era uma situação que ele não conseguia encarar. Ser considerado um bêbado, um irresponsável. Ele estava fugindo, é verdade, mas ele se distinguia dos demais vagabundos porque se expunha a riscos, para ter um bom comportamento e procurar salvar sua alma, соmo quando estendeu a mão para Aldo, que fugia da polícia e, mesmo não o tendo salvo, se expôs.
De certa maneira seu personagem me lembra muito Buñuel, que deprecia a Igreja Católica de todas as maneiras, mas no fundo é profundamente católico, não?
Muito boa essa analogia, porque o Francis está lutando contra a Igreja, mas ao mesmo tempo está lutando contra si mesmo...
É como nos contos de Dublinenses, de Joyce: ele amaldiçoa a Igreja e a Irlanda, mas ele é a Igreja e é irlandês.…
Acho ótima, muito apta essa analogia com a Irlanda e com Joyce. Ele se sente rejeitado de quase todas as maneiras e quase que o tempo todo.
Bom, fica evidente que ele é inteligente demais para querer ser parte da burguesia, porém uma parte do livro, a parte final, não ficou muito clara. Ele morre ou volta para casa?
Foi proposital essa falta de clareza, de interpretação. A parte final do livro, para mim, é o equivalente da sua saída do Purgatório e seu ingresso no Céu. Ele atravessa o rio Lete, o rio do esquecimento, e perde a memória, não se lembra mais de todas as coisas horríveis como quando alguém se banha nas águas do rio do olvido. Mas há uma duplicidade voluntária, como eu quis colocá-la no papel: fisicamente, ele continua um fugitivo, mas ele pode também ter voltado para o aconchego do lar, para seu canto, no sótão que a família tinha reservado para ele.
O término da jornada fica então aberto, segundo a sensibilidade e preferência do leitor?
Fica aberto. Eu me lembrei um pouco dessa situação quando passei pelos agrupamentos de posseiros aqui em São Paulo. Vi as favelas e eram idênticas às da época que eu descrevo nos EUA: usam-se todos os materiais, zinco, metal, papelão para erguer os casebres; são pessoas sem terra; nos EUA eram pessoas também sem casas, havia milhares delas perambulando pelas estradas, durante a Depressão dos anos de 1930 a 1937. Foi só com a guerra que começamos a pensar em nos armarmos, e foi quando o programa social do presidente Franklin Roosevelt, o New Deal, começou a solucionar alguns desses males e foi só mesmo a guerra que solucionou aquele problema.
Que afirmação terrível!
Mas foi a verdade, o que acabou com a Depressão foi a guerra. Todo mundo se alistou no Exército. Depois a passagem do meu livro que o impressionou tanto foi verdadeira também: aqueles grupos de veteranos da Primeira Guerra Mundial atacando os sem-terra e destruindo suas favelas: eram uma entidade política de certa maneira...
Fascista?
De certa maneira, sim, mas eram muito mais patrioteiros, com tradições militares arraigadas, é com esse lema de A América em primeiro lugar! (America first). Mas neste caso a organização era usada para expulsar esses vagabundos de várias cidades. Por quê? Porque pertenciam ao Lumpenproletariat, à pequena burguesia, a borra, ao pior da classe trabalhadora, embora fossem pessoas de várias extrações sociais que faziam parte do grupo, havia até milionários pois American Legion tencionava colocar todos num pé de igualdade devido à origem comum de todos: o status de veteranos, outorgado pela guerra, igualando recrutas assim como oficiais. Não, pensando bem, acho que designá-los como fascistas é usar um termo forte demais, embora em certos momentos eles se aproximassem do fascismo, sim. Mas eram mais a favor da lei e a ordem, sentiam-se solidários entre si como vigilantes, unidos contra aquela multidão de vagabundos, de gente sem eira nem beira.
E os irlandeses, que papel desempenhavam?
