Ezra Pound. Um criador hermético, difícil, talvez inimitável. Como Joyce

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1985/10/26.

Para o leitor contemporâneo, à primeira vista há pouca ligação entre o poeta norte- americano Ezra Pound e o pensador canadense Marshall McLuhan. No entanto, não só houve contato entre os dois como persistem profundas semelhanças seja na visão cultural do mundo seja na percepção do mundo tecnológico contemporâneo. Ezra Pound trouxe para a literatura aquele conceito caro a Goethe e à literatura romântica alemã de Weltliteratur (literatura mundial), enfeixando em suas traduções e em seus Cantos a comunidade de nações: englobou poetas chineses. latinos, franceses, provençais, japoneses, anglo-saxônicos. Era uma autêntica “aldeia global”, a planeta Terra visto pelo prisma da grande literatura, que para Pound se reduzia primariamente aos grandes inventores (“homens que descobriram um novo processo ou сuја оbrа nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo”) e aos mestres “(”homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores”). E, para McLuhan como para Pound, o aspecto visual começava a preponderar na civilização moderna, em detrimento de uma civilização predominantemente sonora ou autoritariamente verbal. Se depois do advento da televisão e do cinema, por exemplo, já se adquiria uma visão menos linear do mundo, para Pound e o movimento imagista as imagens reconquistavam uma ascendência que se impunha no campo poético também. Mais especificamente ainda: “Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível” e a “literatura é novidade que permanece novidade”.

Por outro motivo, também, Ezra Pound é simbolicamente "moderno" pela sua adesão ideológica e ativa a uma visão política: a do fascismo da Itália de Mussolini. Aprisionado em condições apavorantes, como uma fera enjaulada, assim que as forças norte-americanas o capturaram em Pisa, na Tosсаna, ele passaria mais de uma década de sua vida num hospital psiquiátrico de Washington, declarado louco incurável, mas sem perigo imediato para a coletividade por um grupo de psiquiatras que o trancafiou num hospício. A crença no corporativismo italiano, a série de palestras em prol do fascismo que fez na Rádio Italiana - a mescla de cultura e de militância política o tornou durante longo tempo uma figura execrada por seu antissemitismo e suas reiteradas declarações de que senão o mundo todo pelo menos o governo dos Estados Unidos era regido por banqueiros judeus. Ele desmentiria tal versão dos fatos, apontando para a dedicatória que fizera ao seu atrevido Guide to Kulchur, um guia para os ignorantes rumo à Cultura com C maiúsculo: a um quaker e a um judeu.

Fortemente influenciado pelo estudo que Fellonosa empreendera dos ideogramas chineses, Ezra Pound quis que a literatura nova do Ocidente refletisse, ainda que remotamente, o caráter visual que a transcrição gráfica de ideias contém na China. Literariamente, Walt Whitman, o extraordinário rapsodo de Leaves of Grass constitui a sua mais marcante influência: a princípio devido ao ódio que nutria por ele, depois pelo reconhecimento de sua novidade fecunda no panorama da literatura do nosso século, Robert Browning, o poeta inglês, o poeta francês Jules Laforque e o irlandês Yeats, de quem foi secretário em Londres (pois o considerava a pessoa que mais entendia de literatura no mundo), deixaram suas marcas também, na busca de uma linguagem mais límpida, mais clara, menos romântica, menos emocional e mais próxima de um grafismo que comovesse a leitor também pelas metáforas visuais, pela assimilação de artes diferentes, a música, a pintura, a escultura, na arte do poema.

Ezra Pound teve seus inimigos, além do establishment das universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra. Robert Graves lia às gargalhadas as traduções feitas por Pound, assegurando que eram truques enganadores para esnobes. No entanto, no plano de sua herança literária, Pound deixou, sem dúvida, um motivo seminal dinâmico, que o aproxima, não do fascismo, mas muito mais do anarquismo, a sua insistência no horror ao dinheiro, à usura, ao sistema de juros, dividendos, lucro, que lhe pareciam ser a mola mestra do capitalismo que tanto detestava. Ele lutava contra fantasmas atualíssimos: a desinformação, motivada por fanatismo político ou interesse comercial, e o terrorismo cultural da censura e de puritanismo aliado no mercantilismo consumista. Que tenha abraçado a causo política equivocada para se libertar dos males que via com lucidez não deve empanar o julgamento crítico de suas mais de 70 obras artísticas, afinal.

O endeusamento de Pound por alguns de seus admiradores que se consideram donatários únicos dessa capitania literária tampouco permite que não se reconheça nele dotes de refinada ironia e bom humor, sem nada do "Mestre" intocável em que querem, em vão, transformá-lo. Tradutor e seguidor de Confúcio e de Dante, Pound quis com os seus Cantos criar uma Divina Comédia dos nossos tempos, sem ter chegado ao Paraíso. Como dizia, com graça: “É difícil escrever um paradiso quando todas as indicações superficiais são as de que se deveria escrever um apocalipse”. Na sua ingênua batalha contra o aumento da brutalidade no mundo, na insistência didática que atribuía à literatura, seu discernimento político ficou toldado. Como ele próprio explicitou: “Eu não estava (na elaboração dos Cantos) seguindo, exatamente, as três divisões da Divina Comédia. Não se pode seguir o cosmo dantesco numa época de experimentos. Mas fiz a divisão entre as pessoas dominadas pela emoção, as pessoas lutando para elevar-se e aquelas que possuem certa parte da visão divina. Os tronos, no Paradiso de Dante, são destinados aos espíritos das pessoas que foram responsáveis por bons governos. Nos Cantos, os tronos são uma tentativa no sentido de o homem se livrar do egoísmo e estabelecer uma definição de uma ordem possível ou, pelo menos, concebível sobre a Terra. Tem-se como apoio a baixa porcentagem de razão que parece agir nos assuntos humanos”.

Definido pelo poeta americano naturalizado inglês T.S. Eliot como “il miglior fabbro”, devido aos cortes substanciais que fez nos poemas mais famosos de Eliot, Pound permanece, como Joyce, hermético, extremamente difícil, possivelmente ele também, como autor de Ulisses, inimitável e certamente o fim de um empreendimento literário e não o seu começo.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “Ezra Pound. Um criador hermético, difícil, talvez inimitável. Como Joyce .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.