Os irlandeses tinham vindo em levas maciças de imigrantes e tinham contra si o obstáculo da pobreza extrema e de não saber falar inglês, falavam só gaélico, muitos eram, portanto, analfabetos, fervorosos católicos, escolhendo para viver as grandes cidades, mas além das desvantagens que encontravam, contava muito o seu catolicismo. Pois como católicos representavam uma ameaça para a coesão protestante nos EUA: os Estados Unidos, afinal, eram uma nação protestante, compreendeu? Além do que, os irlandeses sempre foram muito agarrados a seus clās, daí então eles passaram a constituir os dois lados da cidade: os grandes políticos e a polícia; e no meio disso tudo constituíam a turbamulta, a massa de gente sem emprego, sem moradia fixa, muitos deles vivendo de assaltar as pessoas, de roubos, enquanto os que ascendiam, por meio político, por meio de corrupção, se infiltravam não só nas metrópoles mas também no Partido Democrático, angariavam votos e pelas urnas dominavam, chegando, se necessário, a destruir violentamente o resultado de eleições inteiras, a bater nos concorrentes a cargos políticos etc. Consequentemente, muitos líderes do Partido Democrata irlandeses eram contra o presidente Lincoln, por ser um republicano.
Com referência à literatura, saindo desse background social marginal de onde seu livro procede, você disse que admira muito Ernest Hemingway, não é?
Eu cresci levando seu trabalho a sério, examinando-o cuidadosamente.
Que características você admira nos escritos de Hemingway?
Acho que ele é enganadoramente simples, na aparência, sim, viril também, mas para mim acho que o fator mágico foi entrar em contato com as suas short stories (contos). Admiro o que ele consegue de forma tão sucinta, com recursos tão mínimos, o que só agora constitui uma das últimas tendências nos Estados Unidos, o da minimal litterature, aquela que é quase telegráfica no seu uso do estilo. E já há até uma escola oposta que os considera mínimos demais!...
Aliás, falando de literatura e de escritores, eu acho que todos os países na realidade são um pouco chauvinistas e é difícil penetrar uma cultura estrangeira ou ser absorvido, compreendido por ela. Os dois maiores escritores norte-americanos, eu acho Melville e Faulkner, são difíceis, Melville teve uma ambição literária simplesmente enorme e Faulkner, bem, é realmente o grande gigante da nossa literatura.
Os escritores do Sul dos Estados Unidos parecem ter um dom especial e são tão numerosos, não? Truman Capote, Tennessee Willians, Carson McCullers, Robert Penn Warren, William Styron, Eudora Welty, Flannery O'Connor. Mas para falar ainda do seu texto: eu o estudei com atenção, Mr. Kennedy, e talvez 80 ou 90% do vocabulário que você usa é anglo-saxônico, nem uma palavra latina comum como "natural" ou "mineral" o permeia, a não ser muito raramente. Estou certo em imaginar que sua história a respeito de todos aqueles vagabundos e refugos da sociedade tem também o aspecto de uma oblíqua denúncia de cunho político?
Creio que sim, como em tudo que faço e mesmo não me considerando socialista, não deixo de enfatizar que gostaria que a sociedade norte-americana em que eu vivo fosse muito mais aberta. Os melhores esforços de um pensamento ou de uma ação política são sempre, eu acho, no sentido de se atingir um humanismo aperfeiçoado, uma rejeição do fascismo, uma rejeição da ganância sem limites pelo poder e seu exercício, um não ao nativismo que odeia o estrangeiro por ele ser estrangeiro, que lhe nega o acesso, a entrada no país, o exercício do poder democrático, que defende um puritanismo hipócrita e desumano. E também me causa repulsa o abandono dos idosos, dos pobres, a ênfase paranoica em objetivos tecnológicos militares que me deixam até já desesperançado por serem tão fortes, tão fanaticamente defendidos.
E uma última questão: a questão da adaptação pelo diretor brasileiro, Hector Ba-bendo, de seu livro Iron Weeds: será uma experiência difícil transpor o texto literário para um roteiro de filme?
É um grande desafio, sim. Desde pequeno adoro o cinema e até hoje tenho o meu primeiro projetor. Cheguei a tornar-me crítico profissional de cinema só para poder ser mandado pelo meu jornal a festivais de cinema em outras cidades e países... Depois tentei ser um roteirista, como meio de ganhar dinheiro, ganhar muito mais do que eu conseguiria jamais como romancista ou como jornalista. Depois veio a proposta de Francis Coppola para eu fazer o roteiro do filme Cotton Club e isso me estimulou muitíssimo.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {William Kennedy, o humanista (entrevista)},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/23-william-kennedy/00-william-kennedy-o-humanista-entrevista.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, sem data, provavelmente 1986.}
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